Acabei de ler a biografia do Agassi e estou sob o impacto dela. Devorei o volume de 500 páginas em quatro dias e queria mais.
Gosto de tênis, mas não sou nenhuma aficionada pelo esporte. Nunca tive nenhuma predileção pelo Agassi, embora sempre tenha achado seu estilo destoante da sisudez que predomina no ambiente dos ATPs e Slams. Peguei o livro pra ler por recomendação da Thelma. Por conta própria jamais teria ido a busca dessa leitura. Valeu, Thelma!
O texto
Não é um conto de fadas, nem literatura especializada em esporte, tampouco se trata de autoajuda. É a tortuosa trajetória de um ser humano complexo, cheio de contradições, ansiedades e medos. Ele narra com franqueza, expondo os fragmentos da sua alma atormentada. Como o texto é bem escrito, houve passagens em que mergulhei no seu sofrimento, compartilhei de sua dor e me vi com os olhos rasos d'água.
One of a kind
Ele dá muitas, mas muitas cabeçadas ao longo de sua carreira e na construção da sua vida pessoal, da sua identidade mas não se envergonha disso. Repete erros: dupla falta? Muito pior. Faltas quádruplas, quíntuplas. Tem horas que lembra Bill Murray naquele maravilhoso filme chamado “O Feitiço do Tempo”: aprisionado no mesmo dia do ano, cai todos os dias na mesma poça de água, embora saiba onde ela está. Mas, sim, ele também aprende lições ao longo da vida – e olhe que é uma vida curta para uma biografia – e algumas das mais importantes.
É um amigo leal. Há pessoas que conheceu na infância e na juventude com as quais mantém laços estreitos até hoje. Outras, que foram próximos mas não são mais, como a atriz Brooke Shields, por exemplo, ele foi capaz de romper e se afastar sem ter de destruir a relação ou negar o passado. Isso é tão verdadeiro que ela é uma das pessoas a quem ele pediu que lesse a versão preliminar do livro.
Generoso, ajudou várias pessoas sem nem pestanejar. Não só ajuda financeira, mas presença, apoio, conforto.
Os treinos, campeonatos, Grand Slams, adversários da quadra, técnicos – compõem a história e seus personagens mas a essência do livro é a jornada dele para se tornar uma pessoa melhor, para se aceitar e se acertar. Escrever o livro deve ter sido uma forma de ele se apropriar do seu processo de crescimento e amadurecimento. E ele é corajoso e, uma vez mais, generoso, pois nos permite aprender com seus erros e também com seus êxitos.
Drogas e mídia
O modo como o livro repercutiu ilustra muito bem algo que ele critica repetidas vezes: a mídia gosta de polêmicas superficiais e clichês. O assunto mais explorado é uma passagem em que conta sua experiência com anfetamina. Ele não prega o uso das drogas, não diz que usou drogas para jogar e nem tampouco acusa outros jogadores de fazerem uso. Ele deixa bem claro que foi uma forma de escapar num momento em que o mundo em volta desabava. Ao mesmo tempo, não bate no peito dizendo que se arrependeu. Ele escreve pra ATP dizendo que foi um engano, que ele não sabia o que estava consumindo mas confessa aos leitores a sua mentira. É lamentável que tenistas, jornalistas ou mesmo leigos que apreciam tênis saiam por aí comentando este fato, dando a ele uma relevância desproporcional. A impressão que dá é que essas pessoas nem ao menos leram o livro todo, que se interessaram apenas por aquilo que confirma a imagem estereotipada que fizeram do atleta por anos: um maluco, um rebelde.
Agassi Prep Scholl
No final fui totalmente arrebatada. Ele entra na minha seara profissional: educação básica. E o jargão da instituição de ensino que ele concebeu e administra é TODA A CRIANÇA PODE APRENDER. É o nosso lema! A escola fica num bairro pobre e violento (qualquer senelhança com a nossa periferia não é mera coincidência) e, a despeito das mães prostituídas, dos pais bêbados ou presidiários, da vizinhança cheia de traficantes e drogados, todos os alunos são capazes de aprender.
O livro e os triatletas
Para quem gosta de esportes, de competir, de superar limites, o livro está repleto de situações e reflexões que fazem pensar. Não são receitas prontas ou fórmulas para o sucesso. Mas maneiras de sentir e interpretar essas experiências de vida de atleta que, para nós triatletas amadores, são ora elucidativas, ora intrigantes mas sempre, sempre interessantes.
Recomendo a todos, triatletas ou não. Esportistas, ou não.
E pra terminar um videozinho do final da sua despedida do tênis profissional em 2006. De levar às lágrimas.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
Trizophrenia: Inside the Minds of a Triathlete

Estava fuçando na Amazon.com atrás de livros interessantes sobre triathlon quando me deparei com o título acima. Inicialmente eu pensava em comprar algo mais técnico, com dicas sobre treinamento, um manual... algo do gênero. Mas, confesso que não consigo me empolgar, ainda mais depois de ler o Becoming na Ironman e o Ultramarathon man. A vontade era continuar imersa em relatos pessoais. Xereta daqui, lê uma resenha dali ... a capa me chamou a atenção, dei uma olhadinha nas primeiras páginas e decidi comprar. Fiz um grande negócio.
O livro, que foi lançado no final do ano passado, é divertidíssimo. O autor, Jeff Mallet, é um bem-humorado cartunista triatleta que decide fazer uma análise do triathlon e de seus adeptos. É, ao mesmo tempo, cômico e informativo. Muitas das passagens você lê e pensa “é exatamente assim que eu me sinto!” Ele consegue descrever pensamentos, sensações e neuroses (ou melhor, a esquizofrenia de nossa vida tripla) com precisão e muito, mas muito bom humor.
Vou traduzir (livremente) um pequeno trecho, só pra vocês terem uma idéia. É logo do começo, de um dos capítulos iniciais, que aborda a transição da bike pra corrida.
...Sem mais nem menos a solução para o problema do Oriente Médio surge na sua mente, mas você deixa isso pra depois porque agora precisa negociar com um monte de cones amarelos e com um bando de staffs que estão acenando pra você e indicando que você deve ir por aqui e com mais cones e mais voluntários e finalmente com a faixa pintada no chão e os grandes cones laranjas e os staffs mais frenéticos de todos, acenando e gritando pra você parar, parar bem aqui, desmontar antes da faixa e empurrar sua bike e, pelo-amor-de-Deus , ninguém espera que você vá lembrar onde estão as suas coisas e como elas estavam organizadas, não que isso importe, porque a essas alturas elas já foram espalhadas por outros competidores que cozinharam na bike e que estão mais atordoados do que você. No meio desta confusão, ninguém vai lhe culpar se você tentar sair correndo com seu capacete na cabeça.
Neste instante a coisa mais antinatural do que correr com o capacete é a simples mecânica da corrida. Parece que você está operando as suas pernas por controle remoto. Não, nem mesmo isso. Parece que você está usando as pernas de outra pessoa. Alguém que, acontece de não ser muito um corredor.
E não é só você. Todo mundo está correndo com as pernas de outras pessoas. Geralmente, as do Groucho Marx. Nunca as de um queniano, por alguma motivo. Tudo o que você sabe é que, quem quer que tenha pegado as suas pernas, você as quer de volta.
Jeff Mallet tem um blog – aqui mesmo no blogspot e escreve com certa freqüência. Recomendo o livro para quem lê em inglês. Ele brinca com as palavras, faz trocadilhos e constrói o discurso com certa sofisticação - eu que leio razoavelmente bem tive um pouco de dificuldade em alguns trechos e fiquei com a sensação de que não entendi toda a piada . Mesmo assim, vale. Fiquei morrendo de vontade de traduzir o livro. Mas não tenho tempo, não é minha especialidade e, infelizmente, aqui no Brasil as editoras não têm interesse porque o público é muito restrito. De qualquer forma, fica a dica.
sábado, 18 de julho de 2009
Becoming an Ironman: First Encounters with the Ultimate Endurance Event
Quando contei a idéia do blog pro Sergio Borejo, que treina também na MPR, me falou a respeito deste livro e ofereceu emprestado. Estou devorando.A jornalista Kara Douglass Thom fez uma coletânea de relatos sobre o primeiro Iron de diferentes pessoas.
São histórias contadas em primeira pessoa e o modo como a jornalista fez a transcrição e a edição, nos dão a impressão de que estamos ouvindo a pessoa nos contar sua experiência sentadas à sua frente, na mesa da padoca, depois do treino.
Cada um conta um pouco de seu histórico com esporte, as razões que levaram a fazer o Iron e então descrevem sua primeira prova. Nenhum ultrapassa oito páginas e todos são interessantes.
Há histórias de pessoas que vieram a se tornar triatletas profissionais, como Joana Zeiger, a alemã que levou a melhor em Clearwater o ano passado e de gente que começou o triathlon depois dos 50 anos de idade; gente que estava mais bem preparada do que imaginava, gente que terminou aos 45 do segundo tempo e quase foi cortada e até histórias de DNFs (did not finish). Não são relatos banais e, alguns são tão comoventes que chegam quase a ser piegas. Mas não são. Há um ponto comum: para todos, terminar um Ironman é uma experiência transformadora.
Para uma candidata a estreante como eu, o livro faz a prova parecer ainda mais fascinante e assustadora.
Infelizmente, o livro não foi traduzido. Mas, se você lê em inglês, vale a pena. A Amazon.com tem um estoque de usados e sai por menos de 3 dólares.
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