domingo, 24 de abril de 2011

Um segundo

 Dedico este post aos leitores como Bru Andriello e Richard Antunes que sempre me escrevem na hora que estou quase desistindo de continuar postando.

Faltam apenas 35 dias e, diferente do que possa parecer (pelo fato de eu não estar postando muito sobre o tema), sim, estou, novamente, entregue aos treinos, sonhando com a prova, imaginando como vai ser o grande dia.
Ano passado escrevi um texto comparando o Iron com o casamento, o parto, batismo. Vou voltar a comparar.

Segundo casamento
Muita gente termina um primeiro casamento afirmando: “nunca mais caio nessa!, agora só aventuras light!”. Para dali um ano, dois ou menos, ou tão logo a oportunidade apareça, insistir no risco. Muita gente diz o mesmo sobre o Iron:”é só uma vez pra ver como é... depois fico nas provas mais curtas!” Mas é só a inscrição abrir... e lá estamos de novo!

Cenas do meu segundo casamento
 O segundo Iron, assim como o segundo casamento, tem algumas vantagens. Já temos mais ou menos uma noção de como é a vida a dois, mais experiências, menos ilusões. Assim como já conhecemos o percurso, as pedras do caminho do segundo Iron.
Esforçamos-nos para entender onde pecamos no primeiro casamento e não cometer os mesmos erros, para minimizar nossas neuras de modo a não estragar nossa nova relação. Assim, no Iron, também analisamos nossas falhas da primeira vez para tentarmos evitá-las.
Mas, se vida fosse assim tão fácil, não teria graça. O segundo casamento também não será um mar de rosas (se você ainda acredita nisso, lamento tê-lo desiludido). São outros desafios (eufemismo para problemas) e temos que estar atentos para não deixar todo aquele amor, toda aquela paixão, escoarem pelo ralo (entupido, motivo da briga besta). E assim o cuidado com o segundo Iron deve ser justamente achar que, pelo fato de saber como é a prova, já ter as favas como contadas e deixar de prestar atenção nos detalhes, dar aquela esculhambadinha básica... e esquecer que cada largada é uma largada e que shit happens particularmente quando a gente não toma as precauões necessárias.
Não é todo mundo que celebra o segundo casamento com a mesma festa que o primeiro. Eu, particularmente, acho que devemos festejar mais ainda! Casar pela segunda vez significa continuar botando fé na relação amorosa. Assim como fazer um segundo Iron continuamos apostando na nossa capacidade de enfrentar uma parada duríssima, termos foco, disciplina etc etc. É transformar o episódico – um Iron – em uma escolha por um modo de vida. A linha de chegada continua então sendo merecedora de muita festa, risos, lágrimas e abraços!

Segundo filho
O primeiro filho é aquele que nos faz mães (ou pais), o primeiro Iron é o que nos torna Ironman (Ironwoman, Ironperson, whatever!). Mas nem por isso é menos impactante, emocionante e gratificante o segundo parto e o segundo filho.

Nascimento do segundo filho
 Talvez uma das coisas mais legais de esperar o segundo filho é que sabemos como é emocionante ver o filho pela primeira vez — seremos tomados por um misto de alívio por tudo ter dado certo e uma felicidade cheia de lágrimas. Assim é também com o segundo Iron: temos uma idéia das emoções que nos aguardam na linha de chegada – e, claro, há também o temor de não conseguirmos terminar. A sombra de um DND (Did Not Finish) existe sempre, por mais experiente que a pessoa seja.
Cada filho é um filho, cada Iron é um Iron. Com suas características, suas surpresas, alegrias e mazelas. Que graça teria se o segundo fosse idêntico ao primeiro (filho ou Iron)?
Estou na expectativa desse segundo Iron, como noiva em segundas núpcias, como mãe esperando segundo filho.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

GP Extreme



Da esquerda pra direita:  Ana Oliva, eu, Kelly, Thelma e Nilma antes da largada.  Um pouco de frio!
  Jus ao nome
Confesso que não prestei atenção ao nome da prova. Não me perguntei a que extremo o título se referia e me inscrevi acreditando que coincidiria com minha periodização. 1 km de natação, 100 km de pedal e 10 km de corrida? Ora, seria um ótimo treino de transição.
Antes de me inscrever fui pedir a benção ao Wagner, meu técnico. Ele torceu o nariz: “para quê uma prova a essas alturas do campeonato?” Insisti: “é uma prova nova, num lugar legal, as distâncias são boas pra encarar como treino.” Ele não se convenceu muito, mas cedeu.
Não me ocupei nem me pré-ocupei com a prova praticamente até chegar em São Carlos.
Saímos no sábado à tarde, Thelma e eu, nossas bikes, gatorades, caramanholas, bisnaguinhas e outros apetrechos. Pensei em levar um dos meus filhos, mas como não conhecia o lugar, não sabia se ele teria o que fazer durante a prova e acabei mudando de idéia. Fiz bem
Chegamos, depois de uma viagem sem intercorrências – mas com vários pit stops por conta de da hidratação contínua – largamos as tralhas no hotel e rumamos pro Damha para pegar os kits e participar do simpósio técnico.
Minha preocupação apareceu no momento em que começamos a descer uma ladeira interminável que dava no local da largada. Ô-oou. Será que vamos ter de subir isso aqui? Aos poucos fui me dando conta de que tinha me enfiado numa encrenca.
Encontramos a Nilma, o Sarhan, a Ana Oliva e mais algumas figurinhas carimbadas. Analisando o perfil da platéia que ouvia a explanação do organizador, dava pra perceber que não era uma prova para iniciantes.
Quem estava por ali também era a Daniella Cicarelli, causando furor entre os fãs. Eu já tinha cruzado com ela várias vezes nos treinos da MPR e em provas nas quais elas acompanhou seu namorado. Devo confessar que não nutria nenhuma simpatia por ela, não. Mas também não posso negar que era certa inveja, um incômodo de ver os queixos caindo por onde ela passava. E tive de dobrar minha língua.

Ciao, Bello!
Dali saímos direto pra cantina Ciao Bello, indicação de meu amigo Guilherme Gobatto, que é de lá, junto com o Cesinha e a Kelly. Ótimo negócio. Chegamos cedo, só havia uma mesa ocupada. Logo depois de nos acomodarmos entrou uma legião de triatletas com seus familiares e ocuparam uma mesa de uns 20 lugares. Olhamos uns para os outros e combinamos: vamos fazer o pedido rápido, pois se os pedidos dessa mesa entrarem antes do nosso, estamos roubados. Ótima estratégia. A Nilma, que chegou mais tarde, acabou esperando quase uma hora pela chegada de seu prato.
Comida boa e barata. Thelma e eu, nutricionalmente bem comportadas, mandamos um agnolotti recheado de ricota e espinafre mas a Kelly e o Cesinha dividiram um belo medalhão de filé com batata frita e tudo! Ele não ia mesmo fazer a prova, mas ela, sim. Quando me espantei com seu pedido, ela deu de ombros e respondeu: já comi macarrão hoje. Voltou-se pro seu filezão, que traçou junto com as batatinhas sem medo de ser feliz.

Noite
Voltamos pro hotel e começamos nossos preparativos pro dia seguinte. É um tal de preparar suplemento, cortar papel alumínio pra embrulhar bisnaguinha, ajeitar o pneu (eu SEMPRE esqueço de providenciar um suporte decente e ele vai preso numa gambiarra meia mussarela, meia calabresa, que ocupa o lugar de uma caramanhola), separar a roupa, carregar o relógio... Uma série de pequenas operações que acaba levando mais de uma hora. Só a Julinha consegue chegar, dormir em primeiro, acordar por último e estar pronta pra prova junto com todo mundo no dia seguinte. Thelma e eu debatemos este tópico mais uma vez: qual será o segredo da Juju? Será que ela tem uns duendes tipo aqueles do Papai Noel que deixam tudo preparado durante a noite?
Caí na cama quase onze. Cansada. Mas quem disse que conseguia dormir? A semana foi pesada, um dos meus gêmeos se acidentou, teve de passar por cirurgia e tudo, o outro gêmeo anda com crises de saudades, o trabalho também não está na melhor das fases... E por aí foi passeando a cabeça em vez de dar um shut off. Quando adormeci o sonho foi o clássico tenho de chegar à prova e não consigo. No caso, eu iria fazer DUAS provas. Uma de corrida e depois o GP. Lógico que acordei cansada.
Acordamos cedo, descemos pro café já com as bikes – o elevador era mínimo e imaginamos que todo mundo iria descer na mesma hora e seria aquela confusão. Boa estratégia. Tomamos café sossegadas, subimos para os ajustes finais e descemos de escada, sem estresse e sem bicicletas.

 
Poucas mulheres (Foto: Cesinha)
 Check in, Cecilia e largada
Viajar com a Thelma é tudo de bom porque nos entendemos super bem: nós duas gostamos de chegar cedo, vamos resolvendo uma coisa por vez... é tudo fácil, descomplicado e sem frescura.
Colocamos as bikes com folga no suporte da transição e, como bem descreveu o técnico Fabio Rosa, arrumamos nossas penteadeiras: toalha, bisnaguinhas, protetor solar, tênis, sapatilhas, escova de cabelo, batom, brincos, etc.
O tempo estava nublado e, logo que a elite começou a largar (era uma largada esquisita, tipo contra-relógio, um por vez) começou uma chuvinha. Droga, comentamos, vai molhar todas as coisas que estão na penteadeira. Então vi de longe duas meninas gêmeas e, em seguida, identifiquei a mãe – Cecilia Musselman – com seus dois braços engessados.
Abre parênteses para fazer uma homenagem. Cecilia chegou, via este blog, ao meu perfil no facebook. Adicionamos-nos e desde então, trocamos mensagens. Ela é é triatleta, da minha faixa etária, também mãe de gemelares, além de ser pediatra e trabalhar pra caramba. Mas tem sempre tempo pra escrever mensagens atenciosas e carinhosas para seus amigos. Sofreu um tremendo acidente há algumas semanas – por isso está com os dois braços engessados – e não ficou se lamentando. Está, de cabeça erguida, enfrentando um tsunami ortopédico que vem assolando a ela e seus familiares de uns 3 anos pra cá. Nosso encontro foi rápido, um pouco antes da largada. Ela estava tensa, pois seu marido, Max, ciclista profissional e corredor amador, está se recuperando de algumas lesões e estreava em provas de triathlon. Despedimos-nos ali, mas, durante a prova, passei por ela algumas vezes que, mesmo com os braços imobilizados, festejava minha passagem com uma torcida animadíssima.
Os homens largaram primeiro. Foi aí que percebemos quão poucas éramos nós. Vinte e uma. E eu, como já pude conferir, era a veterana.

Na água
Saindo da água e brigando com o Garmin (Foto: Cesinha)
Barrenta, rasa, longa e fácil. A mulherada saiu desatinada. Fui um pouco mais tranquila e, no final, dei uma apertadinha. Logo depois da primeira bóia deu certa aflição porque a água estava totalmente escura. Não se enxergava nada.
O Garmin se atrapalhou todo e eu me atrapalhei com ele. Coloquei no modo multidesporto mas alguma besteira eu fiz, porque ele não funcionou como tinha funcionado no Internacional. Saco. Perdi um tempinho tentando entender o que estava acontecendo, mas acabei desistindo.
 Corri pra bike, fiz quase tudo direito. Esqueci de colocar duas bisnaguinhas no bolso. A comida estava quase todas na bento-box, mas as bisnaguinhas não couberam. Quando me dei conta, já era tarde. Falta de concentração e mentalização da prova no dia anterior.


Pedal, subidas e Daniella
Depois de uns 2 kms planinhos chegava-se ao percurso da bike. E aí, dá-lhe ladeira. Logo no começo, fui ultrapassada por uma das minhas concorrentes da categoria – a Rita. Deixa quieto, pensei. Lembrei do Wagner “é sua semana regenerativa e encare como treino”. Não sei o que teria acontecido se eu quisesse alcançá-la. Provavelmente não teria feito diferença. E ela foi embora.
A subida não acabava nunca. Praticamente só na hora do retorno. Em alguns trechos amenizava um pouco, mas logo recomeçava. Não sei como é que alguém poderia tomar penalidade por vácuo. Ou era subida, ou era descida. O único trecho plano era chegando ao retorno. Mas era muito curtinho.
A primeira volta foi tensa. Caiu uma garoinha então, na hora da descida, sem conhecer o percurso, o medo de tomar um chão era grande.

Início da volta (Foto: Cesinha)
Na segunda volta, a garoa parou, e deu menos paura no retorno. Mas no início da interminável subida eu me perguntava em voz alta “Como foi mesmo que eu vim parar aqui? Onde eu estava com a cabeça?” Não fiz nenhum treino de subida este ano. Nada. Então, tive de ter muita calma e dosar a força pra aguentar até o fim e depois ainda ter pernas pra correr. Na subida.
Quando estava terminando o primeiro trecho de ladeira da terceira volta, passei pelo Fabio Rosa e pedi, de brincadeira, “Dá pra dar um empurrãozinho aí?” Ele levou a sério e com as mãos nas minhas costas, deu um certo impulso. A Cicarelli que vinha logo atrás de mim, ganhou um também. Logo em seguida, uma moto da arbitragem se aproximou e deu uma dura nela e depois em mim. Com muita educação “Não deixa ele fazer isso de novo, se não você será penalizada”.
Daniella me alcançou e comentou “Puxa, quase levamos um cartão!. A partir daí engatamos numa conversa que durou a terceira volta todinha. E vou ter que ser honesta: ela foi muito simpática. Brinquei com ela “não vem, não! Você já tem muita coisa, já leva muita vantagem sobre mim, não vale, além de tudo, ganhar no triathlon”. Ela riu e disse “não se preocupe, não vou ganhar”. Lá pelas tantas, quase tomamos outro cartão por estarmos lado a lado. “Vácuo lateral também não pode!” disse o fiscal. Vácuo lateral?!
Fui  na frente, mas no meio da quarta volta, ela me ultrapassou, pela direita e, mais uma vez, tomou dura do fiscal. E fomos assim, quase até o fim. O duro de ir perto dela era que TODO MUNDO batia palmas e torcia por ela. Os staffs se estapeavam pra ver quem ia entregar a água pra ela! Reclamei "tá vendo?! Assim não vale! A torcida é toda sua!" Mas tive o apoio e a torcida animadíssima do Cesinha, que valeu por uma multidão e da Cecília, é claro.

A simpática Dani, e eu.

Minha concorrente, a Rita, também me dava um alô sempre que cruzava comigo “Força, Claudia!”. A Kelly também, que estava um pouco atrás, também sempre festejava nossos encontros. Flavio - colega de MPR-  passou por mim e gritou "pô, um treino de 160km na Dom Pedro é mais fácil!" Coisas do triathlon.
Iniciei a última volta soltando uma série de impropérios impublicáveis que me ajudaram a ter forças pra ir até o fim e ainda ultrapassar a Daniella, a Nilma, mais uma que não sei o nome e encostar na Patrícia Bertolucci – minha outra adversária.
Cheguei à transição e xinguei mais um pouco, só de farra.

Corrida, ladeiras e tapinhas
Desconcentrada, mais uma vez, esqueci de pegar o accelerade que me esperava. Mas os géis eu levei. Ufa.
Vi a Patrícia saindo da transição e pensei “vou buscar”. As pernas estavam duras. Ainda bem que o primeiro quilômetro não era, ainda subida forte. Deu pra soltar as pernas e engatar o ritmo do primeiro pro segundo. No segundo, já no início da subida, passei minha amiga, que pediu pra eu puxá-la por uma cordinha. Brinquei: “ah, você não me puxou na bike, agora não te levo, não”.
Corrida, minha praia! (Foto: Cesinha)
E dá-lhe subida. Gente com cãibra, gente andando, resfolegando. Ah, mas eu gosto de correr. Cheguei até o topo, no retorno no 2,5km, e não tinha água. Pecado mortal.
Pra baixo, o santo ajuda. E como. Cheguei no retorno de baixo. Forte. Aí eu já estava feliz. Só mais 5km.
Sobe sobe sobe. Aí desce. Tapinha na bunda do Caio, do Rychard, do Fabio. Quebrados. O Rychard, maluco, tinha feito o short na véspera. Fiz um ritmo abaixo de 5m/km. Cruzei o Mauricio, amigo de blog, que foi a simpatia de sempre, e o Flavio de novo, já  indo embora,  quando eu estava chegando e ele vibrou com a minha corrida. Foi muito legal.
Na linha de chegada, catei a faixa, levantei e gritei “tem que ser fêmea pra caralho pra terminar essa porra! Não é macho, não! É FÊMEA, com F maiúsculo!”. Os staffs e quem tinha sobrado ali, riu e aplaudiu. 4h40m, segunda da categoria – palmas pra Rita que mandou muito bem.

Comentários, críticas e sugestões
O lugar é lindo, os retornos e curvas estavam bem sinalizados, a arbitragem, de modo geral, foi gentil. Um pouco “burra”, quero dizer, em alguns momentos faltava bom senso. Por exemplo, por que não deixar sair pelo outro lado da transição? Era só deixar alguém ali, de olho. Muita gente saiu assim mesmo.
Deveria ter mais um abastecimento no retorno de cima do pedal, não só com água mas com isotônico, frutas e outras coisas. R$ 380 de inscrição, é grana.
Não pode faltar água. Não fez calor. Se tivesse feito, ia ser um strike. R$ 380 é grana.
A largada, às 9h é muito tarde. Por que a elite largou um a um? Ninguém entendeu. Se a elite largar às 8h, os amadores podem largar 8h15 e a prova não termina tão tarde e nem a premiação. Começar a premiação às 16h??? Não dá. É um longo caminho pra São Paulo e adjacências.
Uma camiseta de finisher ia bem. Numa prova como esta, dá gosto usar. E, por R$ 380, tem de dar, né?

Acho que é só. Parabéns a todos que terminaram a prova. Foi casca. Talvez tenha sido a prova de triathlon mais difícil que fiz na vida. Nem no Iron sofri assim.
Quando liguei pro Wagner pra comentar como tinha sido duro, ele respondeu de bate pronto: "Bem feito". E foi mesmo. Bem feita.