Parece um tapa na cara, uma onomatopéia de uma história em quadrinhos. Mas não é. Trata-se de uma legenda para uma lesão: Superior Labrum Antero Posterior. Segundo as pesquisas que andei fazendo, é dos problemas mais freqüentes nos ombros.
Venho sentindo dores desde o início do ano. Começou assim, sem mais aquela, no último dia de férias. Acordei e ela estava lá, a dor. Achei que tinha dormido de mau jeito, que ao longo do dia iria passar. Viajei de volta a São Paulo, imaginando que ela ficaria por ali mesmo, em Florianópolis, mas, sei lá, talvez ela tivesse um desejo secreto de conhecer uma megalópole e, eis que veio comigo.
Depois de duas semanas com dor, decidi ir ao ortopedista. Já imaginava o menu de sempre: ressonância magnética, repouso relativo, gelo, antinflamatório, fisioterapia com alongamento e fortalecimento. Bingo! Segundo ele, tendinite do supraespinhoso. Ressonância, apenas para confirmação do diagnóstico. Ainda tentei negociar: "Se você sabe o diagnóstico, por que eu preciso fazer a RM? Vai mudar alguma coisa?"
Ele não quis saber das minhas argumentações e dá-lhe RM.
O laudo descrevia um leve isso, um discreto aquilo, um pequeno aquilo outro. Entre eles, uma tendinite, sim. Também havia um tal cisto mas que, segundo o médico, era "achado de exame".
Mas o tempo passa, com tratamento e tudo mais e a dor não vai embora. No Iron, embora não tenha me atrapalhado na natação, doeu depois, no ciclismo, e eu não consegui passar muito tempo clipada.
De repente, a dor some. Passa dias sem dar as caras. Então ela volta e passa o dia me atormentando.
Cansei. Voltei ao médico. E me cansei também dele, que passou 80% do tempo da consulta falando de assuntos que não tinham nada a ver com ortopedia, me examinou em três minutos e pediu outra RM.
Quem fez a RM foi o Daniel Blois, amigo meu, parceiro de treino e radiologista experiente. Comentei com ele que queria consultar outro ortopedista e ele me indicou o Gustavo que, ainda por cima, é da Clínica Alliance, da Kelly, que eu não conheço mas meio mundo de triatletas conhece.
Quando fiz os exames, o Daniel disse "Acho que o que está te incomodando é uma SLAP lesion". Então ele explicou que era algo que já estava na primeira RM, que tinha a ver com aquele cisto e que tratava-se de uma lesão no Labrum, membrana que recobre a parte interna do ombro.
Tive então uma consulta com o Gustavo, que perguntou muito (nada sobre política, polícia ou celebridades), me examinou detidamente e analisou as imagens para mim de maneira clara e didática.
Reseumo da ópera: o que me incomoda é a SLAP. O cisto prova que há um descolamento da membrana que cria uma intercomunicação num local que não deveria. Isso é sinal de que o labrum está descolado. É um problema mecânico, não uma inflamação. Não vai sarar sozinho e nem com medicamentos, fisioterapia, gelo bla bla bla. Precisa ir lá e prender a membrana no seu devido lugar. Como? Com uma artroscopia.
Gustavo também me explicou que se eu não fizer isso a dor vai piorar nos momentos de maior volume de treino.
Fiquei na maior dúvida. Combinei com ele que iria treinar natação sem me poupar, como tenho feito nos últimos seis meses, e ver como me sentia.
Na quarta então nadei forte e usei palmar. Cinco horas depois... dor.
Na sexta, o treino foi mais leve, a dor veio, mas não ficou muito tempo.
No final de semana, me animei. Para que fazer cirurgia?
Ontem, segunda-feira, borboleta e palmar e a dor voltou está aqui até agora. Desanimei. Quando a gente convive muito tempo com uma dor dessas, vai ficando irritadiço e nem sabe porque.
Então conversei com o Alcy pelo telefone. Ele também é ortopedista mas, infelizmente, mora em Curitiba. É meu amigo e triatleta. Foi categórico: "Faça a artroscopia. E faça logo." "Mas não é tanta dor assim!" retruquei. "Você não está tendo muita dor porque seu volume de treino está menor. Mas você é atleta e ainda vai querer treinar muito. Faça". Verdade. Eu não tinha pensado nisso. Meu volume de treino está bem menor. Quando aumentar, a dor volta.
Confessei "Sabe o que me desanima? Ter de fazer três meses de fisioterapia!" E ele "Ah, você é esportista, não é nenhuma velha sedentária e flácida que vai ficar fazendo exerciciozinho básico! Você vai fazer direito e vai se recuperar rapidinho!"
Depois dessa, já não tinha mais argumentos.
Serão 4 furinhos no ombro, que é inflado como um balão. O cirurgião coloca uma microcâmera para enxergar lá dentro e aí faz o serviço: coloca âncoras na membrana para ela não içar as velas e sair navegando por aí. Interna, faz a cirurgia e sai no dia seguinte. Três semanas de tipóia. Depois já dá até pra correr e pedalar. Antes disso, ainda com a tipóia, dá pra fazer uma bicicleta ergométrica. Três meses sem nadar. Três meses de fisio.
Se é pra fazer, façamos!
