terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vestindo as camisas

Você gosta de vestir as camisetas dos kits de corridas, triatlons e outras provas? Eu gosto. E hoje fiquei pensando nos motivos.



É período de descanso e, portanto, não tenho acordado cedo pra treinar, durmo mais tarde, relaxei um pouco a minha dieta espartana... Estou quase preguiçosa. Então, de manhã, quando fui me vestir pra ir pro trabalho, decidi que iria colocar a camiseta do 70.3 de Penha 2009. Por quê? Para lembrar que sou uma atleta amadora, que não comprei aquela camiseta numa loja e nem ganhei de presente. Suei por ela. E gosto de suar. Aí, pronto, vem entusiasmo e orgulho. E já fico ansiosa pra subir na bike e pedalar 80km.

A camiseta, às vezes, é um troféu que a gente exibe publicamente. Principalmente quando ela traz, além do nome da prova, distâncias, data e local, os dizeres “finisher”. Algumas, além de tudo, são feitas de ótimo tecido, criativas e esteticamente agradáveis. Estilizam o movimento dos atletas praticando a modalidade, usam combinações de cores fortes, mas sem excessos, deixam os patrocinadores nas costas. Outras, um verdadeiro lixo. Não servem nem pra pano de chão. Quer um exemplo? As camisetas da São Silvestre. O corte é horrível, o tecido pavoroso e a estampa, meia boca. As camisetas do Troféu Brasil melhoraram, pois também eram qualquer nota. Hoje em dia o corte e o tecido têm mais qualidade mas as estampas são inconstantes: em algumas, são bonitas, em outras são de um mau gosto à toda prova (e não vamos nem mencionar as medalhas... estava na hora de mudar isso, hein, seu Núbio?). Fiquei decepcionada em Clearwater quando vi que em vez de camiseta de finisher, era um boné. Não é a mesma coisa.

Algumas camisetas só uso para treinar em casa (são as menos cotadas), outras, são para o treino na academia – aí, depende. Quando mudei de academia, decidi vestir umas camisetas de corridas mais antigas... À toa? Que nada. Era pra mostrar que não sou novata no ramo. No Ibira, pra impor respeito, nada de camiseta de corrida. Só de triathlon.

Com o tempo, algumas camisetas que eram favoritas, perdem status e vão lá pro último lugar da pilha. Elas que outrora passeavam toda hora, ficam relegadas ao esquecimento, quando chega uma nova e reluzente.

Às vezes, como hoje, uso essas camisetas em situações que não são de treino: no trabalho, ida ao supermercado ou uma saída qualquer. Quando visto as de triathlon, particularmente, sinto como quem veste a camisa de um time. Um time pouco conhecido. Quem sabe, me olha cúmplice. Quem não sabe, nem presta atenção.

Do mesmo modo que um torcedor ou um jogador gosta de vestir a camisa e, assim, mostrar que pertence a um grupo, nós triatletas, gostamos de mostrar que fazemos parte dessa tribo. É ou não é?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Votos poucos ortodoxos para os atletas ou Que venha 2010, trazendo...



...Mais amigos e menos lesões.
...Menos bolhas e mais medalhas.
...Muitos treinos, trotes e troféus e poucas tristezas, traições, tombos e tromboses.
...Chuvas leves ao final das corridas, calor, no pedal da madrugada e raias vazias na piscina.
...Romeiros sem romaria, Riacho (Riachove ou Relaxo) Grande sem garoa, Dom Pedro sem acidentes.
...Disposição, disciplina, determinação, flexibilidade e criatividade para nos adaptarmos quando o imponderável, o imprevisível e o inevitável atrapalharem os planos e as planilhas.
...Tolerância e traquejo para que os familiares agüentem enquanto treinamos treinamos e treinamos para o Iron 2010.
...Dinheiro para poder comprar os suplementos e equipamentos sem comprometer o orçamento doméstico.
...Saúde, sorte e cabeça para chegar até 30 de maio em condições de fazer o Iron.
...Um Iron completado com saúde, alegria e um tempo decente.
...Um pós Iron sem depressão pós Iron.
...Mais diversão e menos culpas.
...Assuntos pra escrever neste blog e continuar tendo leitores.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Querida amiga Thelma

Você foi uma das raras e gratas surpresas trazidas por 2009. Conhecemos-nos em 2007, conversamos em algumas ocasiões naquele ano e também em 2008, mas foi agora, de uns meses para cá, que nos aproximamos.
Logo que comecei a treinar na MPR, vi o lugar de destaque que você ocupava e passei a admirá-la. Para meu espanto, embora você sempre fosse tratada com atleta de ponta na assessoria, diferente de muitos, não era arrogante nem antipática. Ao contrário. Lembro de um treino no Ibirapuera em que consegui emparelhar com você e terminamos juntas uma volta de 3 km. Quando estávamos quase chegando, eu ia afrouxando o passo e esmorecendo, mas você não deixou! Empurrada pelas suas palavras firmes consegui completar a volta com você. Naquele dia, contei pra todo mundo o meu feito: "Consegui acompanhar a Thelma!".
Desde a metade deste ano, logo após você completar seu Iron — com distinção e louvor, passamos a conversar mais: na padoca, por torpedo, durantes os treinos. Apresentei a você uma paixão: Dean Karnazes, e um vício: bananinha Tribom. Você me ajudou a começar a treinar na Sumaré. Teve aquele churrasco em casa e, então, aquele fim de semana em Ibiúna.
Surpresa número 1: fiz o convite e você topou na hora. Afinal, ir pra um sítio junto com toda a minha família, incluindo pai e mãe, sem nem perguntar nada, sem frescura e sem embaço, não é qualquer um...
Surpresa número 2: você com meus filhos. No caminho de ida, confiando no taco deles e no seu, fiz a proposta quando paramos para comprar frutas: “Quem quer ir com a Thelma?” Martim e Félix se prontificaram no mesmo instante. A conversa rolou solta. Você acertou na mosca. Começou o papo certo: futebol. Quando chegamos, os dois já estavam totalmente arrebatados. E jogou bola na piscina pra eles defenderem, fez stickers, bateu um tênis e até assistiu “Amazing Race” junto com eles. E não podia desaparecer da vista deles por mais de 2 minutos que já vinham atrás de mim: “Cadê a Thelma? Onde ela foi?”
Surpresa número 3: sua desenvoltura com meus pais. Ficar à vontade com a minha mãe é fácil. Mas com meu pai... Não é bem assim. E o mais surpreendente. Ele é tímido. Reservado. Para ele comentar “puxa, mas como ela deixa a gente à vontade” é porque realmente...
E no meio disso tudo, nós ainda conseguimos sair pra nadar, dar um trotinho, conversar, beber, comer e rir!
E veio Pira, com seu níver, comemorado à beira-rio, o susto com a tireóide, a cervejinha no fim da tarde, e as conversas em cima da bike na madrugada da USP.
Agora essa história. Essa trombada que a vida lhe deu. Como você disse, uma oportunidade de reformatar o HD. Você pergunta: Quem é a Thelma tripateta sem o triathlon? Posso tentar responder?
Querida. Muito querida. Muito mais do que uma atleta, triatleta ou tripateta. De pateta, aliás, você não tem nada. È uma amiga ponta firme, que não embaça, não enrosca e não enrola. Pessoa versátil, que trata as crianças como seres inteligentes e interessantes e os adultos sem formalidades ou frescuras. Antenada, não sai falando qualquer besteira só pra dar opinião. Durona, não quer precisar de ninguém pra ir ao medico, fazer exames ou passar à noite no hospital. Durona, já quer rebootar o sistema sem nem ao menos xingar o computador ou chorar de raiva pelo trabalho perdido (justo aquele que não foi salvo).
Aqui em casa você tem um fã clube. Fã clube da Thelma Filipovitch Pereira. Independente da modalidade que você pratique. Independente dos resultados que você alcance. Você já tem nosso troféu máximo: o de grande amiga.

Aviso aos leitores: a Thelma é uma grande amiga, saudável e esportista que teve uma inesperada trombose.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meu pé, meu querido pé, que me aguenta o dia inteiro

Meus pés sempre foram um caso sério. Quando eu era pequena, era chato e virado pra dentro. O pediatra sugeriu que eu usasse botinhas ortopédicas. Felizmente, minha mãe bateu o pé e não acatou a sugestão. A outra opção era me tornar um pé-de-valsa e fazer dança. Felizmente, de novo, minha mãe teve o bom senso de não me colocar no balé clássico (esta crueldade fiz comigo mesma mais tarde) mas em aulas menos rígidas.
Embrenhei-me pela tal “expressão corporal”, depois pelo jazz, dança moderna e dança contemporânea, flamenco, danças étnicas e até mesmo o tal do balé clássico. Isso sem falar na capoeira e na ginástica olímpica com as quais dei uma “ficada”.
Meu pé ganhou corpo. Na adolescência usava sandália de couro ou tênis bamba. Nas férias, andava muito descalça pelas pedras das praias. Ele foi se tornando um indomável.
Quando as primeiras situações mais formais foram surgindo, começou o drama. As primeiras vezes de salto alto foram uma aventura. Pensa que é fácil se equilibrar naquelas alturas? Isso sem falar nas bolhas do calcanhar. Acho que determinados sapatos deveriam vir com um aviso igual o de cigarro: O Ministério da Saúde adverte: este calçado é prejudicial à sua coluna.
Bico fino, nem pensar. Sinto-me com a própria irmã malvada da Cinderela, tentando enfiar aquele pezão dentro do delicado — e minúsculo — sapatinho de cristal. A diferença, no meu caso, é que eu não ia garfar nenhum príncipe no caso de conseguir calçar os sapatos.
E olha que não sou Marcelinho Carioca, mas tenho quase pé-de-anjo. Até a gestação dos gêmeos eu calçava 35-36. Agora calço 36-37 e, em um caso excepcional, tenho um tênis USA 8,5 que corresponde ao nosso 38!
Depois que comecei a correr, a vida dos meus pés ficou ainda mais complexa. Não sei, mas acho que eles ficaram ainda mais rebeldes e musculosos. É raro conseguir que eles fiquem felizes confinados em calçados fechados que não sejam tênis e em calçados abertos que não sejam chinelos. Isso é um problema porque a “senhora diretora” não pode ir de tênis ou chinelo ao Gabinete do senhor Secretário e nem tampouco receber pessoas “de fora” nessas condições.
É também difícil conseguir comprar sapatos. Uma coisa é experimentar por 30 segundos na loja, outra, muito diferente, é caminhar da Avenida São Luis até o Largo do Arouche com eles, depois de uma reunião em que eles deram aquela inchadinha. Tenho alguns pares praticamente novos que não consegui usar mais de uma vez. Quando consigo um par que passa pelo teste da reunião/caminhada, meus pés tornam-se absolutamente monogâmicos. Casam com aquele calçado e ficam até que a morte — ou uma sola tão gasta que não possa ser recuperada — os separe.
No dia a dia profissional raramente vou trabalhar de tênis. Só quando tenho certeza de que não serei chamada para nenhum evento mais formal. Mesmo assim, já aconteceu de ser convocada de última hora para uma cerimônia no Palácio dos Bandeirantes e ter de improvisar pegando uma blusinha mais ajeitada com uma e um sapatinho (que ficou apertaaado) com outra, porque naquele dia estava justamente vestindo tênis e camiseta de corrida.
Demorei pra me acertar com os tênis, sapatilhas e meias na minha vida esportiva e ainda não consegui deixar meu parzinho totalmente satisfeito. Rebeldes, fortes, indomáveis e sensíveis meus pés sofrem com bolhas, com um Neuroma de Morton que os deixa dormentes, formigam, incham, ficam apertados. No inverno, ficam gelados durante o pedal da madruga, e, depois de algum tempo, adormecem. Durante as provas longas, incham muito e, em Penha por exemplo, não consegui ficar com a meia do pé direito de tanto que me apertou.
Meus pés também são uma área vulnerável: já tive fratura por estresse no segundo metatarso, fasceíte plantar e tendinite dos fibulares e do calcâneo.
Não tem jeito, pra melhorar a vida desses meus pés de chinelo, tive de fazer várias experiências.
Fiz o teste da passada, meu pé, depois de tanta atividade, não é mais chato, é cavo e estou usando uma palmilha. Isso ajudou. Para correr depois de pedalar 90k, tênis 38 e meia velha! Bolinha de tênis para ser pisada ao longo do dia, quando estou só ou bem acompanhada, na minha sala. Alongamento da panturrilha. Sempre. Unhas curtíssimas. Algumas quase não existem – mas nunca perdi uma delas. Tirar os sapatos sempre que possível. Tênis Mizuno ou Newton. Meia, ainda não me achei. Gostei da biofresh, mas ainda não testei num treino mais longo. Não gostei nem da Adidas nova nem da Asics. Tive umas Adidas simples que eu adorei. Usei-as todas até furar. Alguém tem alguma dica?
Agora, verdade seja dita: meus pés parecem de lavrador. Cheio de calos, ressecados, cheios de cicatrizes das bolhas arrebentadas. Lindos. Tão lindos que eu nunca vou “fazer o pé”. Acho ridículo ter as unhas dos pés pintadas e não vejo mais como domesticá-los: são uns selvagens.
Mas temos que dar a maior atenção para eles. São eles que nos deixam por o pé-na-estrada e correr como um pé-de-vento. Podem mudar a nossa sorte, como um pé-de-coelho ou acabarem com a gente, num pé-d’ouvido. Xiii, melhor encerrar o assunto, que isso já está sem pé nem cabeça.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Meu maior medo...


... em relação ao triathlon é morrer num treino de estrada. Este ano treinei pedal algumas vezes na Dom Pedro e confesso: fiquei tensa. E não me venham com essa conversinha mole de que “quando é pra ser, é pra ser” “quando chega a hora” ou “quando não é a sua hora” bla bla bla. Sim, pedalar em rodovias grandes, por onde passam carros e caminhões em alta velocidade, aumenta suas chance de ver “a sua hora chegar”.
Você pode fazer tudo direitinho: andar em grupo, pelo acostamento, não clipar quando passam os caminhões, sinalizar suas manobras etc e tal. Mas um pequeno erro de cálculo, pequeno como a passagem das rodas por entre dois pequenos obstáculos (tartaruguinhas), pequeno como um galho caído maior do que se pensava, pequeno como um punhado de areia ou uma mancha óleo na pista, podem ser fatais.
Este ano presenciei um acidente com o Armandinho Bassani. Estávamos pedalando em um pequeno grupo quando ele perdeu o controle da bike numa descida no acostamento da Dom Pedro e se chocou contra uma mureta de proteção. Se ralou inteiro mas, teve sorte, pois não passou disso. Foi bem na minha frente.
A USP também foi palco de vários acidentes mas, como o trânsito de carros e outros veículos é um pouco menos intenso e em velocidades mais baixas que na estrada, os acidentes, na maior parte das vezes, não foram graves. Três dias antes de Pirassununga, durante o treino na USP vi o André Rappaport (colega da MPR)escorregar numa mancha de óleo e deslizar pelo chão. Por sorte, não vinha nenhum carro atrás. Ele se levantou rapidinho. E inteiro.
Acabei de ficar sabendo que a Ana Lidia sofreu um acidente grave na Dom Pedro. Conheci a triatleta antes de ir pra Clearwater em 2008. Como ela tinha ido em 2007, me deu um monte de dicas. Foi muito prestativa e simpática. Ela já está se recuperando mas, pelo que soube, caiu da bicicleta e foi atropelada por um carro. Sua sorte foi que o caminhão que passava conseguiu desviar-se dela. Estou torcendo muito, mas muito mesmo para que ela se recupere rápido e que não tenha nenhum tipo de sequela.
Esse acidente me faz refletir se vale mesmo a pena ir para estrada. Ano que vem terei treinos de até 160 km mas, sinceramente, não sei se estou disposta a correr riscos em grandes rodovias. Romeiros e Riacho Grande são lugares de pouco tráfego e baixas velocidades. Talvez não sejam ideais para quem quer completar um iron. Mas pelo menos, minhas chances de chegar inteira até lá, aumentem.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Culpas e desculpas



Sabe qual a grande diferença entre triatletas profissionais e amadores? A quantidade de culpa com a qual tem de lidar.
Atire a primeira pedra quem não tem uma vasta coleção de culpas por conta de sua vida de triatleta amador. Quer gostemos ou não, fomos criados numa sociedade basicamente judaico-cristã, religiões essas que têm na culpa um de seus mais fortes e poderosos alicerces. E, puxa vida, quem conhece sentimento mais inútil, paralisante e incômodo do que a culpa? Mas chega de filosofia barata. Vamos ao que interessa. Quem nunca sentiu culpa por...
1. Não conseguir dar conta da planilha de treinos, na íntegra?
2. Não querer ir às festas de família, às happy hours ou jantares?
3. Cair de boca no bolo de chocolate justo quando você ia tão bem na sua decisão de seguir à risca as orientações da sua nutricionista?
4. Só querer falar de treinos, provas ou assuntos ligados ao triatlon?
5. Deixar de fazer o último tiro da série 10x 400 metros, forte?
6. Não ter ouvido o corpo, forçado mais do que devia e se lesionado?
7. Ter terminado o treino sem se esfalfar, achando que poderia ter dado mais de si?
8. Gastar dinheiro na roda importada?
9. Perder a hora e perder o treino?
10. Ir pra estrada no domingo cedo em vez de levar os filhos para passear?
11. Chegar tão cansado(a) do pedal da estrada que não tem forças nem pra conversar com as crianças e marido/esposa?
12. Ficar escrevendo /lendo blog sobre triathlon em vez de ir jantar?


Culpa por falta, culpa por excesso. Parece que não temos por onde escapar. A vida do amador é dura. Estamos sempre no fio da navalha. Mas a culpa não leva a lugar nenhum. Então vão algumas idéias:

1. Se não conseguir dar conta da planilha de treinos, na íntegra, faça o melhor que puder. Dê prioridade à modalidade na qual você é mais fraco ou, se tiver parado por causa de lesão, escolha o treino que vai ajudar você a se recuperar.
2. Se não quer ir às festas de família, às happy hours ou jantares, telefone, desculpe-se e, quando não tiver jeito, dê uma passadinha só pra dar um alô. Um pouco de consideração e concessões são fundamentais para gente não virar um total obsessivo e anti-social.
3. Se cair de boca no bolo de chocolate justo quando você ia tão bem na sua decisão de seguir à risca as orientações da sua nutricionista, tente não exagerar. Em vez de comer metade do bolo, coma uma fatia, devagar, saboreando.
4. Se você só querer falar de treinos, provas ou assuntos ligados ao triatlon, troque emails, escreva um blog, converse com quem também curte... Mas segure sua onda quando estiver com pessoas que não sabem a diferença entre teatro e triathlon. Melhor conversar sobre outro tema: futebol, clima sei lá.
5. Se você deixar de fazer o último tiro da série 10x 400 metros, forte, não precisa contar pra ninguém, precisa? Nem pro seu técnico. Viva com isso, carregue o segredo para o túmulo e tente não sofrer muito.
6. Se você não ouvir o corpo, forçar mais do que deve e se lesionar, nem precisa sentir culpa. Você vai ser castigado pela dor e pelo período em que terá de ficar sem treinar. Vai adicionar culpa pra que? Já está expiada.
7. Se você terminar o treino sem se esfalfar, achando que poderia ter dado mais de si, volte pra pista e corra mais 20 km. Ou, em vez disso pense que você está bem condicionado e, por isso não está mais se esfalfando!
8. Se você gastar dinheiro na roda importada e o dinheiro for seu, qual é o problema? Mas não exagere. Estabeleça um teto para seus gastos e negocie com você mesmo.
9. Se você perder a hora e perder o treino, chore e se autoflagele com o chicotinho. Vai fazer o que? Encaixe o treino em outro horário ou desencane.
10. Se você for pra estrada no domingo cedo em vez de levar os filhos para passear, leve os filhos mais tarde!
11. Se você chegar tão cansado(a) do pedal da estrada que não tem forças nem pra conversar com as crianças e marido/esposa. Não converse. Peça mais meia hora de alvará e depois trate de tomar um banho e fazer um programa que preste. E de bom humor.
12. Se você ficar escrevendo/lendo no blog sobre triathlon em vez de ir jantar em plena sexta-feira, pare imediatamente, desliga esta droga de computador e vai jantar!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Brinquedinho novo

Já faz um tempo que estou devendo um post sobre meu novo brinquedo – um Garmin Forerunner 405. Mas atenção! Não se iluda. Não vou fazer uma resenha sobre o produto ou dar dicas e truques sobre os seus recursos e funcionalidades. Nada disso. Vou escrever sobre voltar a se sentir como criança diante de um brinquedo novo.
Este é um dos baratos do triathlon. E sem querer fazer um trocadilho infame, este barato geralmente sai caro. Mas vale a pena. Ao ingressar no mundo do triathlon abre-se uma vasta gama de possibilidades de ser feliz. A lista de desejos aumenta. Quanto mais você vai adentrando este universo, mas longa e específica ela vai ficando. Há três anos, por exemplo, eu só queria uma bicicleta para fazer triathlon. Mas nem sabia que existiam bikes de contra-relógio e bikes de ciclismo. Roda, para mim, era parte do veículo. Nunca me passaria pela cabeça comprar rodas que não viessem numa bicicleta. Não nasci sabendo, ok? E eu entrei muito solitariamente nessa vida de triathleta – não convivi com eles até que começasse a treinar portanto, era uma ignorante, literalmente falando. Mas aprendo rápido e, em pouco tempo, fui aprendendo a desejar: uma bike de triathlon, um par de rodas Zipp, uma jaqueta cortavento importada e assim por diante.
Gosto de almejar esses objetos. Não fico obcecada em possuí-los, mas vou acalentando o desejo, sonhando com eles, planejando o momento de adquiri-los e o de usufrui-los.
Foi assim quando passei da Vicini pra Giant. Levei meses para tomar a decisão, namorei várias bikes, conversei com algumas pessoas, naveguei por sites, negociei um parcelamento, pedi um subsídio em nome do meu aniversário e, no início de 2008, estava com a nova magrela. Totalmente apaixonada.
Depois foram as rodas Zipp. Discuti com mestres no assunto qual a melhor relação custo-benefício, fiz cotação em vários sites americanos, regateei e, por fim, comprei-as às vésperas de ir pra Clearwater. Chegando ao hotel, lá estavam as minhas lindinhas. Dormi abraçada com elas.
Levei mais de um ano para decidir comprar um Garmin. Achava muito caro, não sabia se ia ter mesmo utilidade pra mim, se valeria a pena. Mas, a hora chegou. Mudei de academia, estou correndo mais vezes na rua (e não sei qual a quilometragem percorrida), ano que vem, nos treinos pro Iron, vou ter de fazer muitos longões, o dólar baixou, o Garmin criou um modelo que não fica parecendo uma televisão no meu pulso. O marido da Eliana, que trabalha comigo, foi para os States e trouxe um pra mim.
E eu estou a-do-ran-do meu brinquedinho. Acredite se quiser: até o manual eu li! Aperto os botões, exploro todos os comando, jogo no link da web, corro com os olhos grudados nele, brincando de manter ou apertar meu pace!
É legal e gostoso ter vontades. É bom lembrar que, geralmente, quem não tem vontades e apetite (que não deixa de ser uma vontade), é porque está em depressão. Sem exageros, sem abusos. Claro que se você começar a ficar obcecado por bicicletas top de linha, última geração, de US$ 15,000, isso pode se tornar um problema. Pelo menos no meu caso. Mas sei até onde posso cultivar os meus sonhos.
Não sou consumista, não gosto de jóias, não ligo pra roupas – não reparo nas marcas, não dou bola pra bolsa (uso a mesma faz uns 5 anos) e nem pra carteira, sapatos são uma encrenca na minha vida (um dia escrevo sobre eles e meus pés) mas, fico feliz como uma criança no Natal quando ganho ou compro os equipamentos e acessórios do meu esporte.
E não é mesmo uma delícia?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Peixe que ronca, galo que canta ou Pirassununga 2009



Sexta-feira, 20 de novembro, dia da consciência negra e do aniversário da Thelma, passamos no super e partimos rumo à Pirassununga: Marcos (meu amigo triatleta citado neste blog toda hora) e Thelma (idem!). Sobrei com o Uno Mille do marido que bravamente enfrentou a long distance até a terra do peixe que ronca.
Lá chegando passamos na DOÇARIA da LAURA onde pegamos a cheesecake que eu havia encomendado para comemorarmos o cumpre anos, passamos no depósito PIRA FESTAS onde pegamos a chave de nossa chácara e dali fomos para a Cachoeira das Emas.
Chegamos ao entardecer, debaixo de uma chuva esparsa, que ia pingando suas últimas gotas depois de uma pancada mais forte. A casa, antiga e rústica, tinha, em sua localização e vista, seu ponto alto. Ficamos à beira do rio Mogi, num terreno com muitas árvores. Sentamos na varanda, aspirando aquele arzinho molhado, com cheiro de terra fresca e jogamos um pouco de conversa fora enquanto comíamos uns pãezinhos.
A chuva parou e o clima estava convidativo. Decidimos sair pra uma corridinha fart-lek. Corremos naquele ritmo pré-prova, bem tranqüilo, que dá vontade de ficar horas e horas sem parar. Ainda mais naquela paisagem, falando besteira, dando risada, sem nenhuma preocupação a não ser abrir mais um pouco o apetite para um jantar no restaurante Beira-rio.
Jantamos bem, com direito à torta de sobremesa e tudo e voltamos ao lar doce lar.
Passamos a manhã seguinte também de papo pro ar, como manda o figurino. Maior esforço foi o de picar cebolas e amassar alhos. A cozinha era um enorme galpão, de frente ao rio, com direito à piscina e tudo. O melhor lugar da casa.
Fomos para AFA buscar nossos kits e encontrar o resto da turma - Julinha, Lenadro, Anderson e sua esposa, que também ficariam hospedados conosco. Na foto ao lado: Julinha, Marcos, Thelma, eu, Anderson e Ligia, sua esposa e Leandro
Pena que não conseguimos autorização para entrar pela portaria norte da Academia, pois estávamos a 5 minutos dela. Tudo bem. Em 30 minutos chegamos à entrada sul. Pegamos o kit, encontramos o povo e voltamos em comboio.
Chegando lá, atarraxamos nossos umbigos na mesa de madeira da nossa cozinha-galpão e passamos horas falando besteira, dando risadas e comendo bisnaguinhas. Aliás, a bisnaguinha era o prêmio para quem estava falando muita besteira. “Come uma bisnaguinha, aí!” foi a senha para as maiores bobagens. Marcos levou o troféu bisnaguinha (na foto abaixo, adivinhem o que ele está comendo?). Não sei de onde tirou tanta piada infame!
Foi um momento relax. Não somos todos super íntimos ou amigos próximos, mas deu uma liga muito boa.
Antes de começar a produção do jantar fomos fazer os preparativos para o dia seguinte: colar adesivos no capacete, gel na bike, separar as roupas, colocar número de peito na faixa, preparar as misturas de accelerade... todas essas coisas. É uma função muito peculiar: uma mistura de festa com oficina. Risadas, tesouras, brincadeiras, adesivos, dicas, pneus sobressalentes, piadas, caramanholas, lembranças...
Voltamos ao nosso galpão onde produzimos coletivamente um belo gnocchi ao sugo, devorado em questão de minutos. Mais bisnaguinhas foram distribuídas. Thelma (em plena ação, na foto abaixo)entrou num transe preparando seus saches de batata. Ficou meia hora pra entuchar dois “chup-chups” de purê melequento. Tentou várias técnicas, usou até funil. Foi difícil, mas ela não desistiu enquanto não completou a operação.
Cada um se recolheu no seu canto por volta das 10h30.
Para mim, é muito difícil dormir na véspera da prova. Bate uma ansiedade que tira o sono. Fiz uma mentalização da prova e quase dormir antes de chegar à primeira transição. Acordei e consegui começar o pedal. Daí cochilei de novo. Então acordei e fui até o fim, cheguei exausta e cheia de endorfina, comemorando o ótimo tempo que fiz. Resultado: despertei e cuuuuustei a pegar no sono.
Quando estava no melhor dele, um galo cantou. Outro respondeu e mais um, ao longe, também entrou na conversa. Devia ser umas 3h30. Não acreditei. A cantoria se estendeu até a hora que meu despertador soou. Eu queria transformar o maldito em canja. Bom. Já tinha uma desculpa caso não tivesse um bom desempenho. O galo cantor.
Arrumações finais e vamos nós, num comboio ultra pontual, rumo à AFA. Combinamos saída às 6h15 e saímos 6h17! Só triatletas, obcecados por tempo, conseguem uma façanha dessas.
Dia raiando no caminho, céu claro, com nuvens esparsas, temperatura amena.
Arrumei minha bike na transição. Lembrei de deixar numa marcha bem leve (já aconteceu de eu esquecer) e não deixei as sapatilhas presas. Ainda não tenho segurança pra fazer isso. Preferi não arriscar.
Troféu bisnaguinha para o animador de plantão. Como este povo que eles contratam pra fazer as vezes de mestre de cerimônias fala besteira quando estão com microfone na mão. Parecem todos Xuxas ou Faustões frustrados.
Fui pra perto do laguinho/açude onde íamos nadar. Fui atacada por formigas. (Meu pé está coçando até hoje.) Felizmente, separaram as largadas e saímos 5 minutos depois dos homens.
Não nadei bem. Não sei porque, mas fiz um tempo pior do que imaginava. Era um trajeto tranqüilo e eu consegui ver as bóias sem problema. O que atrapalhou foram os homens lerdos. Fiquei impressionada com a quantidade de “pregos” que ultrapassei. Muitos touquinhas laranjas. Muitos.
Na transição da bike perdi um tempo passando protetor solar em spray. Valeu a pena. Não fiquei torrada como alguns que vi.
Logo que saí, percebi que a minha quickdrink estava solta. Parei, desci da bike, tirei do suporte, passei a fitinha de velcro pelo buraquinho, coloquei a garrafa de novo e fechei. Pedalei mais 100 metros ela soltou de novo. Não poderia ficar sem. Só tinha uma garrafa que estava com accelerade e a quickdrink. Saco.
Cheguei num fiscal da prova e pedi ajuda. Ele foi um anjo. Tirou o barbante de seu apito e firmou a garrafinha. Resolveu meu problema. Perdi uns 3 minutos preciosos, mas não dava pra dispensar a QD.
Segui confiante. O único problema era o barulho que fazia. Parecia uma escola de samba. Como o asfalto não é dos mais lisinhos, foi uma bateria e tanto.
No final da primeira volta, depois de um retão e uma descida, vinha uma subidinha. Se não fosse o Kim gritar “solta a marcha, solta a marcha”, acho que eu teria perdido o embalo e chegado muito mais lenta. Depois, não esqueci mais.
Fiz duas voltas mais conservadoras. No meio da segunda, um momento especial: passou por mim um atleta, perguntou se eu era a Claudia e disse que segue este blog. É o Maurício – Cachaça, de Santos, que eu não conhecia. Fiquei muito feliz e confesso que foi um graande estímulo pra continuar escrevendo. Valeu, Cachaça!
Mas, voltando à prova, marquei a velocidade que estava em alguns pontos e prometi a mim mesma que tentaria superá-la nas voltas seguintes. Assim o fiz. Fiz força mesmo. Preste atenção na paisagem, pensei em como aquele lugar parece um mundo à parte, tomei água, tomei gel, dei tchauzinho pras poucas crianças que apareceram, tomei gatorade, urrei a cada vez que passei em lombadas, tomei água, bufei um pouco nas subidas, comi stiksy, não fiquei na roda de ninguém, tomei água, agradeci o fiscal que me ajudou em todas as voltas, ultrapassei alguns homens, comi batatinha, fui ultrapassada por alguns,tomei gel, ultrapassei algumas mulheres e quase não fui ultrapassada. Passou rápido.
Quando desci da bike, percebi que estava cansada. Minhas pernas não queriam me obedecer. Pra piorar, é uma subidinha. Argh.
O Emerson, meu técnico, me empurrou ladeira acima. Vambora. Mormaço, bafo, água, gatorade, uf uf, gel, puf puf, no meio do canavial. O garmin ficou maluco com as nuvens e se recusou a dar meu pace. Só ficava apitando. Agua, gel, puf puf, estrada de terra, poças de lama, água, esguicho na cara. Cruzo a Julinha que me dá um gelo na mão. Jogo nas costas. Passo na tenda da MPR e grito “cadê a torcida pôôÔ!?” Eles respondem à altura “Vai Clau, vai Claudia, você tá bem, ta correndo soltinha!” Completo a primeira volta! Eeeeeeba. Tem de pensar: já foi o aquecimento, agora começou, agora falta pouco. Puf puf, água, puf puf, calor. Energético 220 volts, eu pego brincando com a mocinha ”bzzzzzz!”, puf puf 5h14/km, 5h15/km o Garmin acorda. Lá vou eu pro canaviááá. Me sinto uma pinga queeente, ardida. Não agüento mais gel. Ponho na boca e cuspo fora. Blergh. Estrada de terra, puf puf, água, poças de lama, água, esguicho na cara...Tá chegando! Tenda MPR, a torcida viiiiibra. Puf puf. Lá vou eu.
Não sobra energia pra dançar. Passo a chegada e a luz quase se apaga. 5h18m34s.

(Tou devendo mais fotos).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Meu filho é goleiro e campeão!


No começo, era uma briga. Ninguém queria ficar no gol. E todos eram goleiros-linha. Até pouco tempo atrás, eu chegava em casa e a discussão era sempre a mesma. Ian ou Félix choramingando “ah mãe, bem na minha vez de chutar o Martim não quer pegar no gol!” Mas, aos poucos, ele foi criando menos caso e passando mais tempo embaixo das traves – ou melhor, entre os cones, pois não temos traves.
Então, ele pediu uma luva de goleiro. Engraçado, os pequenos o imitaram e também passaram a se interessar em catar no gol. A briga então se inverteu. Mas, como ele é maior do que os gêmeos, se impôs como goleiro titular absoluto do nosso time caseiro.
Ainda assim, fiquei surpresa quando soube que ele é o goleiro do time de futsal da escola. E também do time do Ilhas do Sul. Uma coisa, é ser goleiro-caseiro. Outra, é ser goleiro de um time. Com camisa número 1 e tudo.
Até então, eu sabia que o time da escola estava participando de dois campeonatos. Mas toda operação leva-e-traz de treinos e jogos estava por conta do pai. Vez ou outra, sobrou para mim, e fui buscá-lo nos treinos mas não tinha assistido a seus jogos.
Eis que há duas semanas e pouco, fui convocada para trabalhar num domingo, o marido então levou os pequenos para o sítio de seus pais e eu precisava dar um jeito de fazer com que Martim fosse ao seu jogo. Meu salvador da pátria foi o Vagner, amigo e motorista profissional, que foi em casa, deu almoço e levou o Tim ao jogo, junto com o Theo (meu mais velho) e o Yuri (meu sobrinho). Mais tarde, quando liguei para agradecer ele me conta que o jogo foi empolgante. Seis a zero, graças ao Martim que fez defesas espetaculares.
O Theo, que também joga futebol, fez um relato entusiasmado: “Mãe, o Martim catou muito!”. Olha que ele não é de levantar a bola dos irmãos. Deveria ser verdade.
Decidi que queria ver com meus próprios olhos. Então, sábado passado, depois de um exaustivo treino de bike e corrida, de carregar caixas na DE Centro-oeste, fui, em excursão familiar a Santana, assistir ao jogo da semifinal da Copa Center Norte, contra um time subnove de Guarulhos.
Martim, sem estresse, sentado no banco de trás, foi conversando com o irmão e o primo, enquanto eu roia as unhas e o Roi praguejava contra os semáforos que insistiam em ficar vermelhos e contra as pessoas que insistiam em usar o carro no sábado em vez de ficar em casa. Chegamos em cima da pinta.
Fábio, o técnico, quando viu Martim chegando, a 5 minutos do início do jogo, falou “Pô, cara, quer me matar do coração?!”
Então sumiram pelo vestiário adentro.
Dali a pouco o time, já uniformizado, entrou em quadra.
Então vi um filho que eu não conhecia. Tranquilo. Dono da situação. Concentrado em seu ofício.
O árbitro convoca os capitães. Quem é o capitão do time do Martim? Ele mesmo. Sorteio. Início de jogo.
Os times estavam nervosos. Alguns de nossos jogadores, ansiosos, erravam muito.
Martim não teve muito trabalho no começo do jogo. Mas depois o time adversário se acertou e passou a atacar mais. Martim defendeu uma, outra e mais outra. Repunha a bola em jogo, sempre procurando um jogador bem posicionado. Senhor de si.
Eu, por outro lado, estava absolutamente ensandecida. Gritava, me descabelava, suava em bicas.
Gol do nosso time! Que alívio. Comemoramos mais do que quando é o timão.
Mas, num lance de falta de sorte, a bola veio alta, bateu na quina do travessão e entrou, o adversário empata. Tensão novamente.
Mas Martim está lá e defende uma, outra e mais outra. O pai, nervoso, é convidado pelo árbitro a sair do meio da quadra e ir torcer na arquibancada.
Mais um gol nosso. Ufa. E mais defesas do Martim.
O tempo custa a passar.
Final de jogo. 2 x 1, vaga na final do campeonato. Martim é aplaudido até pela torcida adversária.
Senti um misto de orgulho, alegria, vontade de chorar. Fui tomada por uma corujice de primeira grandeza.
Ele é o filho do meio e, como se um não fosse suficiente, tem DOIS irmãos caçulas com pouca diferença de idade. Sempre teve (e tem) dificuldade em saber qual é o seu espaço nessa família, vive arrumando encrenca com os irmãos, achando que o seu lugar foi ocupado por eles. Mas eis que ele encontrou um lugar ao sol, entre as traves. Ali, apartado do time, ele reina absoluto em sua pequena área. Que bom para ele!
Sinceramente, ainda não descobri o que isso tem a ver com triathlon ou com Iron, mas deve ter. Quando eu souber, escrevo. Se alguém tiver alguma idéia, poste um comentário, por favor!

EM TEMPO: A final da Copa Center Norte sub 9 acabou de acontecer e o time da Projeto ganhou por um magérrimo 1x0, pra desespero da equipe do Jardim São Paulo que já havia derrotado o nosso time nas três outras vezes em que se confrontaram. Martim foi o herói inconteste do dia. Fechou o gol. E o time da JSP saiu inconformado. Além do troféu e das medalhas ganhos pelo campeonato, Martim foi eleito goleiro destaque e levou vários presentes além de um troféu só seu. E eu, de novo, estou rouca e orgulhosa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Quem não arrisca não petisca?

Vou fazer o Long Distance de Pirassununga pela primeira vez. Desisti mesmo de Clearwater — que foi sábado passado. Ainda bem. Justamente na semana passada tive problemas sérios e inadiáveis no trabalho. Daquele tipo que não teria sido possível virar as costas e ir tranquilamente embora pra Florida. O preju teria sido muito maior do que os US$ 300 que paguei pela inscrição.
Pira será, provavelmente, meu último meio iron antes do Iron inteiro.
Estou tentada a ousar mais nessa prova. Marcos Paulo, técnico e chefe do meu técnico, me fez esta recomendação explicitamente: “Vai pra cima. Você não tem nada a perder.”
Nas três provas de longa distância anteriores fui conservadora. Nadei forte, mas não no limite. Fiz um pedal cauteloso, tentando aumentar paulatinamente a minha média, na corrida também fui num crescendo e forcei apenas no último terço. Mas dancei no final. Dancei mesmo, na linha de chegada, uns passinhos ritmados, ao som da dance music que rolava no pórtico. Ou seja, como disse o Cris Kitter, fotógrafo e triatleta (entre outras coisas), estava sobrando energia. Eu poderia ter feito mais força. Eu poderia ter feito mais força? É provável, mas não sei.
Uma das grandes aquisições para um atleta – seja profissional ou amador - é o autoconhecimento. Não apenas prestar atenção aos sinais do corpo mas saber interpretá-los e tomar decisões acertadas com base nessa interpretação. Eis aí uma das coisas que a gente só aprende depois de muita experiência. Muitas provas. Até onde posso forçar sem quebrar nos quilômetros finais da corrida? Devo beber mais água agora? O que consigo comer e que não me faz mal? Quanto consigo comer? O calor muito forte vai diminuir minha tolerância à alimentação? (O Percival Milani em seu livro A travessia do Canal da Mancha discorre muito bem sobre autoconhecimento. Recomendo.)
Essa aprendizagem só é possível quando podemos testar as variáveis em diferentes situações. Já aprendi, por exemplo, que consigo me alimentar de sólidos mesmo quando estou correndo. Minha digestão não pára. Também aprendi a me hidratar no pedal ainda que não esteja sentindo nada de sede.

Em Pira o sol vai castigar. Particularmente durante a corrida. Até hoje, resisti bem ao sol: São Silvestre, Internacional de Santos, Penha e Clearwater. São Silvestre faz tempo, Internacional de Santos foi no começo deste ano e eram só 10k, Penha estava quente mas é sul do Brasil e era fim do inverno, Clearwater foi no outono americano. Em matéria de calor, portanto, não sei já passei pelo que imagino que irei passar em Pira.
Pensando bem, é uma ótima ocasião para testar alguns limites. Forçar mais a bike a partir da segunda metade da prova e imprimir um ritmo acelerado já na primeira metade da corrida e não só nos quilômetros finais. Não sei se terei coragem. Não sei se meu forte instinto de preservação vai me deixar chegar mais perto da exaustão. Mas estou com uma coceirinha, uma vontade de tentar ir um pouco mais longe, um pouco mais além.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Hora de retomar, hora de persistir

Desculpa, tem. Mas não vou ficar gastando muito tempos com elas. O fato de eu ter me ausentado por tanto tempo é quase única exclusivamente por uma razão: SARESP. Quem sabe o que é, sabe. Quem não sabe, eu não vou contar. Estou cansada desse assunto.
Então vou tratar de retomar um tema que a Thelma abordou no blog dela: força mental.
A gente já nasce disciplinado? Ou aprende com o tempo e as porradas que a vida dá? E a persistência? Por que algumas pessoas desistem frente às primeiras dificuldades, enquanto outras, não? A persistência, força de vontade, disciplina e a crença em si mesmo valem para todos os aspectos da vida de uma pessoa ou são traços, por assim dizer, transversais à personalidade?
Tenho muitas dúvidas e poucas certezas sobre isso.
Como educadora, tendo a crer que esses são traços que se aprendem. Algumas pessoas parecem ter um pouco mais de tendência ou facilidade para aprender. E, novamente falando como educadora, penso que a aprendizagem da disciplina, da perseverança e da força de vontade têm a ver com o fato de elas fazerem, ou não, sentido para o aprendiz. Explico. Persistência, por exemplo. Só vou ser persistente se, em primeiro lugar, souber para que estou sendo persistente. Como se costuma dizer, persistir no erro, é burrice. Ou seja, a persistência é algo bom se advir dela uma satisfação, uma recompensa e, principalmente, um novo conhecimento. Experiências de sucesso em que o processo teve algumas dificuldades e exigiu um pouco de persistência, são positivas. Uma criança pequena, ao montar um quebra cabeça, terá de persistir um pouco caso não consiga encaixar facilmente as primeiras peças. Se ela persistir, aos poucos a montagem vai ficando mais fácil, já que há menos opções de peças para ela tentar e a imagem vai ficando delineada. Se ela persistir, ficará satisfeita de chegar ao final terá aprendido um pouco mais sobre como montar um quebra-cabeça e também, começará a sentir que a persistência pode valer a pena. Evidentemente se, por outro lado, a dificuldade do quebra-cabeça estiver muito além das possibilidades da criança, ela não conseguirá terminar e isso não contribuirá para que ela aprenda a persistir.
Muitas vezes, a persistência pode ser, também, uma burrice. Persistir no erro. Persistir na ignorância. A persistência em si, não é um valor. Depende da situação. No esporte, a persistência é, na maioria das vezes um fator positivo. Mas, em alguns casos, é mais sábio desistir. Persistir correndo quando uma dor se agrava pode fazer a diferença entre uma lesão que vai tirar você de combate por uma semana ou por meses!
O mesmo, eu diria, vale a disciplina. Mas falemos disso outro dia.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hora de desistir?

Domingo fui cumprir minha planilha lá no Riachove Grande. Mari e eu. Claro que choveu. Já no finzinho do treino, enquanto a Mari corria um pouco, meu pneu furou. Estava numa leve descida e pof! Um estouro, barulho metálico e roda da frente no chão.
Nunca consegui trocar um pneu. Como não passava ninguém, disse a mim mesma que tentaria fazer a troca. Tirei a roda. O pneu estava totalmente murcho. Peguei as espátulas. Encaixei a primeira, empurrando o pneu pra fora da roda e prendendo no aro. Encaixei a segunda, com um pouco mais de dificuldade. A terceira eu já não conseguia enfiar entre a roda e o pneu. Tentei escorregar a segunda espátula, tentando tirar o pneu da roda. Sem sucesso. Finalmente uma dupla de mountain bikers imundos passou e eu fiz aquela cara sem graça de “socorro, por favor!” e eles perguntaram: “Precisa de ajuda?”
Em seguida, Cacau, seu marido e mais uma amiga pararam e aquele batalhão começou a me ajudar. Até que eu estava equipada. Mas, no último minuto, quando encaixamos a cápsula de CO2 na válvula... O bico da válvula quebrou. Não tínhamos mais CO2 e nem câmera. Como eu já tinha esfriado e faltava pouco mais de 10k pra terminar meu volume, resolvi dar o treino por encerrado.
Ontem me lembrei de comprar duas câmeras. Pensei “eu mesma vou trocar!”. À noite consegui tirar a câmera de dentro do pneu com um pouco mais de facilidade. Encaixei a nova câmera dentro do pneu e fui encher com a bomba de pé. Bombava, bombava, bombava... E nada do pneu encher. Sei lá... Parecia que tinha algo de errado com o bico. Só não sabia se o da bomba ou o da câmera. Abri a outra. Tentei dar aquela sopradinha – que aprendi que ser necessária pra poder encaixar bem a câmera. Mas soprava, soprava, soprava... e nada de a câmera encher. Sei lá... Parecia estar colada. Bufei. Xinguei. Como uma pessoa tão cheia de competências como eu podia ser derrotada numa tarefa tão banal? Bem... pensei, não se pode acertar todas. Que sejam essas as minhas fraquezas.
Sondei o marido pra ver o que ele estava fazendo. Mas ele estava tenso, cuidando de seus afazeres, pois viajaria hoje. Cheguei perto, suspirei, falei em voz alta que eu não tinha conseguido trocar o pneu... Mas ele não pegou a deixa.
Resolvi então que levaria as duas rodas e as duas câmeras. Alguma alma caridosa, com uma bomba eficiente, haveria de me ajudar no treino. Isso SE houvesse treino. Pois a chuva parecia que não iria parar.
Na madrugada a chuva parou. Fui pegar a bike, na esperança de que o marido tivesse se apiedado de mim e resolvido meu problema. Nada. Tudo estava como eu havia deixado.
Levei tudo. No treino, o Sahan encheu minhas duas rodas. O bico da válvula não estava quebrado. Eba! Mas aí... Pof! A câmera estourou na mão dele. “Puxa... acho que enchi de mais...”. Então enchemos a Zipp.
Começa o treino. Saímos já forte. Os primeiros saem sem olhar pra trás, nós vamos tentando alcançá-los. Na raia, antes da entrada do remo... Adivinha? Pof! Estoura o pneu tubular da minha Zipp!
Inacreditável. Obviamente não tenho outro pneu tubular. Volto andando no escuro e pensando “Talvez eu não devesse ter saído da cama... Não seria hora de desistir?” Mas logo em seguida, eu mesma respondo. “Não. Afinal acordei cedo, e estou aqui”.
Minha única chance de treinar é tentar aquela câmera.
Chego ao meu carro. Pego a outra roda, tiro a câmera furada com facilidade! Passo a mão por dentro do pneu. Não parece haver nada de errado. Examinho o aro. Nada. Pego aquela câmera que não conseguia encher e... consigo! Cuidadosamente, encaixo-a dentro do pneu e encaixo o pneu na roda! Milagre!! Nem eu acredito. Mas não tenho bomba. Chico, um atleta da MPR passa. Peço a bomba, ele joga a chave do carro. Emerson, meu técnico, chega e me ajuda a encher. Nem precisava. De repente... Pof! Era minha última câmera. Hora de desistir? Ainda não.
Chega o Marquinhos. Ele tem uma câmera. Mas precisamos descobrir o que há no pneu ou na roda que está fazendo as câmeras estourarem. Emerson examina e não acha nada. Vira o pneu do avesso. Eu pego e consigo achar! O pneu já era. Está com um rasgo na lateral. Hora de desistir? Não. Emerson improvisa um manchão com um pedaço da minha superbananinha. E finalmente, às 6h50m eu saio pra treinar. Sozinha.
Tenho 30 km pra fazer. Logo depois da primeira volta, uma garoinha começa a cair. No início da segunda, ela engrossa. Faço mais duas voltas debaixo de chuva. Na quinta volta ela diminuiu, na sexta e última, ela pára. Mas não dá tempo de eu me secar. Termino o treino ensopada. Mas feliz por não ter desistido. E o melhor: acho que agora sei trocar um pneu!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Não li, mas já gostei


Rodolfo Lucena lança seu segundo livro na próxima 4ª feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Para quem não o conhece, ele é jornalista, editor do caderno de informática da Folha de São Paulo, autor da coluna Mais corrida, no caderno Mais, além de ter um blog no site UOL/Folha.
Fora isso, é figura ímpar, que pode ser encontrado correndo pela USP, Ibira ou nas ruas do Sumaré. E quando escrevo “pode ser encontrado” não é modo de dizer. Ele é fácil de encontrar. Se você corre, com certeza já viu o Rodolfo e reparou nele. É que ele tem cabelos e barba bastante longos. Não é, de modo algum, o estereótipo dos corredores que estamos acostumados a ver.
Uma série de coincidências me levou ao Rodolfo. Um belo dia, minha irmã que é veterinária, me perguntou se eu toparia ir ao lançamento do livro de um amigo dela. Na verdade, o dono de um “cliente”. “Ele é assim, que nem você, louco por corrida. Está lançando um livro sobre maratona”. Era unir o útil ao agradável, concordei na hora. E ela não me disse o nome do autor, nem o do livro! Não me lembro o que aconteceu, mas minha ela não pode ir e, sem ela, acabei desistindo.
Alguns meses depois, quebrei meu pé. Fratura por estresse no 2º metatarso do pé esquerdo. De tanto correr. Fiquei abalada. Mas não deixei de ir à academia nadar e fazer musculação – de muletas e robofoot. Numa dessas manhãs, encontrei Ricardo, o nutricionista da academia que me disse: “tenho um presente pra você.” E me estendeu o livro Maratonando. De quem? Do próprio.
Abro o livro e o que leio nos agradecimentos? Instituto Vita! Onde eu estava indo duas vezes por semana para me tratar.
Grudei no livro. Como estava imobilizada, a leitura era um jeito de um correr um pouco. Rodolfo narra sua participação em várias corridas e maratonas. Um texto fácil, envolvente, com detalhes que fazem a gente sentir que está na competição com ele.
Quando terminei de ler, deixei o livro com Cacau pra ela pegar uma dedicatória com o autor. Neste período, não o encontrei nem uma vez. Ou seja, continuava sem conhecê-lo pessoalmente.
Mas, logo que voltei a me exercitar, fui dar uma caminhada na Sumaré e reconheci o Lucena. Não tive a menor dúvida: interrompi seu trote, pra me apresentar. Sou a Claudia, irmã da Silvia, cliente da Cacau no Vita, li seu livro e adorei porque me fez companhia enquanto eu me recuperava!
Ele foi super simpa. Já era sua fã, fiquei mais um pouco.
Quando ele começou o blog, enviei uma contribuição, relatando minha primeira corrida de São Silvestre, que ele postou na seção “Fala, leitor”. Sempre que posso, leio o blog. Tem muita informação, cobertura das corridas, entrevistas e os relatos deles, gostosos de ler. Adoraria ter um “Lucena do triathlon”.
Segundo palavras do próprio autor, o livro “editado pela Publifolha, traz crônicas publicadas em minha coluna mensal na "Folha de S. Paulo" e textos selecionados de meu blog. São pensamentos sobre a vida corrida, relatos de provas bacanas ou dramáticas, conversas com treinadores e especialistas em atividade física e entrevistas com algumas figuras muito especiais.”
O lançamento é segunda-feira e estão todos convidados.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Berti-Água-Maresias 2009

David, Paéco e Paula, - metade da equipe, antes da largada. Os outros estavam no PC1.


Este sábado participei junto com uma eclética equipe, da (ultra)maratona de revezamento Bertioga-Maresias.
Arrumei uma encrenca com meu técnico que achava que eu deveria me poupar, não fazer a prova e, em vez disso, participar do Troféu Brasil que será no próximo domingo. Bati o pé. Disse a ele que nem sempre entro nas competições visando resultado ou treino. Tem horas que é para me divertir. No final, ele acabou entendendo.
Gosto dessa prova porque as equipes têm, de fato, de trabalhar em equipe. Como o percurso é dividido em trechos de diferentes distancias e níveis de dificuldade, há que se negociar quem vai ficar com qual(ais) trecho(s). Fizemos a prova em seis pessoas e, como são nove trechos, algumas pessoas teriam de fazer mais de um. Depois, é preciso organizar a logística do apoio: os corredores precisam ser levados e apanhados nos postos de controle (onde o bastão é passado). A prova acontece ao longo do litoral norte, saindo da balsa, em Bertioga e chegando em Maresias, na praia. Não são voltas numa mesma rota, como no caso das tradicionais maratonas de revezamento como a do Pão de Açúcar, por exemplo. Para dificultar mais um pouquinho, um mesmo corredor não pode fazer dois trechos seguidos.
Então, por conta disso, é preciso reunir todos um tempo antes da prova, negociar e repartir os trechos para que cada um possa treinar de acordo com as características de seu percurso: plano, com subidas, piso de terra, asfalto, areia fofa, areia dura, poças de água, horário de sol quente, curto, longo etc. No nosso grupo, meu marido e eu que treinamos mais forte, demos prioridade de escolha às pessoas que nunca haviam feito a prova, as que estavam inseguras quanto à sua resistência. O Paéco, nosso vovô voador de mais de sessenta anos, foi valente e, como ja havia feito conosco a prova dois anos antes, escolheu um trecho de mais de 10 km, classificado como difícil. Os outros – Mariana, Paula e David, também foram corajosos. Pegaram etapas mais fáceis, mas duas cada um! Roger ficou com a penúltima, considerada bem difícil e eu com o “muito difícil” – que incluía a travessia da serra de Boiçucanga pra Maresias.
Fábio, marido da Mariana, ficou de organizar a logística do apoio. Mas ele não é corredor e nunca tinha participado de um evento destes. Ou seja, quando, na sexta-feira, já em Camburizinho, fomos dar uma passada na planilha, alguns furos apareceram. Quer dizer, havia chance de passarmos algum estresse, de um dos corredores não chegar a tempo no seu PC (posto de controle). Então fizemos uma troca e ficou redondinho!
O carro 1, que foi dirigido por mim até a hora da minha largada, levou os corredores que deveriam partir/chegar dos/nos PCs pares. O carro 2, dirigido pelo Fábio, levou os corredores dos PCs ímpares.
Foi perfeito! Ninguém atrasou. Ninguém se estressou:
Carro 1: Claudia, David, Paula e Paéco. Carro 2: Fábio, Mari e Roger.
Carro 1 (com Clau, Paéco e Paula) deixa David na largada e dirige-se ao PC2. No caminho, tomamos um café sossegados, no novo Pão de Açucar. Chovia cântaros.
Carro 2 (com Fábio e Roi) leva Mari ao PC 1. Aguardam David, que chega feliz e sorridente. E molhado. Dirigem-se então ao PC3.
Carro 1 (com Clau, Paéco e Paula) chega ao PC2. Paula, um pouco tensa, com temor dos trovões que soavam, parte para seu primeiro trecho. Mari chega feliz e sorridente. E molhada. Dirigem-se ao PC4.
Carro 2 (com Fábio, Roi e David) chega ao PC3. Paula chega feliz e sorridente. Nada tensa. Muito molhada. Falante. Davi parte para seu derradeiro trecho. Dirigem-se ao PC5.
Carro 1 (com Clau, Paéco e Mari) chega ao PC4. Davi chega, mais feliz e mais sorridente. Mais molhado. Pergunta quando vai ser a próxima. Mari parte para seu derradeiro trecho. Dirigem-se ao PC6.
Carro 2 (com Fábio, Roi e Paula) chega ao PC5. Mari chega, mais feliz e mais sorridente. Paula parte para seu derradeiro trecho. Dirigem-se ao PC7. Chove chove chove.
Carro 1 (com Clau, Paéco e David) chega ao PC6. Paéco aguarda ansioso. Paula chega, mais feliz e mais sorridente. Paéco parte para seu primeiro e único trecho. Dirigem-se à Camburuzinho. Chuva chuva chuva.
Carro 2 (com Fábio, Roi e Mari) chega ao PC7. Paéco chega feliz e sorridente. Roi larga, feito um foguete. Carro 1, over. Dirigem-se à Camburizinho.
Minha largada era a última. E era na porta da casa onde estávamos. Então, fomos até lá, comi alguma coisa, descansei. Quase dormi. Então fui com o David esperar o Roger que iria me passar o bastão.
Larguei eram duas da tarde. Subidinha de Camburi-Boiçucanga, logo de cara. Engato a primeira, a segunda e vou. Chuva na caichola o tempo todo. Algumas ultrapassagens. Principalmente do pessoal que fez “solo”. Na descida, o santo ajuda, mas o joelho, não.
Passo Boiçucas e dá-lhe serra. Vou a dois por hora. Mas me recuso a andar. Troto. Sempre um dos pés está fora do chão. E vou. O apoio de uma equipe me passa um gatorade. Tomo um pouco e, mais adiante, ao ultrapassar uma corredora, entrego o gatorade a ela. Sigo concentrada. Muita gente andando.
David e Roi passam por mim de carro. Fotografam, mas entrou água na máqui, ficou uma droga.
Lá pelas tantas, vejo um corredor simplesmente entrar no seu carro de apoio e ir embora!!! As testemunhas vaiam e protestam. Não consigo ver o número da equipe. A cena se repete. Inacreditável. Que graça tem roubar numa brincadeira dessas? (Leia o texto do meu amigo marcos sobre o assunto, no blog da minha amiga Thelma).
Uff. Depois de 3,5km de subida forte e ininterrupta, hora de ir ladeira abaixo. Chão molhado, carros passando ao lado, solto o freio e vou o mais rápido que posso. O santo ajuda, o joelho, implora.
O melhor trecho é no finzinho da serra: um retão, com uma pequena inclinação. Vou com tudo. Curva em cotovelo à direita, poça poça poça, curva em cotovelo à esquerda – parede de um lado, parede do outro. Um cara daqueles grandes, tipo armário, teria dificuldades de passar por ali. No chão pooooooooooooooooooooooooooooooooooooooça até o fim, onde haviam três degraus. Então areia flof flof flof chhhhhhua fofa e molhada.
Vou pela beira. É mais firme. Mas também mais inclinada. E aí vem a onda e... banho scholoft chof chof. Subo. Fofa, irregular, depois de tantas pisadas. Dá medo de torcer o pé. Volto pra beira. Mais onda choft chof chof. Sinto a areia dentro do tênis. Não sei mais o que é meu pé.
É chato. Mas é rápido. E eu chego. Feliz e sorridente. E molhada. E cheeeeia de areia. Meu tempo, fraquinho. 1h04. Acima de 6 min o km. Mas tudo bem – não entrei no carro de ninguém.
Depois, só diversão. Na casa da Mari, em Camburizinho, churrasco, cerveja e bom papo. Todo de bom humor. Rimos, comentamos e tivemos aquelas conversas que só quem participa dessas maluquices, aguenta. O Fábio, que não corre, mas que acompanhou tudo, conseguiu sentir e entender um pouco mais a empolgação.
Mesmo depois que o assunto – a prova – se esgotou, continuamos, mesmo cansados, mas sob o delicioso efeito da endorfina, conversando e falando bobagem até meia-noite.
Mas todos da equipe, sem exceção, não deixaram de dizer que querem participar da prova ano que vem. Faça chuva ou faça sol.
Roi e eu, já com as medalhas

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Correndo com as galinhas

Comecei a treinar em outra academia e isso significa fazer algumas adaptações na rotina de treino. Horários, duração, locais, professores. Por isso, entre outras coisas, tenho experimentado novos percursos.
Outro dia, deixei o carro na frente da academia antes que ela abrisse e fui correr na Sumaré. No meio do caminho decidi sair da avenida e rumar para o parque da Água Branca.
Era bem cedo. O parque estava vazio – de humanos. Em compensação estava repleto de galináceos animados: galinhas, galos, frangos, frangas, pintinhos, pintinhas (?), pavão (é galináceo?). E, pasmem, ao lado deles, passeando entre eles... gatos! Nunca pensei que gatos e aves pudessem conviver pacífica e harmoniosamente. Talvez porque sejam minoria, talvez por estarem bem alimentados... o fato é que os felinos não dão a mínima bola para aquelas refeições bípedes.
Os gatos, entretanto, são ligados. Mesmo com aquele jeito blasé e preguiçoso que lhes é peculiar, passam longe do alcance dos bípedes humanos. Esse já não é o caso das galinhas e companhia. Ô bicho estúpido. Bom mesmo é quando está assado. Ficam pelo meio do caminho, com aquele jeito de quem não sabe que rua está, se é ali mesmo, se a casa que estão procurando fica um pouco mais pra frente ou se já passou.
O pior é que quando a gente se aproxima, a indecisão parece aumentar: se ela estava atravessando a pista, pára no meio do caminho e fica sem saber se vai pra frente ou pra trás. Você tenta se desviar e, claro, ela se posta à sua frente. O pior é que lá no parque, andam de bando, e ficam todas com aquele ar aparvalhado, andando em círculos, para todos os lados, enquanto você tenta adivinhar por onde passar sem pisar em alguma delas.
Várias vezes tive o impulso de chutar umas e outras. Mas me contive. Comecei a me divertir com a situação e a encarar como uma corrida com obstáculos móveis. Afinal, no meio de uma cidade como São Paulo, ter um privilégio de sentir uma atmosfera tão rural? Não dava pra ficar nervosa. Ridícula, eu!
Para completar o quadro, alguns galos, retardatários, anunciavam o amanhecer que havia acontecido duas horas antes. Seu canto entrava pela fresta do meu fone de ouvido e parecia fazer parte da música.
Depois de uma meia dúzia de voltas, os humanos circulantes aumentaram e as aves, talvez um pouco intimidadas, recolheram-se a lugares mais escondidos.
Voltei às ruas da cidade, peguei a Avenida Sumaré, barulhenta, fumacenta e lotada de fretados, para chegar à academia.
Novesfora, gostei de minha modalidade de treino. Principalmente a parte de correr com as galinhas!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Clearwater 2008 – venturas e desventuras – parte 4 (parte 1, 2 e 3 estão logo ali)

Nunca imaginei que a Florida pudesse ser tão interessante. Quando pensava em Florida só me vinha Mickey Mouse, velhas aposentadas e compras. Nada muito atraente. Ainda bem que me enganei.

Do aeroporto de Tampa, fui com o Diogo (colega de treino) e sua noiva que, gentilmente, me deram uma carona, com mala bike e tudo. Eles pegaram um carrão, com uma GPS que falava português com sotaque de Portugal. A moça realmente não era lá muito esperta. Logo de cara, na saída do aeroporto, nos mandava fazer uma caminho que resultava em círculos. Obviamente, sem saída.
Ainda bem que por trás da direção havia um cérebro que se rebelou contra a máquina e, entendendo a direção que tínhamos de ir, recalculou a rota, deixando a nossa bússola um pouco atordoada. Depois ela se comportou bem. Também... até eu. Era praticamente uma reta só.
Chegamos à cidade de Clearwater Beach, já madrugada. A primeira impressão foi ótima. Uma cidade simpática e arrumada, mas sem excesso de maquiagem. Um batonzinho e lápis no olho – era o que ela usaria, se fosse uma moça.
No hotel, grande notícia: minhas rodas Zipp estavam lá, bonitinhas, me aguardando. Cai na cama e apaguei.
Na manhã seguinte, da janela do quarto, vi o oceano, imenso e azul. Atlântico, meu velho conhecido. Mas aquela areia, não. Essa, era novidade. Branca de doer os olhos.
Tomei um café da manhã deplorável no próprio hotel e fui fazer um reconhecimento do local. Iria aproveitar para fazer meu check-in e pegar o kit.
Do meu hotel até o centro dos acontecimentos a distância era cerca de 1,5 km talvez um pouco menos. Mas era uma caminhada à beira-mar, num calçadão, cheio de canteiros.
Nessa caminhada me deixei invadir por uma imensa felicidade. Eu sabia que estava vivendo um momento ímpar. Era muito mais do que uma competição. Então deixei meus sentidos o mais aguçados que eu conseguia: deixei a intensidade das cores entrar pelos meus olhos – era um céu azul de outono, iluminado por um sol já oblíquo, que não castigava, mas aquecia, um mar esverdeado e sereno, um asfalto preto e liso (colírio para os olhos de quem pedala na USP). Parecia que tinha tomado um ácido.
No check-in fui recebida por um senhor britânico, cujo filho iria participar da prova. Ele estava lá como voluntário. Só faltou me pegar no colo. Explicou tudo, perguntou o suficiente para eu sentir que se interessava por mim e depois me passou para as mãos dos outros que me trataram igualmente bem. E eles não recebem um tostão por isso.
N parte da tarde fui levar minha bike para montar. Segui a dica do Duda, atleta da MPR que havia feito a prova no ano anterior, que me falou de uma loja chamada Chainwheels.
Era do outro lado da ponte. Mas como eu queria conhecer um pouco do lugar, achei ótimo.
Enquanto a bike estava na oficina, aproveitei para dar uma corridinha. Sai pelo bairro adentro. Era um bairro residencial, com um campo de golfe bem no meio. As ruas não tinham quase movimento. As casas, de classe média, sem cerca ou muro que as separasse, pareciam habitadas, pois havia carros à sua frente, janelas aberta, às vezes alguns objetos do lado de fora. Mas vi pouquíssimas pessoas. Pouquíssimos carros circulando.
Corri durante uma hora, num ritmo bem tranqüilo. Poderia ter feito mais duas horas, só explorando o ambiente.
Voltei para loja e, quem encontro? A Nilma!!! Ela e o Neto, por acaso, estavam lá, do outro lado da cidade. Foi uma festa. Ainda por cima me deram carona até o hotel. Nossos hotéis eram menos de 100 mts de distância!
À noite havia um jantar de confraternização. À beira-mar. Desinformada, achei que era nas proximidades da área de transição, da feirinha, no epicentro de Clearwater. Ledo engano. Era do outro lado. No Sand Key Park. Estava indo a pé quando cruzei com uma família simpática e perguntei se caminhava na direção certa. Eles não só me informaram que eu estava redondamente enganada como me ofereceram carona. Era um casal de americanos com seu jovem filho que iria competir.
Fomos conversando, mas, quando chegamos lá, achei melhor deixá-los.
Estava friozinho. Ventava. A comida não era grande coisa. Os pratos e talheres eram de plástico mas eu estava achando tudo uma delícia. Na hora em que entraram os meninos carregando as bandeiras dos países participantes e eu vi a bandeira do Brasil... adivinha? Caí no choro.
Fiquei um pouco ali, um pouco acolá. Conheci o Vilela (Velho Ligeiro) e sua animada turma de Santos, encontrei um e outros. Porém, estava curtindo sozinha.
No dia seguinte, fui para o treino de natação, organizado pela prova, experimentar o mar. Pelo caminho, as varandas dos hotéis exibiam bandeiras de vários países e wetsuits pendurados, como sombras inanimadas, nas calçadas gente forte e magra, correndo, nas ruas, desfiles de bikes. Mundo do triátlon. Era onde eu estava. Clearwater Beach é uma cidade do veraneio. Portanto, é um período em que está vazia. Nós, triatletas, invadimos a praia, vindos de todas as partes do mundo. Fincamos nossas bandeiras. Instituímos nosso modo de ser. (Continua)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Clearwater 2008 – venturas e desventuras – parte 3 (parte 1 e 2 estão logo ali embaixo)


Comecei a tremer. Esfreguei os olhos para tentar acordar do pesadelo. Na minha cabeça passava eu já me via no filme “O Terminal”, lembram? Aquele em que o Tom Hanks, por questões burocráticas, fica morando num terminal de aeroporto americano. Pronto. Este seria o meu destino. Afinal, como é que iria sair dali sem passaporte e sem passagem?
Desesperada, fui até pessoal da America Airlines que estava por ali. Expliquei minha situação, pedi ajuda. Eles me ajudaram a procurar e começaram a anunciar pelos alto-falantes que uma pessoa havia perdido uma bolsinha com os documentos.
Esperei alguns minutos. Quase chorando. De repente, olhei pro relógio e vi que faltava apenas uma hora pra minha conexão. Se eu não saísse dali logo, perderia o vôo pra Tampa. Conversei com outra pessoa da AA e ela me disse que se eu tivesse qualquer documento com foto e meu nome, eu conseguiria emitir outro cartão de embarque. Por sorte, na última hora, eu havia pego a minha CNH. “Nunca se sabe”, eu havia pensado, “quando será preciso dirigir um carro!”.
Peguei minhas bagagens e saí. Fui até o balcão das conexões e disse– Claudia Aratangy – para a atendente. Ela não encontrou a reserva. Eu ia começar a chorar, mas antes, pedi “try Rosenberg, Claudia”. Lá estava. Despachei as malas. Ufa. Até Tampa eu conseguiria chegar. Ainda que sem passaporte.
Fui até o achados e perdidos. Ninguém havia entregado nada. Preenchi um formulário e fui andar, pensando no que deveria fazer. Eu tinha alugado um celular. Lembrei que o marido da Élida, a amiga na casa de quem eu planejara passar uns dias depois da prova, trabalhava na American Airlines, naquele aeroporto. Se, por acaso, minhas coisas fossem encontradas depois de eu ir para Clearwater, eu poderia pedir para ele resgatá-las para mim. Isso me deixou um pouco mais calma. Liguei para ela, mas deu caixa postal.
De repente, me dei conta de que não havia acertado meu relógio. Isso significava que eu tinha duas horas a mais do que eu pensava! Quem sabe não daria tempo de minhas coisas reaparecerem?
Sentei-me num dos bancos e me lembrei de Ana, uma amiga muito sábia, e pensei: “o que ela faria nesta situação?”. Então, fechei os olhos e imaginei uma pessoa encontrando pegando o carrinho onde estava meu envelope verde, levando pra longe sem perceber o que fazia. Daí, imaginei outra achando o envelope, abrindo, vendo meu passaporte, imaginado minha angústia. Então essa pessoa perguntaria onde era o “lost and found”, iria até lá e entregaria aos responsáveis. Como não tinha dinheiro e nem cartões dentro dele, havia esperança. Fiz quase uma prece, de tão fervorosa que eu estava.
Liguei pra minha mãe, contei meu infortúnio. Pedi que ela não comentasse nada com meu marido. Imagina o tanto que ele iria me alugar se soubesse?
Passados uns 30 minutos decidi voltar até o balcão dos achados e perdidos. E...
SIM! Uma alma caridosa havia encontrado e devolvido meu querido envelope verde de lona.
Quase beijei o pessoal na boca de tão feliz e aliviada que fiquei. Comprei um moletom típico escrito “Miami” – porque estava morrendo de frio e, novamente livre, leve e solta parti para a sala de embarque.Pensa que o vírus da distração e do esquecimento me largou vez? Que nada

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Acúmulo

A proposta deste blog é ser um diário dos percursos e percalços na preparação para o Iron 2010. Bem. Ando num momento de percalços. Mal consigo tempo para escrever. Marido fora de novo há mais de 10 dias, portanto, estou acumulando as funções de pai e mãe, além, é claro, das já rotineiras, de profissional e dona-de-casa. No horário de escrever, preciso ficar com os kids. Agora, por exemplo, tem um no banho, o caçula gêmeo colocando o pijama, o mais velho no computador e outro no skate lá fora. Daqui a pouco tenho de dar aqueles berros: Iaaaan sai do banho, Féééééélix sai dessa lama e sobe pro banho, Theeeeeeeeo, chega de computador e Maaaaaaartim, para de enrolar e veste o pijama.
E vão os três menores dormir no meu quarto. Um na cama e dois em colchões no chão. Um verdadeiro acampamento. E, claro, vou ler uma história.
Mesmo assim, amanhã, 5h30 tou de pé. E vou nadar e correr.
Lá vou eu. Como diz uma amiga minha "viver não é para principiantes".

domingo, 27 de setembro de 2009

Nem só de triathlon vive a triatleta

Tive de me render a Bob. E também ao veterano Jake, a Pedrinho, a Adam, a PLG (lê-se em inglês, por supuesto) e até a um cabeludo que respondia pelo esdrúxulo nome de Lorifice (“O orifício”???).
Meus pequenos estão contagiados pela febre do skate. O único que ainda não pegou foi o Theo e, a essas alturas, acho que não vai pegar. Mas posso me enganar. De qualquer modo, o trio ganhou skates do pai, aula de skate de um professor contratado pela mãe e, embora o futebol ainda ocupe parte da rotina e pensamento, o esporte sobre rodinhas está em primeiro lugar na competição.
Neste fim de semana acontecia um dos grandes eventos do skate. A tal da megarampa. Vagner, meu piloto, me deu a letra. Fiz o pedido dos ingressos pelo site. Meu plano era passar essa bola (ou seria essa roda?) pro pai. Afinal, era programa para meninos. Eu ia aproveitar pra pintar o cabelo que já faz uns 4 meses...
Mas, quis o destino que o pai não voltasse de sua viagem de trabalho. Eu não poderia deixar os meninos de fora dessa. Imbuí-me do espírito de “pãe” (espécie de pai misturado com mãe) e lá fomos nós ao sambódromo. Já quer era pra ir, eu iria aproveitar.
Chegando lá, certa confusão acontecia na entrada. Não estavam deixando as crianças entrarem sem apresentar documentos. Imaginei que isso valia para os adolescentes que vinham sozinhos. Afinal, no site, no ingresso e nos emails enviados pela promoção, não havia nenhuma menção a isso.
Peguei os três pelas mãos e fui entrando.
Um primeiro segurança me barrou: “Documentos!”.
Eu “os meus?
Ele “Das crianças”. Eu “Não trouxe, ninguém avisou”.
Ele “sinto muito, senhora, não está autorizada a entrar”. A pimenta me subiu. O coração acelerou. Decidi comigo mesma que iria entrar.
Disse pra ele “vou entrar. Isso não está certo. Ninguém avisou em lugar algum”.
O cara veio com aquela conversa idiota “senhora, eu só cumpro ordens”.
Retruquei “Ah, é? Ordens de quem? Chame a pessoa aqui, que eu vou conversar com ela!” O segurança, investido do seu poder que deve vir no bolso de seu terno ridiculamente preto para o calor da ocasião, me ignorou solenemente. Sabe o que fiz? Catei os meninos pelas mãos e fui entrando. Ele tentou me segurar. Não conseguiu. Soltei-me e sai andando rápido. Gritou para outro segurança que tentou me impedir, também me desvencilhei e segui em frente.
A galera vibrava “Deixéla entrar! Deixéla entrar!”.
O Ian chorava “mãe, você vai ser presa!
E eu “Não Ian, não vou. ELES é que estão errados, não nós”. Acho que os seguranças não contavam com a minha determinação. Me deixaram passar, contando com os próximos controles. No seguinte ninguém pediu nada. No terceiro, um gigante me pediu os documentos. Olhei bem nos olhos deles e disse que afinal, eu era uma senhora de 45 anos, com três filhos pequenos, que tinha vindo de longe e agora não ia voltar porque eles não tinham feito a divulgação deste detalhe. Ele pediu meu documento (afinal, tinha de ter uma saída honrosa para eles) e nos deixou entrar. Mais tarde, em virtude da revolta que este requisito estava causando, eles recuaram e improvisaram um termo de responsabilidade para os pais assinarem na hora. Mas isso foi só depois do barraco que eu armei.
Bom, mais isso é um detalhe.
Lé encontramos o Vagner e seus filhos, depois a Brigitte (que trabalha comigo) e seu filho Daniel com quem os meus fizeram a maior farra jogando aviõezinhos de papel nas pessoas que ficavam de pé.
A apresentação dos skaters e dos BMXs foi show de bola. Ou melhor, show de rodas. Não posso descrever as manobras que eles fizeram porque, para mim, a descrição dos narradores parecia toda inventada. Em uma das manobras, a impressão que tive foi que o Bob Burnquist (nosso brasileiro, exportado para a Califórnia) pegou o skate embrulhou, envelopou, mandou pelo correio, recebeu a remessa, tirou do envelope, desembrulhou, montou em cima e voltou pra rampa. Inacreditável.
Pedro Barros, um menino de apenas 14 anos, fez bonito. Bom. Só de estar lá, já é um feito.
Eles erram muito. Tomam muito tombos. Sabem cair. Levantam, sacodem a poeira e pegam o elevador. São aplaudidos no erro e no acerto. Mas no acerto, a multidão vai ao delírio. Não importa se é um brasileiro ou um estrangeiro. Mas Bob era, de longe, o mais querido. Diga-se de passagem, é megassimpático! Aliás, aparentemente, todos são humildes. Olham para o público, agradecem, se desculpam. Brigam com o skate.
Na segunda parte, foi colocado um corrimão entre a mega rampa e a outra rampa. E por lá eles deveriam passar, tentando manobras das mais variadas. O vento começou a soprar mais forte e aí estava mais difícil ainda de acertarem. Aí foi a vez do cabeludo Lorifice, fazer bonito. Levantamos a hipótese de que seu cabelo ajudava a planar sobre o corrimão.
A esquadrilha da fumaça também deu as caras, desenhando “ois” no céu. Pena que a anta da repórter que ficava “na galera” (acentue-se com sotaque carioca) chamou de ESQUADRIA da fumaça.
Os meninos ficaram fascinados. Eu também. O que mais gostei foi do fato de eles errarem tanto e seguirem tentando fazer de novo, fazer melhor, fazer mais difícil. Gostei, porque é belo. É contra a gravidade e a favor da gravidade. Por que a queda faz parte e porque é fundamental saber cair. E às vezes a queda é também ridícula. E é tão, mas tão corajoso ser ridículo na frente de uma multidão!
Quero mais é que meus filhos joguem bola e andem de skate e pratiquem toda a sorte de atividade que os façam viver uma ampla gama de sensações físicas e afetivas. Isso vai torná-los aptos a fazer o quer que venham a escolher como esporte, mais tarde em suas vidas e, penso eu, também vai deixá-los mais flexíveis para as rampas, corrimões, buracos e estradas que o destino lhes vai oferecer.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Clearwater 2008 – venturas e desventuras – parte 2 (parte 1 está logo ali embaixo)

Além de visto e passaporte, tive de organizar toda a viagem: passagens aéreas, reserva de hotel, mala bike. Não tenho um agente de viagem. Até hoje sou eu mesma que faço a cotação das passagens, pesquiso e comparo os hotéis, reservo.
Inicialmente tinha a intenção de dar uma esticada nos States. Mas a grana curta, o tempo escasso e a enorme culpa de deixar a família enquanto ia me divertir sozinha, me impediram de passear. No final das contas, não passei nem uma semana.
Comprei um par de rodas Zipp pela internet e pedi que entregassem no hotel aonde iria me hospedar. Pensei em não levar as minhas rodas. Imagine o trabalho depois na hora de voltar: uma bike e 4 rodas, mais as malas...
Se a gente já fica tensa na preparação de uma prova qualquer, na véspera de uma viagem dessas então, o medo de esquecer alguma coisa, os pesadelos, a insônia e outros sintomas de ansiedade, são proporcionais ao número de quilômetros que você percorrer até chegar ao local da prova.
Fiz uma dúzia de listas deferentes: equipamentos para prova, compras (antes de ir), compras (lá), comidinhas, coisas urgentes - não esquecer e assim por diante. Quase precisei fazer uma lista com o índice das listas.
E lá fui eu. Sozinha rumo à Florida. Bicicleta desmontada e dentro da mala bike. Uma mala de roupas, uma mochilinha de bagagem de mão. Dentro da mochila, uma espécie de envelope de lona com zíper onde coloquei todos os documentos e papéis importantes: passaporte, passagens aéreas, comprovante da reserva do hotel, comprovante de inscrição da prova e, claro, minhas listas.
Eu estava muito animada com a viagem. Mas também um pouco tensa. Só conseguiria relaxar quando tivesse passado pela imigração americana. Aquela idiota do consulado me deixara com a pulga atrás da orelha.
Escolhi um vôo diurno. Como não durmo mesmo em aviões, optei por voar de dia. Eu chegaria cansada e alta noite em Clearwater. Pronta para desmaiar na cama.
O vôo da American Airlines iria até Miami, onde entraria no país. Dali, depois de algumas horas, sairia meu vôo para Tampa, aeroporto mais próximo de Clearwater. Ainda em Cumbica, encontrei Diogo, um colega de treino, e sua noiva. Ele também se classificara e estava indo para lá, nos mesmos vôos que eu.
Chegamos a Miami depois de 7 horas. A diferença de fuso é de 2 horas para menos. Eu teria então cerca de 4 horas para ficar zanzando no aeroporto. Isso se eu passasse pela imigração.
Era dia 5 de novembro. Um dia depois da eleição de Obama. O clima no país era de festa.
Saindo do avião, antes mesmo de pegar as bagagens, lá estava ela. A fila para entrar no país. Escolhi um guichê onde estava um mulato. Pensei “ele deve estar feliz hoje. Não vai encasquetar comigo”. Durante semanas eu tinha ficado na maior dúvida se deveria revelar que estava indo participar de uma competição. E se ele me pedisse o visto de business? Estaria perdida. Mas, e se eu dissesse que estava a turismo e ele duvidasse de mim?
Decidi dizer que era turista. Afinal, a mala bike não estava na minha mão. E lá fui eu, como um boi pro abate.
Não rolou nada. Perguntou o que ia fazer. Respondi turismo. Ele carimbou o visto. Enquanto ele abria meu passaporte, eu ainda tive a pachorra de perguntar o que ele achava da vitória do Obama. Ele deu um sorrisinho e respondeu “let him work and we wil see”.
Sai quase saltitante. Que alívio. Agora nada poderia me deter. Nada?
Bem. Desci as escadas rolantes e comecei a procurar pela esteira onde deveria encontrar minha bagagem. Isso era outra coisa que poderia dar errado. As malas poderiam não chegar. Eu ficaria sem bike para competir. Andei todo o saguão olhando as esteiras. Mas, como estava sem óculos, não conseguia ler o que estava escrito nos letreiros.
Fui até o fim do saguão das esteiras. Parei. Tirei a mochila nas costas. Coloquei meu precioso envelope num carrinho de transportar bagagens, apoiei a mochila nele, abri-a e procurei os óculos. Achei. Coloquei. Vi o mundo! Pus a mochila nas costas e parti de volta, olhando as esteiras. Vi Diogo lááá na outra ponta, retirando sua mala bike. Opa. É minha esteira. Corri até lá e logo vi minhas malas! Uf! Que alívio.
Retirei as duas, coloquei num carrinho. De repente, me dei conta de que não estava mais com meu precioso envelope nas mãos. Onde estava? Onde estava? Lembrei! Eu havia colocado no cestinho de um carrinho quando fui procurar os óculos. Só que lááááá do outro lado, na última esteira.
Sai correndo, desesperada, até o lugar onde o havia deixado. Não estava mais lá. (continua)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Troféu Brasil subaquático

Quem foi competir domingo ainda está enxugando as sapatilhas, torcendo as meias e colocando o tênis atrás da geladeira para ver se seca mais rápido. Com o clima que tem feito, o perfume inebriante de chulé com mofo não vai sair nunca mais.
Provinha encardida. A chuva começou 15 minutos antes da largada e não parou mais. Veio atrás da gente e chegou a São Paulo ontem. O mar, agitado, assustou alguns estreantes. Uma pessoa que conheço, chegou até a primeira bóia e desistiu. Uma pena. O mais difícil era justamente chegar até ali, com o mar batendo na cara, tentando manter um trajeto mais ou menos reto. Dali em diante, era ir no vai da valsa até a segunda bóia. Depois, Iemanjá jogava pra praia. Os homens de 40 anos ou mais largaram antes de nós 3 minutos. Ainda assim, trombei com vários pelo caminho. Um, inclusive, nadando de costas!!! Como é possível alguém se orientar num mar daqueles nadando de costas?
Pedal cauteloso. Ano passado tomei um chão bonito num dos retornos da portuária. Chovia, também. Eu estava bem devagar, mas a roda dianteira pegou um desnível do asfalto, o chão escorregadio... Foi como se alguém tivesse puxado meu tapete. Cai de lado e bati o capacete no asfalto com tudo. Fiquei zonza. Levantei sacudi a poeira (ou melhor, a lameira) e segui em frente. Depois é que eu vi o tamanho do estrago no capacete. PT – perda total. Se aquela rachadura fosse no meu crânio, duvido que eu ainda tivesse a habilidade de pedalar.
Tudo isso pra justificar minha lerdeza no bike. Ainda assim, ultrapassei muitas mulheres. Alguns homens também.
Corrida. Quase nada a declarar. Bom mesmo foi não sentir dor. Isso sim.
Faltando um poucos metros da linha de chegada percebi que alguém vinha chegando no meu encalço. Uma mulher. Apertei o passo. Quase morri pra deixá-la pra trás. Não, dá né. Ultimos metros!!! Eu não deixo.
Esperamos até a premiação. Subi solitária ao pódio das 45-49. Ganhei por W.O. Assim é fácil levar troféu. Mas 1h14m40 não é feio, não.
Depois fomos almoçar. Thelma, Julinha, Marcos, Marquinhos, meus afilhados Dani e Celso mais tooda a família da Dani. Gosto muito dessa parte. Rir, relaxar, falar bobagens sobre a prova. Comentar sobre o que não fizemos direito, como o Marcos grunhindo: “Pedalei como uma moça” ao que Thelma retrucava “que moça? de que moça você está falando? Porque se for uma moca como eu, você mandou bem!”. A Dani, rindo, e falando de como é fácil achar sua bike depois da natação: não sobrou mais nenhuma ali...
A gente reclama um pouco, mais se diverte sempre.

sábado, 19 de setembro de 2009

Clearwater 2008 – Venturas e desventuras – parte 1

Como já escrevi anteriormente, fiquei muito feliz ao conseguir a vaga para o Mundial de 70.3, ano passado, em Penha. Na véspera da prova, quando Emerson, meu técnico, aventava a possibilidade de eu pegar a vaga, fez uma pergunta que me deixou um pouco tensa: “Você tem visto pros EUA?” Óbvio que eu não tinha. E o pior, meu passaporte estava para vencer e os americanos não colocam visto em passaportes com menos de 6 meses de validade. Bom, pensei eu, primeiro vamos nos preocupar em fazer a prova. Segundo, em conseguir a vaga e, por último, em ir atrás de passaporte e visto.
Fiz a prova. Consegui a vaga. Portanto, teria de ir atrás de passaporte e visto.
O passaporte foi tranqüilo. Mas o visto... Pelo site do consulado americano, eu só conseguiria marcar entrevista em MARÇO! E a prova era em novembro, certo? Portanto, pelas vias normais, nada feito. Tentei na modalidade “casos excepcionais”. Nem sequer me responderam! Apelei até pra gentes bem relacionadas, pra ver se conseguia um lugar nessa fila, ANTES de novembro... Estava difícil. Até que a Nilma minha querida amiga, me passou o nome de um despachante salvador. É incrível e lastimável. Mas essas coisas ainda são assim. Você paga alguém que sabe um macete pra conseguir encaixar você na hora que alguém desiste da entrevista!
Passaporte pronto, inscrição confirmada, entrevista marcada, aquele monte de documentos agrupados (comprovante de endereço, comprovante da inscrição, holerite, extrato bancário, certidão de casamento, declaração de que você não é terrorista etc). Lá fui pro consulado, numa manhã fria e chuvosa de outubro, aguardar a minha vez de conseguir a HONRA de pisar em solo norte-americano.
Obviamente solicitei visto de turista. Minha viagem era puro lazer. Nunca me ocorreu que participar de uma competição como amadora, pudesse ser considerado business.
Depois de algumas horas de espera. Chegou a minha vez de ser tratada como suspeita. A lady no outro lado da intimidadora janela de vidro me pergunta, em inglês, o que estou indo fazer lá. Respondo que é uma prova de meio-iron. Ela pede que eu explique o que é isso.
Depois da minha breve explanação, me passa um papel e diz “você precisa pagar a taxa para visto de negócios, depois volte aqui”.
Ao que eu respondo “Negócios?! Mas eu não estou indo a negócios!
E ela “you are doing all that JUST FOR FUN?! You’re not earning any money?!” (tradução: "você está fazendo tudo isso só por diversão?! Não vai ganhar nenhum dinheiro?!”).
"Não", respondi. "E ainda tive de pagar por isso!"
Ela não se conformava. Continuou, bem desconfiada “Mas e se você ganhar, ficar em primeiro lugar? Não ganha nada?
E eu “não, não ganho nada. Sou amadora. Apenas os profissionais ganham”.
Ela deu de ombros, carimbou e, só pra me deixar com a pulga atrás da orelha, arrematou “Tudo bem, você pode ir como turista, mas talvez, lá, na entrada, você tenha problemas”.
Filha da mãe. Aquilo me deixou cabreira até a entrada no pais. E teve conseqüências quase desastrosas. (continua)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

To Clear or not to Clear


Passada a euforia da passagem do Dean Karnazes por São Paulo (e por nossas vidas), volto ao meu dilema: ir ou não a Clearwater. Não é esnobismo. É dúvida mesmo.
Estive lá em 2008, para o Mundial de 70.3 e foi uma experiência ótima. Por sinal, estou devendo um texto sobre o assunto. Tenho de tomar a decisão esta semana, pois a inscrição que fiz em Penha tem de ser confirmada no site active.com.
Ir para lá significa, por mais econômica que eu seja, gastar dinheiro. E gastar em dólares. Ir para lá, significa usar dias das minhas férias. Daqueles parcos 21 dias (já aproveitei um pouquinho) que me restam. Vinte um dias que preciso dividir com marido e quatro filhos.
Ir para lá significa encontrar atletas de todos os lugares do mundo. Significa viver no universo do triatlon em período integral. Significa conhecer gente legal, fazer novos ou curtir alguns bons e conhecidos amigos. Usar uns dias das férias só para mim, sem ter de negociar com ninguém a hora de comer ou dormir ou treinar. Significa estar, afinal de contas, num mundial! Fazer uma prova bonita, bem organizada, animada.
Quero e não quero.
Posso e não posso.
Passei o ano pagando dívidas por ter gasto na viagem do ano passado e nas férias deste ano. Não foi fácil.
Pensei em juntar as duas coisas: levar todos para a prova e, depois, para a Disney. Mas somos muitos! O preço é indecoroso. Inviável. Além do fato de os meninos perderem aula em pleno novembro. E aí, em janeiro, o que eu faço com eles?
Poderia então ir só com o marido... Mas quem disse que ele pode? Ou quer? E aí, também vai o tempo e o dinheiro... E como ficam as férias dos Karnazinhos?

Quanto mais eu penso, mais claro que not to Clear vai ficando. Com dor no coração.