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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Meu querido amigo

Era 2007 e eu estava começando a treinar e também acabara de ser contratada no meu atual emprego. Minha chefa, com quem eu já trabalhava antes e me conhecia bem, disse:

- Conversa com ele. Vocês vão se entender. Ele também gosta de esportes.

E não demorou que, num desses almoços descompromissados que a gente tem com as pessoas de trabalho, nos sentássemos lado a lado e começássemos a trocar confidências sobre nossas respectivas paixões: triathlon, a minha, tênis, a dele.

Então, ao longo destes quatro anos, almoçamos quase todos os dias juntos e conversamos de tudo - mas nosso assunto predileto – o esporte - esteve sempre em pauta.

Com ele aprendi a admirar Federer (embora, só pra provocá-lo, eu diga que gosto mais do Nadal), a considerar Roland Garros A prova de Grand Slam e descobri que há tantos – ou mais – torneios de tênis para amadores quanto há provas de triathlon e corridas de rua.

Por outro lado, ele aprendeu tudo sobre triathlon. Sabe o que é o clipe, uma caramahola e a diferença entre uma speed e uma contra-relógio, entre outras tantas coisas.

E quando ficamos mais próximos, ele também me ensinou coisas da política, da administração, da gestão. E eu pude falar mais sobre relacionamentos, conflitos, convívio.

Ao longo desses quatro anos tivemos discordâncias – sobre aspectos do nosso trabalho – mas nunca brigamos. Fui à sala dele chorar algumas vezes. Ele não foi à minha – porque é duro na queda – mas deixou escapar uma angústia ou outra, que acolhi como pude.

Ano passado, quando estava me preparando pro Iron ele me perguntava todo o dia como tinha sido meu treino. E seu interesse era genuíno. Entendia as minhas restrições alimentares e não se importava se, durante uma semana inteira, eu só quisesse comer no 7 Grill.

Na véspera da minha viagem para Floripa em maio do ano passado, ele estava de férias, mas combinamos de almoçar juntos. Eu estava insuportável. Não conseguia falar de outra coisa que não fosse a prova. Durante o almoço ele fez todas as perguntas que eu queria responder, disse o que eu queria ouvir e me acalmou sem nem se dar conta.

Muitas vezes durante o horário do almoço saímos para encontrar um cadarço de tênis pra ele entre os camelôs, comprar um pacote de maltodextrina ou à caça de baterias CR 3032 para o frequencímetro. Por incrível que pareça, nos divertíamos nessas pequenas jornadas. Conhecemos lugares escondidos como a “Casa das Baterias” e personagens inusitadas, como a sra Chun, da loja de perfumes importados. Temos em comum um pequeno e curioso repertório de pessoas e situações.

Ano passado ele perdeu o pai e, logo em seguida, a mãe. Estive no velório de ambos e no enterro e cremação de um e outra. Vivemos também um repertório de tristezas e perdas compartilhadas.

Agora, neste início de ano ele e várias outras pessoas de quem gosto muito, foram demitidos.

Quando a percebi a iminência de sua demissão me dei conta de como iria sentir sua falta. Vi que ele é muito mais do que um companheiro de trabalho. É um amigo. Meu melhor amigo.

Claro, vamos continuar a nos falar e sempre que possível, almoçar juntos. Não tê-lo no convívio diário, entretanto é, para mim, uma grande perda.

De qualquer modo, não posso deixar de registrar: obrigada por tudo, querido amigo!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Querida amiga Thelma

Você foi uma das raras e gratas surpresas trazidas por 2009. Conhecemos-nos em 2007, conversamos em algumas ocasiões naquele ano e também em 2008, mas foi agora, de uns meses para cá, que nos aproximamos.
Logo que comecei a treinar na MPR, vi o lugar de destaque que você ocupava e passei a admirá-la. Para meu espanto, embora você sempre fosse tratada com atleta de ponta na assessoria, diferente de muitos, não era arrogante nem antipática. Ao contrário. Lembro de um treino no Ibirapuera em que consegui emparelhar com você e terminamos juntas uma volta de 3 km. Quando estávamos quase chegando, eu ia afrouxando o passo e esmorecendo, mas você não deixou! Empurrada pelas suas palavras firmes consegui completar a volta com você. Naquele dia, contei pra todo mundo o meu feito: "Consegui acompanhar a Thelma!".
Desde a metade deste ano, logo após você completar seu Iron — com distinção e louvor, passamos a conversar mais: na padoca, por torpedo, durantes os treinos. Apresentei a você uma paixão: Dean Karnazes, e um vício: bananinha Tribom. Você me ajudou a começar a treinar na Sumaré. Teve aquele churrasco em casa e, então, aquele fim de semana em Ibiúna.
Surpresa número 1: fiz o convite e você topou na hora. Afinal, ir pra um sítio junto com toda a minha família, incluindo pai e mãe, sem nem perguntar nada, sem frescura e sem embaço, não é qualquer um...
Surpresa número 2: você com meus filhos. No caminho de ida, confiando no taco deles e no seu, fiz a proposta quando paramos para comprar frutas: “Quem quer ir com a Thelma?” Martim e Félix se prontificaram no mesmo instante. A conversa rolou solta. Você acertou na mosca. Começou o papo certo: futebol. Quando chegamos, os dois já estavam totalmente arrebatados. E jogou bola na piscina pra eles defenderem, fez stickers, bateu um tênis e até assistiu “Amazing Race” junto com eles. E não podia desaparecer da vista deles por mais de 2 minutos que já vinham atrás de mim: “Cadê a Thelma? Onde ela foi?”
Surpresa número 3: sua desenvoltura com meus pais. Ficar à vontade com a minha mãe é fácil. Mas com meu pai... Não é bem assim. E o mais surpreendente. Ele é tímido. Reservado. Para ele comentar “puxa, mas como ela deixa a gente à vontade” é porque realmente...
E no meio disso tudo, nós ainda conseguimos sair pra nadar, dar um trotinho, conversar, beber, comer e rir!
E veio Pira, com seu níver, comemorado à beira-rio, o susto com a tireóide, a cervejinha no fim da tarde, e as conversas em cima da bike na madrugada da USP.
Agora essa história. Essa trombada que a vida lhe deu. Como você disse, uma oportunidade de reformatar o HD. Você pergunta: Quem é a Thelma tripateta sem o triathlon? Posso tentar responder?
Querida. Muito querida. Muito mais do que uma atleta, triatleta ou tripateta. De pateta, aliás, você não tem nada. È uma amiga ponta firme, que não embaça, não enrosca e não enrola. Pessoa versátil, que trata as crianças como seres inteligentes e interessantes e os adultos sem formalidades ou frescuras. Antenada, não sai falando qualquer besteira só pra dar opinião. Durona, não quer precisar de ninguém pra ir ao medico, fazer exames ou passar à noite no hospital. Durona, já quer rebootar o sistema sem nem ao menos xingar o computador ou chorar de raiva pelo trabalho perdido (justo aquele que não foi salvo).
Aqui em casa você tem um fã clube. Fã clube da Thelma Filipovitch Pereira. Independente da modalidade que você pratique. Independente dos resultados que você alcance. Você já tem nosso troféu máximo: o de grande amiga.

Aviso aos leitores: a Thelma é uma grande amiga, saudável e esportista que teve uma inesperada trombose.