Quando crianças, meninos e meninas sonham em ser bailarinas, jogadores de futebol, judocas, artistas de circo, guitarristas... E o uso do verbo “sonhar” não é mero acaso. Sonham com o palco onde vão brilhar, com o golaço que vão fazer, a faixa preta que vão vestir, os solos de guitarra que vão abafar. Sonham, iludem-se, criam fantasias. São crianças e conhecem apenas um lado dessas ocupações. O mais óbvio, aparente e sedutor. Por isso muitos pais e mães se decepcionam quando seus filhos vão animados ao primeiro treino ou primeira aula e já na segunda ou terceira querem desistir. Ao defrontar-se com sua primeira seqüência de “pliés”, a pretendente à bailarina percebe que não será tão simples e rápido conseguir dançar uma maravilhosa coreografia e encantar a platéia. O mesmo se dá com o pequeno guitarrista ao sentir que as pontas de seus dedos doem depois da simples e árdua combinação de dois acordes, que produziram um som surdo e desafinado tão distante daquele que ele imaginara tocar. Às vezes, depois de um tempo, quando começa a ter sucesso na aprendizagem daquela arte ou esporte, a criança começa a gostar e já não é mais preciso vencer uma batalha a cada aula ou treino. Ela vai com gosto. Começa a ter prazer em executar aquela pequena seqüência de pliés com perfeição ou a surpreender-se com os acordes que já não soam mais surdos. A ilusão vai se desfazendo e o que vai se delineando em seu lugar começa a interessar.
Outras vezes, não. O menino desiste de brigar, vai à aula ou treino, cumpre tabela mas não se entusiasma. Se pudesse optar, pularia fora na primeira oportunidade.
Como mãe, penso várias coisas a respeito disso, mas não vêm ao caso.
Os adultos
Nós, adultos, conhecemos mais sobre o mundo e seu funcionamento. Sabemos que as aparências enganam que, dificilmente o sucesso vem de mão beijada e que deus ajuda quem cedo madruga.
Então, nós, adultos muitas vezes paramos de sonhar. Não nos vemos fazendo algo diferente, ousado, difícil. Por achar que nos conhecemos bem, deixamos de nos atrever, de testar nossos limites. Por outro lado, não estamos livres das ilusões. Elas ainda nos seduzem de diversas formas: na idéia de que poderíamos ter outra carreira que nos fizesse mais feliz ou uma mulher mais bonita, (ou um marido mais sensível), uma grama mais verde que a do vizinho...
Sonhando com o Ironman
O triathlon – principalmente o Ironman – desperta os sonhos dos adultos. Alguns logo pensam “não é para mim”, outros se imaginam cruzando a linha de chegada. Os primeiros, que acham que não é possível, não lembram a incrível capacidade humana de aprender, de resistir, de se superar. E os outros, não imaginam as inúmeras horas que terão de ser passadas com a bunda no selim, nos zilhões de ladrilhos contados no funda piscina, nas corridas pra longe da família e dos amigos.
Mas, tanto uns como outros, só irão compreender a essência do triathlon - e depreender algum prazer dela -, se persistirem por algum tempo. Pode ser que rapidamente a ilusão se desfaça e alguns voltem pra sua modalidade favorita ou, ao contrário, cada passo seja encarado como uma pequena vitória, cada pequeno aumento no volume de treino como superação de um desafio e tudo isso vai, aos poucos, revelando para o novo adepto novidades a respeito dele mesmo.
Sonho realizado
Não sei quanto a vocês mas me lembro que o Iron era um sonho distante quando comecei a treinar.
Também não imaginava a dimensão que o triathlon teria na minha vida. As duas coisas foram se consolidando aos poucos e simultaneamente. Na medida em que fui me vendo capaz e gostando de aumentar o volume de horas com a bunda no selim, o número de ladrilhos contados e a quilometragem das corridas, a possibilidade de fazer o Iron foi despontando na paisagem.
E é muito curioso como tornei algo que me parecia sobre-humano, possível. Sonhar é importante, mas mais do que acreditar no sonho é necessário des-iludir-se. Ou seja, apreciar cada parte do esforço, desmontando a ilusão e transformando em real-ização.

























