Mostrando postagens com marcador treinos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador treinos. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de março de 2011

Ilusões e sonhos

A aula de balé

Quando crianças, meninos e meninas sonham em ser bailarinas, jogadores de futebol, judocas, artistas de circo, guitarristas... E o uso do verbo “sonhar” não é mero acaso. Sonham com o palco onde vão brilhar, com o golaço que vão fazer, a faixa preta que vão vestir, os solos de guitarra que vão abafar. Sonham, iludem-se, criam fantasias. São crianças e conhecem apenas um lado dessas ocupações. O mais óbvio, aparente e sedutor. Por isso muitos pais e mães se decepcionam quando seus filhos vão animados ao primeiro treino ou primeira aula e já na segunda ou terceira querem desistir. Ao defrontar-se com sua primeira seqüência de “pliés”, a pretendente à bailarina percebe que não será tão simples e rápido conseguir dançar uma maravilhosa coreografia e encantar a platéia. O mesmo se dá com o pequeno guitarrista ao sentir que as pontas de seus dedos doem depois da simples e árdua combinação de dois acordes, que produziram um som surdo e desafinado tão distante daquele que ele imaginara tocar.
Muitos desistem. Alguns, com a firmeza e empenho dos pais, permanecem, ainda que a contragosto.
Às vezes, depois de um tempo, quando começa a ter sucesso na aprendizagem daquela arte ou esporte, a criança começa a gostar e já não é mais preciso vencer uma batalha a cada aula ou treino. Ela vai com gosto. Começa a ter prazer em executar aquela pequena seqüência de pliés com perfeição ou a surpreender-se com os acordes que já não soam mais surdos. A ilusão vai se desfazendo e o que vai se delineando em seu lugar começa a interessar.
Outras vezes, não. O menino desiste de brigar, vai à aula ou treino, cumpre tabela mas não se entusiasma. Se pudesse optar, pularia fora na primeira oportunidade.
Como mãe, penso várias coisas a respeito disso, mas não vêm ao caso.

Os adultos
Nós, adultos, conhecemos mais sobre o mundo e seu funcionamento. Sabemos que as aparências enganam que, dificilmente o sucesso vem de mão beijada e que deus ajuda quem cedo madruga.
Então, nós, adultos muitas vezes paramos de sonhar. Não nos vemos fazendo algo diferente, ousado, difícil. Por achar que nos conhecemos bem, deixamos de nos atrever, de testar nossos limites. Por outro lado, não estamos livres das ilusões. Elas ainda nos seduzem de diversas formas: na idéia de que poderíamos ter outra carreira que nos fizesse mais feliz ou uma mulher mais bonita, (ou um marido mais sensível), uma grama mais verde que a do vizinho...

Sonhando com o Ironman
O triathlon – principalmente o Ironman – desperta os sonhos dos adultos. Alguns logo pensam “não é para mim”, outros se imaginam cruzando a linha de chegada. Os primeiros, que acham que não é possível, não lembram a incrível capacidade humana de aprender, de resistir, de se superar. E os outros, não imaginam as inúmeras horas que terão de ser passadas com a bunda no selim, nos zilhões de ladrilhos contados no funda piscina, nas corridas pra longe da família e dos amigos.
Mas, tanto uns como outros, só irão compreender a essência do triathlon - e depreender algum prazer dela  -, se persistirem por algum tempo. Pode ser que rapidamente a ilusão se desfaça e alguns voltem pra sua modalidade favorita ou, ao contrário, cada passo seja encarado como uma pequena vitória, cada pequeno aumento no volume de treino como superação de um desafio e tudo isso vai, aos poucos, revelando para o novo adepto novidades a respeito dele mesmo.

Sonho realizado
Não sei quanto a vocês mas me lembro que o Iron era um sonho distante quando comecei a treinar.
Também não imaginava a dimensão que o triathlon teria na minha vida. As duas coisas foram se consolidando aos poucos e simultaneamente. Na medida em que fui me vendo capaz e gostando de aumentar o volume de horas com a bunda no selim, o número de ladrilhos contados e a quilometragem das corridas, a possibilidade de fazer o Iron foi despontando na paisagem.
E é muito curioso como tornei algo que me parecia sobre-humano, possível. Sonhar é importante, mas mais do que acreditar no sonho é necessário des-iludir-se. Ou seja, apreciar cada parte do esforço, desmontando a ilusão e transformando em real-ização.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cada macaco no seu galho ou Onde os macacos se encontram


Cada macaco... (ilustração tirada do Blog Sopa de Idéias)
 O triatleta é um espécime bastante peculiar que pode ser visto em bandos nas madrugadas da USP, em cima de bicicletas, em algumas trilhas do Ibirapuera e em academias da cidade. São os habitats onde se pode encontrá-los com mais freqüência, pois é onde ficam à vontade. Ou, como reza a música, o “galho” onde deve ficar cada macaco.
Entretanto há situações que em que é necessário compartilhar o galho e isso promove encontros, no mínimo, inusitados.

Estrada dos Romeiros
Como o próprio nome diz, a estrada é deles. Assim, pelo menos uma vez por mês, eles vêm aos montes, simulando uma ida à Roma, carregando em suas carroças aparelhos de som turbinados de onde bradam músicas sertanejas narrando histórias tristes de amores, despedidas, jornadas, saudades, amigos e, claro, cavalos. Estes, e seus primos jumentos, também fazem parte do tour religioso. Ao longo da pista é fácil identificar os rastros que deixam pelo caminho. Há também bicicletas paramentadas com chupetas(?), ursinhos de pelúcia e outros souvenires intrigantes. Participam jovens, velhos, crianças, mulheres, chapéus, bonés, garrafas de cachaça, cobertores, estandartes, berrantes e até santos e santas.
E, de repente, no meio deste happening, surgem os triatletas, também fazendo sua peregrinação. Nossa Meca é outra: Hawaii, mas nos contentamos em sonhar com Floripa, Pirassununga ou, simplesmente, Santos. Mas nos vemos ali, dividindo o chão com outra turma. Eles nos olham espantados, rapidamente notam que não pertencemos à romaria deles mas, os mais atentos, perceberão que também há devoção em nossos olhos. Assim, na maioria das vezes, não há brincadeiras de mau gosto ou atrevimento. Seguimos cada qual com seu Deus, com sua oração, mantra ou ladainha (WIT- what it takes é a de alguns).
No final, pagamos nossos pecados na subida do “cala a boca”, enquanto os romeiros pagam suas promessas.


Riacho Grande – os cantores de karaokê
Ali, ao lado da represa, enquanto tiramos a bike do carro, vestimos capacete e sapatilhas, abastecemos as caramanholas e passamos protetor solar, a música no boteco em frente rola alta e umas poucas vozes desafinadas denotam o clima de fim de festa. Uma moça, vestida a caráter (ou seria melhor dizer falta de?), sai de dentro trançando as pernas. Sem a menor cerimônia, ela vomita. Num carro ali perto, um rapaz e uma moça fumam, discutem, gritam um com outro e ela chora. Sua maquiagem já se transformou numa máscara de pierrô.
Por uns 20 ou 30 minutos, triatletas e karaokeiros (karaokistas??) compartilham o estacionamento. Os primeiros começando o dia enquanto a família dorme, entre planilhas e quilômetros, suplementos e endorfinas, os outros, terminando a noite, enquanto a família dorme – entre tapas e beijos, cigarros e vômitos.
A troca de olhares entre os dois grupos não chega a ser hostil, mas não é tampouco amistosa. Parece que cada um olha para o outro e pensa: como eles podem viver assim?


Riacho Grande – pescadores
Tá estressado? Vai pescar! São os dizeres do adesivo que decora o Voyage 89 estacionado à beira da represa. Eles também levantam cedo, munem-se de paciência, alimentos, equipamentos e rumam pra beira da Billings.
A maioria instala-se ali, ao lado da ponte, já perto da entrada do parque. Pescam, mas a também fazem churrasco, levam a família, nadam e (já não se fazem mas pescadores como antigamente) colocam o som do carro alto e estridente no volume máximo.
Nós triatletas passamos pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, sentimos o cheiro da carne sendo assada, ouvimos a algazarra das crianças na água, observamos aquele pescador que, como nós, persiste em sua atividade, incansável. Somos observados por eles com crescente indiferença a cada volta. Eles se acostumam como nosso ir e vir, nós nos acostumamos com o ficar deles.

Na praia

Biquínis mínimos, sungas e calções de tamanhos variados, grande profusão de barrigas máximas.. Eis que... O que é aquilo? Um pingüim? O Aquaman? Um ET? Não. Magro e emborrachado dos pés à cabeça, é um triatleta pronto para treinar.
Longe da beira, pra não trombar com os banhistas, o triatleta muitas vezes é perseguido e admirado por remadores (eventuais) de caiaques e botinhos de borracha, que costumam se aproximar pra ver que espécie de animal aquático é aquele.
O convívio costuma ser pacífico. Já a aproximação de lanchas e jetskis pode deixar o triatleta nervoso e agitado.


Ciclovia

Placa na ciclovia - (do blog De Verde Casa)
Muito se engana aquele que imagina que na ciclovia da CPTM os triatletas compartilhem o galho, digo, a pista apenas com seus parentes próximos – os ciclistas.
Ali os habitantes são outros mamíferos: roedores. As placas avisam logo no início do trajeto: cuidado com os animais silvestres – capivaras. E lá estão elas, tomando sol à beira do perfumado Rio Pinheiros, sem tomar conhecimento dos primatas sobre rodas.
Mas não são apenas as simpáticas capivaras que freqüentam o pedaço. Outros roedores, nada simpáticos, também atravessam a pista sem a menor cerimônia. Outro dia estávamos por ali e o mesmo rato (que parecia mais um cachorro) cruzou a pista na nossa frente três vezes.
Eca.

Outras
Estas são algumas situações permanentes em que invadimos ou compartilhamos os galhos alheios. Mas há outras, mais esporádicas: entrar no banheiro do posto de gasolina no meio de uma estrada – suada, de capacete e sapatilhas – enquanto o pessoal que veio de ônibus lá de Aparecida faz uma parada. Aparecer na piscina da academia com a roupa de borracha pra fazer um treininho pré prova. Parar no meio de um longão na chuva, ensopado e entrar numa padaria qualquer pra comprar um gatorade.
Por um lado, a gente vai se acostumando com os olhares incrédulos, mas, por outro, é preciso tomar cuidado pra não achar que somos mais donos dos galhos do que os outros macacos que os freqüentam conosco. Com exceção, é claro, do que não são macacos, são ratos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Rápidas e rasteiras

Saí de férias e abandonei este blog. Pensei que iria ter mais tempo de escrever, mas incrível como a gente consegue se ocupar com tanto tempo livre. Quando se vê, o dia já foi e ainda é preciso providenciar jantar, traçar o jantar e ainda convencer os pequenos a irem pra cama. Na hora em que o movimento termina, só penso em dormir.

E como tenho dormido. Sem neuras. Treino na hora que dá. Estou descansada.

Levei meus filhos para aprender a surfar em Camburi. O professor, um surfista mais do que experiente e velho amigo meu - Rikka Costa, não só domou as ferinhas como conseguiu me convencer a tentar subir na prancha. E não é que eu consegui? Tá certo, foram três vezes, era um LONG BOARD mas eu fiquei em pé! É bom não ter medo de aprender coisas novas.

A filhinha adotada este ano – a Julinha – veio passar uns dias com a gente. Esta “adoção de coração” foi uma das melhores coisas de 2010.

E por falar em Julinha, dia desses aqui na praia, fomos dar uma corrida em Maresias. Fomos de carro até lá porque por aqui a estrada não tem acostamento e lá tem. Mas o movimento estava intenso, mesmo antes das 8 da manhã, e não foi um treininho propriamente relax. Uma hora mais ou menos depois que terminamos aconteceu um acidente feio por lá. Um bêbado, sem carta, resolveu fazer uma ultrapassagem bem no meio da muvuca. Pegou um cara de frente, em cheio. Parece que matou uma mulher. Péssimo.

Virei o ano bebendo, comendo chocolate e até um franguito à passarito de vez em quando. Vou voltar pra Esparta paulatinamente. Primeiro a cair fora: álcool.

Como é de praxe quando estamos na praia, enviamos uma embarcação com pedidos para Iemanjá. Fiz um pedido BEM EGOÍSTA. Óbvio, não vou compartilhá-lo com vocês. Por outro lado, minha promessa é pública: pretendo ser mais gentil este ano. Em primeiro lugar, com meu parceiro de vida mais próximo e importante: o marido, em segundo, com as pessoas. Copiei a idéia de uma amiga - Ana Castro. A meta é pelo menos uma gentileza por dia.

Terminei o ano esportivo com uma mudança importante: de técnico. Depois de quase quatro anos com o Emerson Gomes, passo a ser atleta do Wagner Spadotto. Continuo amando o Emerson e sei que fizemos um ótimo trabalho mas, como disse a ele, já me conformei com o fato de que tenho vários homens fixos na minha vida. O marido, por exemplo, não pretendo substituir pra dar uma variada... Mas o técnico, aí é possível!

O Wagner é um cara sério e competente. Neste ano conseguiu estar entre os poucos triatletas classificados pra Kona. E não só isso. Foi lá e fez bonito. Mas não foi por esta razão que eu quis tê-lo como técnico. Na verdade sinto que tenho uma grande afinidade com ele e que será muito interessante mudar a forma de trabalho. Serei mais exigida. Vamos ver.

O melhor post do ano é o que está no blog da Thelma. Não deixem de ler.

Então foi dada a largada pra temporada 2011. Não sei bem ainda o destino deste blog. Percebo que estou com vontade de escrever sobre outros temas que não os treinos e provas. A ver o que acontece.

Como não poderia deixar de ser, meu voto para 2011 é que as pessoas estreitem seus laços e alarguem seus horizontes.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Na minha companhia

Nos últimos tempos tenho fugido do assunto "treinos". Não só porque estava meio café-com-leite mas também porque outros assuntos me pareceram mais interessantes e relevantes. Mas hoje volto às origens.
Terminei as sessões de fisio, voltei a nadar,  mas o ombro ainda está se recuperando. A cirurgia foi apenas há dois meses. Meus joelhos estão sub judice desde o Iron. Não posso abusar. Isso tudo diminuiu meu rendimento cárdio - respiratório. Ganhei um pouquinho de peso.
Tenho treinado bastante na minha própria companhia. Não porque não goste de parcerias - muito pelo contrário - mas porque estou num momento de readaptação em que preciso, mais do que nunca, prestar atenção nos sinais que o corpo me dá e  adequar meu ritmo a essas informações. Perto dos outros, conversando, tentando acompanhar, me distancio de mim mesma.
No domingo de feriado, fui para Romeiros. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que eu não ia. Minha primeira e única tentativa de ir este ano foi frustrada. No pedágio o carro pifou e acabei indo pra USP.
Além do meu marido, estavam mais três colegas de MPR fortes e animados - Daniel, Marquinhos e Flávio. Sai do carro, me arrumei e dei adeus. Sabia que eles me alcançariam, passariam e deixariam bem pra trás, portanto, quanto antes eu saísse, menos eles teriam de me esperar na volta. Eles ofereceram companhia, acharam que eu estava antissocial, mas não era nada disso. Simplesmente não queria fazer nenhuma concessão em matéria de ritmo: iria muito devagar pra não detornar joelhos nem sentir dores no ombro.
E lá fui e fiz 70 kms solitária. Sem sofrer. Fiz Romeiros sem sofrer! Está certo que não vou contar qual foi minha velocidade média mas, pra vocês terem uma idéia, mal suei.
Dois dias depois, na terça do feriado, estava em Igaratá e resolvi fazer um longuinho de 18k. Saí, como sempre, do sítio dos meus sogros e rumei pela terra até a estrada de asfalto que liga Igaratá a Santa Isabel. Normalmente sigo em direção à Santa Isabel e, embora a paisagem circundante seja agradável a estrada não tem acostamento e vou pela contramão meio tensa, pois caminhões e "pois zés" cruzam comigo sem cuidado e sem desacelerar.

Estrada do Rio do Peixe
 Não costumo ir em direção à Igaratá porque é um trajeto muito curto, de cerca de 1,5 km, então não vale a pena. Mas nesse dia decidi ir pra lá primeiro, antes de rumar pra direção oposta. Ao chegar no portal da cidade em vez de fazer meia volta, segui em frente. Passei pela pracinha, pela rodoviária, pelo supermercado. Ou seja, cruzei a cidade inteira. Então reparei numa placa que nunca tinha visto antes: Estrada do Rio do Peixe, Igaratá Velha  6 km.  Por que não? pensei. E fui embora pela estrada. Asfalto precário e esburacado mas um entorno de colinas íngremes, pequenos sítios, flores, exemplares de araucária e, de vez em quando, uma nesguinha da represa (ou seria o tal Rio Verde?). Senti-me em Campos do Jordão. Pra completar, quase não me deparei com veículos motorizados. Mudei a trilha sonora animada e eletrônica e substitui por Norah Jones e Kevin Johansen pra combinar com o clima bucólico. Naquela toada, infiltrada naquela paisagem entrei naquele transe que só quem corre sabe como é. Um transe em que você fica completamente sintonizado com seu corpo mas, ao mesmo tempo, está integrado ao ambiente como se fosse a atmosfera que está nele e onde ele está: perfumes, cores, texturas, formas. Meu desejo era seguir por horas a fio, confundida com aquele lugar.
Sabia que não poderia correr adiante por tempo indeterminado.  Uma hora teria de voltar sob pena de me machucar. O que me consolou foi pensar que na volta, veria a mesma estrada de um ângulo diferente e também o fato de que poderei retornar ali quando for a Igaratá. Mas, na próxima, deixo o carro na cidade, de lá pego a estrada e vou até...?
Na sexta passada fui correr pelas ruas de São Paulo logo ao amanhecer. Lá pelas tantas, cheguei à entrada do Minhocão e, vejam só, ele ainda estava fechado para o tráfego. Faltavam 15 minutos para abrir. Não tive dúvida. Tive o privilégio de correr solitária pelo Elevado, enquanto a cidade despertando, se agitava logo abaixo dos meus pés e me espiava sonolenta das janelas dos prédios ao redor. Calculei o tempo exato para não ser pega de surpresa pela abertura da cancela. Imaginar-me ilhada no viaduto com os carros passando rentes a mim não era nada convidativo. Desci a rampa no instante em que o o marronzinho da CET se encaminhava para abrir o portão. Uma caravana de carros aguardava impaciente.

Treinar junto com outra pessoa é divertido. Conversamos, rimos, brincamos. Mas nos distraímos, desconectamos do nosso corpo, das nossas sensações, da percepção do que está em volta. Algumas sensações só conseguimos ter se estamos focados naquilo que estamos fazendo, se sairmos do verbal, pararmos de pensar em palavras e nos concentrarmos no sensual (relativo aos sentidos, não à sexualidade). Em nossa exclusiva companhia, na cidade adormecida, no campo desconhecido, por entre as curvas de Romeiros é possível aprender um pouco mais sobre a gente mesmo e sobre o mundo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Quem quer treinar comigo?


Quando comecei a treinar pro Iron e percebi que era a única “menina” do meu grupo que estava inscrita  pensei que iria fazer muitos treinos sozinha. Puxa, como me enganei!


Têm sido raros os treinos solitários. Tão raros que, quando eles aconteceram, achei bom porque estaria treinando a cabeça, já que a prova, mesmo com 1500 participantes, é cada um na sua.

Cada vez que vou fazer um treino, mando um torpedo pra várias pessoas, publico no facebook, convido pessoalmente. E tive adesões, sempre.

Muitas pessoas adaptaram ou encompridaram seus treinos para me acompanhar Achavam ótimo começar mais cedo, terminar mais tarde, treinar mais... E eu acho ótimo ter a companhia delas.

A Thelma me fez companhia na USP, quando ainda estava sob suspeita (tomando anticoagulante) naquele domingo que o pneu furou a caminho de Romeiros e estava um sol daqueles. Também encarou um longuinho na Aclimação, impondo um ritmo forte pra mim e pro Zé. O Zé foi outro parceirão. Era um cara simpático com quem eu havia trocado meia dúzia de palavras e quando soube que ele estava treinando pra Big Sur e que iria ter grandes volumes de corrida, combinamos uns treinos juntos. Foi ótimo! A gente ia batendo papo e quando se via... os 20 kms já tinham acabado num instante. Vez o outra chamei o pessoal pra começar mais cedo e, além do Zé, o Marquinhos, a Julinha e o Ricardinho também entraram na turma do comando da madrugada, sextas-feiras, no Ibira. O Marquinhos é impressionante! Topava todas. Estando em SP, vinha mais cedo pro Ibira ou mais cedo pro pedal. O Marcos também é da turma que madruga mais ainda no pedal, principalmente aos sábados. Vamos chegar 5h30? Borá lá!!

Roi, meu marido, também me fez companhia nas primeiras sonolentas voltas da USP, nas 3ª e 5ª quando não tem quase ninguém pedalando, me ajudando a dar conta do volume e sem ficar discutindo a relação nem resolvendo questões domésticas. Simplesmente papeando sobre amenidades.

Ricardinho, vulgo cachorro louco, não só entrou no comando da madrugada de duas sextas-feiras como também me acompanhou num tiro de 800 mts quando todo mundo já tinha terminado, inclusive ele, e eu ia sozinha pro último. Tiro não é bolinho. De 800, então... Se não fosse ele, eu não conseguiria ter feito com o tempo menor que dos anteriores! Isso sem contar que, mesmo colocando os bofes pra fora o cara consegue falar cada bobagem que a gente, mesmo se esfalfando, não consegue deixar de rir. E ele faz isso com o tom de voz mais sério do mundo.

Nos treinos de pedal tive muitas companhias especiais. O sempre disciplinado e eficiente pelotão das meninas com Tarsila, Mariana, Julinha (ói ela aqui de novo), Gra (fez comigo o segundo lote de 40 km, hoje), Dani (bissexta), Paulinha filhinha (que é bissexta também, mas hoje até acrescentou 5km pra me ajudar na reta final - que estava duríssima!) e Patê. As sessões de “pedalterapia” que tornavam o treino um tremendo exercício não só cardiorrespiratório mas também psico-sócio-afetivo! Meninas, aquele treino no Riacho teria sido insuportável sem vocês.

Fabio, como o Marquinhos, sempre topando todas as propostas de pedal e disposto a puxar o pelotão pelo tempo que fosse necessário.

Lester, que me deu o maior apoio naquele treino em Alphaville, debaixo da chuva, ficando o máximo de tempo comigo (tinha um churrasco na casa dele naquele dia!) e dizendo “agora falta pouco, você dá conta!” Isso sem falar nos meus 160 de hoje (sábado, 24). Ele apareceu quando eu já tinha feito mais de 100, naquele momento crucial,  dizendo "lembrei que vc tinha 160, então resolvi vir mais tarde pra dormir um pouco e te ajudar a fazer os kms finais!". Não é um luxo? Veio, fez e ainda me alimentou com bananinhas e goiabinhas porque dessa vez eu não tinha levado comida suficiente.

Também conheci gente nova, como o Evandro, que me acompanhou nos derradeiros 40 kms dos 140 da Carvalho Pinto e depois numa corridinha poeirenta de 5k, com quem a conversa fluiu fácil e gostosa, me ajudando a esquecer o cansaço.

Reencontrei o Victor, que me acompanhou na rabeira do pelotão, no meu ritmo geriátrico, sem achar ruim. Mais que isso: conversamos como velhos amigos, como se estivéssemos sentados num café.

Tem gente com quem treinei e conversei em porções menores, mas que também teve um gostinho bom: Flavinho, Leandro, Beto Bianchi, André Rapaport (hoje ´me ajudou nos 40 iniciais), Ligia, Rodrigo Esper, Rafael (em Florianópolis). Tiveram as surpresas, sobre as quais já falei: Mari Prado, Diglu e Alexei. As ausências e distâncias: Cris Dresbach, Nilma, Nickolas.

E a campeã. Minha filhinha do coração, Julia. Ela não só me acompanhou, como me esperou terminar o pedal no dia da chuva em Alphaville pra correr junto. Ela tem feito quase todas as corridas de transição comigo, sempre me arrastando atrás dela. O que vai ser de mim sem ela na maratona do Iron?

Estou entrando na reta final dos treinos. São mais nove dias de pauleira, depois já começa a diminuir. Passou muito rápido e tem sido muito, mas muito legal. Não só porque tenho me sentido muito bem mas, principalmente, porque os treinos tem sido uma experiência intensa. E têm sido legais porque as pessoas são legais. Sei que ainda não terminou, mas já sou grata a todos vocês pelo que pude viver até agora. Valeu, pessoal, tenho certeza de que vou me lembrar de cada um de vocês enquanto estiver fazendo o Iron.

domingo, 18 de abril de 2010

Ironmarriage


Casamento já não é fácil sem triathlon. Quando o casal gosta de esportes, de treinar e competir, isso pode parecer ótimo à primeira vista mas quando se tem um monte de filhos...


Sim, concessões, negociações, estresse fazem parte do cotidiano de qualquer casal com filhos. E treinos serão mais um tema para pauta de negociações. Seja porque um gosta de treinar e o outro não, seja porque os dois gostam e o tempo que se passa com os filhos tem de ser colocado na balança.

O Ironman e, principalmente, os treinos preparatórios para ele, são uma prova de fogo para os casamentos. Já ouvi algumas histórias de mulheres que colocaram seus respectivos na parede: ou eu ou ele – o triathlon. Triathlon, de modo geral consome um bocado de tempo, mas os meses que antecedem um Iron, são ainda piores. Porque se você tem uma horinha dando sopa, não vai querer ir ao cinema ou jantar na casa do cunhado. Descanso! Tudo que se quer é relaxar um pouco. Ai ai ai como a gente vai ficando insuportável.

No meu caso, a decisão de fazer o Iron foi negociada no ano passado. Fizemos algumas mudanças na casa: a TV saiu do nosso quarto e foi pra sala – de modo que eu pudesse deitar cedo e ele pudesse ver TV sem atrapalhar meu sono, estendemos o horário da Dilma, para que nós dois pudéssemos treinar aos sábados, e estabelecemos que a prioridade de treino aos domingos seria minha. Caso ele quisesse competir ou treinar, teria de providenciar um “plano B” para os kids.

No meio disso tudo, ele começou a fazer um curso às segundas e terças à noite. Então, tenho ficado no horário do rush noturno praticamente todas as noites da semana: jantar, colocar no banho, tirar do banho, mandar escovar os dentes, por pra dormir uma vez por semana aparar todas aquelas unhas e passar fio dental em todos aqueles dentes. Ah, e tudo isso evitando o derramamento de sangue. Na presença da mãe, ficam todos muito bélicos!

Mas, como dizem os ingleses (ou talvez os americanos) so far, so good. Depois de um período inicial meio conturbado, estamos conseguindo viver o dia a dia sem grandes estresses. Estamos, nós dois, estreitando nossos laços. Ele tem me apoiado, me compreendido, me poupado nestes fins-de-semana que chego absolutamente imprestável, do treino. Por outro lado, tenho estado atenta para fazer tudo que posso nos momentos em que não estou tão cansada assim. Então, depois de uma horinha de gelo e descanso, me levanto e improviso um almoço, dou um trato na louça ou aproveito pra jogar alguma coisa com os meninos. E, se ele quer correr, por exemplo, vai, enquanto eu acabo de dar o café da manhã pros caras.

Mesmo com toda a pauleira, tenho me sentido muito bem. Especialmente feliz e bem humorada e tenho levado isso pro meu casamento. E ele tem cumprido a sua promessa de início de ano, de não criticar meus treinos, meu modo de vida e me ajudar no que fosse possível.

Por incrível que pareça, os treinos não nos afastaram e nem têm desgastado nosso casamento. Ah, sim, e a libido não diminuiu, viu garotas?! Muito pelo contrário... Portanto, como tudo na vida, o truque é transformar em mais um desafio a ser superado e sair da prova com um Ironmarriage.

sábado, 3 de abril de 2010

Chove chuuuva ou o azar que vira sorte


Estava toda animada com o pedal de 150 km que iria fazer hoje na Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Tinha acertado com um amigo que faria a escolta, combinado com outros atletas, meu marido também ia... Já tinha preparado toda minha alimentação e suplementação. Fui dormir cedo. Estava tudo certo.  Só faltou combinar com São Pedro. Na madrugada começou o dilúvio. Amanheceu com uma garoinha besta, o céu parecia que estava clareando mas não dava pra confiar. O problema de ir pra estrada com essa chuvinha não é só de tomar um chão mas, principalmente, de os carros derraparem e irem parar em cima de você.  Não dá pra arriscar. Tenho quatro filhos, gosto da minha vida. Em nome de quê vou fazer uma dessas?
Fiquei chateada. Afinal, fiquei aqui em São Paulo sozinha, pra poder treinar e descansar adequadamente. Bateu até aquela culpa "eu bem que poderia ter ido viajar e ficado com meus filhos já que não vou aproveitar o tempo pra treinar".
Então parti pro Plano B. Corrida na USP. O longo de 26 km era pra ser amanhã, mas tenho a esperança de que o tempo melhore e dê pra pedalar em Alphaville - portanto decidi resolver esta parte hoje mesmo.
Já estava até conformada com o fato de ir correr solitariamente e em silêncio. Meu IPod está sem bateria e o filhote mais velho levou o cabinho. Paciência.
USP estava vazia. Feriado e com chuva, só os doentes mesmo. Lá fui eu para os meus 10 confortável + 10 moderado terminando com 6 leve.
Primeiro, encontrei a Maria. Estava no 5º km. Maria trabalha no mesmo lugar que eu, tem 56 anos, está enxutaça e tem um humor escrachado que deixa seus superiores roxos de vergonha de vez em quando. Ela corre naquele passinho despreocupado, de quem não está muito aí com performance. Hoje, surpreendentemente, ela estava um pouco mais forte. Mesmo assim, tive de desacelerar pra conversar com ela um tiquinho. Ela acabou de chegar de Portugal. Fez 7 km da Meia Maratona e depois foi passear. Como sempre, estava naquele alto astral. Terminei a volta dela - que já estava chegando ali no Instituto Oceanográfico e parti pra Biologia, por recomendação do meu técnico, Emerson. "Vai lá, faz uma vezinha. Você vai lembrar disso e me agradecer quando estiver na subida da Canasvieiras". Ok. Motivo bom o suficiente. E não tenho medo de subida, não. Só não queria me matar de cansaço pra ter energia pro pedal que VOU FAZER amanhã.
Subi e desci por lá mesmo. Foi a sorte. Lá embaixo encontrei minha querida amiga Mariana que corria junto com um superironman, o Diglu. Emparelhei com eles e fomos batendo papo por uns 7, 8 kms. Ritmo bom, papo ótimo. O Diglu fez 11 irons, inclusive o do Havaí. A Mari já fez dois. Quem tem experiência sempre tem dicas boas. A do Diglu foi a seguinte : "Embora o pedal seja a parte mais longa, a prova se define é na corrida. A hora de fazer força é depois de pegar a segunda pulseirinha!". Anotado, Diglu!
Eles terminaram os 28 km deles. Eu ainda tinha 14. A chuva apertou, mas a temperatura estava ideal. Segui por mais 8 kms, puxando o ritmo um pouco. Então foi até bom estar só, porque não dava pra conversar.
Ao completar os 20, parei pro abastecimento no ponto da MPR e lá estava uma figura, todo de preto, que comentou que iria rodar 60km. Veja bem. Não de bike. Correndo. Eu engasguei e não me contive: "Eu ouvi bem? Você disse 60 km?". Ele confirmou, agradeceu a água e continuou sua jornada.
Recomecei a minha e logo emparelhei com ele. Perguntei seu nome e fomos conversando quase até o final do meu treino.
Ele se chama Alexei, deve ter uns 35 anos e é do clube restrito dos ultramaratonistas. Do meu parco conhecimento sobre esses seres, ele não fugiu à regra: é meio zen. O mais fantástico: ele tem diabetes desde os 4 anos de idade. Imagina só. Se já é difícil a alimentação de um ultramaratonista "normal", o que dirá de um diabético? Surpreendente. A sintonia que ele tem de ter com o próprio corpo precisa ser muito, muito fina e acurada. Não existe um rol de conhecimentos construídos e nem muitas pesquisas sobre este tipo de coisa. Pessoas como Dean Karnazes, por exemplo... Quem é que pode prescrever um treino e uma dieta para ele? São casos excepcionais, raros.  Os caras tem de pesquisar neles mesmos, trocar informações entre si. Alexei trabalha na área de saúde então ele mesmo examina alguns de seus marcadores sanguíneos.
Terminei meus 26. Ele tinha mais 20 pela frente. Nos despedimos. Com certeza vou cruzar com ele por aí.
Enxarcada, cansada e feliz. Mais uma vez, reverti minha sorte e aproveitei o melhor que pude. Nem estou mais tão culpada.
Amanhã, se não estiver caindo o mundo, vou pedalar meus 150. Mesmo com um pouquitinho de garoa, eu vou. Caso contrário, Plano B de novo, com duas sessões de rolo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Temporada em Ironland

Não vou aborrecer vocês contando detalhes de meus treinos na terra do Ironman. Vou escolher apenas alguns momentos significativos dessas duas semanas.

Natação
A praia do Santinho tem 2 km. Lá, nadei no mar apenas uma vez, ida e volta, de wetsuit e nadadeira. Sem acessórios, no way. É um mar gelado, grosso, ondulado, com vários lugares em que vc fica empacado. Eu só saia do lugar porque estava de nadadeira. Olhava pra praia e lá estava ela: a bandeirinha vermelha, indicando local perigoso. Fui num horario de movimento. Nadar solitariamente no mar, nunca mais. Depois da experiência com as caravelas, aprendi. O bom é que a volta foi muito mais fácil do que a ida.

Natação gostosa mesmo foi na praia do Jurerê. Yes! Morram de inveja. Nadei lá, no ironmar, com o pessoal da Ironmind. Mar calmo e quente. E com uma esteirinha pra seguir...não poderia ter sido melhor.

Pedal
Puxa. Achei que seria fácil pedalar por ali. Não é, não. Fiz foi muito rolo e bike indoor. Mais uma vez, foi o pessoal da Ironmind que me salvou. Nos dois sábados que estive por lá fui acolhida por essa turma. Foram ótimos, me deixaram à vontade: Rafael Pina, Rodrigo Zerlotti, Luque, Caio, Suzana, Valéria e outros cujos nomes não aprendi. Isso sem falar no Roberto Lemos, técnico, que também foi muito acolhedor.  Com eles consegui fazer um pedal decente. Agora é temporada, as estradas estão cheias, tem baladas e muita gente imprudente zanzando logo cedo. Há lugares sem acostamento e outros em que este é tão estreito que mal cabe uma bike. Alguns trechos, confesso, foram bem tensos. Outros, em compensação, um grande prazer.  E claro, passar pelas marquinhas do i-dot é uma emoção pra uma novata como eu.

Corrida
Ah, que delícia! Esta parte foi legal, mas teve um episódio engraçado.  Saí um dia pra correr de manhã pela rua 12k. Eu respirava e sentia um cheiro horrível, podre. Depois de algum tempo, percebi que TODO MUNDO tinha colocado o lixo pra fora de casa. O ar estava empesteado. Provavelmente o caminhão delixo iria passar em breve. Tentei fugir pra um lugar menos habitado, com menos lixo. Fui me embrenhando pra cá, pra lá... Achando que iria conseguir escapar do cheiro e depois cortar caminho pra voltar. Só que fui dar numas dunas e não tinha atalho. Resultado? Fiz 18k em vez de 12!

Foram 15 dias em que pude me dedicar aos meus meninos, aos treinos, à leitura. Comi sem censura, bebi um tiquinho (descobri um cocktail delicioso, com espumante e morango hummmm), desliguei completamente dos problemas do trabalho e não tive que me preocupar com aquela rotina doméstica que também me enche o saco. Os dias passavam tão rápido! Eu me perguntava: como é que cabe TRABALHO na rotina?
O fato de ter ido lá no Jurerê, visto as marcas da chegada, concretizou a idéia de que estou mesmo me preparando pra um Iron. Agora, é de verdade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Férias!!!

Finalmente, agora que todo mundo está voltando, estou indo. De férias! E como não poderia deixar de ser, no ano do meu primeiro Iron, passarei férias num lugar que tem tudo a ver com isso: praia do Santinho, na Ilha do Desterro, mais conhecida por FLORIANÓPOLIS.


Vou com a tropa toda: marido, meus quatro meninos e, como não poderia deixar de ser, levaremos as magrelas. Passaremos duas semanas e pretendo treinar muito. Nadar no mar, correr na praia, pedalar, fazer musculação, alongamento e todas as aulas de body isso, body aquilo, step, hidroginástica... Só não vai rolar “axé-aeróbica” que daí eu vomito.

Diferente de boa parte da população, a minha idéia de férias não é ficar de papo pro ar sem fazer nada. Pelo contrário. Uma rotina bem cheia, acordando cedo e não dormindo muito tarde. Claro que também pretendo comer de tudo, beber um pouco, ler bastante nos horários vagos, namorar o marido e curtir os filhos. Uma tacinha de prosecco ao entardecer é obrigatória. Relaxar logo depois do almoço, em algum pufe ou espreguiçadeira, na companhia de um bom livro, faz bem pra cabeça. Ai que delícia. Não vejo a hora.

Tenho certeza de que esta temporada vai me fazer muito bem, que vai ser um ótimo início de preparação.

E aproveitando a ocasião, consulto vocês, meus queridos leitores e seguidores: quem tem boas dicas sobre treinos de pedal em Floripa? Onde, quando e com quem podemos pedalar –, lembrando que estaremos na parte norte da ilha?

Agradeço se vocês puderem me ajudar.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Meu pé, meu querido pé, que me aguenta o dia inteiro

Meus pés sempre foram um caso sério. Quando eu era pequena, era chato e virado pra dentro. O pediatra sugeriu que eu usasse botinhas ortopédicas. Felizmente, minha mãe bateu o pé e não acatou a sugestão. A outra opção era me tornar um pé-de-valsa e fazer dança. Felizmente, de novo, minha mãe teve o bom senso de não me colocar no balé clássico (esta crueldade fiz comigo mesma mais tarde) mas em aulas menos rígidas.
Embrenhei-me pela tal “expressão corporal”, depois pelo jazz, dança moderna e dança contemporânea, flamenco, danças étnicas e até mesmo o tal do balé clássico. Isso sem falar na capoeira e na ginástica olímpica com as quais dei uma “ficada”.
Meu pé ganhou corpo. Na adolescência usava sandália de couro ou tênis bamba. Nas férias, andava muito descalça pelas pedras das praias. Ele foi se tornando um indomável.
Quando as primeiras situações mais formais foram surgindo, começou o drama. As primeiras vezes de salto alto foram uma aventura. Pensa que é fácil se equilibrar naquelas alturas? Isso sem falar nas bolhas do calcanhar. Acho que determinados sapatos deveriam vir com um aviso igual o de cigarro: O Ministério da Saúde adverte: este calçado é prejudicial à sua coluna.
Bico fino, nem pensar. Sinto-me com a própria irmã malvada da Cinderela, tentando enfiar aquele pezão dentro do delicado — e minúsculo — sapatinho de cristal. A diferença, no meu caso, é que eu não ia garfar nenhum príncipe no caso de conseguir calçar os sapatos.
E olha que não sou Marcelinho Carioca, mas tenho quase pé-de-anjo. Até a gestação dos gêmeos eu calçava 35-36. Agora calço 36-37 e, em um caso excepcional, tenho um tênis USA 8,5 que corresponde ao nosso 38!
Depois que comecei a correr, a vida dos meus pés ficou ainda mais complexa. Não sei, mas acho que eles ficaram ainda mais rebeldes e musculosos. É raro conseguir que eles fiquem felizes confinados em calçados fechados que não sejam tênis e em calçados abertos que não sejam chinelos. Isso é um problema porque a “senhora diretora” não pode ir de tênis ou chinelo ao Gabinete do senhor Secretário e nem tampouco receber pessoas “de fora” nessas condições.
É também difícil conseguir comprar sapatos. Uma coisa é experimentar por 30 segundos na loja, outra, muito diferente, é caminhar da Avenida São Luis até o Largo do Arouche com eles, depois de uma reunião em que eles deram aquela inchadinha. Tenho alguns pares praticamente novos que não consegui usar mais de uma vez. Quando consigo um par que passa pelo teste da reunião/caminhada, meus pés tornam-se absolutamente monogâmicos. Casam com aquele calçado e ficam até que a morte — ou uma sola tão gasta que não possa ser recuperada — os separe.
No dia a dia profissional raramente vou trabalhar de tênis. Só quando tenho certeza de que não serei chamada para nenhum evento mais formal. Mesmo assim, já aconteceu de ser convocada de última hora para uma cerimônia no Palácio dos Bandeirantes e ter de improvisar pegando uma blusinha mais ajeitada com uma e um sapatinho (que ficou apertaaado) com outra, porque naquele dia estava justamente vestindo tênis e camiseta de corrida.
Demorei pra me acertar com os tênis, sapatilhas e meias na minha vida esportiva e ainda não consegui deixar meu parzinho totalmente satisfeito. Rebeldes, fortes, indomáveis e sensíveis meus pés sofrem com bolhas, com um Neuroma de Morton que os deixa dormentes, formigam, incham, ficam apertados. No inverno, ficam gelados durante o pedal da madruga, e, depois de algum tempo, adormecem. Durante as provas longas, incham muito e, em Penha por exemplo, não consegui ficar com a meia do pé direito de tanto que me apertou.
Meus pés também são uma área vulnerável: já tive fratura por estresse no segundo metatarso, fasceíte plantar e tendinite dos fibulares e do calcâneo.
Não tem jeito, pra melhorar a vida desses meus pés de chinelo, tive de fazer várias experiências.
Fiz o teste da passada, meu pé, depois de tanta atividade, não é mais chato, é cavo e estou usando uma palmilha. Isso ajudou. Para correr depois de pedalar 90k, tênis 38 e meia velha! Bolinha de tênis para ser pisada ao longo do dia, quando estou só ou bem acompanhada, na minha sala. Alongamento da panturrilha. Sempre. Unhas curtíssimas. Algumas quase não existem – mas nunca perdi uma delas. Tirar os sapatos sempre que possível. Tênis Mizuno ou Newton. Meia, ainda não me achei. Gostei da biofresh, mas ainda não testei num treino mais longo. Não gostei nem da Adidas nova nem da Asics. Tive umas Adidas simples que eu adorei. Usei-as todas até furar. Alguém tem alguma dica?
Agora, verdade seja dita: meus pés parecem de lavrador. Cheio de calos, ressecados, cheios de cicatrizes das bolhas arrebentadas. Lindos. Tão lindos que eu nunca vou “fazer o pé”. Acho ridículo ter as unhas dos pés pintadas e não vejo mais como domesticá-los: são uns selvagens.
Mas temos que dar a maior atenção para eles. São eles que nos deixam por o pé-na-estrada e correr como um pé-de-vento. Podem mudar a nossa sorte, como um pé-de-coelho ou acabarem com a gente, num pé-d’ouvido. Xiii, melhor encerrar o assunto, que isso já está sem pé nem cabeça.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Meu maior medo...


... em relação ao triathlon é morrer num treino de estrada. Este ano treinei pedal algumas vezes na Dom Pedro e confesso: fiquei tensa. E não me venham com essa conversinha mole de que “quando é pra ser, é pra ser” “quando chega a hora” ou “quando não é a sua hora” bla bla bla. Sim, pedalar em rodovias grandes, por onde passam carros e caminhões em alta velocidade, aumenta suas chance de ver “a sua hora chegar”.
Você pode fazer tudo direitinho: andar em grupo, pelo acostamento, não clipar quando passam os caminhões, sinalizar suas manobras etc e tal. Mas um pequeno erro de cálculo, pequeno como a passagem das rodas por entre dois pequenos obstáculos (tartaruguinhas), pequeno como um galho caído maior do que se pensava, pequeno como um punhado de areia ou uma mancha óleo na pista, podem ser fatais.
Este ano presenciei um acidente com o Armandinho Bassani. Estávamos pedalando em um pequeno grupo quando ele perdeu o controle da bike numa descida no acostamento da Dom Pedro e se chocou contra uma mureta de proteção. Se ralou inteiro mas, teve sorte, pois não passou disso. Foi bem na minha frente.
A USP também foi palco de vários acidentes mas, como o trânsito de carros e outros veículos é um pouco menos intenso e em velocidades mais baixas que na estrada, os acidentes, na maior parte das vezes, não foram graves. Três dias antes de Pirassununga, durante o treino na USP vi o André Rappaport (colega da MPR)escorregar numa mancha de óleo e deslizar pelo chão. Por sorte, não vinha nenhum carro atrás. Ele se levantou rapidinho. E inteiro.
Acabei de ficar sabendo que a Ana Lidia sofreu um acidente grave na Dom Pedro. Conheci a triatleta antes de ir pra Clearwater em 2008. Como ela tinha ido em 2007, me deu um monte de dicas. Foi muito prestativa e simpática. Ela já está se recuperando mas, pelo que soube, caiu da bicicleta e foi atropelada por um carro. Sua sorte foi que o caminhão que passava conseguiu desviar-se dela. Estou torcendo muito, mas muito mesmo para que ela se recupere rápido e que não tenha nenhum tipo de sequela.
Esse acidente me faz refletir se vale mesmo a pena ir para estrada. Ano que vem terei treinos de até 160 km mas, sinceramente, não sei se estou disposta a correr riscos em grandes rodovias. Romeiros e Riacho Grande são lugares de pouco tráfego e baixas velocidades. Talvez não sejam ideais para quem quer completar um iron. Mas pelo menos, minhas chances de chegar inteira até lá, aumentem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As previsões de Josélia

Vocês conhecem a Josélia Pegorim? É uma pessoa muito especial, principalmente para nós que treinamos outdoor. Josélia é a mulher do tempo, ou melhor, da Climatempo. Não preparo minha roupa de treino se não ouvir o que ela tem a dizer.
Dia lindo, sol brilhando, calor ao meio-dia. Mas Josélia diz “O dia vai ser quente mas a madrugada vai ser ge-la-da”. Deixo preparadas minha jaqueta corta-vento mais quentinha, minha segunda pele e uma meia-calça de seda pra por baixo da roupas de ciclismo, touquinha, pra debaixo do capacete. Recebo um torpedo de uma amiga “Clau, esquentou! Você vai pedalar na madruga? Eu vou!”. Respondo “Vou sim. Esquentou, mas vai esfriar. Agasalhe-se!”. Batata. Josélia acerta em cheio. E eu não passo frio em cima da bike.
Num sábado, tenho corrida depois do pedal. Josélia avisa: “Atenção! O dia vai começar frio, mas a temperatura vai subir bastante!”. Levo o protetor, e não me queimo.
Na última segunda, ela afirmou: “Vai chover durante a madrugada”. Pensei: “Droga. Não vai dar pedal”. Mas NÃO acordei as 4h20m à toa. Dormi um pouco mais e deixei bike no rolo da sala, me esperando pra pedalar. Batata. Choveu mesmo.
Sou fã dela. Confio tanto na previsão que, muitas vezes, programo meus treinos de fim-de-semana considerando o que ela disse. Estávamos num sábado desses USP e o sol estava radiante. A MPR havia programado um treino de bike na manhã seguinte, no Riacho Grande e o pessoal estava combinando de ir. Avisei “A Josélia disse que há grande possibilidade de chuva este domingo. E se tem um lugar no mundo que chove, é lá no Riacho...” Ninguém me levou a sério... Disseram que eu estava “secando” o treino (era melhor dizer molhando, em todo o caso). Dito e feito. Desabou um aguaceiro. Felizmente, não perdi meu tempo indo até lá, como uns e outros que não levaram a Josélia a sério.
Gosto dela não só porque ela acerta na previsão, pela forma como ela descreve e explica os fenômenos metereológicos mas, principalmente, pelo jeito divertido e bem-humorado com que ela comenta as reações das pessoas frente ao clima.
Outro dia, ela falou uma coisa que eu gostei muito. “Bom é ter variedade: uns dias de sol, uns dias de chuva, um pouco de calor, um tico de frio... O que não dá é pra ter muitos dias de sol e calor, ou muitos dias seguidos de frio ou de chuva... E a gente deve aproveitar o que cada clima tem de melhor. Se está frio, vamos aproveitar pra curtir um vinho, ficar mais em casa, ver um DVD... se está calor, vamos sair e passear, tomar sorvete... em vez de sempre reclamar que não está do jeito que a gente queria. Sou a favor da diversidade...Diversidade de pessoas, de opiniões... A diversidade é positiva!”. Assino embaixo.
Hoje, por exemplo, estava um dia cinzento, úmido e friozinho. Ótimo pra correr num Ibirapuera vazio, florido e com cheiro de terra molhada. Uma delícia. Fiz 16 km feliz da vida, agradecida por começar o dia assim. Na seqüência, o sol apareceu, alegrando a manhã (e não prejudicando o treino!).
E viva a Josélia. Quando a escuto na radio (Eldorado) parece que estou ouvindo uma velha e querida amiga.
Mas eu não ouvi a previsão para esta madrugada. Agora estou aqui, sem saber que roupas separar pro treino de amanhã.

domingo, 9 de agosto de 2009

Corridas e medos

Não tenho conseguido escrever muito sobre meus treinos de corrida. Não tenho conseguido correr direito. A dor no tornozelo vai e volta. Não dói quando eu corro, dói depois. Uma dorzinha nas laterais do pé, subindo um pouco pela panturrilha. É suportável, mas incomoda, por exemplo, na hora de dormir.
Fico preocupada de não treinar direito. Fico com medo de não voltar a correr bem. Aos 45 anos, manter o ritmo é uma conquista, já que a tendência é piorar, afinal de contas. E quando a gente tem essas lesões que nos colocam fora de combate por um período prolongado é cada vez mais difícil reconquistar aquela passada, agüentar aquele pace que antes parecia natural.
No esporte amador – triathlon, biathlon, travessias ou a corrida mesmo (que são os que tenho praticado) – a maioria de nós compete de farra, mas compete. Compete um pouco com os outros mas, a maior competição é consigo mesmo. A gente presta atenção, por exemplo, quando faz um mesmo percurso ou uma mesma prova, para ver se melhora o próprio tempo. Comparamos nossa colocação com relação aos adversários: “Puxa, eu sempre ganhou daquela figura... como é que pude perder pra ela hoje?!”
Então confesso que estou um pouco temerosa de me frustrar na prova de Penha, daqui a 20 dias. Fui bem o ano passado, tive um resultado melhor do que esperava. Foi meu primeiro meio iron, eu estava bem treinada, mas não tinha muitas expectativas de resultado. Queria terminar. Agora estou achando que meu resultado não vai ser tão bom e eu vou ficar chateada.
No fundo, no fundo, o maior temor é o de estar correndo contra o tempo. Da chegada de uma hora em que não possa correr ou pedalar. Uma lesão crônica, uma limitação na visão, a osteoporose que assola minha família. Vixe. Estou pessimista hoje.
Por isso estou aqui, escrevendo e buscando exorcizar esses temores.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Peixe fora d'Águas?

Voltei, finalmente, de uma semana de intenso trabalho em Águas de Lindóia. Estava temerosa desses cinco dias lá. Para quem decide fazer triathlon, a rotina é fundamental. Mais do que uma rotina, é uma vida espartana. Alimentação, descanso e treinos são pontos de apoio para o convívio familiar, da (pouca) vida social e da atividade profissional.
Então, quando vislumbrei essa tal semana em Águas, me apavorei. “Não vou conseguir treinar direito, daí não dormirei bem (além disso, tenho dificuldade em dormir em cama que não seja minha – tal qual a Princesa e a Ervilha), como conseqüência não vou ser produtiva, ficarei ansiosa, vou acabar comendo tranqueira e assim vai por Águas abaixo o treinamento de meses! Fora o mau humor, é claro!” Mesmo assim, levei os equipamentos necessários pro caso de conseguir treinar.
E consegui. Tive de mudar os horários e adaptar a planilha, mas treinei. Não segui a minha cuidadosa alimentação — que inclui arroz integral vermelho e linhaça dourada entre outras frescuras — mas também nem cheguei perto da mesa de sobremesas melequentas. (Confesso que não resisti às batatas fritas crocantes.)
Não participei do “bailão” (6 homens para 423 mulheres) da última noite, nem das conversas regadas a álcool até duas da matina, mas assisti ao show de jazz e à contação de histórias, também consegui um tempo para uma conversinha aqui, outra ali, bebericando um chá e, cumprindo assim, uma parte do papel profissional solicitado em situações de trabalho como essa.
Sobrevivi aos cinco dias bem melhor do que imaginava. O convívio com uma multidão de pessoas (mulheres, bem falantes) quase todo o tempo foi cansativo mas tornou as sessões de treino ainda mais especiais. Foram momentos-oásis.
Do ponto de vista profissional, deu tudo certo, o encontro foi um sucesso. E pessoalmente, pude aprender uma lição. A vida regrada já mora dentro de mim. Não depende tanto de onde estou ou do que tenha de fazer. É bom ser espartana, mas melhor ainda é seguir os princípios que norteiam esta vida e ter jogo de cintura pra se adequar às situações, tirando o melho proveito possível delas. Caso contrário, a gente vai ficando insuportável. Não pode nem tirar férias! Bem...um pouquinho insuportável, a gente até fica. Mas só um pouquinho.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Como tudo isso começou? (Parte 2 e 1/2 - Disciplina)

É difícil dizer como, onde e porque tudo começou. O episódio com a seleção de vôlei da escola certamente deixou uma marca a ser superada. Mas, ao longo da minha vida, vejo várias peças dispersas desse quebra-cabeça que, montado, forma o caminho que me levou ao triatlon e, espero, me leve a completar o ironman.
Algumas peças são óbvias, saltam aos olhos. Outras não são tão evidentes.
Não sei localizar, por exemplo, de onde vem tamanha disciplina. Uma coisa eu garanto: não nasci com ela e nem aprendi na infância. Foi algo conquistado pouco a pouco, já na vida adulta.
Talvez as gestações tenham contribuído. Afinal, em nome de algo maior, tive que controlar a alimentação, diminuir a bebida, dormir bem. Gostei disso.
Talvez a disciplina em si seja um desafio. Assim, cada um desses sacrifícios que a gente faz, vira uma pequena meta, uma prova de que sou capaz de:
- não beber mais que uma taça de vinho,
- acordar as 4:30 e ir treinar mesmo na madrugada mais fria do ano;
- ir correr mesmo que esteja começando a chover;
- sair mais cedo da festa para ir dormir cedo.
Assim por diante.
Quando a gente percebe que consegue, dá uma satisfação, do tipo “sou eu que mando em mim”.
E tem também aquele general que todos temos (outro dia o chamei de hitlerzinho) e que coloquei jogando a meu favor. Todos nós temos uma vozinha interna que dá ordens, condena, pune. Geralmente, este “ser” é um saco, só serve pra nos fazer sentir culpados, em dívida ou estúpidos. Em algum momento consegui dar a ele um lugar ao sol. De vez em quando, ele se mete onde não deve, mas, no geral, tem sido um grande aliado.
Uma vida disciplinada é uma escolha. No meu caso, não foi uma escolha feita do dia pra noite. E é uma escolha que refaço a cada dia. Tem preço. E tem recompensas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sobe e desce ou a Lua na USP

Outra hora dou seqüência à história de como tudo começou. Vamos diversificar os tópicos, é saudável.

Pedal na subida é o melhor treino da USP. Nesta última terça foi sensacional. Lua cheia descendo no alto da subida da Química. Pedalávamos em direção a ela até o topo e então, como se desistíssemos de alcançá-la, virávamos as costas e retornávamos. A cada subida, ela ficava maior e mais alaranjada. E lá pela metade do treino, o céu, na descida começou a ficar rosa e, no fim, o sol vermelho, apareceu.
Na subida, não dá para pensar em nada que não seja a própria subida: o esforço da pedalada; a troca de marchas; aquele ponto ali, um pouco antes da lua, onde devo chegar e, a partir dele, aumentar o RPM (rotações por minuto, ou seja, o giro da perna); aquele cara, naquela bicicleta, que quero ultrapassar, porque sei que consigo; a hora de pedalar em pé, amassando o pedal com a sapatilha, a hora de pedalar sentada e puxar a sapatilha pra cima; sobe pulsação, aumenta respiração, a perna queima, o calor aumenta.
Na descida, os pensamentos são soprados pelo vento que bate gelado. Mas os sentidos têm de estar aguçados. Quanto maior a velocidade, mais atentos aos buracos, carros, ônibus, pedestres, outros ciclistas, lombadas e curvas temos de ficar. As pernas giram, descansando; os batimentos decrescem, a respiração acalma, o frio aumenta.
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes. E eu queria mais.
Nas noites mais geladas, o único desconforto, é o térmico. Como coloco muita roupa pra não passar frio, morro de calor na subida e congelo na descida. Mas, nessa terça, não. Foi perfeito.



quinta-feira, 2 de julho de 2009

Meia final

Desde que comecei a treinar praticamente parei de acompanhar o futebol de que tanto gosto. Abri mão, porque tenho de fechar os olhos cedo ou porque, no domingo, se o jogo não for muuuito bom, os olhos se fecham sozinhos. Ontem abri uma meia exceção e assisti metade do jogo. Aliás, diga-se de passagem, foi uma final muito pouco corintiana. Sem sofrimento. Na era A. M. (antes do Mano) a escrita seria outra: provavelmente dois a zero pro Inter no primeiro tempo e a gente se descabelando durante todo o segundo tempo até o último minuto. É ou não é? Se assim fosse eu não poderia ter ido dormir. Mas meu coringão fechou o assunto no primeiro tempo e no intervalo pude desligar a TV, confiante de que a parada estava ganha. Estaremos lá, no ano de centenário.Acordei no meio da noite com os fogos. Parecia virada de ano. Fiquei mais tranquila ainda e aprofundei o sono até as 4:20. Logo que acordei tinha uma mensagem “Dá-lhe timão!” no meu celular. Beleza. Vesti uma calça preta de ciclismo, camisa, jaqueta, bandana alvinegra e, por cima de tudo, minha camisa autografada (inclusive pelo Nilmar hahaha).
Fui para USP. Meu único medo era que algum são paulino ou palmeirense invejoso e ciclista me derrubasse no pelotão. Alguns protestaram, outros passaram e me saudaram solidários e espalhafatosos.
Sigo o futebol à meia distância. Conheço metade do time. Assisto até o meio do jogo. Mas não consigo ser meio corintiana. É como ser meio tratleta. Impossível.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Transições na madrugada


Não gosto de pular da cama tão cedo nesta época do ano. Especialmente pro treino de pedal, num horário indecente. Mas há algo que me impulsiona e antes das 04h30min estou de pé. Acho que é um hitlerzinho que habita em mim. Pra dificultar (ou facilitar), deixo o despertador láááá no banheiro, então, ele fica tocando até eu ir desligá-lo. Aí, já acordei mesmo, só preciso me vestir. O banheiro é a minha área de transição número 1 – T1. Tênis, top, faixa do monitor cardíaco, meia e/ou meia calça conforme o frio, calça de ciclismo, blusa de ciclismo, jaqueta corta-vento, bandana, relógio – nesta ordem, de baixo para cima, empilhados. Faço xixi enquanto calço as meias e visto top (tou craque em fazer xixi em movimento!), depois visto o resto, lavo a cara e espanto o resto do sono, escovo os dentes. A casa dorme. A rua dorme. O bairro dorme. Até os mortos do cemitério do Araçá, que são meus vizinhos, parecem ainda mais adormecidos neste horário. Todo este silêncio e a escuridão chegam a dar certa melancolia, uma pitada de angústia. Mas meu Hitler de estimação me empurra: vá, você não vai se arrepender, diz ele. O celular serve de lanterna, se o marido estiver dormindo. Vou até o quarto dos três pequenos para o ritual da coberta. Martim dorme de barriga pra baixo, com os ombros tensos e o edredom preso entre suas pernas e a parede. Tento deixá-lo mais confortável e mais aquecido. Ele se ajeita. Parece aprofundar-se no sonho. Félix, na cama do meio, invariavelmente está pendurado na cama, com o edredom e travesseiro no chão. Puxo suas pernas, ajeito o travesseiro e devolvo o edredom ao seu devido lugar. Ian costuma ficar enrolado feito um rocambole. É tão complicado ajeitá-lo que algumas vezes ele até abre os olhos e diz “oi mãe!”, como se seu dia estivesse começando. O Theo... a porta está fechada, ele tem 15 anos e não me atrevo mais a entrar sem bater. Bater está fora de cogitação. Então torço para que ele esteja bem aquecido.Desço para o posto de abastecimento um P1– cozinha. O mamão já está lá desde ontem, num prato, ao lado da faca e da colher, o gel e a bananinha separados. As caramanholas, já preparadas na geladeira, com maltodextrina ou só com água mesmo. No meu escritório, área de transição número dois – T2 – ficam os óculos, carteira, dentro de uma sacola, onde coloco a alimentação. É só pegar. Se, por acaso, algo me desviar a atenção neste momento, deixo a caramanhola em cima da mesa e... Já era! Vou pro treino sem hidratação.O carro é a área de transição número três – T3. A bicicleta, o capacete, as luvas e as sapatilhas estão lá desde a noite anterior. Às vezes tenho de tirar o carro do marido da frente. Aí encontro minhas amigas coelhas. Michelle Obama e Black, a coelha albina, os únicos seres vivos acordados na face da terra do meu jardim, vem me saudar. Então abro o portão, solto o freio e só ligo o carro quando já estou na rua, pra fazer menos barulho. Muitas vezes nem o vigia se digna a me acenar. Dorme.
Parto. E neste momento, percebo que não preciso mais de Hitler.