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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

De volta - Pirassununga 2010

Como é bom participar de provas. Não só pra competir, mas, principalmente, por fatores extrínsecos: conhecer pessoas novas, encontrar amigos, conviver por mais tempo e ficar mais amiga ainda de quem a gente já conhece.

O ano passado já tinha sido assim. Este ano foi, de novo, muito legal.

Começou com um telefonema da Cris, amiga da MPR que praticamente não treina mais, perguntando se tínhamos lugar pra ficar em Pira.  Em Pira, não tínhamos. Íamos ficar em Leme, que é próxima, mais nem tanto.  Então ela disse que um amigo - Rogério, também da MPR, estava indo sozinho pra uma casa bem perto da AFA (Academia da Força Aérea, onde acontece o Long) e perguntou se ela conhecia alguém que procurava lugar pra ficar. Na mesma hora liguei pras minhas parceiras Thelma e Julinha, que toparam sem pestanejar.

Véspera - aniversário da Thelma
Saímos sábado de manhã de SP. Thelma e eu, Julinha com meu filho Martim e Rogério. No caminho tivemos de fazer umas paradas estratégicas, já que estávamos naquele esquema de hidratação.

Chegamos em Pira quase uma da tarde. O sol estava derretendo o asfalto. Nos encontramos os cinco no Brasinha, um restaurante indicado por um amigo meu que é de lá. Graaande pedida. Nada de massa. Comemos um tal de Aruã - peixe amazônico - com arroz, batatas cozidas e legumes. E o papo com o Rogério, que tínhamos acabado de conhecer, rolou solto.

Passamos na nossa maison que tem o sugestivo nome de Paradise Lazer, deixamos as coisas e fomos buscar os kits. Dez minutos do nosso lar provisório até a entrada da AFA. Melhor, impossível. Chegando lá conheci um amigo blogueiro, o Rafael Farnezzi e e encontrei o meu amigo também blogueiro, sempre simpático e sorridente, Arthur Araújo.

Da esquerda pra direita: Rodrigo, Emerson, Daniel, Thelma, eu, Pocinho e Julinha, na Cantina Don Pepe.

Como era aniversário da Thelma, ainda em SP, reservei uns lugares numa cantina, encomendei um bolo e chamei o pessoal pra encontrar lá.

Foi delícia. Comida boa, lugar simpático e barato, clima gostoso, conversa animada e, o melhor de tudo, pessoas legais: Daniel e Vivi com a filha Julia (que rapidamente se entendeu com meu filho Martim, apesar da grande diferença de idade), Rogério, Emerson, Rodrigo, Carlos Pocinho, Julinha, Thelma e eu e a turma da Sumaré que passou por lá também. Fabiana, Mônica, Thiago e a Cururu que estava na maior ansiedade porque iria estrear na distância 70.3.

De volta ao nosso paraíso particular, Rogério, Thelma e eu ligamos o modo PPP - preparação pré prova. Enquanto isso, Martim e Julinha jogaram os colchões no meio da varanda, se jogaram em cima deles e desligaram.

O enigma da Julinha
À noite o paraíso não tão paradisíaco. Difícil dormir. Sirenes, músicas, luzes, conversas. O despertador tocou no melhor do sono.
Alguém precisa me explicar como a Julinha que chegou e caiu na cama sem arrumar nada, estava pronta na mesma hora que Thelma, Rogério e eu sem ter acordado uma hora mais cedo. É um mistério profundo.

Chegamos na AFA cedo, encontramos o Emerson e o pessoal da MPR e eu nem estava com aquele friozinho na barriga. Encontrei Corina Silveira e seu marido - ela estava super ansiosa; o Evandro - meu parceiro de Iron, que disse que ia passear no parque (em Pira não dá, Evandroooo!) a Cururu... um monte de gentes. E estava aquele clima de festa.

A expectativa era passar um calorão. Como disse a Thelma no blog dela, iríamos descer ao inferno. Então, estando lá, nada mais natural do que aproveitar e abraçar o diabo. Algo parecido com ir a Roma e VER o Papa.

Natação e os laranjas
E foi dada a largada. Os homens, cinco minutos antes das mulheres. E alguém me explique também como é que antes da primeira bóia na primeira volta eu já estava tropeçando em alguns deles. Dali em diante, só foi aumentando a densidade dos annoyings oranges (as tocas eram laranjas). E eu nem nado tão rápido assim. Eles é que nadam muito mal. Desculpe, pessoal, mas nadar 1900 metros de PEITO!? Acho mais honesto mudar de esporte. Ou aprender a nadar crawl.

Não sei ainda, mas ACHO que minha natação foi pior – o que era de se esperar – o pedal também ACHO que foi igual ou melhor do que ano passado e a corrida também deve ter sido um pouco mais alta este ano.

Nadei tranqüila, forçando um pouco mais na segunda volta. Senti sim, o braço um pouco cansado e dolorido no final, mas não demais. Na transição tentei passar um pouco de chamois butter mas, como não tem tenda, não deu pra espalhar como se deve. Resultado: fiquei com vários cortes e assaduras nas nádegas. Coloquei uma faixa no cabelo, capacete, óculos e sapatilha. Sem estresse, apesar do meu filho Martim ficar dizendo "vai mãe, vai logo!"e saí pra pedalar. Deixei numa marcha bem leve, porque a saída é numa subidinha e não tive dificuldades.

Ciclismo - porque eles não me passam?
Fiz a primeira volta mais tranqüila, apertei na segunda e na terceira e a quarta foi igual a primeira. Passei várias mulheres (e alguns homens) e não fui ultrapassada por nenhuma. Fiquei no clipe o tempo todo (e o ombro não doeu), volantão e volantinho só em duas pequenas subidas.

Não vi pelotões e nem gente pegando roda. Ouvi dizer que tinha um pelotão grande mas não passou por mim. Algumas vezes eu encostava em alguns caras que tentavam escapar, escapavam por um tempo mas, dali a pouco, eu já estava emparelhada de novo e às vezes até passava. Pensava com meus botões "eu com essa perna de mentirinha, mais velha, do suposto sexo frágil e com uma bike que não é nenhuma Ferrari... o cara com idade pra ser meu filho (ou pelo menos um caçula temporão), com esses pernões, do sexo (fisicamente) mais forte, com uma puta de uma bike..." Dava vontade de dizer: "Vai embora, cara! Você tem obrigação de me passar e sumir!"

Ao longo do percurso, os milicos, muito sérios, indicavam o caminho correto. Na terceira volta, não aguentei. Passava por eles e intimava: "E a torcida?Pô, pelo menos pras mulheres!". Os caras abriam um sorriso DESTE tamanho e gritavam: "Vai 53!" Aí eles voltavam a parecer moleques, como outros quaisquer!

Um pouco antes do final da bike emparelhei com um menino muito simpático. Comentamos sobre o calor e o abraço que daríamos no coisa-ruim na hora da corrida. Rimos os dois. Ele entrou na área de transição logo à minha frente e tinha a maior galera torcendo pra ele: "Vai, Cesinha! Aê, Cesinha!" Eu não aguentei e disse pra ele: "Cara, você tem a maior torcida particular da prova! Também quero!". Aí, a Fabiana que é uma amiga e estava nesta torcida, ouviu o que eu disse e gritou "Vai, Claudinha!". Eu ri e comentei com ele: "Viu?! Não é só você que tem torcida!" Não consigo deixar de me divertir e falar essas bobagens. Mesmo que sabendo que deveria ficar quieta pra poupar energia.

Na transição, coloquei uma viseira, garmin (que não achava o satélite no começo e me atrapalhou um pouco) e não passei mais protetor solar e nem vaselina nas axilas – o que me deixou com uma linda assadura e um bronzeado ma-ra-vi-lho-so - carimbo do diabo. Sai pra correr debaixo daquela lua. Tomei água ou gatorade em todos os postos, pelo menos um golinho. Agradecendo sempre. Coisa que pareceu surpreender os meninos que, muito gentilmente, respondiam entre espantados e felizes: "De naaada! Não tem de quê!"

Corrida - alguém tem um par de panturrilhas aí?
Nos primeiros 9 km – quase metade da prova – senti um tremendo cansaço nas panturrilhas. Inclusive pedi pro Kim um par novo, quando ele me ofereceu água. A Kelly (triatleta, ortopedista e amiga) bem que tentou me emprestar, mas não era meu número. Felizmente, dali em diante, melhorou e consegui correr sem tanto sofrimento. Mantive 5m20, 5h30. Na sombra e nos declives – que são suaves mas a gente sente a diferença – consegui ir um pouquinho mais forte. As palavras de incentivo das pessoas tanto no ciclismo, quanto na corrida, sempre animam a gente. Flavinho (que quebrou no pedal), Pedro (que veio direto de Miami só pra largar e pedalar, mas não fez a corrida), Marcos (que se contundiu em Clearwater mas veio assistir) e Mariana Hubinger (parceira de pelotão) que vieram de São Paulo, Mônica Bolognani, Mariana Prado e Diglu da 5 Ways, a Fabiana, Marcelo e Marcinha da Planet, Rodrigo e o Emerson da MPR, pessoas que cruzei durante a prova como o Lester, Marquinhos, Beto, da MPR,o mestre Vilela, de Santos, a Camila da Trilopez, a Vivi e o Daniel - que tiraram a foto abaixo e, claro, meu filho Martim.  Saber que ele me esperava na chegada não me deixou nem PENSAR em andar.
Chegando feliz. Foto Viviane Blois.

No final, ainda tive de dar um sprint porque uma atleta que eu havia passado no km 15 resolveu que queria chegar na minha frente, se aproveitando do fato de o Martim, me filho, vir correr os últimos metros comigo. E o Emerson tinha acabado de me dizer - você está emntre as dez primeiras! Cuidado atrás!". Mas nós não deixamos! Tirei energia do fundo do coração, o Martim se esfalfou, mas chegamos antes da adversária. Quase alcançamos a Julinha. Por 20 segundos. Teria sido o máximo cruzarmos a linha de chegada os três juntos. A Thelma nem vi. Só ouvi. Ela chegou em terceiro geral, dando pau em duas profissionais e sendo escoltada por motocicletas e suas sirenes. Melhor presente de aniversário, impossível! E ela merece.

Final feliz
Terminei cansada, mas sem cãimbras, nem dores. Fiz a prova em 5h24m03 mas não sei ainda as parciais. Ano passado, foram 5h18m32 mas não estava tão quente – parece que ontem chegou a fazer 35 graus durante a prova. A Ariane por exemplo, fez 4h23m ano passado e 4h30 este ano; a última colocada o ano passado fez em 7h06m e, a deste ano, em 7h36m. Acho que isso quer dizer que a prova foi mais difícil.
Fiquei em 1º na categoria (com quase 30 minutos em cima da segunda colocada) e em 10º no geral feminino. Bom demais para quem saiu do estaleiro há pouco e nem treinou tanto assim.

domingo, 30 de agosto de 2009

Lições de uma segunda vez - Penha 2009

Acabo de chegar de Penha e, como disse o Lucena recentemente em seu blog, às vezes estamos tão impregnados pela experiência que não conseguimos escrever com clareza. Por outro lado, ainda estamos tomados pelas emoções (tão intensas e contraditórias) que uma prova como o 70.3 nos faz sentir.
Faz muita diferença conhecer a prova. A capacidade de se antecipar aos problemas é bem maior. Deu absolutamente tudo certo. Não passei por nem UM minuto de estresse. Arrumei minhas coisas com calma, tiquei cada item das minhas oito listas, não esqueci NADA em São Paulo. Cheguei ao aeroporto num horário tranqüilo, sem ser cedo demais, nem atrasada. Despachei a bike sem delongas. Deu tempo até de tomar o café com pão-de-queijo da promoção da TAM. Sentei numa fila de cadeiras sozinha e pude esticar as pernas e ler sossegada. O vôo não atrasou. Peguei a bike inteirinha. O taxista que me levou ao hotel foi simpático e já combinou de fazer um preço camarada na volta. Cheguei ao hotel e tomei um café da manhã de verdade. O quarto, conforme eu havia solicitado, era no cantinho mais sossegado.
Cada momento foi vivido com calma e quase sem ansiedade. Com expectativa, sim, mas sem angústia ou aquele nervoso todo. O horário da largada 9h30 facilitou ainda mais pra podermos nos aprontar com tranqüilidade.
Mais uma vez, pude desfrutar da companhia da Nilma e do Neto – casal que me acompanhou direto em Clearwater em 2008, fiquei mais próxima ainda do Marcos – meu grande parceiro de treinos neste ano e também conhecer mais Paulinha – que foi uma grande companheira: sem complicação, divertida, atenciosa e perfeita pra dividir um quarto, principalmente numa situação de véspera de prova. Como ela estava doente e é quase 20 anos mais nova que eu, brinquei de ser sua mãe . Também conheci a Simone e o André, casal de médicos de Jau, muito legais e várias outras pessoas. Nessas ocasiões, os hotéis, restaurantes, a feirinha ficam tomados pelos atletas e seus acompanhantes. As pessoas sabem que estão partilhando um momento especial de suas vidas e isso está no ar. É fácil começar a conversar: "puxa, será que o tempo amanhã vai estar assim?" "Vocês já pedalaram?" "O que acharam do vento?" Os locais, que estão recebendo a prova pela segunda vez, também pareceram estar mais interessados e com vontade de participar. No hotel em que fiquei, quando voltei, havia em cima da cama, uma mensagem de um aluno de quinta série, nos cumprimentando pela prova. Fiquei emocionada. E vou mandar um email pra ele – o Marcos Rodrigo, de 11 anos, da EE B Manoel Henrique de Assis.
O jantar que organizei junto ao seu Ardaldo, dono do restaurante Haus Heringer, também deu certo mais uma vez. Todo mundo foi, havia comida suficiente e o ambiente estava agradável, com a gente conversando, dando risada e relaxando antes da prova. Claro que dá pra melhorar. Achei o filé de frango meio duro e o molho um pouco apimentado. Mas seu Ardaldo mostrou ser uma pessoa que aceita críticas e sugestões, pois melhorou o atendimento em relação a 2008. Ano que vem, podemos melhorar ainda mais nossa parceria.
Tomei água, gatorade e comi uma grande quantidade de carboidratos por dois dias seguidos. Olhando as fotos, acho que consegui engordar antes da prova. Minha cara está bem cheinha! Dormi quase direto na noite da véspera. Acordei só no meio da madrugada pra um xixizinho básico e voltei a dormir até que o Fabio Rosa (técnico da MPR que estava lá acompanhando a prova) mandou um torpedo pra Paulinha mandando ela acordar.
Cheguei para marcar o número e fazer os últimos preparativos com tempo: abastecer quickdrink com água misturada com gatorade, colocar minha garrafinha de endurox, minhas bananinhas traficadas, alguns palitinhos de stiksy e três pedacinhos de batata cozida com bastante sal, embrulhados em papel alumínio (fora um monte de gel grudado na bike). Passei protetor solar (que não adiantou muita coisa – fiquei com uma linda marca nas costas), bodyglide pra não assar a nuca e chamois butter para não assar outras regiões mais delicadas.
Estava tudo tão certinho e sem sufoco que eu não estava conseguindo acreditar. Nem dor de barriga eu tive. (O intestino funcionou na hora e lugar certos). Pra não dizer que não me distrai, dei duas ratas. A primeira foi perceber que deixei o celular dentro da bolsinha da bike, na véspera, quando entregamos pra transição. Mas lembrei antes de estarmos muito longe, voltei lá e peguei sem problemas. A segunda foi na hora da largada. Quando estava chegando à praia, percebi que calçava os chinelos. Mas foi só voltar um pouquinho até onde ficam as sacolas e enfiá-los lá dentro.
Eu estava lá de novo e sabia o que me esperava. Estava excitada, mas sem nó no estômago.

No mar
Assim como no ano passado, foi uma pancadaria. O percurso era o mesmo. Um Y, ou melhor, um cabide de ponta-cabeça, sem o gancho. A primeira bóia marca o “pescoço” do cabide. Até aí muito empurra-empurra, um passando por cima do outro, mas tudo bem. Mas a segunda bóia que é o “cotovelo” do cabide... Nossa! Que sufoco. Tomei três socos na cabeça. A Nilma levou um gancho de esquerda no supercílio direito que arrancou seus óculos e a deixou com cara de mulher de malandro. Depois dessa bóia, as coisas acalmaram um pouco. Por outro lado, o mar se agitou. Terminei em 36m25s. 1min e 25s acima do ano passado.

T1
Fiz uma transição quase lenta. Por engano, quase levei a sacola da Paulinha (ela era 110 e eu, 111) mas, felizmente, os voluntários estavam atentos e me fizeram dar conta do engano antes de eu ir pra tenda.
Vesti a luva, o capacete e os óculos. Levei as sapatilhas na mão e calcei na área de monte. Não quis arriscar.

Pedal
O percurso era um pouco diferente do ano passado. Melhor, eu diria, já que não entramos mais na cidade. Vento a favor na ida - subida boa parte do tempo - e contra na volta. Uma boa combinação. Havia um momento, entretanto, no final das pernas da volta (cada volta tinha 4 pernas: ida e volta grande, ida e volta menor, parecido com a avenida portuária, em santos) que não era descida, o vento estava contra e era bem chatinho e cansativo. Mas logo chegava perto do parque, onde tinha gente, torcida e até (argh!!!) cachorros na pista.
Crianças ao lado da pista passaram 5 horas clamando pelas caramanholas: “Garrafinha, tia! Dá a garrafinha, tia!” Chegava a incomodar, tamanha a insistência e a quantidade de insistentes.
A fiscalização de vácuo foi severa. Muitas pessoas foram penalizadas. Várias, injustamente. A impressão que deu é que queria mostrar serviço. O problema é que a arbitragem estava muito mal-formada e não sabia direito o que é, de verdade, uma situação de vácuo. A elite masculina, por sua vez, usou e abusou deste recurso e ninguém foi penalizado.
Eu não fui. Fiquei quase todo o tempo pedalando só. No começo estava embolado e havia situações em que era difícil evitar o vácuo. Mas fugi sempre que pude. Marcos, Nilma e Julinha não tiveram a mesma sorte e foram penalizados. Injustamente. Ao Marcos isso, infelizmente, custou-lhe a vaga para o mundial.
Eu queria ter mantido uma média de 32 km por hora, mas não consegui. Fechei em 31,5. Não foi mal. O ciclismo, numa prova longa como esta, é o que decide a prova. Se você exagerar, fica quebrado na hora da corrida. Se for muito fraco, fica para trás e não consegue recuperar tudo depois. É um equilíbrio delicado.
Também, para mim, é o momento que dá pra pensar. Felizmente nada a respeito de trabalho ou problemas domésticos. Mas sobre a relação com o esporte, o sentido de estar ali, se submetendo àquela provação (não é à toa que se chama “prova”), o prazer misturado com a dor, a sensação intensa do momento, misturada ao desejo de chegar ao fim. Cada perna completada é para ser comemorada, cada volta, então, é para ser riscada da lista que está na cabeça: agora falta MENOS de dois terços do pedal! E eu também pensava: no Ironman, isso vai ser só a metade... Será que eu agüento?
Terminei em 2h53m31s.

T2
Ali, fui mais rápida. Desta vez, troquei os cadarços de elástico por cadarços normais, o Asics pelo Mizuno, a meia nova por uma velha e fina. Deixei o tênis quse frou no pé. Coloquei o boné e sai fora.

Corrida
Três dias de celebra, duas doses de accelerade na véspera, muita hidratação e alimentação no pedal ou muito desejo reprimido de correr. Não sei qual destes fatores mais influenciou minha corrida.
Entrei num transe e fui. Estava quente. O vento, quando a favor, dão a impressão de que o ar está parado, envolvendo e sufocando você. Mas não liguei. Segui em frente. As lesões do pé deram um “alô”. Ignorei.
Emparelhei com a Aline, uma atleta forte e mais jovem, logo no começo da primeira volta (eram duas de 10,5 km) e fomos nos perseguindo até quase o final dela. Foi bom. Entrei um pace bem cadenciado, e, na segunda volta, pude apertar um pouco.
Passei pelo Fabio Rosa e ele, me surpreendeu mandando um “vai, Claudia!” em alto e bom som. Quem conhece o Fabio, vai entender porque da surpresa. Ele é um cara bastante contido. Fiquei ainda mais feliz quando ele me disse, depois da prova, que eu tinha corrido muito bem. Vindo dele, tem valor agregado.
Nos últimos 4 kms, apertei ainda um pouco mais. Eu não pensava em nada só em ir em frente, cada vez mais rápido. Ultrapassei varias pessoas, que ficavam espantadas com eu ritmo. Principalmente os homens. Fiz 1h48m20s.
Cruzei a linha de chegada dançando. Estava tocando uma música bem swingada e eu simplesmente parei e dancei. Dancei feliz.


Pós prova
É só alegria. Níveis de endorfina altíssimos, assim como o astral. A gente fica largada, na área de dispersão, falando bobagem, colocando gelo nas lesões, mostrando as bolhas, trocando impressões, se cumprimentando uns aos outros, comemorando numa festa de bananas, bisnaguinhas, biscoitinhos de quinta categoria, regados a gatorade, água e suco. Felizes e fedidos. Até a hora que a vontade de tomar um banho fala mais alto.
Telefonemas e muitos torpedos carinhosos. De colegas triatletas ou, simplesmente, de pessoas queridas e próximas que acompanham, com um misto de incredulidade e admiração, essas minhas odisséias.
De quebra, logo após o banho, recebi uma massagem das mãos de uma fadinha surfista e naturóloga, chamada Giordana. Não poderia ter sido melhor.
Chope, lula à doré e sorvete com Marcos e Paulinha. Mais chope no Haus Heringer, aí também com Nilma e Neto. Brindamos à saúde e à amizade.
Malas prontas, despedidas. Uma pitada de tristeza, porque chegou ao fim. Por outro lado, é reconfortante saber que poderemos viver situações semelhantes muitas e muitas outras vezes. É bom saber que ainda é possível ampliar o rol de amizades reais (não virtuais!) ou estreitar ainda mais os vínculos que começaram de forma despretensiosa e superficial. É um dos elementos que faz a vida valer a pena: bons amigos.
Finalmente
Fui muito bem. Abaixei meu tempo em 1min20s em relação ao ano passado. Acontece que a prova foi mais difícil. E isso é fácil de confirmar. Basta ver, por exemplo, que a Vanessa Gianinni, segunda colocada ano passado (e campeã neste), fez um tempo 4 minutos mais alto este ano. Isso já é motivo mais do que suficiente para eu ficar satisfeita. Este ano fiquei em décimo sexto na classificação geral feminina. Acontece que as 8 primeiras colocadas eram da elite.
Fiquei em segundo na categoria (eram apenas três) apenas um minuto atrás da primeira, que é a Silvia Paller. Atleta de responsa, notoriamente forte. Como ela não quis a vaga pra Clearwater, levei de novo.
Este sucesso foi muito importante pra mim. Durante o ciclismo me dei conta de algo muito perturbador. Tenho medo de repetir as mesmas provas. Ainda mais provas como estas, que acontecem apenas uma vez por ano. Aos 45 anos de idade meu desempenho, de um ano para o outro, pensei, dificilmente irá melhorar. Percebi que estava receosa de me comparar comigo mesma, um ano mais velha. O que sinto é que consegui vencer o tempo por mais um ano. De forma legítima. Sem roubar. Treinando, me cuidando e usando a cabeça.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Síndrome pré-prova - sintomas

Quase não consegui blogar hoje. Michelle Obama e Black, a albina, nossas coelhas de estimação, invadiram meu escritório e roeram o cabo do teclado. Resultado: ele não funciona. Peguei então o teclado do Theo emprestado, e aqui estou eu.
Já estou com a síndrome pré-prova. Você conhece? Eis alguns dos sintomas:

- Déficit de atenção. Você começa a fazer uma reunião, a pessoa à sua frente fala seriamente sobre a proposta de modificação do projeto que ela enviou ao jurídico mas ainda não teve uma resposta. Isso, continua ela, vai implicar num atraso no cronograma e o tempo está ficando curto. Tempo! Quando ela diz esta palavra, você começa a viajar (“tempo... que tempo será que vou fazer em Penha? Será que vai ser melhor do que no ano passado?”). A pessoa continua a falar. Você permanece impassível, com cara de paisagem interessada, mas está lááá em Penha.

- Conversa monotemática. “Bom dia, tudo bem?” diz alguém por educação, no elevador da empresa. “Tudo”, diz você, “mas eu estou com uma dorzinha no calcanhar, sabe? Não sei se vou poder fazer bem a prova no sábado, sabe? Porque no ano passado bla bla bla...”, continua você, para o espanto do motoboy que veio fazer uma entrega.


- Pesadelos com a hora da largada. Você está lá, mas esqueceu os óculos de natação. Ou não consegue chegar na praia. Ou não sabe onde diabos foi parar sua bicicleta. Terrível!


- Produção obsessiva de listas. Este é um sintoma clássico, associado ao medo de esquecer alguma coisa. Sou acometida por ele mesmo quando vou fazer uma provinha de 10 k. Ontem fiz 8 listas com os seguintes títulos: “de vestir”, “de ingerir”, “de passar”, “também não esquecer de”, “comprar antes de ir”, “sacola transição bike”, “sacola transição corrida”, “sacola natação”. Ta bom ou quer mais?


- Encanação redobrada com a alimentação. Será que não comi de mais? Será que não está faltando carboidrato nesta refeição? Xii, exagerei no doce! Será que não vai me dar um piriri??


- Dúvidas sobre a preparação. Você começa a se questionar sobre seus treinos: será que treinei o suficiente? Não deveria ter feito mais subidas além das 189 Químicas que fiz na semana retrasada? Meu volume de 70 kms por semana foi suficiente? Eu não deveria ter treinado mais vezes com a roupa de borracha? Não é aconselhável compartilhar esses delírios com seu técnico. Ele é capaz de deixar você sem condições de fazer a prova se souber disso.


- Contusões e doenças. Pisou no tapetinho do banheiro e ele deslizou? Você já se imagina caindo e quebrando o cóccix! Espirrou? Você já teme que seja uma pneumonia dupla (não tem tripla?), uma tuberculose ou (já pensou?) a gripe suína. Válido também para doença de filhos. E se um deles fica doente? Imagina a culpa da mãe judia! Largar o coitadinho com dor de barriga com o pai pra ir competir como amadora?


- Consulta diária à previsão do tempo. E olha que não é a da Josélia. Mas todo o dia a gente olha pra ver se não vai chover, se vamos sofrer com o vento ou se vai estar um sol de torrar. Como se tivéssemos algum poder de mudar o clima ao tomar conta dele assim, tão assiduamente.


Brincadeiras à parte, gosto muito de entrar neste clima pré-prova. Começo a descansar minha cabeça das coisas sérias do cotidiano e a me concentrar nas minhas oito listas e nas providências que tenho de tomar. Claro que dá ansiedade, receio de não conseguir preparar tudo a contento. Nisso, a idade e a experiência pesam a favor. Faço um planejamento e busco me organizar com antecedência suficiente não só para fazer as coisas com calma, mas, principalmente, para poder lidar com os imprevistos que, invariavelmente, acontecem.
Então é isso. Se eu não escrever mais esta semana é porque estou monotemática ou porque estou ocupada com a preparação.