for.jar
(forja+ar2) Aquecer e trabalhar na forja (ferro ou outro metal). vtd 2 Compor, fabricar: Forjar ferramentas. Bater (o cavalo) com as ferraduras posteriores nas anteriores, na andadura.
Sei que só vou me considerar e ser considerada uma Ironman (woman, person, whatever) no momento em que ultrapassar a linha de chegada no dia 30 de maio. Mas tudo que está acontecendo nestes meses que antecedem a prova é o grosso do processo de transformação. É agora que estou sendo forjada.
Comecei a sentir as mudanças na pele, nos músculos, nos ossos, na alma e no cérebro.
Domingo passado foram 150 km de pedal mais 5 de corrida (depois de ter feito 26 de corrida na véspera). No meio do treino começou a chover. Em nenhum momento pensei em parar por causa disso. Diminuí o ritmo, fiquei mais cuidadosa e segui. A chuva parou, o sol chegou ardido e forte bem na hora da corrida. Fui sem meias. Estava tão encharcadas e sujas que só tinham um destino possível: lixo. Julinha foi me puxando. Buscamos as sombras das árvores, mas o sol estava a pino e nos castigou. Cheguei em casa num estado de exaustão inédito. Lavei a bike com o que havia sobrado das minhas forças. Na hora de enrolar a mangueira pra guardar, quase chorei. Meus braços simplesmente não me obedeciam. Foi uma marretada.
Terça também choveu. Quando cheguei na USP, não tinha ninguém. Pedalei 10 kms sozinha, debaixo da garoa, até encontrar o resto do bando de loucos. A chuva engrossou, mas nós nos mantivemos lá, até o fim do treino. Debaixo da chuva corremos 5 km. Julinha outra vez me puxando. Cheguei em casa suada e gelada ao mesmo tempo. Calor e frio. É assim também que se forja o metal.
Na quarta chovia de novo. Tinha tiros de 400 mts e também 2,2 de natação. Não dava tempo de ir até o Ibira. Fiz na esteira 10 tiros, aumentando o ritmo progressivamente. Concentrei-me, coração pulsando forte, os pés martelando suave e consistentemente a borracha da esteira.
Quinta, levantei cedo pra fazer rolo. Uma hora e quarenta e cinco minutos de rolo. Garoava, estava frio e os pequenos iam pro acantonamento da escola. Posso estar me transformando numa mulher de ferro, mas o coração não vai endurecer, a alma não vai amargar. Precisava salpicar uma beijoca em cada um, antes de irem.
Sexta. Nada demais em matéria de treino. Filho mais velho assaltado na esquina de casa. Então coração mole, mas braços firmes e fortes pra abraçar, acolher, tranquilizar e... ir no DP fazer o B.O.
Sábado. Abri a USP, pedalei um pouco sozinha. No pelotão, puxei vários tiros com o vento na cara, sabendo que teria de chegar até os 100 km e depois encarar 18 correndo. Nessa corrida, fui sozinha por 15 km. Eu e meu bate-estaca no fone de ouvido. Inclui, por conta própria, uma subida da Biologia. Teve sol, teve garoa e teve vento. Thelma fez os ultimos 3 comigo. Depois, só pra acompanhar o Ricardinho, fiz mais 3km.
Calor, frio, vento, chuva, umidade, sol. Cansaço, sono, preocupações, dores, prazer. Solidão, companhias, solidariedade. Escolhas, concessões, decisões. Não posso, agora, afirmar que serei uma Ironman. Mas posso sim, dizer que algo está mudando. E é bom.
