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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Identidade, diversidade, fraternidade

Londres
Quando tinha meus vinte e poucos anos, terminei a faculdade e fui pra Europa. Duca, meu ex-marido, namorado à época, e eu, viajamos um pouquinho e depois nos instalamos em Londres, pra uma temporada que veio a ser de um ano e meio. Morávamos no que lá se chama bedsit e aqui seria equivalente a uma quitinete. Só que em vez de ser num prédio de apartamentos, era numa casa de dois andares. Minha vida, ao longo dos meses que passei ali, foi muito diferente da que eu tinha vivido até então. E, lembre-se, isso foi na década de 80. Não existiam celulares, smartphones, PCs, lanhouses, Ipads, skypes, emails... nada desses aparatos que nos mantém em comunicação o tempo todo. Para falar com família eu descia até o térreo onde ficava um telefone público/particular e fazia uma colect call pro Brasil. Com os amigos, cartas.  Mas, embora eu escrevesse bastante, nem todos respondiam. E demoraaaaava pra chegar resposta. Muitas, nem chegavam. Nem todo mundo tinha o hábito de se corresponder. A sensação de distância e isolamento era forte. 
Fizemos novos amigos, estudamos inglês, passeamos em Camdem Town, fomos a shows do Cure, Smiths, Cult, Waterboys, It’s Imaterial, bebemos em pubs, lemos a NME e a Melody Maker, apostamos em corridas de cachorro, andamos ao longo do Tamisa, fizemos faxina, comemos chinese take away e fish’n’chips, compramos no Sainsbury, decoramos as cores das linhas do “tube”, visitamos os Kew Gardens, fiz babysitting, saímos pra dançar, brigamos bastante também. 
Foi uma experiência que fez diferença na minha formação pessoal. Tudo que vivi foi importante. Mas, talvez, o que tenha sido o mais interessante foram as reflexões acerca da minha própria identidade (o bom e velho “quem sou eu?” issue). Percebia que, em estando fora do meu habitat natural: casa dos pais, SP, amigos da faculdade e outros, família, carrinho, meus discos, meus livros, meus filmes e tudo mais, me obrigava a entrar em contato com a minha essência. Sou o que faço ou sou o que sou? Sou formada pelo meio em que vivo ou tenho um âmago, um cerne, um eu interior que permanece o mesmo, independente das circunstâncias? 


Identidade
Longe de querer esgotar essas questões, e sem querer me alongar na história sobre minha temporada londrina, o que isso tem a ver com triathlon e com o momento atual? Tudo. Assim como naqueles idos da década de 80, nos últimos tempos, estas questões existenciais voltaram. Repaginadas, mas voltaram. Estou (assim espero, oxalá, knainóri) terminando um período de afastamento quase total dos treinos. De outubro até agora, praticamente não treinei. Deixei de ser triatleta? Sou triatleta ou estou triatleta? Deixei de ser atleta? Deixei, em alguma medida, de ser “Claudia”?  Quão triatleta eu sou, e quanto o fato de ser triatleta compõe minha identidade? 
Na adolescência, quando a questão da identidade começa a aparecer, é comum os jovens formarem turmas que se vestem com um tipo de roupa, ouvem um tipo de música e repetem jargões.  “Meus iguais me compreendem, são como eu, me identifico com eles, portanto, não estou só”. Isso, segundo minha mãe psicóloga,  é uma maneira de suportar a idéia da solidão que descobrimos ao deixarmos de ser criança e nos deparamos com um mundo interior, só nosso, impossível de compartilhar integralmente com quem quer que seja. Ninguém, nem mesmo o mais amoroso dos companheiros, pode participar nem compreender inteiramente este universo. 
Desde os idos de 2007, aos poucos, passei a integrar a tribo dos triatletas. Sim, tribo. Têm seus rituais, linguagem, modos de vestir e viver. Como um grupo de “emos” ou “góticos”. Por um lado, pode ser bem divertido a essas alturas da vida, fazer parte de uma turma com a qual tenho tantas afinidades.  Por outro, não temos mais ilusões com relação a uma identificação absoluta.  E isso também é uma questão sobre a qual tenho pensado. Qual meu grau de identificação, afinidade e profundidade nas relações com as pessoas do triathlon? Se eu por (des)ventura ou por opção deixar de ser triatleta continuarei próxima delas?


Diversidade
Bem, chega de tantas perguntas. Vamos a algumas conclusões. O fato de estar passando um tempo sem treinar muito e de não ter objetivos a vista me fez perceber que sim, o triatlon e o estilo de vida decorrente dele fazem parte da minha vida mas, apenas uma parte de mim é triatleta. Tenho muitas outras facetas que são tão importantes e que tem tanto ou mais peso quanto essa: sou mãe, esposa, mulher, festeira, amiga, blogueira, educadora, corintiana, leitora, filha... E, indo um pouco mais longe, o que está no âmago da minha relação com o triathlon é o prazer em fazer uma atividade física, em superar limites, em fazer algo bem feito e ter convívio social. Se eu não puder fazer triatlon, nem correr, nem pedalar, nem nadar, então vou jogar badminton, ou tênis, ou praticar SUP, ou dançar ou alguma coisa que faça suar e sentir bem!


Fraternidade
Quanto aos amigos, claro está que há pessoas que vieram pra ficar e o triatlon foi apenas a porta de entrada. Encontramos-nos e falamos sim, de treinos e provas, mas a conversa vai muito mais longe: já até brincamos de Imagem e Ação e não conversamos um “A” sobre nossos esportes! Descobri que são pessoas com quem posso contar não só quando estou “na ponta dos cascos”, mas, principalmente, na hora do aperto, quando estou manquitola, com a “patinha quebrada”. Lógico que há também relacionamentos superficiais, que não sobreviveriam caso eu deixasse de treinar mas, isso não é exclusividade do triathlon, é?  
Nos últimos cinco meses minha rotina mudou. Não dormi tão cedo, abri mão de treinar por motivos banais, não segui planilha, não fiz relatórios dos meus poucos treinos, não escrevi no blog, não deixei de beber tacinhas de vinho quando tive vontade e até saí um dia pra dançar. E os bons amigos estiveram por perto.  


Percebi que  treinar pro Iron faz com que o lado triatleta seja preponderante sobre os outros e que não dá mesmo – pra mim, pelo menos – pra ficar o tempo todo com ela – Claudia triatleta – mandando em tudo. È necessário dar uma folguinha – não só pro corpo, mas pras outras Claudias que me habitam poderem se exercitar.     

domingo, 6 de março de 2011

Ilusões e sonhos

A aula de balé

Quando crianças, meninos e meninas sonham em ser bailarinas, jogadores de futebol, judocas, artistas de circo, guitarristas... E o uso do verbo “sonhar” não é mero acaso. Sonham com o palco onde vão brilhar, com o golaço que vão fazer, a faixa preta que vão vestir, os solos de guitarra que vão abafar. Sonham, iludem-se, criam fantasias. São crianças e conhecem apenas um lado dessas ocupações. O mais óbvio, aparente e sedutor. Por isso muitos pais e mães se decepcionam quando seus filhos vão animados ao primeiro treino ou primeira aula e já na segunda ou terceira querem desistir. Ao defrontar-se com sua primeira seqüência de “pliés”, a pretendente à bailarina percebe que não será tão simples e rápido conseguir dançar uma maravilhosa coreografia e encantar a platéia. O mesmo se dá com o pequeno guitarrista ao sentir que as pontas de seus dedos doem depois da simples e árdua combinação de dois acordes, que produziram um som surdo e desafinado tão distante daquele que ele imaginara tocar.
Muitos desistem. Alguns, com a firmeza e empenho dos pais, permanecem, ainda que a contragosto.
Às vezes, depois de um tempo, quando começa a ter sucesso na aprendizagem daquela arte ou esporte, a criança começa a gostar e já não é mais preciso vencer uma batalha a cada aula ou treino. Ela vai com gosto. Começa a ter prazer em executar aquela pequena seqüência de pliés com perfeição ou a surpreender-se com os acordes que já não soam mais surdos. A ilusão vai se desfazendo e o que vai se delineando em seu lugar começa a interessar.
Outras vezes, não. O menino desiste de brigar, vai à aula ou treino, cumpre tabela mas não se entusiasma. Se pudesse optar, pularia fora na primeira oportunidade.
Como mãe, penso várias coisas a respeito disso, mas não vêm ao caso.

Os adultos
Nós, adultos, conhecemos mais sobre o mundo e seu funcionamento. Sabemos que as aparências enganam que, dificilmente o sucesso vem de mão beijada e que deus ajuda quem cedo madruga.
Então, nós, adultos muitas vezes paramos de sonhar. Não nos vemos fazendo algo diferente, ousado, difícil. Por achar que nos conhecemos bem, deixamos de nos atrever, de testar nossos limites. Por outro lado, não estamos livres das ilusões. Elas ainda nos seduzem de diversas formas: na idéia de que poderíamos ter outra carreira que nos fizesse mais feliz ou uma mulher mais bonita, (ou um marido mais sensível), uma grama mais verde que a do vizinho...

Sonhando com o Ironman
O triathlon – principalmente o Ironman – desperta os sonhos dos adultos. Alguns logo pensam “não é para mim”, outros se imaginam cruzando a linha de chegada. Os primeiros, que acham que não é possível, não lembram a incrível capacidade humana de aprender, de resistir, de se superar. E os outros, não imaginam as inúmeras horas que terão de ser passadas com a bunda no selim, nos zilhões de ladrilhos contados no funda piscina, nas corridas pra longe da família e dos amigos.
Mas, tanto uns como outros, só irão compreender a essência do triathlon - e depreender algum prazer dela  -, se persistirem por algum tempo. Pode ser que rapidamente a ilusão se desfaça e alguns voltem pra sua modalidade favorita ou, ao contrário, cada passo seja encarado como uma pequena vitória, cada pequeno aumento no volume de treino como superação de um desafio e tudo isso vai, aos poucos, revelando para o novo adepto novidades a respeito dele mesmo.

Sonho realizado
Não sei quanto a vocês mas me lembro que o Iron era um sonho distante quando comecei a treinar.
Também não imaginava a dimensão que o triathlon teria na minha vida. As duas coisas foram se consolidando aos poucos e simultaneamente. Na medida em que fui me vendo capaz e gostando de aumentar o volume de horas com a bunda no selim, o número de ladrilhos contados e a quilometragem das corridas, a possibilidade de fazer o Iron foi despontando na paisagem.
E é muito curioso como tornei algo que me parecia sobre-humano, possível. Sonhar é importante, mas mais do que acreditar no sonho é necessário des-iludir-se. Ou seja, apreciar cada parte do esforço, desmontando a ilusão e transformando em real-ização.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Triathlon sem mistérios – pequeno glossário para não triatletas

Caros leitores, como este blog não é lido exclusivamente por triatletas e suponho que muitos devam ter dificuldades para entender os textos aqui postados, decidi, para dirimir as principais dúvidas, escrever um pequeno glossário com os termos básicos, porém fundamentais, para a compreensão do nosso amado esporte.

Alfa. Tipo de macho da espécie humana com alta incidência no grupo de triatletas. Costumam andar em bando e disputar a liderança dos treinos, causando, muitas vezes, a dissolução dos pelotões (vide). Desaparecem durante as competições.

Alimentação de treino. Lanche que seu filho leva pra escola e que você tem vontade de comer mas não tem mais idade para isso, os triatletas consomem, sem constrangimento, antes durante e depois do treinos: bisnaguinha com geléia, melzinho, todinho, bananinhas, entre outros.

Alvará. Permissão concedida pelo cônjuge do triatleta para participar dos treinos longos de final de semana. Obs.: Às vezes o triatleta, não requisitando o alvará com a devida antecedência, arrisca-se a treinar sem ele. Isso pode ter conseqüências matrimônio-judiciais gravíssimas.

Bento box. Pequena bolsinha que fica presa ao quadro da bike onde pode ser colocada a merenda e outros objetos. Costuma ficar melada com os restos de lanche (tal qual a lancheira de seu filho) e, além disso, adquire um odor característico em função da combinação com o suor depositado durante os treinos.

Bomba. Encontrada em dois modelos: de pé e manual, é um objeto que tem a função de encher as câmeras das bicicletas e que o triatleta sempre se esquece de levar (a de pé) quando o pneu está murcho e nunca está com uma (manual) quando seu pneu fura no meio do treino. Na segunda situação ele pode contar com um cilindro de CO2 (ver).

Buraco. Inimigo número 1 dos triatletas. Frequentemente encontrado na raia da USP, ataca os ciclistas ocasionando furos nos pneus, lesões nas rodas, tombos e, acima de tudo, brigas nos pelotões (ver).

Cadência ou ritmo. Modo de dizer a velocidade demonstrando aos demais que não é um corredor de esteira. Enquanto as pessoas dizem 12 km/h, triatletas e corredores experientes dizem 5 minutos/km.

Caramanhola. Conhecida também por squeeze ou garrafinha é um objeto extremamente perigoso, principalmente quando escapa de seu suporte na bicicleta da frente e cai na pista provocando pânico nos ciclistas e, não raro, acidentes sérios. Pode afetar também ciclistas inexperientes que, durante a complexíssima manobra de retirar e colocar a caramanhola no suporte perdem a direção e tombam.

CO2, cilindro de. Pequeno dispositivo que serve para encher as câmeras dos pneus na falta de uma bomba manual portátil. Devem ser atarraxados à válvula da câmera para enchê-las de uma só vez. Apesar de muito práticos, leves e de não ocuparem espaço, não há registros de que tenham funcionado alguma vez..

Chuva. Pretexto preferido dos triatletas para continuar dormindo às 3ª e 5ª de madrugada, sem culpa.

Facebook. Rede social em que alguns triatletas postam seus treinos, outros se irritam com os treinos postados pelos primeiros e todos, de um modo ou de outro, mostram para o mundo que o triathlon é a coisa mais importante que existe.

Feirinha. Local organizado antes de competições de triathlon com estandes de venda de equipamentos e roupas de triathlon onde os triatletas compram uma vasta quantidade de inutilidades caras como se estivessem fazendo barganhas.

Fuel belt. Cinto ridículo onde se encaixam garrafinhas para hidratação em treinos de corrida. Serve para que os triatletas demonstrarem que estão fazendo um treino longo.

Garmin. GPS de pulso que tem como finalidade registrar todos os detalhes dos treinos como: distância percorrida, velocidade média, elevação e frequência cardíaca mas que o triatleta esquece de por a bateria para carregar, de ligar na hora certa ou de levar para o treino.

Ironman. Doença que costuma acometer os triatletas após um ou dois anos de treino e que, frequentemente, leva a um estado de loucura. Nenhum tratamento eficaz foi descoberto até hoje a despeito das inúmeras pesquisas realizadas por cientistas havaianos.

Meia de compressão
Meias de compressão. Mistura de meião de futebol com a meia que minha vó usa, e que os triatletas vestem com muito orgulho. A diferença está nas cores e estampas estapafúrdias.

Padoca. Principal razão pela qual os triatletas treinam no sábado. Alguns, inclusive, nem treinam, apenas vão ao local para encontrar os demais, tomar café e conversar.

Pelotão. Bando de triatletas que querem ser como as escuderias do Tour de France, mas se comportam como as torcidas organizadas dos times de futebol, sem a organização destas.

Planilha. Motivo de sentimento de culpa e desavenças entre triatleta e seu técnico.

Roda, Zé Rodinha. Habilidade de participar do pelotão sem fazer força. Pessoa especialista nesta habilidade.

Roda Zipp, 404, 808, rodas fechadas Equipamento utilizado por triatletas na vã esperança de melhorar seu desempenho mas que funciona apenas quando as pernas destes já são fortes o suficientes para não precisar deste artifício.
Espartilho moderno

Roupa de borracha – wetsuit. Parente próxima do espartilho, é uma vestimenta que serve para apertar, sufocar e assar a nuca do triatleta durante a natação além de dificultar a transição.

Sapatilha. Calçado utilizado para constranger o triatleta iniciante que, na hora de parar, invariavelmente esquece que esta fica presa ao pedal, não lembra de soltá-la e vai pro chão como um saco de batatas na frente de todos.

Suplementação. Pozinhos, líquidos, géis, cápsulas e comprimidos de cor, gosto e consistência estranhos pelos quais se paga uma nota para, supostamente, melhorar a performance do atleta ou causar um desarranjo gastro intestinal providencial nas provas em que ele sabe que não terá uma boa performance.

Técnico. Pessoa a quem o triatleta ouve mais do que seu pai, sua mãe ou seu cônjuge. O que não quer dizer, entretanto, que o triatleta siga as orientações deste.

Transição. Local que o triatleta não encontra depois de nadar esbaforido ou de pedalar como um louco, onde há uma série de voluntários que não sabem o que fazer, à volta do qual seu filho, seu marido/esposa ou técnico ficam gritando – “vai, vai, você ta bem!” enquanto você nem percebe que saiu pra correr com o capacete na cabeça.

Treino. Forma de expressão utilizada pelos triatletas para diferenciar-se de quem faz exercícios ou ginástica.
 Troféu. Objeto de gosto duvidoso com o qual os triatletas adoram tirar foto em cima de um pódio.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cada macaco no seu galho ou Onde os macacos se encontram


Cada macaco... (ilustração tirada do Blog Sopa de Idéias)
 O triatleta é um espécime bastante peculiar que pode ser visto em bandos nas madrugadas da USP, em cima de bicicletas, em algumas trilhas do Ibirapuera e em academias da cidade. São os habitats onde se pode encontrá-los com mais freqüência, pois é onde ficam à vontade. Ou, como reza a música, o “galho” onde deve ficar cada macaco.
Entretanto há situações que em que é necessário compartilhar o galho e isso promove encontros, no mínimo, inusitados.

Estrada dos Romeiros
Como o próprio nome diz, a estrada é deles. Assim, pelo menos uma vez por mês, eles vêm aos montes, simulando uma ida à Roma, carregando em suas carroças aparelhos de som turbinados de onde bradam músicas sertanejas narrando histórias tristes de amores, despedidas, jornadas, saudades, amigos e, claro, cavalos. Estes, e seus primos jumentos, também fazem parte do tour religioso. Ao longo da pista é fácil identificar os rastros que deixam pelo caminho. Há também bicicletas paramentadas com chupetas(?), ursinhos de pelúcia e outros souvenires intrigantes. Participam jovens, velhos, crianças, mulheres, chapéus, bonés, garrafas de cachaça, cobertores, estandartes, berrantes e até santos e santas.
E, de repente, no meio deste happening, surgem os triatletas, também fazendo sua peregrinação. Nossa Meca é outra: Hawaii, mas nos contentamos em sonhar com Floripa, Pirassununga ou, simplesmente, Santos. Mas nos vemos ali, dividindo o chão com outra turma. Eles nos olham espantados, rapidamente notam que não pertencemos à romaria deles mas, os mais atentos, perceberão que também há devoção em nossos olhos. Assim, na maioria das vezes, não há brincadeiras de mau gosto ou atrevimento. Seguimos cada qual com seu Deus, com sua oração, mantra ou ladainha (WIT- what it takes é a de alguns).
No final, pagamos nossos pecados na subida do “cala a boca”, enquanto os romeiros pagam suas promessas.


Riacho Grande – os cantores de karaokê
Ali, ao lado da represa, enquanto tiramos a bike do carro, vestimos capacete e sapatilhas, abastecemos as caramanholas e passamos protetor solar, a música no boteco em frente rola alta e umas poucas vozes desafinadas denotam o clima de fim de festa. Uma moça, vestida a caráter (ou seria melhor dizer falta de?), sai de dentro trançando as pernas. Sem a menor cerimônia, ela vomita. Num carro ali perto, um rapaz e uma moça fumam, discutem, gritam um com outro e ela chora. Sua maquiagem já se transformou numa máscara de pierrô.
Por uns 20 ou 30 minutos, triatletas e karaokeiros (karaokistas??) compartilham o estacionamento. Os primeiros começando o dia enquanto a família dorme, entre planilhas e quilômetros, suplementos e endorfinas, os outros, terminando a noite, enquanto a família dorme – entre tapas e beijos, cigarros e vômitos.
A troca de olhares entre os dois grupos não chega a ser hostil, mas não é tampouco amistosa. Parece que cada um olha para o outro e pensa: como eles podem viver assim?


Riacho Grande – pescadores
Tá estressado? Vai pescar! São os dizeres do adesivo que decora o Voyage 89 estacionado à beira da represa. Eles também levantam cedo, munem-se de paciência, alimentos, equipamentos e rumam pra beira da Billings.
A maioria instala-se ali, ao lado da ponte, já perto da entrada do parque. Pescam, mas a também fazem churrasco, levam a família, nadam e (já não se fazem mas pescadores como antigamente) colocam o som do carro alto e estridente no volume máximo.
Nós triatletas passamos pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, sentimos o cheiro da carne sendo assada, ouvimos a algazarra das crianças na água, observamos aquele pescador que, como nós, persiste em sua atividade, incansável. Somos observados por eles com crescente indiferença a cada volta. Eles se acostumam como nosso ir e vir, nós nos acostumamos com o ficar deles.

Na praia

Biquínis mínimos, sungas e calções de tamanhos variados, grande profusão de barrigas máximas.. Eis que... O que é aquilo? Um pingüim? O Aquaman? Um ET? Não. Magro e emborrachado dos pés à cabeça, é um triatleta pronto para treinar.
Longe da beira, pra não trombar com os banhistas, o triatleta muitas vezes é perseguido e admirado por remadores (eventuais) de caiaques e botinhos de borracha, que costumam se aproximar pra ver que espécie de animal aquático é aquele.
O convívio costuma ser pacífico. Já a aproximação de lanchas e jetskis pode deixar o triatleta nervoso e agitado.


Ciclovia

Placa na ciclovia - (do blog De Verde Casa)
Muito se engana aquele que imagina que na ciclovia da CPTM os triatletas compartilhem o galho, digo, a pista apenas com seus parentes próximos – os ciclistas.
Ali os habitantes são outros mamíferos: roedores. As placas avisam logo no início do trajeto: cuidado com os animais silvestres – capivaras. E lá estão elas, tomando sol à beira do perfumado Rio Pinheiros, sem tomar conhecimento dos primatas sobre rodas.
Mas não são apenas as simpáticas capivaras que freqüentam o pedaço. Outros roedores, nada simpáticos, também atravessam a pista sem a menor cerimônia. Outro dia estávamos por ali e o mesmo rato (que parecia mais um cachorro) cruzou a pista na nossa frente três vezes.
Eca.

Outras
Estas são algumas situações permanentes em que invadimos ou compartilhamos os galhos alheios. Mas há outras, mais esporádicas: entrar no banheiro do posto de gasolina no meio de uma estrada – suada, de capacete e sapatilhas – enquanto o pessoal que veio de ônibus lá de Aparecida faz uma parada. Aparecer na piscina da academia com a roupa de borracha pra fazer um treininho pré prova. Parar no meio de um longão na chuva, ensopado e entrar numa padaria qualquer pra comprar um gatorade.
Por um lado, a gente vai se acostumando com os olhares incrédulos, mas, por outro, é preciso tomar cuidado pra não achar que somos mais donos dos galhos do que os outros macacos que os freqüentam conosco. Com exceção, é claro, do que não são macacos, são ratos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O amor fora de hora, o esporte amador

Estou cansada do amor. O amor tudo vence. Só o amor constrói. Amor, com o amor se paga. No amor e na guerra vale tudo. Ama ao próximo como a ti mesmo. Será?
O amor virou moda. Além de amar mãe,  pai, cônjuge e filhos, agora também precisamos amar o trabalho e, pior, amar as pessoas com quem trabalhamos. Haja amor! Bons médicos, amam sua profissão e devem tratar seus pacientes com amor. Professores, então! Nem se fale. Ai da professora que não amar seus alunos. Todos eles, sem exceção. Atores, artistas, músicos... os bons mesmo, têm paixão pelo que fazem. Será?
Me desculpem os amantes desse amor todo, mas não só acho isso mentiroso, como também penso que pior seria se fosse verdade.
Sem querer atrever-me a definir o que é amor vou, sim, ousar e afirmar que a presença de tal sentimento não é tão necessária quanto vem sendo apregoado ultimamente.
Em primeiro lugar, não é possível se obrigar a amar. Até hoje a poção do amor é procurada, mas sem muito sucesso. Talvez o alcool seja o que tenhamos de mais próximo a um afrodisíaco. Quem é que nunca viu (ou se viu) bêbado declarar seu amor para os entes queridos e pros entes nem tão queridos assim? Dificilmente se pode levar esses arroubos de afetuosidade muito a sério. Mesmo porque, no dia seguinte, o apaixonado já nem lembra mais de todo aquele amor.
Mas esqueçamos os bebados e os afrodisíacos.
Um médico, um professor, um técnico, não precisam amar o que fazem. Mas precisam ser comprometidos com as escolhas que fizeram em sua carreira e trabalhar com profissionalismo.
Esta idéia de que fazer o trabalho com amor é, necessariamente fazer um trabalho bem feito é perniciosa, pois pode eximir o sujeito de suar, ralar, estudar, aprender, ir em busca de conhecimento. Pode desprofissionalizar a relação dele com sua ocupação.
A professora não precisa amar todos os seus alunos, o médico não precisa amar seus pacientes. O técnico não precisa gostar de seus atletas. Mas todos têm a obrigação de respeitar seus pacientes, alunos, atletas. E o médico precisa ouvir e olhar para o ser humano que está á sua frente e ser capaz de colocar-se no lugar dele, ser compassivo com o doente e sua família, sacar que se para ele, médico, a doença e o tratamento são rotina, pra maioria dos doentes e suas famílias, não! Não precisa de amor. Conhecimento,solidariedade, humanidade, compaixão, sim. Amor? Não necessariamente . O professor tem a obrigação de fazer o melhor de si e acreditar que todos, sim TODOS os seus alunos são capazes de aprender, e investir nisso. A despeito das "famílias desestruturadas" de uns, da pobreza de outros, da aparente lerdeza de alguns. Todos podem e é obrigação do professor dar o melhor de si para que todos tenham oportunidade de aprender. Mas, pra saber o que cada um precisa e como ensinar, é preciso avaliar, estudar, planejar. Amor? Supérfluo. O técnico, idem. Precisa estar atento, analisar a individualidade de cada atleta, buscar a melhor palavra, o melhor exercícío, a "dura" mais precisa. Mais uma vez, pra ser competente, é necessário observar, estudar, avaliar, pesquisar. Amar?
E o tal do amor-próprio? Defendo uma idéia relativamente simples: este amor advém, principalmente, da confiança que construímos acerca das nossas capacidades. Elogios, aprovação e cumprimentos dos outros, ajudam, mas não são a essência. O principal é perceber que (nos)superamos, aprendemos, que conseguimos conquistar com braço forte.
Não há lugar onde o amor se encaixe melhor do que no esporte amador. O amador se entrega a essa ocupação sem esperar recompensa, pagamento ou reconhecimento. É um amor desinteressado mas, ao mesmo tempo,  altamente comprometido. É como amor a uma causa: dá sentido à nossa vida, nos dedicamos a ela, nos sacrificamos e não esperamos nada em troca. Quase um amor canino.
Não estou dizendo que os atletas profissionais não possam amar e se divertir com sua ocupação. Mas é seu ganha pão. Existe a obrigação de treinar, de competir, de ter resultado.  O amador refaz a escolha a cada dia que se levanta pra treinar: está desobrigado, mas escolhe levantar cedo e treinar. Escolhe não ir dormir tarde, escolhe abrir mão da festa.
E, embora o amador ame (quase) incondicionalmente o esporte ele é sim, recompensado algumas vezes. Na sensação agradável de terminar um treino longo e constante, na hora em que consegue atingir uma determinada marca, na disposição que conquista para tocar sua vida.
Amor é amor. Não é possível nos obrigarmos a a amar e, para ser duradouro, é necessário cuidados diários. E, de uma hora para outra, ele pode acabar ou ir morrendo aos poucos. Mas tanto na vida afetiva quanto na esportiva, não podemos deixar de aprender com nossas histórias de amor. Pois é isso que nos permite amar novamente, mais e melhor: pessoas ou esportes.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Trocas de rodas, Triathlon Internacional de Santos e revolta no pódio

No sábado fui até a USP pra dar aquele rolêzinho básico pré-prova. Levei as rodas Zipp e pedi pro Emerson - meu técnico - me ajudar a trocar.  Gostei de ver como ele apanhou pra trocar as sapatas do freio. Não sou só eu que sofro com essas bikes temperamentais.  Até o Fábio Rosa entrou na dança. Aí a magrela se revoltou e encrencou de vez: fiquei sem freio dianteiro. Os dois desistiram e eu levei a bike no Serginho. Como diz o ditado: "há malas que vão pro trem". Além de ter sumido uma molinha do freio, os cabos estavam no bico do corvo. Depois de 40 minutos de espera e de mais alguns outros ajustes, voltei pra USP, com uma bike segura.
No domingo saí cedo de carona com a Julia a caminho da baixada. Ela é uma ótima parceira de treino e viagem. Por incrível que pareça, tem a metade da minha idade e poderia ser minha filha! Acho isso um barato. A gente se dá muito bem. A viagem passa rapidinho.
Apesar do dia cinzento, na entrada da transição o clima é bem animado.
Minha estratégia é a seguinte: nadar como for possível (estou com uma "ombrite", sem treinar forte há um mês), pedalar pra morte e correr com o que sobrar de perna.
Minha meta: ganhar da Silvia Paller - minha mais forte adversária na categoria.
O mar estava longo. Fiz um tempo sofrível. Mas dizem as más linguas que tinha quase 1900 mts.
O pedal estava ótimo. Vi a Silvia um pouco à minha frente num dos retornos da Portuária. "Dá pra chegar", pensei.
Na Anchieta fiz bastante força contra o vento. Deixei meu cateye na média. Objetivo - aumentar a média de velocidade paulatinamente. Eis que vejo a Silvia parada na beira da estrada. Pneu furado. E ela não voltou mais para prova. Muito chato. O fato de ela ser forte me instiga a querer superá-la e, assim, me superar. Além do que, ninguém merece um DNF (Did Not Finish)!
Alcanço a minha amiga Nilma e vamos mais ou menos no mesmo ritmo até o final. Não peguei nenhum vácuo. Cara no vento o tempo todo. Na volta, com ele nas costas, estava muito bom. Cheguei a 34km/h de média! Um recorde. Termino com  média de 33,8.
Na corrida, uma palhaçada: não há marcadores de distância. Nenhumzinho. Como não estava de Garmin, corri às cegas, sem saber quanto faltava, sem saber o quanto me poupar, que ritmo imprimir. Ao longo da corrida, escuto gente chamando meu nome, incentivando. São colegas de treino e academia, técnico, pessoas com quem competi quando fazia biathlon, a turma da Nutricius, a Thelma, amigos antigos, amigos novos que conheci na minha curta carreira de atleta. Isso dá um gás a mais.
Depois do último retorno, sou alcançada pela Rita, da 40-44, que quer, deseperamente, alcançar uma rival de sua categoria. Vamos juntas, uma puxando a outra. Ela conta que já leu meu blog. (É tão legal ouvir isso!) No final ela dá um super sprint. Fico só assistindo. Faço um bom tempo mas as más linguas dizem que só tinha 9,3 km.
Como a Silvia tinha caído fora, sabia que o alto do pódio da categoria deveria ser meu. Ficamos esperando.
Enquanto os resultados não saiam (porque a tecnologia da NA Sports é muuuuito avançada, sabe? Ele não usa chip, usa velcro!) um locutor anunciava a presença "ilustre" do Rafael, participante da edição sei-lá-qual do BBB para entregar os troféus. Sinceramente... Como alguém pode levar a sério uma coisa dessas?
Finalmente, minha categoria é chamada ao pódio. Chove. A festa no pódio é praticamente de nós com nós mesmas. Quando o locutor anuncia que o tal Rafael vai entregar os troféus, incito a revolta: eu não quero receber o troféu dele. Eu não assisto BBB e sou contra BBB. Minhas companheiras aderem imediatamente ao meu protesto: é isso mesmo! Eu também não assisto BBB! É o fim da picada! Um monte de bobobocas, desocupados, que não fazem nada de bom! Foi uma pândega. O tal do Rafael, ficou ali, meio perdido. E nós nos cumprimentamos e nos parabenizamos.
Fiquei muito contente com a reação das minhas colegas de categoria. Frente a um grupo de mulheres de quase 50 anos que trabalham pra caramba, cuidam de filhos e de casa e ainda conseguem treinar, é quase um insulto que um cidadão como aquele - que virou celebridade instântanea sem nenhum mérito - seja reverenciado dessa forma. Acorda, Núbio!
Bom... pelo menos a gente riu e criou uma cumplicidade imediata. Tenho orgulho de ser dessa categoria.
Depois, lanchinho na Santa Marta, e subida pra SP.
Daqui um mes tem mais.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A regra do jogo

 Triathlon, comparado a outros esportes olímpicos, é um nenê que ainda não saiu das fraldas. Isso é bom? Nem bom, nem ruim. É diferente. Compare ao futebol. Sempre dura 90 minutos. Sempre é num campo de grama, tem linha de meio de campo, círculo central, gols com a mesma dimensão, 11 jogadores em campo, apenas um deles pode pegar na bola. E o triathlon? Hummm. Pode variar as distâncias de 5 km na corrida até uma maratona inteira. Permite vácuo/não permite vácuo. Pode ser individual, pode ser revezamento. Segue a mesma ordem: natação/ciclismo/corrida, mas pode ser feito em três parcelas, ou baterias: natação/ciclismo/corrida + natação/ciclismo/corrida + natação/ciclismo/corrida - como acontece no mundialito. Ou seja, mesmo que a distância olímpica tenha sido estabelecida, isso não impede que aconteçam provas de outras distâncias com a mesma - ou até maior - frequência dos que a de distância oficial. Isso sem falar na popularidade. No planeta triathlon, o que é mais pop: um mundial de triathlon (distância olímpica) ou o mundial de Ironman no Havaí? Aliás... Você sabe onde foi o mundial em 2009? Pois então. Mas aposto que você sabe quem venceu em outubro, em Kona. (BTW o mundial foi na Austrália). E aposto também que não vai demorar pro Iron virar modalidade olímpica.

Mas, voltando às regras. Elas não apenas permitem que os esportes existam, elas é que os tornam desafiantes. Pense bem... Que graça teria o futebol se todos os jogadores pudessem segurar a bola com as mãos? Ou o basquete, se fosse possível caminhar com a bola mais do que os dois passos da bandeja? Se, por um lado, as regras criam limites, por outro, estes próprios limites é que obrigam os praticantes da modalidade a ser criativos e hábeis para conduzir a bola com os pés – no caso do futebol – ou simplesmente voar – no caso do basquete. O triathlon também tem regras interessantes. Por exemplo: nos primórdios das provas (anteontem, mais ou menos) discutiu-se se o cronômetro não deveria ficar parado durante as transições. Já pensou? Que graça teria? Ninguém iria se confundir, se jogar no chão pra ter a roupa de borracha arrancada, colocar o capacete ao contrário... E ainda ia ter gente que ia sentar, enxugar dedinho por dedinho do pé antes de colocar a sapatilha, dar uma passadinha na toilete, tomar uma água de côco...

Outra regra: não ter ajudar externa. Do mesmo modo que o tênis, o atleta do triathlon, no dia do jogo tem de encarar a parada sozinho. Aí não é uma questão de diversão, mas é uma das coisas que tornam o triatleta um ser forte não só fisicamente. Durante as competições temos de tomar as decisões por nossa própria conta e risco. Ninguém fica na beira do campo gritando pra gente: “agora sobre a marcha! Não! Não! Eu disse sobe, p...! Ó o cara da sua faixa etária ta chegando! Aperta! Aperta!” Com exceção da entrada e saída da transição, estamos sós. Claro, ao longo dos treinos e em toda a preparação para uma prova o triathlon é um esporte de equipe: o que seria de nós sem o técnico, sem os parceiros de treino, sem a nutricionista ou sem a fisioterapeuta, pra citar alguns? Mas ali, na hora do “vamô-vê” esta regra torna a prova um desafio maior, mais interessante.

Como todo o esporte e, ainda mais, como todo o esporte com poucos anos de vida, é bem provável que as regras do triathlon sofram modificações. A tecnologia, o crescimento do esporte no mundo inteiro, o desenvolvimento de novos materiais, tudo isso pode fazer com haja mudanças. A princípio, não vejo mal nisso. Espero apenas que, como poucos esportes, os triatletas amadores continuem correndo junto com elite. Coisa impossível de acontecer no futebol (alguém aí já bateu uma bola com o Ronaldo, Robinho ou Kaká?) ou no basquete.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Brinquedinho novo

Já faz um tempo que estou devendo um post sobre meu novo brinquedo – um Garmin Forerunner 405. Mas atenção! Não se iluda. Não vou fazer uma resenha sobre o produto ou dar dicas e truques sobre os seus recursos e funcionalidades. Nada disso. Vou escrever sobre voltar a se sentir como criança diante de um brinquedo novo.
Este é um dos baratos do triathlon. E sem querer fazer um trocadilho infame, este barato geralmente sai caro. Mas vale a pena. Ao ingressar no mundo do triathlon abre-se uma vasta gama de possibilidades de ser feliz. A lista de desejos aumenta. Quanto mais você vai adentrando este universo, mas longa e específica ela vai ficando. Há três anos, por exemplo, eu só queria uma bicicleta para fazer triathlon. Mas nem sabia que existiam bikes de contra-relógio e bikes de ciclismo. Roda, para mim, era parte do veículo. Nunca me passaria pela cabeça comprar rodas que não viessem numa bicicleta. Não nasci sabendo, ok? E eu entrei muito solitariamente nessa vida de triathleta – não convivi com eles até que começasse a treinar portanto, era uma ignorante, literalmente falando. Mas aprendo rápido e, em pouco tempo, fui aprendendo a desejar: uma bike de triathlon, um par de rodas Zipp, uma jaqueta cortavento importada e assim por diante.
Gosto de almejar esses objetos. Não fico obcecada em possuí-los, mas vou acalentando o desejo, sonhando com eles, planejando o momento de adquiri-los e o de usufrui-los.
Foi assim quando passei da Vicini pra Giant. Levei meses para tomar a decisão, namorei várias bikes, conversei com algumas pessoas, naveguei por sites, negociei um parcelamento, pedi um subsídio em nome do meu aniversário e, no início de 2008, estava com a nova magrela. Totalmente apaixonada.
Depois foram as rodas Zipp. Discuti com mestres no assunto qual a melhor relação custo-benefício, fiz cotação em vários sites americanos, regateei e, por fim, comprei-as às vésperas de ir pra Clearwater. Chegando ao hotel, lá estavam as minhas lindinhas. Dormi abraçada com elas.
Levei mais de um ano para decidir comprar um Garmin. Achava muito caro, não sabia se ia ter mesmo utilidade pra mim, se valeria a pena. Mas, a hora chegou. Mudei de academia, estou correndo mais vezes na rua (e não sei qual a quilometragem percorrida), ano que vem, nos treinos pro Iron, vou ter de fazer muitos longões, o dólar baixou, o Garmin criou um modelo que não fica parecendo uma televisão no meu pulso. O marido da Eliana, que trabalha comigo, foi para os States e trouxe um pra mim.
E eu estou a-do-ran-do meu brinquedinho. Acredite se quiser: até o manual eu li! Aperto os botões, exploro todos os comando, jogo no link da web, corro com os olhos grudados nele, brincando de manter ou apertar meu pace!
É legal e gostoso ter vontades. É bom lembrar que, geralmente, quem não tem vontades e apetite (que não deixa de ser uma vontade), é porque está em depressão. Sem exageros, sem abusos. Claro que se você começar a ficar obcecado por bicicletas top de linha, última geração, de US$ 15,000, isso pode se tornar um problema. Pelo menos no meu caso. Mas sei até onde posso cultivar os meus sonhos.
Não sou consumista, não gosto de jóias, não ligo pra roupas – não reparo nas marcas, não dou bola pra bolsa (uso a mesma faz uns 5 anos) e nem pra carteira, sapatos são uma encrenca na minha vida (um dia escrevo sobre eles e meus pés) mas, fico feliz como uma criança no Natal quando ganho ou compro os equipamentos e acessórios do meu esporte.
E não é mesmo uma delícia?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Clearwater 2008 – venturas e desventuras – parte 4 (parte 1, 2 e 3 estão logo ali)

Nunca imaginei que a Florida pudesse ser tão interessante. Quando pensava em Florida só me vinha Mickey Mouse, velhas aposentadas e compras. Nada muito atraente. Ainda bem que me enganei.

Do aeroporto de Tampa, fui com o Diogo (colega de treino) e sua noiva que, gentilmente, me deram uma carona, com mala bike e tudo. Eles pegaram um carrão, com uma GPS que falava português com sotaque de Portugal. A moça realmente não era lá muito esperta. Logo de cara, na saída do aeroporto, nos mandava fazer uma caminho que resultava em círculos. Obviamente, sem saída.
Ainda bem que por trás da direção havia um cérebro que se rebelou contra a máquina e, entendendo a direção que tínhamos de ir, recalculou a rota, deixando a nossa bússola um pouco atordoada. Depois ela se comportou bem. Também... até eu. Era praticamente uma reta só.
Chegamos à cidade de Clearwater Beach, já madrugada. A primeira impressão foi ótima. Uma cidade simpática e arrumada, mas sem excesso de maquiagem. Um batonzinho e lápis no olho – era o que ela usaria, se fosse uma moça.
No hotel, grande notícia: minhas rodas Zipp estavam lá, bonitinhas, me aguardando. Cai na cama e apaguei.
Na manhã seguinte, da janela do quarto, vi o oceano, imenso e azul. Atlântico, meu velho conhecido. Mas aquela areia, não. Essa, era novidade. Branca de doer os olhos.
Tomei um café da manhã deplorável no próprio hotel e fui fazer um reconhecimento do local. Iria aproveitar para fazer meu check-in e pegar o kit.
Do meu hotel até o centro dos acontecimentos a distância era cerca de 1,5 km talvez um pouco menos. Mas era uma caminhada à beira-mar, num calçadão, cheio de canteiros.
Nessa caminhada me deixei invadir por uma imensa felicidade. Eu sabia que estava vivendo um momento ímpar. Era muito mais do que uma competição. Então deixei meus sentidos o mais aguçados que eu conseguia: deixei a intensidade das cores entrar pelos meus olhos – era um céu azul de outono, iluminado por um sol já oblíquo, que não castigava, mas aquecia, um mar esverdeado e sereno, um asfalto preto e liso (colírio para os olhos de quem pedala na USP). Parecia que tinha tomado um ácido.
No check-in fui recebida por um senhor britânico, cujo filho iria participar da prova. Ele estava lá como voluntário. Só faltou me pegar no colo. Explicou tudo, perguntou o suficiente para eu sentir que se interessava por mim e depois me passou para as mãos dos outros que me trataram igualmente bem. E eles não recebem um tostão por isso.
N parte da tarde fui levar minha bike para montar. Segui a dica do Duda, atleta da MPR que havia feito a prova no ano anterior, que me falou de uma loja chamada Chainwheels.
Era do outro lado da ponte. Mas como eu queria conhecer um pouco do lugar, achei ótimo.
Enquanto a bike estava na oficina, aproveitei para dar uma corridinha. Sai pelo bairro adentro. Era um bairro residencial, com um campo de golfe bem no meio. As ruas não tinham quase movimento. As casas, de classe média, sem cerca ou muro que as separasse, pareciam habitadas, pois havia carros à sua frente, janelas aberta, às vezes alguns objetos do lado de fora. Mas vi pouquíssimas pessoas. Pouquíssimos carros circulando.
Corri durante uma hora, num ritmo bem tranqüilo. Poderia ter feito mais duas horas, só explorando o ambiente.
Voltei para loja e, quem encontro? A Nilma!!! Ela e o Neto, por acaso, estavam lá, do outro lado da cidade. Foi uma festa. Ainda por cima me deram carona até o hotel. Nossos hotéis eram menos de 100 mts de distância!
À noite havia um jantar de confraternização. À beira-mar. Desinformada, achei que era nas proximidades da área de transição, da feirinha, no epicentro de Clearwater. Ledo engano. Era do outro lado. No Sand Key Park. Estava indo a pé quando cruzei com uma família simpática e perguntei se caminhava na direção certa. Eles não só me informaram que eu estava redondamente enganada como me ofereceram carona. Era um casal de americanos com seu jovem filho que iria competir.
Fomos conversando, mas, quando chegamos lá, achei melhor deixá-los.
Estava friozinho. Ventava. A comida não era grande coisa. Os pratos e talheres eram de plástico mas eu estava achando tudo uma delícia. Na hora em que entraram os meninos carregando as bandeiras dos países participantes e eu vi a bandeira do Brasil... adivinha? Caí no choro.
Fiquei um pouco ali, um pouco acolá. Conheci o Vilela (Velho Ligeiro) e sua animada turma de Santos, encontrei um e outros. Porém, estava curtindo sozinha.
No dia seguinte, fui para o treino de natação, organizado pela prova, experimentar o mar. Pelo caminho, as varandas dos hotéis exibiam bandeiras de vários países e wetsuits pendurados, como sombras inanimadas, nas calçadas gente forte e magra, correndo, nas ruas, desfiles de bikes. Mundo do triátlon. Era onde eu estava. Clearwater Beach é uma cidade do veraneio. Portanto, é um período em que está vazia. Nós, triatletas, invadimos a praia, vindos de todas as partes do mundo. Fincamos nossas bandeiras. Instituímos nosso modo de ser. (Continua)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Troca de pastilhas ou a vingança


Arrumei uma briga com a minha magrela ontem. Nós duas saímos machucadas.
Tudo isso porque fui trocar as pastilhas do freio dianteiro. Por conta da avaria na minha roda que ainda não ficou pronta hoje, excepcionalmente, planejava treinar com a minha Zipp. Só uso esta roda pra competição pois tenho dó de colocar na USP. E, para isso, é preciso trocar as pastilhas. A pastilha da roda normal não serve para a Zipp.
Eu já tinha visto esta troca sendo feita umas duas vezes e pensei “é bico. Dois palitos, eu faço o serviço”. Hum. Levei uns 30 minutos. Sem contabilizar o intervalo de uns 20 minutos que dei pra passar a irritação.
Peguei a bike, as pastilhas, as ferramentas e fui, de calça estilo “senhora diretora”, começar a operação. Afinal, pra que trocar de roupa se eu não ia nem me sujar? Hum.
Virei a bike de ponta cabeça e estudei o freio. Chave alley na mão, soltei o parafusinho de um dos lados. Bico! Hum. Do outro lado, a chave não encaixou. Estava pequena demais. Ué... Como é que pode? Tentei a chave maior... Não cabia. Olhei mais de perto. Não tinha parafuso. Teoricamente, então, era só deslizar as pastilhas para fora do encaixe.
Aí começou meu embate com a bike. Primeiro: o lugar onde fica a pastilha não é de fácil acesso, sabe? Fiquei de ponta-cabeça tentando achar uma posição pra puxar a pastilha e não deixar a bike deslizar ou, ao contrário, deslizar a pastilha e puxar a bike. Aí, a bike escorregava e a pastilha não saia do lugar. Comecei a suar. Nada. Coloquei-a no meu colo. Ela mordeu a pastilha e não quis largar. Enfiei uma chave de fenda, tentando soltar, fiz mais força do que devia, machuquei a magrela. Ela se revoltou e, me arranhou a mão.
Nos engalfinhamos e rolamos pelo chão. Parei. Saí de perto. Fui respirar. Acalmar. Voltei. Conversei com ela. Pedi desculpas pelo machucado em sua pintura. Ela cedeu. Consegui tirar as pastilhas. Colocar as outras, também não foi fácil, mas não teve briga.
Coloquei a rebelde no carro, junto com a Zipp e fui dormir com gosto de vitória. Tinha trocado as pastilhas. Sozinha. E de uma bike selvagem. Hum.
Cheguei na USP cedo e fui montar a roda. Cadê a blocagem (pecinha que prende a roda no garfo da bicicleta)? Não levei. Fiquei sem treino. No carro, de volta, a bike parecia rir de mim.
Mas não tive dúvidas, cheguei em casa atrelei ela no rolo e a castiguei por uma hora.

sábado, 1 de agosto de 2009

Perdi uma roda, ganhei o dia

Estava fissurada para treinar. Hoje era dia de treino cruzado (20 km bike/4km corrida/ 20km bike/ 4km corrida 20km bike/ 4km corrida) é longo, fatigante mas muito dinâmico: não dá tempo nem de enjoar, você desce da bike e começa a correr, em 20 minutinhos ou menos, termina a corrida e aí bike de novo. Quando se viu, foram 3 horas de treino e você nem sabe como o tempo passou. Adoro. E, em 2009, por conta das minhas lesões não tinha feito ainda. A expectativa era grande.
Saímos num grande pelotão. E isso seria apenas na primeira perna de 20 km da bike porque, depois disso, eu e os outros que fariam o cruzado, sairíamos pra correr. O Emerson pediu “os mais experientes na frente, sinalizando os buracos, mantendo o ritmo e organizando o pelotão”. Embora ele tenha me elegido entre a lista de mais experientes não me considero tão experiente assim e evito ficar à frente quando o pelotão é muito grande.
Durante os primeiros 15 km tive de dar uns berros, pedindo que as pessoas da frente avisassem sobre os buracos, pois já havia caído em alguns por falta desses avisos. Pra quem não sabe, pelotão funciona num efeito dominó — para o bem ou para o mal — se os primeiros avisam e ninguém rompe o elo da cadeia, os últimos ficam informados dos perigos: buracos, pedestres na contramão, obstáculos, ciclistas mais lentos a serem ultrapassados. Se não avisam ou se alguém rompe a transmissão da informação: danou-se! As conseqüências podem ser desastrosas.
E foi o que aconteceu. Fechando a última volta de 5 km, na raia, logo após a entrada do remo, lá estava ela: a cratera. O primeiro não avisou, o segundo se assustou mas, sem tempo de avisar, apenas se desviou, o terceiro quase caiu, o quarto, caiu na lateral e perdeu a garrafa d’água e o quinto caiu em cheio. Quem era o quinto? Eu.
Por sorte (e um pouco de habilidade também) não cai da bike. A 36 km/h o tombo teria feito um estrago. Parei na mesma hora para avaliar os estragos. Gra foi a primeira a parar pra ver como eu estava. O pneu da frente estava cheio. Segui um pouco mais e fiz o retorno para encontrar o pelotão. Mas o pneu de trás murchou. Parei e comecei a praguejar. “Que raiva! Que ódio! Ninguém avisa! Que droga! Vai acabar com meu treino cruzado!
O pelotão fez o retorno no fim da raia e, Claudio, Rodrigo e Cachorrão (não confundam com Cachorro Louco) pararam pra ver o que tinha acontecido. Imediatamente, Rodrigo começou a tirar a roda traseira, Cachorrão a buscar seu kit de troca e o Claudio ficou de auxiliar. Rodrigo tirou rapidamente a câmara estourada e colocou uma oferecida pelo Cachorrão. Peguei minha cápsula de CO2. Não funcionou. Tentamos a do Cachorrão. Também não deu. Felizmente, Rodrigo também tinha uma. Conseguiu encher. Neste ínterim, Marcos e Marcos (que já estavam fazendo a primeira perna de corrida do cruzado), Rubão e Jun, chegaram. A válvula da câmara estava com defeito, o pneu estava esvaziando.
O pelotão passou e mais três pararam: Gusmão e dois novatos cujos nomes não me lembro. Eu ia começar a reclamar de novo do meu azar, de justo no dia que vou fazer o cruzado, isso me acontece e bla bla bla, quando o Claudio virou-se para mim e disse baixinho: “olha como você é querida. Todo mundo parou pra ver como você estava e te ajudar”. A reclamação murchou imediatamente na minha boca. Lá estava eu, com uma roda torta, um pneu furado e um exército de homens à minha volta, dispostos a me ajudar. E, como não podia deixar de ser, Claudio completou, em voz alta: “Se fosse eu, vocês iam passar e ainda tirar uma da minha cara ‘aê, Claudião,se vira tatu!’”
Depois disso, meu humor mudou. Tivemos uma cena de pastelão, pois conseguimos mais cápsula de CO2 e como o bico estava vazando, os meninos me instruíram: “monta na bike, clipa o pé na sapatilha. Vamos encher o seu pneu e você zarpa, pra dar tempo de você chegar até o fim da raia antes de esvaziar”. Fiquei a postos. Um disse “vai”, o outro disse “não!” e eu, que segui o primeiro comando, fui. Direto pro chão! Meu pé tava preso na sapatilha, tentei dar a primeira pedalada, mas como tinha um segurando a roda, só fiz desequilibrar e cair. Felizmente, não foi nada sério. Só engraçado.
Não dava pra ir com o pneu daquele jeito. Era preciso, novamente, trocar a câmara. E recomeçou todo o processo. Mas ninguém tinha CO2. Então eu e a Gra começamos a pedir para os ciclistas que passavam “tem bomba? Tem bomba?” Em 5 segundos, parou um gentil sabichão que tinha uma bomba manual e também muitos conhecimentos sobre troca de pneus – pois começou a dar uma aula pros meninos, que começaram a se irritar. O processo foi rápido. Ainda bem. Por que eu estava vendo a hora que o Rodrigo e o Claudio iam enfiar a bomba na boca do cara e inflá-lo até que ele saísse voando por aí.
Consegui chegar à área de transição. Mas percebi que a roda dianteira estava bem avariada.
Deixei a bike, contei para o Emerson o que tinha acontecido e fui correr com o Claudio, que gentilmente me esperou.
Quando estava saindo, o Gusmão, ciclista experiente que acabou de chegar da “Etape Du Tour”, comentou: “Que prestígio, hein Claudia?! Desmontou o pelotão!”.
Marcos me emprestou a roda dele, corri melhor do que esperava. Fiz o cruzado que eu tanto queria.
É bem possível que a roda não tenha conserto. Em compensação, se não fosse esse infortúnio, talvez eu nunca tivesse me dado conta do lugar que ocupo nesse pelotão.

sábado, 25 de julho de 2009

Às minhas amigas triatletas

Uma das melhores coisas que o triathlon me trouxe foram as amigas. Não somos muitas as mulheres nos treinos e nas competições. Cerca de 20-25%. Talvez por isso, nosso jeito de competir umas com as outras seja mais companheiro e amistoso. Consideramos-nos vencedoras pelo simples fato de participar de uma prova ou de estar num treino às 5h da manhã, no frio, em que mesmo o quórum masculino é reduzido. No pódio, festejamos e nos cumprimentamos com autêntica alegria. Os triatletas comentam perto de nós que conseguiram “o alvará de soltura da patroa” para o pedal de domingo. Nós precisamos negociar com nossos maridos ou namorados, deixara refeição engatilhada, lidar com a culpa de não estar em casa na hora em que os filhos acordam, encontrar disposição pra aquele almoço com os sogros (ou com os próprios pais) .
Despertamos olhares de admiração dos nossos colegas homens. Eles, que competem a sério, morrem de medo de serem passados para trás por alguma de nós. E às vezes o são. Sabemos dosar. Não temos aqueles montes de testosterona explosiva que parece fazer com que alguns homens passem todo o tempo exibindo sua força. Temos progesterona, que nos torna mansas e persistentes.
Duas coisas, basicamente, fazem as amizades femininas nesse esporte tornarem-se tão especiais. A primeira é compartilhar experiências intensas como as provas e suas respectivas preparações. Vivemos o medo, o esforço, o cansaço, a superação do desafio, a alegria e podemos falar do que sentimos umas com as outras. A segunda, é a oportunidade de uma convivência mais próxima, seja nos fins-de-semana de treino, seja numa viagem para uma competição, que também nos tornam mais íntimas. O vínculo com essas amigas tornou-se especial em um curto espaço de tempo.
Esse seleto grupo de amizades femininas triatletas é composto por pessoas de faixa etária variada (mas sou a mais velha de todas), formações e ocupações, idem. É uma coleção de preciosidades. Farei pequenas homenagens a elas – sem hierarquia.
Gra. Nossa Demi Moore. Mais bonita, aliás. A primeira conversa que tivemos foi num trotinho no Ibirapuera. Aquela menina me conta que já tem filhos de 17 e 18 anos e está casada com o mesmo marido há 20 anos. Além disso, havia acabado de fazer um iron. Comecei a admirá-la na mesma hora. Uma vida tão diferente da minha. Um jeito de ser contido, discreto, quase silencioso e, ainda assim, uma presença marcante. Quem não sabe quem é a Gra? Presença infalível nos treinos, detonadora de planilhas, 100% de aplicação. CDF ou “caxias”.
E, de pedalada em pedalada, de café em café, de torpedo em torpedo, fomos ficando cada vez mais amigas. Devo a ela vários macetes que aprendi. Em 2008 foi minha grande parceira de treinos. Companheira que não deu um furo. Combinado com ela era sacramentado. Não tinha que esperar confirmação. Em 2009 estava se preparando para o Iron, começou a ter problemas de saúde e teve de mudar seus planos. Fiquei preocupada, achei que ela iria entrar numa depressão daquelas. Mas não. Ficou triste e encarou a tristeza – sem tentar passar por cima, mas tampouco sem se entregar a ela; adaptou-se, mudou seus planos, se tratou. Cresceu. Uma verdadeira guerreira escondida naqueles ares de gueixa.
Cris. É um sol, luminosa e radiante, também de uma beleza resplandecente. Com ela, não tem tempo ruim. Ela é professora de yoga, tem todo um lado espiritual e meditativo que, à primeira vista, parece não combinar nada com uma modalidade como o triathlon. Mas combina. Não é das mais aplicadas, bissexta nos pedais das madrugadas, aos sábados aparece treino sim, treino talvez... Mas nas provas, ela cresce e aparece. E sua companhia nos café da padoca, anima a mesa!
Nossa conexão se estabeleceu instantaneamente. Fomos juntas pra Santos fazer um troféu Brasil, depois encaramos o Desafio da Serra em Campos do Jordão, no início de 2008 fizemos o Internacional e, no final do ano, fomos as duas famílias (dois casais com sete meninos) para Paúba faríamos a Fuga das Ilhas. Nesta ocasião, Robert, marido dela, ficou com todos os meninos enquanto ela, meu marido e eu nadávamos.
Em todas essas vezes nossa sincronia foi perfeita. Os horários, as refeições, as arrumações... Todo o ritmo e a rotina de antes e depois da prova fluem com tranqüila naturalidade.
Dani. Conheço poucas mulheres bem-humoradas como ela. Mas não é um humor qualquer – é sofisticado, sagaz e rápido. Ainda por cima, é bonita também. De uma beleza matreira e moleca. Profissional em plena ascensão, implacável com os homens. Mas ficava sempre atrás no pelotão. Nem na roda ela conseguia! Nesses dois anos de convívio tivemos conversas seriíssimas em cima da bike, trotando no Ibira, correndo na USP. Ela estava começando a cair na armadilha da mulher auto-suficiente. Aí apareceu o Celso. E neutralizou qualquer fuga que ela pudesse pensar em fazer. Deu a ela uma bike decente e a ensinou a pedalar.
Ela continua profissional competente, continua simpática e sorridente, mas agora seu olhar está mais doce.
Não posso contar com ela nos treinos. Nisso ela não é mesmo ponta firme. Em compensação, quando ela aparece, sua companhia é por inteiro. Num dos piores momentos que passei este ano, as tiradas da Dani (junto às do Cachorro Louco) me fizeram rir. Rir de mim mesma, da situação em que estava e ficar mais leve. Ela sabia e foi o jeito de cuidar de mim. Um jeito ótimo e original, como ela.


Nilma. Empatia imediata. Foi assim. Trocamos duas palavras antes do início de um Troféu Brasil na USP. Ambas iríamos fazer a distância olímpica e éramos pouquíssimas mulheres naquele dia frio de agosto. Passei por ela no pedal e disse “E aí, Botucatu!” Não lembrava seu nome , só sua cidade. Em Penha, nos encontramos durante o pedal. Aí sim, o nome estava escrito no número de peito e pude chamá-la. Pedalamos lado a lado por um tempo, conversamos sobre treinos e sobre a possibilidade de ir para o mundial em Clearwater, Florida. Ambas nos classificamos.
Começamos a nos falar por e-mail, depois por telefone. Primeiro, pra trocar informações sobre a viagem, depois para falar das expectativas e da ansiedade. Combinamos de nos falar em Clearwater e, logo no primeiro dia, encontramo-nos por acaso na loja em que eu montava minha bike!
A partir dali, passamos muito tempo juntos: Neto (namorado dela), ela e eu. Foram companhias importantíssimas. Leves, divertidos, alegres. Chegamos quase juntas no final da prova e estávamos exultantes. Jantamos, tomamos café, passeamos e, o mais significativo – fizemos juntas compra de equipamentos – o que é muito importante, pois trocamos impressões, opinamos uma sobre as aquisições da outra e tornarmos um momento que pode ser aborrecido, em diversão.
Ela fez o Iron este ano e é uma das pessoas que muito me influenciou na decisão de me inscrever. É lindíssima. Leitora deste blog, uma das que mais me anima e incentiva a continuar. Nossa amizade este ano está à distância. Mas sempre que nos falamos, ficamos 30, 40 minutos ao telefone. Parece que somos amigas há anos!

Mari. Um dia meu marido chegou de uma corrida e disse “Conheci uma amiga sua muuuuito, mas muuuuito simpática! Nossa, que pessoa legal!”. Era da Mari que ele falava. E ele não é uma pessoa que costuma se empolgar com as demais e muito menos manifestar esta empolgação. Não era exagero. A Mari é assim. Encantadora. Seus olhos são dois vaga-lumes, daqueles verdes, que brilham muito na escuridão. Mas no caso dela, brilham em plena luz do dia e têm o poder de ofuscar qualquer resquício de mau-humor ou baixo-astral.
Logo que nos conhecemos, ela contou que havia feito o Iron há muitos anos. Eu me espantei: “Como? Muitos anos? Quantos anos você tem?”. Não quis me contar a idade (ela guarda seus mistérios) mas confessou que era uma das caçulas na competição.
E é assim, uma desbravadora. Não tem medo de abrir caminhos. Veio do interior para São Paulo e ganhou a cidade grande. Aliás, o contrário: a cidade grande é que ganhou com a vinda da Mari.
Foi pro Rio de Janeiro fazer um estágio: ela a bike, a cara e a coragem. Logo já estava treinando com uma turma. Mas não faça besteiras se estiver num pelotão com ela. Vira bicho e bronqueia mesmo!
Ela se formou, passou na OAB e formatura será dentro de alguns dias. Estou muito honrada em ser convidada para a festa, ver minha amiga brilhar mais uma vez.
Thelma, Carla, Kiki, Tarsila, Patê, Paulinha, Viveka, Julinha, Lidiane. São outras valentes e queridas amigas do esporte. Quero homenagear todas vocês!




terça-feira, 14 de julho de 2009

Bike fit

Antes de ingressar no mundo do triathlon eu nem sabia que isso existia. Para mim, era olhar a bicicleta, montar em cima pra ver se, sentada, conseguia alcançar o pé no chão com facilidade, testar o conforto do selim e estava resolvido.
Quando surgiu a oportunidade de comprar uma speed - por sinal, eu nem sabia que tinha esse nome, o Portelinha (meu padrinho no triathlon, por assim dizer) foi logo me dando as dicas: “ O Serginho, da Ciclovece, vai arrumar alguma coisa boa pra você. Fala que é minha amiga”. De fato, ser amiga do Portelinha abre muitas portas, mas isso é papo pra outra hora. Acertei a compra de uma Vicini: uma bike de ciclismo honesta, por um preço justo.
Durante as tratativas de compra da bike, Portela perguntou “E o bike fit?”. Meu impulso era responder “Bike o quê?!”. Sou besta, eu? Fiz cara de sabida e devolvi: “Hummm não sei... O que você me recomenda?” Rá! Enganei ele direitinho. Concluímos que, para começar e também pra não gastar mais tempo e dinheiro, eu poderia fazer lá na Ciclovece mesmo. E eu que pensava que era só pegar a magrela e sair pedalando...
Que nada. O bike fit consiste numa sessão combinada de alfaiataria, mecânica e fisioterapia.
A bicicleta é colocada num artefato chamado rolo – palavra que também entrou no meu vocabulário neste mesmo dia, inclusive causando impacto no meu orçamento. E este negócio permite que a sua bike se transforme numa ergométrica. Ou seja, você pedala parado.
O bike fitter (acabei de inventar este nome, será que existe?) utiliza pêndulos, réguas e outros instrumentos que devem ter sido inventados por Copérnico, Galileu ou Da Vinci, para analisar a posição do ciclista, os ângulos formador por suas pernas ao pedalar, distância entre a mesa e o selim, a inclinação do guidão pra ficar mais, ou menos agressivo, a posição do taquinho na sapatilha e a localização da ponta da pipeta da bronzina (este último é mentira, mas o resto é verdade). Teoricamente, um bike fit bem feito pode melhorar mais de 20% o desempenho do atleta. E hoje ainda fiquei sabendo de mais uma: existem diferentes protocolos de bike fit! Vou procurar pra ver se encontro algum exemplo. É mais ou menos assim: se você vai pedalar sozinho, um contra-relógio (numa bike de contra-relógio) não ficará na mesma posição que ficaria se fosse pedalar num pelotão numa bicicleta de ciclismo e, imagino eu, deve ser diferente também se você vai pegar muitas subidas ou encarar um percurso plano. É complexo. É uma ciência. Ou uma tecnologia. Ou as duas coisas. Existem, no Brasil e no mundo, caras que são verdadeiras sumidades no assunto.


Fato é que, desde o ano passado, quando passei a fazer treinos de pedal mais longos, meu pé direito fica dormente. E tem também este negócio no meu tornozelo/calcanhar direito que não sara. Meu último bike fit foi quando comprei a Giant que uso atualmente, de triathlon mesmo (ou seja, é de contra-relógio) e, desde então, acho que fui ficando mais íntima da magrela e, portanto, mudando meu posicionamento. Decidi fazer um novo bike fit, desta vez, com o mestre Elpídio, da Bianchi Brasil.
Ele descobriu que eu estava toda torta. O taquinho mais pra trás do que deveria, o selim mas pra frente, os ângulos da pedalada obtusos numa parte e oblongos, na outra, a mesa muito afastada... Uma verdadeira desgraça!
Elpídio fez o que pode, mas disse que será bom colocar uma mesa menor. O problema é saber se existe, já que minha Giant é modelo XS. Avaliou que devo apertar menos o velcro da sapatilha, pois isso pode estar prejudicando a circulação do sangue no pé direito e causando o formigamento. Além disso, sugeriu que eu tenha, além dessa, uma outra magrela, de ciclismo. As bikes de triathlon colocam a gente numa posição muito anti-anatômica, são duras, e castigam as costas – principalmente se o asfalto estiver ruim, como está o da USP. Emerson, meu técnico, concorda com ele e Cacau, minha fisio, também.
Vou ter de pensar seriamente no assunto. A perspectiva, principalmente a partir do começo de 2010, é fazer treinos longos, de mais de 100 km, várias vezes, até a prova. Por outro lado, investir em outra bicicleta, também não é indolor.
Vou colocar na balança, analisar o balanço do pêndulo e, depois da prova de Penha, decido.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sobe e desce ou a Lua na USP

Outra hora dou seqüência à história de como tudo começou. Vamos diversificar os tópicos, é saudável.

Pedal na subida é o melhor treino da USP. Nesta última terça foi sensacional. Lua cheia descendo no alto da subida da Química. Pedalávamos em direção a ela até o topo e então, como se desistíssemos de alcançá-la, virávamos as costas e retornávamos. A cada subida, ela ficava maior e mais alaranjada. E lá pela metade do treino, o céu, na descida começou a ficar rosa e, no fim, o sol vermelho, apareceu.
Na subida, não dá para pensar em nada que não seja a própria subida: o esforço da pedalada; a troca de marchas; aquele ponto ali, um pouco antes da lua, onde devo chegar e, a partir dele, aumentar o RPM (rotações por minuto, ou seja, o giro da perna); aquele cara, naquela bicicleta, que quero ultrapassar, porque sei que consigo; a hora de pedalar em pé, amassando o pedal com a sapatilha, a hora de pedalar sentada e puxar a sapatilha pra cima; sobe pulsação, aumenta respiração, a perna queima, o calor aumenta.
Na descida, os pensamentos são soprados pelo vento que bate gelado. Mas os sentidos têm de estar aguçados. Quanto maior a velocidade, mais atentos aos buracos, carros, ônibus, pedestres, outros ciclistas, lombadas e curvas temos de ficar. As pernas giram, descansando; os batimentos decrescem, a respiração acalma, o frio aumenta.
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes. E eu queria mais.
Nas noites mais geladas, o único desconforto, é o térmico. Como coloco muita roupa pra não passar frio, morro de calor na subida e congelo na descida. Mas, nessa terça, não. Foi perfeito.



quinta-feira, 2 de julho de 2009

Meia final

Desde que comecei a treinar praticamente parei de acompanhar o futebol de que tanto gosto. Abri mão, porque tenho de fechar os olhos cedo ou porque, no domingo, se o jogo não for muuuito bom, os olhos se fecham sozinhos. Ontem abri uma meia exceção e assisti metade do jogo. Aliás, diga-se de passagem, foi uma final muito pouco corintiana. Sem sofrimento. Na era A. M. (antes do Mano) a escrita seria outra: provavelmente dois a zero pro Inter no primeiro tempo e a gente se descabelando durante todo o segundo tempo até o último minuto. É ou não é? Se assim fosse eu não poderia ter ido dormir. Mas meu coringão fechou o assunto no primeiro tempo e no intervalo pude desligar a TV, confiante de que a parada estava ganha. Estaremos lá, no ano de centenário.Acordei no meio da noite com os fogos. Parecia virada de ano. Fiquei mais tranquila ainda e aprofundei o sono até as 4:20. Logo que acordei tinha uma mensagem “Dá-lhe timão!” no meu celular. Beleza. Vesti uma calça preta de ciclismo, camisa, jaqueta, bandana alvinegra e, por cima de tudo, minha camisa autografada (inclusive pelo Nilmar hahaha).
Fui para USP. Meu único medo era que algum são paulino ou palmeirense invejoso e ciclista me derrubasse no pelotão. Alguns protestaram, outros passaram e me saudaram solidários e espalhafatosos.
Sigo o futebol à meia distância. Conheço metade do time. Assisto até o meio do jogo. Mas não consigo ser meio corintiana. É como ser meio tratleta. Impossível.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Transições na madrugada


Não gosto de pular da cama tão cedo nesta época do ano. Especialmente pro treino de pedal, num horário indecente. Mas há algo que me impulsiona e antes das 04h30min estou de pé. Acho que é um hitlerzinho que habita em mim. Pra dificultar (ou facilitar), deixo o despertador láááá no banheiro, então, ele fica tocando até eu ir desligá-lo. Aí, já acordei mesmo, só preciso me vestir. O banheiro é a minha área de transição número 1 – T1. Tênis, top, faixa do monitor cardíaco, meia e/ou meia calça conforme o frio, calça de ciclismo, blusa de ciclismo, jaqueta corta-vento, bandana, relógio – nesta ordem, de baixo para cima, empilhados. Faço xixi enquanto calço as meias e visto top (tou craque em fazer xixi em movimento!), depois visto o resto, lavo a cara e espanto o resto do sono, escovo os dentes. A casa dorme. A rua dorme. O bairro dorme. Até os mortos do cemitério do Araçá, que são meus vizinhos, parecem ainda mais adormecidos neste horário. Todo este silêncio e a escuridão chegam a dar certa melancolia, uma pitada de angústia. Mas meu Hitler de estimação me empurra: vá, você não vai se arrepender, diz ele. O celular serve de lanterna, se o marido estiver dormindo. Vou até o quarto dos três pequenos para o ritual da coberta. Martim dorme de barriga pra baixo, com os ombros tensos e o edredom preso entre suas pernas e a parede. Tento deixá-lo mais confortável e mais aquecido. Ele se ajeita. Parece aprofundar-se no sonho. Félix, na cama do meio, invariavelmente está pendurado na cama, com o edredom e travesseiro no chão. Puxo suas pernas, ajeito o travesseiro e devolvo o edredom ao seu devido lugar. Ian costuma ficar enrolado feito um rocambole. É tão complicado ajeitá-lo que algumas vezes ele até abre os olhos e diz “oi mãe!”, como se seu dia estivesse começando. O Theo... a porta está fechada, ele tem 15 anos e não me atrevo mais a entrar sem bater. Bater está fora de cogitação. Então torço para que ele esteja bem aquecido.Desço para o posto de abastecimento um P1– cozinha. O mamão já está lá desde ontem, num prato, ao lado da faca e da colher, o gel e a bananinha separados. As caramanholas, já preparadas na geladeira, com maltodextrina ou só com água mesmo. No meu escritório, área de transição número dois – T2 – ficam os óculos, carteira, dentro de uma sacola, onde coloco a alimentação. É só pegar. Se, por acaso, algo me desviar a atenção neste momento, deixo a caramanhola em cima da mesa e... Já era! Vou pro treino sem hidratação.O carro é a área de transição número três – T3. A bicicleta, o capacete, as luvas e as sapatilhas estão lá desde a noite anterior. Às vezes tenho de tirar o carro do marido da frente. Aí encontro minhas amigas coelhas. Michelle Obama e Black, a coelha albina, os únicos seres vivos acordados na face da terra do meu jardim, vem me saudar. Então abro o portão, solto o freio e só ligo o carro quando já estou na rua, pra fazer menos barulho. Muitas vezes nem o vigia se digna a me acenar. Dorme.
Parto. E neste momento, percebo que não preciso mais de Hitler.