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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para não ser esponja

Minha sábia mãe vive dizendo que nós precisamos formar nossas crianças e jovens para serem filtros e não esponjas. Em vez de absorverem tudo que se lhes coloca pela frente, que passem a ter critérios de modo que possam fazer escolhas.
Mas isso não é nada, nada simples. Nem mesmo para nós adultos. Por exemplo: desde que a Nike inventou que, para correr, é preciso um tênis especial, ninguém duvidou. No mundo inteiro corredores passaram a procurar aquele tênis, convenceram-se de que sim, amortecimento é crucial, saber se sua pisada é supinada, pronada ou neutra pode mudar o rumo de sua vida ou, ao menos, de sua passada.
Mais empresas, mais tecnologia. Diferentes modelos para treinos e competições, para corridas longas ou curtas, para corredores rápidos ou lentos. As revistas especializadas têm, ao menos uma vez por ano, a obrigação e o hábito de lançar um guia para o pobre consumidor/corredor para orientá-lo na árdua tarefa de escolher um tênis. Flexibilidade ou leveza? Amortecimento ou resiliência? São tantas opções que, para acertar na escolha é preciso debruçar-se sobre o guia e fazer um longo e detalhado estudo. Claro que no momento em que o feliz consumidor consegue finalmente escolher, a Asics já lançou um novo modelo com ainda mais tecnologia.
E...bem... quem foi que disse que toda esta parafernália faz diferença? Quem viu pesquisas e estudos provando que o amortecimento, por exemplo, diminui as lesões? Quem disse que a pessoa que pisa em pronação precisa de uma correção compensatória? Vou além: quem viu um estudo ou pesquisa que não tenha sido patrocinado pelos próprios fabricantes de tênis? Quantas vezes paramos para duvidar daquilo que parece "científicamente comprovado"?
Anúncios de televisão mostram um senhor, nem tão idoso, nem tão jovem; a idade é suficiente para o levarmos a sério. Trajando jaleco branco, ele nos garante que o produto X é comprovadamente mais eficiente que os outros. Confesse: você fica, ou não, inclinado a acreditar nele?
E olhe que nós, que temos acesso a internet, lemos e ou escrevemos blogs, somos realativamente bem informados e críticos. Ainda assim, caímos em alguns contos do vigário.
Como pais, a responsabilidade é ainda maior. Não só porque somos modelos para os pequenos como também porque é fundamental ajudá-los a perceber as artimanhas da publicidade para seduzi-los. haja paciência, argumentos e perseverança para dizer "não" aos filhos explicando porque.
Ser filtro, e não esponja, implica, principalmente, em saber ler. Não ler de qualquer jeito. Mas ler dialogando com o texto. Perguntando quem escreveu este texto? Para quem escreveu? Com que intuito? Parece óbvio? É não. A revista O2, por exemplo, faz cobertura de provas e também organiza provas. Você costuma prestar atenção nos anunciantes das revistas? Você repara se existe alguma coincidência entre matérias e anúncios? Vocês souberam que houve uma grande paralisação nos bancos durante o período eleitoral? Notaram que a mídia praticamente ignorou este fato? Quem são os maiores anunciantes dos jornais e das TVs em horário nobre?
Não estou dizendo pra ficar paranóico, pentelho, vendo pelo em ovo. Mas para, principalmente nos momentos em que se tem de fazer uma escolha, uma compra ou tomar um decisão, não procurar atalhos e nem se deixar levar por aparências.
Ser filtro, e não esponja, implica num exercício permanente de duvidar e de se informar. A autonomia intelectual e moral, embora comece seu desenvolvimento ainda na infância, precisa estar permanentemente em uso. Não é para preguiçosos. Não é para acomodados.

Ah, para saber mais sobre o assunto corridas x tênis recomendo o livro Nascido para Correr: a experiência de descobrir uma nova vida, de Cristopher McDougall, da editora Globo.
E sobre o assunto criança x consumo,  o filme Criança, a alma do negócio, disponível para download na página do Instituto Alana .

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Brinquedinho novo

Já faz um tempo que estou devendo um post sobre meu novo brinquedo – um Garmin Forerunner 405. Mas atenção! Não se iluda. Não vou fazer uma resenha sobre o produto ou dar dicas e truques sobre os seus recursos e funcionalidades. Nada disso. Vou escrever sobre voltar a se sentir como criança diante de um brinquedo novo.
Este é um dos baratos do triathlon. E sem querer fazer um trocadilho infame, este barato geralmente sai caro. Mas vale a pena. Ao ingressar no mundo do triathlon abre-se uma vasta gama de possibilidades de ser feliz. A lista de desejos aumenta. Quanto mais você vai adentrando este universo, mas longa e específica ela vai ficando. Há três anos, por exemplo, eu só queria uma bicicleta para fazer triathlon. Mas nem sabia que existiam bikes de contra-relógio e bikes de ciclismo. Roda, para mim, era parte do veículo. Nunca me passaria pela cabeça comprar rodas que não viessem numa bicicleta. Não nasci sabendo, ok? E eu entrei muito solitariamente nessa vida de triathleta – não convivi com eles até que começasse a treinar portanto, era uma ignorante, literalmente falando. Mas aprendo rápido e, em pouco tempo, fui aprendendo a desejar: uma bike de triathlon, um par de rodas Zipp, uma jaqueta cortavento importada e assim por diante.
Gosto de almejar esses objetos. Não fico obcecada em possuí-los, mas vou acalentando o desejo, sonhando com eles, planejando o momento de adquiri-los e o de usufrui-los.
Foi assim quando passei da Vicini pra Giant. Levei meses para tomar a decisão, namorei várias bikes, conversei com algumas pessoas, naveguei por sites, negociei um parcelamento, pedi um subsídio em nome do meu aniversário e, no início de 2008, estava com a nova magrela. Totalmente apaixonada.
Depois foram as rodas Zipp. Discuti com mestres no assunto qual a melhor relação custo-benefício, fiz cotação em vários sites americanos, regateei e, por fim, comprei-as às vésperas de ir pra Clearwater. Chegando ao hotel, lá estavam as minhas lindinhas. Dormi abraçada com elas.
Levei mais de um ano para decidir comprar um Garmin. Achava muito caro, não sabia se ia ter mesmo utilidade pra mim, se valeria a pena. Mas, a hora chegou. Mudei de academia, estou correndo mais vezes na rua (e não sei qual a quilometragem percorrida), ano que vem, nos treinos pro Iron, vou ter de fazer muitos longões, o dólar baixou, o Garmin criou um modelo que não fica parecendo uma televisão no meu pulso. O marido da Eliana, que trabalha comigo, foi para os States e trouxe um pra mim.
E eu estou a-do-ran-do meu brinquedinho. Acredite se quiser: até o manual eu li! Aperto os botões, exploro todos os comando, jogo no link da web, corro com os olhos grudados nele, brincando de manter ou apertar meu pace!
É legal e gostoso ter vontades. É bom lembrar que, geralmente, quem não tem vontades e apetite (que não deixa de ser uma vontade), é porque está em depressão. Sem exageros, sem abusos. Claro que se você começar a ficar obcecado por bicicletas top de linha, última geração, de US$ 15,000, isso pode se tornar um problema. Pelo menos no meu caso. Mas sei até onde posso cultivar os meus sonhos.
Não sou consumista, não gosto de jóias, não ligo pra roupas – não reparo nas marcas, não dou bola pra bolsa (uso a mesma faz uns 5 anos) e nem pra carteira, sapatos são uma encrenca na minha vida (um dia escrevo sobre eles e meus pés) mas, fico feliz como uma criança no Natal quando ganho ou compro os equipamentos e acessórios do meu esporte.
E não é mesmo uma delícia?