domingo, 18 de abril de 2010

Ironmarriage


Casamento já não é fácil sem triathlon. Quando o casal gosta de esportes, de treinar e competir, isso pode parecer ótimo à primeira vista mas quando se tem um monte de filhos...


Sim, concessões, negociações, estresse fazem parte do cotidiano de qualquer casal com filhos. E treinos serão mais um tema para pauta de negociações. Seja porque um gosta de treinar e o outro não, seja porque os dois gostam e o tempo que se passa com os filhos tem de ser colocado na balança.

O Ironman e, principalmente, os treinos preparatórios para ele, são uma prova de fogo para os casamentos. Já ouvi algumas histórias de mulheres que colocaram seus respectivos na parede: ou eu ou ele – o triathlon. Triathlon, de modo geral consome um bocado de tempo, mas os meses que antecedem um Iron, são ainda piores. Porque se você tem uma horinha dando sopa, não vai querer ir ao cinema ou jantar na casa do cunhado. Descanso! Tudo que se quer é relaxar um pouco. Ai ai ai como a gente vai ficando insuportável.

No meu caso, a decisão de fazer o Iron foi negociada no ano passado. Fizemos algumas mudanças na casa: a TV saiu do nosso quarto e foi pra sala – de modo que eu pudesse deitar cedo e ele pudesse ver TV sem atrapalhar meu sono, estendemos o horário da Dilma, para que nós dois pudéssemos treinar aos sábados, e estabelecemos que a prioridade de treino aos domingos seria minha. Caso ele quisesse competir ou treinar, teria de providenciar um “plano B” para os kids.

No meio disso tudo, ele começou a fazer um curso às segundas e terças à noite. Então, tenho ficado no horário do rush noturno praticamente todas as noites da semana: jantar, colocar no banho, tirar do banho, mandar escovar os dentes, por pra dormir uma vez por semana aparar todas aquelas unhas e passar fio dental em todos aqueles dentes. Ah, e tudo isso evitando o derramamento de sangue. Na presença da mãe, ficam todos muito bélicos!

Mas, como dizem os ingleses (ou talvez os americanos) so far, so good. Depois de um período inicial meio conturbado, estamos conseguindo viver o dia a dia sem grandes estresses. Estamos, nós dois, estreitando nossos laços. Ele tem me apoiado, me compreendido, me poupado nestes fins-de-semana que chego absolutamente imprestável, do treino. Por outro lado, tenho estado atenta para fazer tudo que posso nos momentos em que não estou tão cansada assim. Então, depois de uma horinha de gelo e descanso, me levanto e improviso um almoço, dou um trato na louça ou aproveito pra jogar alguma coisa com os meninos. E, se ele quer correr, por exemplo, vai, enquanto eu acabo de dar o café da manhã pros caras.

Mesmo com toda a pauleira, tenho me sentido muito bem. Especialmente feliz e bem humorada e tenho levado isso pro meu casamento. E ele tem cumprido a sua promessa de início de ano, de não criticar meus treinos, meu modo de vida e me ajudar no que fosse possível.

Por incrível que pareça, os treinos não nos afastaram e nem têm desgastado nosso casamento. Ah, sim, e a libido não diminuiu, viu garotas?! Muito pelo contrário... Portanto, como tudo na vida, o truque é transformar em mais um desafio a ser superado e sair da prova com um Ironmarriage.

domingo, 11 de abril de 2010

Forja

for.jar
(forja+ar2) Aquecer e trabalhar na forja (ferro ou outro metal). vtd 2 Compor, fabricar: Forjar ferramentas.  Bater (o cavalo) com as ferraduras posteriores nas anteriores, na andadura.

Sei que só vou me considerar e ser considerada uma Ironman (woman, person, whatever) no momento em que ultrapassar a linha de chegada no dia 30 de maio. Mas tudo que está acontecendo nestes meses que antecedem a prova é o grosso do processo de transformação. É agora que estou sendo forjada.
Comecei a sentir as mudanças na pele, nos músculos, nos ossos, na alma e no cérebro.
Domingo passado foram 150 km de pedal mais 5 de corrida (depois de ter feito 26 de corrida na véspera). No meio do treino começou a chover. Em nenhum momento pensei em parar por causa disso. Diminuí o ritmo, fiquei mais cuidadosa e segui. A chuva parou, o sol chegou ardido e forte bem na hora da corrida. Fui sem meias. Estava tão encharcadas e sujas que só tinham um destino possível: lixo. Julinha foi me puxando. Buscamos as sombras das árvores, mas o sol estava a pino e nos castigou. Cheguei em casa num estado de exaustão inédito. Lavei a bike com o que havia sobrado das minhas forças. Na hora de enrolar a mangueira pra guardar, quase chorei.  Meus braços simplesmente não me obedeciam. Foi uma marretada.
Terça também choveu. Quando cheguei na USP, não tinha ninguém. Pedalei 10 kms sozinha, debaixo da garoa, até encontrar o resto do bando de loucos. A chuva engrossou, mas nós nos mantivemos lá, até o fim do treino. Debaixo da chuva corremos 5 km. Julinha outra vez me puxando. Cheguei em casa suada e gelada ao mesmo tempo.  Calor e frio. É assim também que se forja o metal.
Na quarta chovia de novo. Tinha tiros de 400 mts e também 2,2 de natação. Não dava tempo de ir até o Ibira. Fiz na esteira 10 tiros, aumentando o ritmo progressivamente.  Concentrei-me, coração pulsando forte, os pés martelando suave e consistentemente a borracha da esteira.
Quinta, levantei cedo pra fazer rolo. Uma hora e quarenta e cinco minutos de rolo. Garoava, estava frio e os pequenos iam pro acantonamento da escola. Posso estar me transformando numa mulher de ferro, mas o coração não vai endurecer, a alma não vai amargar. Precisava salpicar uma beijoca em cada um, antes de irem.
Sexta. Nada demais em matéria de treino. Filho mais velho assaltado na esquina de casa. Então coração mole, mas braços firmes e fortes pra abraçar, acolher, tranquilizar e... ir no DP fazer o B.O.
Sábado. Abri a USP, pedalei um pouco sozinha. No pelotão, puxei vários tiros com o vento na cara, sabendo que teria de chegar até os 100 km e depois encarar 18 correndo. Nessa corrida, fui sozinha por 15 km. Eu e meu bate-estaca no fone de ouvido. Inclui, por conta própria,  uma subida da Biologia. Teve sol, teve garoa e teve vento. Thelma fez os ultimos 3 comigo. Depois, só pra acompanhar o Ricardinho, fiz mais 3km.
Calor, frio, vento, chuva, umidade, sol. Cansaço, sono, preocupações, dores,  prazer. Solidão, companhias, solidariedade. Escolhas, concessões, decisões. Não posso, agora, afirmar que serei uma Ironman. Mas posso sim, dizer que algo está mudando. E é bom.

sábado, 3 de abril de 2010

Chove chuuuva ou o azar que vira sorte


Estava toda animada com o pedal de 150 km que iria fazer hoje na Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Tinha acertado com um amigo que faria a escolta, combinado com outros atletas, meu marido também ia... Já tinha preparado toda minha alimentação e suplementação. Fui dormir cedo. Estava tudo certo.  Só faltou combinar com São Pedro. Na madrugada começou o dilúvio. Amanheceu com uma garoinha besta, o céu parecia que estava clareando mas não dava pra confiar. O problema de ir pra estrada com essa chuvinha não é só de tomar um chão mas, principalmente, de os carros derraparem e irem parar em cima de você.  Não dá pra arriscar. Tenho quatro filhos, gosto da minha vida. Em nome de quê vou fazer uma dessas?
Fiquei chateada. Afinal, fiquei aqui em São Paulo sozinha, pra poder treinar e descansar adequadamente. Bateu até aquela culpa "eu bem que poderia ter ido viajar e ficado com meus filhos já que não vou aproveitar o tempo pra treinar".
Então parti pro Plano B. Corrida na USP. O longo de 26 km era pra ser amanhã, mas tenho a esperança de que o tempo melhore e dê pra pedalar em Alphaville - portanto decidi resolver esta parte hoje mesmo.
Já estava até conformada com o fato de ir correr solitariamente e em silêncio. Meu IPod está sem bateria e o filhote mais velho levou o cabinho. Paciência.
USP estava vazia. Feriado e com chuva, só os doentes mesmo. Lá fui eu para os meus 10 confortável + 10 moderado terminando com 6 leve.
Primeiro, encontrei a Maria. Estava no 5º km. Maria trabalha no mesmo lugar que eu, tem 56 anos, está enxutaça e tem um humor escrachado que deixa seus superiores roxos de vergonha de vez em quando. Ela corre naquele passinho despreocupado, de quem não está muito aí com performance. Hoje, surpreendentemente, ela estava um pouco mais forte. Mesmo assim, tive de desacelerar pra conversar com ela um tiquinho. Ela acabou de chegar de Portugal. Fez 7 km da Meia Maratona e depois foi passear. Como sempre, estava naquele alto astral. Terminei a volta dela - que já estava chegando ali no Instituto Oceanográfico e parti pra Biologia, por recomendação do meu técnico, Emerson. "Vai lá, faz uma vezinha. Você vai lembrar disso e me agradecer quando estiver na subida da Canasvieiras". Ok. Motivo bom o suficiente. E não tenho medo de subida, não. Só não queria me matar de cansaço pra ter energia pro pedal que VOU FAZER amanhã.
Subi e desci por lá mesmo. Foi a sorte. Lá embaixo encontrei minha querida amiga Mariana que corria junto com um superironman, o Diglu. Emparelhei com eles e fomos batendo papo por uns 7, 8 kms. Ritmo bom, papo ótimo. O Diglu fez 11 irons, inclusive o do Havaí. A Mari já fez dois. Quem tem experiência sempre tem dicas boas. A do Diglu foi a seguinte : "Embora o pedal seja a parte mais longa, a prova se define é na corrida. A hora de fazer força é depois de pegar a segunda pulseirinha!". Anotado, Diglu!
Eles terminaram os 28 km deles. Eu ainda tinha 14. A chuva apertou, mas a temperatura estava ideal. Segui por mais 8 kms, puxando o ritmo um pouco. Então foi até bom estar só, porque não dava pra conversar.
Ao completar os 20, parei pro abastecimento no ponto da MPR e lá estava uma figura, todo de preto, que comentou que iria rodar 60km. Veja bem. Não de bike. Correndo. Eu engasguei e não me contive: "Eu ouvi bem? Você disse 60 km?". Ele confirmou, agradeceu a água e continuou sua jornada.
Recomecei a minha e logo emparelhei com ele. Perguntei seu nome e fomos conversando quase até o final do meu treino.
Ele se chama Alexei, deve ter uns 35 anos e é do clube restrito dos ultramaratonistas. Do meu parco conhecimento sobre esses seres, ele não fugiu à regra: é meio zen. O mais fantástico: ele tem diabetes desde os 4 anos de idade. Imagina só. Se já é difícil a alimentação de um ultramaratonista "normal", o que dirá de um diabético? Surpreendente. A sintonia que ele tem de ter com o próprio corpo precisa ser muito, muito fina e acurada. Não existe um rol de conhecimentos construídos e nem muitas pesquisas sobre este tipo de coisa. Pessoas como Dean Karnazes, por exemplo... Quem é que pode prescrever um treino e uma dieta para ele? São casos excepcionais, raros.  Os caras tem de pesquisar neles mesmos, trocar informações entre si. Alexei trabalha na área de saúde então ele mesmo examina alguns de seus marcadores sanguíneos.
Terminei meus 26. Ele tinha mais 20 pela frente. Nos despedimos. Com certeza vou cruzar com ele por aí.
Enxarcada, cansada e feliz. Mais uma vez, reverti minha sorte e aproveitei o melhor que pude. Nem estou mais tão culpada.
Amanhã, se não estiver caindo o mundo, vou pedalar meus 150. Mesmo com um pouquitinho de garoa, eu vou. Caso contrário, Plano B de novo, com duas sessões de rolo.

domingo, 28 de março de 2010

Minha mesa e o Troféu Brasil

Minha mesa, no meu escritório em casa, está o caos. Fitas de DVD misturam-se com contas pagas e a pagar, uma vela votiva (7 dias), um livro de poemas, um livro de triathlon, planilhas de treino novas e antigas, copos de água vazios, resultados de exames, lista do acampamento dos meninos, fotos, um óculos do Harry Potter, bloquinhos de papel meio usados, estojos de óculos, notas fiscais variadas, recibos de cartão de crédito, cartões de apresentação, minha bolsa... e por aí vai. Não é uma mesa grande. Deve ter 1,50 x 1,0. Pelo menos não tem restos de comida e nem animais passeando por cima. A bagunça não se limita a ela, mas quase. O restante do cômodo está numa certa desordem, mas dá pra circular.
Acabei de chegar de Santos. Olhei pra mesa e pensei "Arrumo a mesa ou escrevo no meu blog?" Optei pela segunda alternativa, já que a primeira era desanimadora para quem acabou de fazer um triathlon olímpico.
Não estou muito animada com meu resultado. Fui melhor no Internacional. Mas a prova foi diferente. O pedal mais travado e o clima muito, mais muito quente e úmido. Parecia que a gente estava correndo dentro de uma estufa.
Não estou conseguindo levar essas provas a ferro e fogo. Primeiro, não fico mais naquela pilha toda. O único nervoso que passei antes da largada foi a dificuldade em encontrar lugar pra parar o carro. O percurso mudou, a área de transição e a largada foram empurradas quase pra ponta da praia e aí Marcos e eu não sabíamos onde dava pra parar o carro. Chegamos em cima da pinta.
Segundo, não consigo me matar. Tinha pouca gente correndo o olímpico, só uma na minha categoria. Sei lá... Não me senti inclinada a colocar o coração na ponta da chuteira. Nem da sapatilha.
Terceiro, talvez eu esteja cansada. Venho numa toada forte, sem descanso desde...? Nossa. Nem me lembro. Mas deve ser umas duas semanas direto, sem off, com carga pesada.
Lá pelas tantas, no terceiro km da corrida,  me veio à mente a pergunta fatídica "mas que diabos estou fazendo aqui?" E me pus a refletir sobre a resposta. "Porque estou treinando para o Iron". Aí me perguntei de novo "por acaso é hora de se matar? de ficar sofrendo?" E respondo "não! Definitivamente, não!". Pronto. Relaxei. Pra melhorar, passei pelo Emerson, meu técnico, que gritou "Clau, vai manso, você está aqui só pra treinar". Beleza! Com aval do técnico e tudo.
Entrei num pace moderado e constante de 5, 5 e pouquinho por km. No fim da corrida, fui chegando perto de uma moça grande, comprida, com uns pernões. Ela estava cansando. Nos postos de hidratação, parava pra pegar a bebida e andava um pouquinho. Ela viu que eu me aproximava e tentou apertar o passo. Eu mantive meu ritmo. Faltando pouco menos de um km encostei, mas pensei "não vou forçar, sacanagem, ela tá cansada. Fico por aqui". Mas acho que aqui tchoc tchoc tchoc tchoc na orelha dela deve ter dado nos nervos. Ela virou pra mim e disse "Vai, vai! Pode ir!" Eu ainda tentei levá-la comigo "Vamos juntas! Não estou querendo forçar!" E ela "não, vai aí! Vc tem pernas!" E lá fui eu, sem sprint, mas acelarando um pouquinho. Não consegui alcançar minha amiga Nilma, o que me frustrou um pouco. Mas eu sabia que o dia de ela terminar na minha frente estava pra chegar. Tudo bem. Ela merece! Está forte pra caramba.
Depois foi aquele tradicional embaço pra receber o troféu. Aliás devia ser troféio. Núbio, muda o seu designer, pelo amor de Deus! Parenteses pra falar mal dos layouts da NA Sports.  Nunca vi como é que o cara consegue ter tanto mau gosto. As estampas das camisetas parecem um baile de carnaval - ninguém combina com ninguém e todo mundo está colorido. As medalhas. Dá pra chamar de medalha? Nem a fita é decente.   Tá mais pra merdalha. Mesmo assim, a gente fica lá e faz questão da medalhinha e do troféio.
Mas o que vale mesmo, é o café na padoca. Fomos em seis pra Santa Marta. Dos seis, seis conquistaram troféu: Julinha, 2º lugar, Mônica, 4º (verdadeira mãe da Julinha), Thelma 1º, Nilma 1º, Marcos 3ºe eu 1º. Isso sem falar na Paulinha, que foi vice.
Adivinha onde ele está agora? No meio do caos. Ali, até ficou meio escondido. Bom. O post acabou. Agora não tenho mais desculpa pra não arrumar a mesa.

domingo, 21 de março de 2010

Treino em Águas de Lindóia - de novo!

Mais uma vez lá fui trabalhar no interior de São Paulo.  Não gosto muito desse negócio de sair da minha rotina, adaptar os treinos, dormir em cama diferente e sem o meu marido, me alimentar de uma comida - bah - xexelenta.
Mas, como não tinha escolha, fiz uma mala pequena para as atividades profissionais e uma, enorme, para as de atleta amadora. E, claro, a bike foi junto.
Na segunda de manhã, ainda deu tempo de nadar e correr cedinho, antes de viajar. Cheguei lá na hora do almoço, trabalhamos à tarde e como terminou por volta das 6 horas, não tive dúvida: vesti o modelito treino, peguei minha maltodextrina e saí pela rua principal em busca da academia Hórus. Na semana anterior dei uma busca na internet pra ver se encontrava um lugar pra treinar. Encontrei este, tentei entrar em contato, mas não consegui. Então fui até lá com a cara e coragem.
Quando cheguei estavam apenas dois professores e um recepcionista. Expliquei minha situação, dizendo a eles que havia tentado ligar, sem sucesso, e que gostaria de poder fazer um treino avulso, pois estava na cidade a trabalho. Foram muito receptivos e, na hora, responderam "Claro, não tem problema!". E eu " Puxa, muito obrigada, vocês me salvaram! E quanto custa?". Os dois professores - um cara e uma menina - se entreolharam e ela respondeu "Nada. Você foi muito simpática, então não precisa pagar". Achei o máximo a simpatia deles. Imagina que em São Paulo acontece uma coisa dessas?
Fiz me treino, adaptando um exercício o outro, e os dois me ajudaram em tudo que eu precisei. Antes de ir, me cadastrei como "visitante" para poder usar a academia quando for pra lá de novo.
Terça, sai pra pedalar na hora do almoço, pelas pirambas da região. Foram 60 kms sofridos. As subidas eram fortes e, nas descidas, como não estou familiarizada com a estrada, não conseguia soltar o freio com muito entusiasmo. O resultado foi um ótimo treino com uma média de velocidade bem ruinzinha.
Quarta, acordei às 5 da matina pra fazer o longão de 24 (com morro!) que estava marcado pro domingo. Também foi ótimo. Saí na escuridão e vi um lindo dia amanhecer do alto das montanhas. Na voltinha ao redor do lago reencontrei a família de capivaras- que parece ter novos membros - acomodada às margens d'água, aguardando o nascimento do sol. Lá pelo km 14 parei pra beber e reabastecer as garrafinhas com água fresquinha numa fonte natural da cidade.
Paguei o preço das subidas no dia seguinte. A panturilha ficou daquele jeito, sabe? Parece esticada.
Como não poderia deixar de ser, antes de ir embora, passei no Espaço de Beleza da Nenê e aproveitei pra dar um tapinha no visual. Atendimento VIP e preço do interior. Afinal de contas, de vez em quando a gente precisa se cuidar e ficar mulherzinha.
E assim foi. Saiu muito melhor que a encomenda. Estou aprendendo os macetes da região e aproveitando o que ela tem de melhor. Não me senti um peixe fora d'Águas. No final da contas, foi ótimo!

domingo, 14 de março de 2010

Um treino longo, pensamentos e os três pretinhos

Ah, antes de qualquer coisa: obrigada a todas as vozes que comentaram meu post "Vozes". Foi muito divertido ler todos os comentários!
Mas vamos ao post de hoje.
Ontem fiz meu primeiro treino longo de verdade. Era pra ter sido sábado passado mas, com  a chuva, ficou meio truncado. Foram 55 na USP e 1h40 de rolo seguida por 5 km debaixo de um dilúvio. Fiquei frustrada. E ansiosa. Afinal, não tinha passado ainda a barreira de 100k em cima da magrela. E os dias estão passando, a data está se aproximando.
Então ontem eram 130km + 6 de corrida.
Dos 100 aos 130, sem escalas. Será que eu iria conseguir?
Fiquei na dúvida se iria pro Riachove, pra USP ou pra alguma estrada. Estrada, só com alguém de muita confiança, ritmo parecido e apoio. Não tinha. Riachove... era uma pedida, mas como a MPR marcou treino lá hoje, no sábado ninguém iria querer ir. E eu não queria deixar pra ir hoje. Não troco mais o certo pelo duvidoso e, além disso, queria um dia off pra descansar e curtir com meus filhos e minha "filhinha adotiva" - Julia (outra hora eu explico) em Itu.  Então só restou a USP.  Mas a USP tem uma vantagem. Por mais chato que seja ficar feito um hamster na gaiola, a gente passa quase o tempo todo acompanhado.
Decidi chegar bem cedo, começar antes da muvuca. Deixei tudo preparado na véspera - principalmente a alimentação e suplementação, que são razoavelmente complexas para um treino desses.
Cheguei antes das 5 da madrugada. Parei em frente à Educação Física, como sempre. Não tinha mais nenhum carro. Levei uns 10 minutos me organizando. Neste tempo, não passou NEM UMA BIKE. Confesso que me preocupei um pouco. A noite estava linda, temperatura a melhor possível. Mas nenhuma alma de duas rodas?
Seja o que Deus quiser, pensei comigo, embora seja uma atéia convicta e praticante. E saí pro pedal.
Comecei a primeira perna atenta aos movimentos à minha volta. Infelizmente, tem histórias de assaltos acontecendo na USP. Embora eu ache difícil alguém se interessar por uma bike tamanho XS, sempre dá pra aproveitar alguma coisa.
No fim da raia, já estava mais tranquila, pois avistei uns três ciclistas passando do outro lado. Relaxei. Comecei a submergir nos meus próprios pensamentos: o ritmo que iria manter, como controlar a hora de comer ou beber, como fazer pra descansar depois... Viajei!
De repente, do nada, do escuro profundo, surgem três cachorros pretos que vêm latindo, a toda velocidade, em minha direção. Que susto. Reduzi um pouco e comecei a gritar com eles, que não se intimidaram. Tentei acelerar, mas um deles engatou o volantão e estava perigosamente perto da minha roda dianteira. Reduzi de novo, gritei, ameacei com as mãos, até que eles desistiram.
Na volta, a cena se repetiu. Na outra ida, eles sumiram. Na outra volta, pareceram de novo, com a mesma animação. Mas aí não me pegaram mais de surpresa. Depois, desapareceram.
Já no meio do treino, junto com mais gente, vi os três passeando, numa boa. Já não estavam mais afobados. Davam um trotinho, trocando uma idéia. Deviam estar comentando sobre o treino que haviam terminado de completar. Certamente estavam satisfeitos com suas performances.
Quanto a mim, terminei meus 130 em 4h27 e depois corri os 6k a 5m05s o km, sem sofrimento.
 As costas chiaram um pouco no final do pedal, mas deve ser absolutamente normal, não?
Fiquei cansada, mas não acabada. Hoje, para minha surpresa, estou inteira. Pronta pra curtir um day off com a família.

terça-feira, 9 de março de 2010

Vozes

Não sei se é assim com todo mundo em seu primeiro Iron, mas eu tenho ouvido vozes. Muitas vozes. Não são vozes do além, espíritos ou fantasmas sussurrantes. São vozes mesmo, de pessoas que já fizeram, vão fazer ou, pelo menos, já assistiram à prova várias vezes. Todos têm algo a dizer sobre você ou seu treino. Com as melhores intenções. Algumas vozes faço questão de escutar. Aliás, pago para ouvi-las: do técnico, da nutricionista, ortopedistas. Outras vozes, dos amigos e amigas que fizeram o Iron, eu gosto de escutar. Fazem relatos de suas experiências pessoais, dão dicas, pequenos truques, contam aquilo que funcionou com eles.   Outras ainda, eu não escuto, mas leio - os blogueiros, sites especializados, livros sobre o tema. Aí tem de tudo: informações técnicas, histórias, novidades, treinos. O mais complicado é que, nem sempre, as vozes estão de acordo. Há assuntos em que cada um diz uma coisa.  As pessoas sempre falam a partir de seu ponto de vista, de sua base de conhecimentos, de suas próprias experiências assim, a diversidade de idéias e opiniões não é pequena.
Fora isso, claro, tem a turma do palpite. Que sabe pouco,  fez menos ainda, mas tem opinião de monte. Esses, a gente faz hanhã e ignora solenemente.
Nós, os novatos, estreantes e inexperientes, precisamos ter cuidado com tantas vozes. É sim, útil ter informações e opiniões disponíveis mas é preciso filtrar tudo que se ouve e aprender a escolher quem considerar - dependendo do assunto. Nem tudo discuto com meu técnico, nem sempre acato os meus amigos. E, sempre, é preciso calar essas vozes e ouvir as nossas próprias, ainda que seja para travar um debate interno, ponderar, colocar na balança. A nossa opinião tem de ser muito importante para nós.