segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O amor fora de hora, o esporte amador

Estou cansada do amor. O amor tudo vence. Só o amor constrói. Amor, com o amor se paga. No amor e na guerra vale tudo. Ama ao próximo como a ti mesmo. Será?
O amor virou moda. Além de amar mãe,  pai, cônjuge e filhos, agora também precisamos amar o trabalho e, pior, amar as pessoas com quem trabalhamos. Haja amor! Bons médicos, amam sua profissão e devem tratar seus pacientes com amor. Professores, então! Nem se fale. Ai da professora que não amar seus alunos. Todos eles, sem exceção. Atores, artistas, músicos... os bons mesmo, têm paixão pelo que fazem. Será?
Me desculpem os amantes desse amor todo, mas não só acho isso mentiroso, como também penso que pior seria se fosse verdade.
Sem querer atrever-me a definir o que é amor vou, sim, ousar e afirmar que a presença de tal sentimento não é tão necessária quanto vem sendo apregoado ultimamente.
Em primeiro lugar, não é possível se obrigar a amar. Até hoje a poção do amor é procurada, mas sem muito sucesso. Talvez o alcool seja o que tenhamos de mais próximo a um afrodisíaco. Quem é que nunca viu (ou se viu) bêbado declarar seu amor para os entes queridos e pros entes nem tão queridos assim? Dificilmente se pode levar esses arroubos de afetuosidade muito a sério. Mesmo porque, no dia seguinte, o apaixonado já nem lembra mais de todo aquele amor.
Mas esqueçamos os bebados e os afrodisíacos.
Um médico, um professor, um técnico, não precisam amar o que fazem. Mas precisam ser comprometidos com as escolhas que fizeram em sua carreira e trabalhar com profissionalismo.
Esta idéia de que fazer o trabalho com amor é, necessariamente fazer um trabalho bem feito é perniciosa, pois pode eximir o sujeito de suar, ralar, estudar, aprender, ir em busca de conhecimento. Pode desprofissionalizar a relação dele com sua ocupação.
A professora não precisa amar todos os seus alunos, o médico não precisa amar seus pacientes. O técnico não precisa gostar de seus atletas. Mas todos têm a obrigação de respeitar seus pacientes, alunos, atletas. E o médico precisa ouvir e olhar para o ser humano que está á sua frente e ser capaz de colocar-se no lugar dele, ser compassivo com o doente e sua família, sacar que se para ele, médico, a doença e o tratamento são rotina, pra maioria dos doentes e suas famílias, não! Não precisa de amor. Conhecimento,solidariedade, humanidade, compaixão, sim. Amor? Não necessariamente . O professor tem a obrigação de fazer o melhor de si e acreditar que todos, sim TODOS os seus alunos são capazes de aprender, e investir nisso. A despeito das "famílias desestruturadas" de uns, da pobreza de outros, da aparente lerdeza de alguns. Todos podem e é obrigação do professor dar o melhor de si para que todos tenham oportunidade de aprender. Mas, pra saber o que cada um precisa e como ensinar, é preciso avaliar, estudar, planejar. Amor? Supérfluo. O técnico, idem. Precisa estar atento, analisar a individualidade de cada atleta, buscar a melhor palavra, o melhor exercícío, a "dura" mais precisa. Mais uma vez, pra ser competente, é necessário observar, estudar, avaliar, pesquisar. Amar?
E o tal do amor-próprio? Defendo uma idéia relativamente simples: este amor advém, principalmente, da confiança que construímos acerca das nossas capacidades. Elogios, aprovação e cumprimentos dos outros, ajudam, mas não são a essência. O principal é perceber que (nos)superamos, aprendemos, que conseguimos conquistar com braço forte.
Não há lugar onde o amor se encaixe melhor do que no esporte amador. O amador se entrega a essa ocupação sem esperar recompensa, pagamento ou reconhecimento. É um amor desinteressado mas, ao mesmo tempo,  altamente comprometido. É como amor a uma causa: dá sentido à nossa vida, nos dedicamos a ela, nos sacrificamos e não esperamos nada em troca. Quase um amor canino.
Não estou dizendo que os atletas profissionais não possam amar e se divertir com sua ocupação. Mas é seu ganha pão. Existe a obrigação de treinar, de competir, de ter resultado.  O amador refaz a escolha a cada dia que se levanta pra treinar: está desobrigado, mas escolhe levantar cedo e treinar. Escolhe não ir dormir tarde, escolhe abrir mão da festa.
E, embora o amador ame (quase) incondicionalmente o esporte ele é sim, recompensado algumas vezes. Na sensação agradável de terminar um treino longo e constante, na hora em que consegue atingir uma determinada marca, na disposição que conquista para tocar sua vida.
Amor é amor. Não é possível nos obrigarmos a a amar e, para ser duradouro, é necessário cuidados diários. E, de uma hora para outra, ele pode acabar ou ir morrendo aos poucos. Mas tanto na vida afetiva quanto na esportiva, não podemos deixar de aprender com nossas histórias de amor. Pois é isso que nos permite amar novamente, mais e melhor: pessoas ou esportes.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para não ser esponja

Minha sábia mãe vive dizendo que nós precisamos formar nossas crianças e jovens para serem filtros e não esponjas. Em vez de absorverem tudo que se lhes coloca pela frente, que passem a ter critérios de modo que possam fazer escolhas.
Mas isso não é nada, nada simples. Nem mesmo para nós adultos. Por exemplo: desde que a Nike inventou que, para correr, é preciso um tênis especial, ninguém duvidou. No mundo inteiro corredores passaram a procurar aquele tênis, convenceram-se de que sim, amortecimento é crucial, saber se sua pisada é supinada, pronada ou neutra pode mudar o rumo de sua vida ou, ao menos, de sua passada.
Mais empresas, mais tecnologia. Diferentes modelos para treinos e competições, para corridas longas ou curtas, para corredores rápidos ou lentos. As revistas especializadas têm, ao menos uma vez por ano, a obrigação e o hábito de lançar um guia para o pobre consumidor/corredor para orientá-lo na árdua tarefa de escolher um tênis. Flexibilidade ou leveza? Amortecimento ou resiliência? São tantas opções que, para acertar na escolha é preciso debruçar-se sobre o guia e fazer um longo e detalhado estudo. Claro que no momento em que o feliz consumidor consegue finalmente escolher, a Asics já lançou um novo modelo com ainda mais tecnologia.
E...bem... quem foi que disse que toda esta parafernália faz diferença? Quem viu pesquisas e estudos provando que o amortecimento, por exemplo, diminui as lesões? Quem disse que a pessoa que pisa em pronação precisa de uma correção compensatória? Vou além: quem viu um estudo ou pesquisa que não tenha sido patrocinado pelos próprios fabricantes de tênis? Quantas vezes paramos para duvidar daquilo que parece "científicamente comprovado"?
Anúncios de televisão mostram um senhor, nem tão idoso, nem tão jovem; a idade é suficiente para o levarmos a sério. Trajando jaleco branco, ele nos garante que o produto X é comprovadamente mais eficiente que os outros. Confesse: você fica, ou não, inclinado a acreditar nele?
E olhe que nós, que temos acesso a internet, lemos e ou escrevemos blogs, somos realativamente bem informados e críticos. Ainda assim, caímos em alguns contos do vigário.
Como pais, a responsabilidade é ainda maior. Não só porque somos modelos para os pequenos como também porque é fundamental ajudá-los a perceber as artimanhas da publicidade para seduzi-los. haja paciência, argumentos e perseverança para dizer "não" aos filhos explicando porque.
Ser filtro, e não esponja, implica, principalmente, em saber ler. Não ler de qualquer jeito. Mas ler dialogando com o texto. Perguntando quem escreveu este texto? Para quem escreveu? Com que intuito? Parece óbvio? É não. A revista O2, por exemplo, faz cobertura de provas e também organiza provas. Você costuma prestar atenção nos anunciantes das revistas? Você repara se existe alguma coincidência entre matérias e anúncios? Vocês souberam que houve uma grande paralisação nos bancos durante o período eleitoral? Notaram que a mídia praticamente ignorou este fato? Quem são os maiores anunciantes dos jornais e das TVs em horário nobre?
Não estou dizendo pra ficar paranóico, pentelho, vendo pelo em ovo. Mas para, principalmente nos momentos em que se tem de fazer uma escolha, uma compra ou tomar um decisão, não procurar atalhos e nem se deixar levar por aparências.
Ser filtro, e não esponja, implica num exercício permanente de duvidar e de se informar. A autonomia intelectual e moral, embora comece seu desenvolvimento ainda na infância, precisa estar permanentemente em uso. Não é para preguiçosos. Não é para acomodados.

Ah, para saber mais sobre o assunto corridas x tênis recomendo o livro Nascido para Correr: a experiência de descobrir uma nova vida, de Cristopher McDougall, da editora Globo.
E sobre o assunto criança x consumo,  o filme Criança, a alma do negócio, disponível para download na página do Instituto Alana .

sábado, 30 de outubro de 2010

Dois trios, três duplas - Revezamento Bertioga-Maresias

Pelo quarto ano consecutivo faço essa prova. No primeiro ano participei apenas como torcida, já que estava de patinha quebrada. mesmo assim, me senti parte da equipe.
Neste último sábado, porém, em vez de irmos em sexteto como nas edições anteriores, montamos dois trios: um feminino o outro masculino. Foi muito divertido.

Nosso esquema para a prova, made by Roi
 Uma parte da graça dessa prova é organizar a logística: carros de apoio, quem leva quem aonde e que horas. Tínhamos uma boa equação: dois trios de corredores (Julinha, Mari e eu/ Roi, meu marido + David e Zé), um carro de apoio com motorista (Tamara, esposa do Zé), um carro sem motorista, nove trechos a serem percorridos.
O Roi pode não ser bom em encontrar as coisas mas é perito em montar planilhas, esquematizar informações e colocar no papel. Portanto, mais uma vez, a logística da prova ficou por sua conta.
Viajamos na sexta à noite, no Doblo: David, Mari, Julinha, Roi e eu. Paramos num posto e comemos uns sanduíches de pão borrachento com queijo gosduroso e mal derretido. Ninguém nem ligou. Lembrei de tantas vezes que desci pro litoral e parei neste mesmo posto, louca pra chegar na praia, tomar cerveja, umas vodcas, ficar na farra até altas da madrugada e acordar tarde e com dor de cabeça no dia seguinte. A parte boa era conviver com os amigos, dar risadas, falar besteira. Então alguns anos depois, estou indo novamente pra praia com amigos e marido, rindo e falando besteira. Só que sem a ressaca do dia seguinte. provas de corrida podem sem uma coisa ótima!
Chegamos à nossa Pousada, simples mas limpa e ao lado do PC1 - largada do segundo trecho. Ficamos num "chalé triplex" que não era um chalé nem aqui nem na China e sim um apartamentinho de dois andares, com várias camas, cozinha e dois banheiros.
Aprontamos as coisas pro dia seguinte - principalmente eu, que seria a primeira a correr - e nos jogamos nas camas.
A noite não foi das melhores. Gente batendo papo, crianças gritando, barulhos em geral. Mas, se o desempenho das provas dependesse das noites da véspera, eu teria sempre um péssimo resultado. É raro dormir bem.
Na manhã seguinte, Mari acordou queixando de dor de garganta. Tossiu a noite inteira. Sorte que a Julinha dorme como uma pedra, nem escutou.
Tamara e Zé passaram pra me pegar. Nós dois faríamos uma dupla, pois correríamos os mesmos trechos: 1, 4 e 7.  Chegamos a cinco minutos da largada. Não deu nem pra alongar. E, confesso, não deu também aquela emoção que costumava me dar antes do início de uma competição. Seria um longo dia e eu estava tranquila.
Fomos juntos, num ritmo mais lento do que a maioria dos corredores mas, pouco a pouco, fomos apertando o passo. Falei pro Zé que ele poderia ir, sem se preocupar comigo. Ele foi, mas logo emparelhei. A areia dura, o tempo fechado, o espaço aberto e a musiquinha no Ipod nos empolgaram e chegamos ao final do trecho 1 bem acelerados. Lá, nos esperava a segunda dupla: Mari e David, além da Tamara que nos levou até nosso próxima largada.
Fiquei muito contente com meu desempenho. Tenho treinado corrida bem mais ou menos portanto, estava temerosa. Os joelhos estavam ótimos, mas fiz um gelinho assim mesmo.
Nem deu muito tempo de descansar, já era hora do nosso segundo trecho, que saia de Guaratuba e também vai pela praia quase todo o tempo. Como o Roi chegou um pouco antes, Zé largou na frente e passei metade da corrida tentando alcançá-lo. Enquanto esperávamos nossa saída ele veio com aquela conversa de que não aguentaria manter o mesmo ritmo tal e coisa. Ba-le-la. Saiu queimando o chão e eu me esbafori pra chegar nele. Resultado, no final o joelho começou a pegar. Não o que estava doendo ultimamente. O outro. O esquerdo, que  foi o primeiro a começar a doer logo depois do Iron, então passou pro direito.  Caprichei nos cuidados com o direito. O esquerdo ficou invejoso e resolveu doer no final da nossa segunda perna.
Zé terminou um pouquinho na minha frente mas, não adiantou nada. A Mari tinha pifado e, para não perdermos a viagem, o David esperou eu chegar para levar nosso chip até o o trecho em que a Julinha assumiria.
Tomei um advil, fiz gelo e rezei. O trecho 7,  Juréia - Juqueí, era o meu último, porém o mais difícil. Mais uma vez, nossa espera foi curta. Julinha e Roi vieram voando.
Zé também estava cansado e foi mais devagar. Logo de saída vi que meu joelho não iria dar trégua. O piso, pra complicar ainda mais a situação, é muito irregular: estrada de terra toda esburacada, pedregulhos, serrinha, areia dura e, no finzinho, areia fofa pra acabar com a gente de vez.
Quase desisti. Mas, quando se está em equipe, a responsabilidade é maior. Depois, esse negócio no joelho é só chato e doloroso, mas não é grave. Correr com o joelho assim não vai arrebentar meu tendão, quebrar minha patela ou me aleijar de qualquer modo. Respirei fundo, tente me distanciar da dor e, no final, consegui até apertar um pouco mais o passo. Sobrevivi, terminei com o joelho inchado mas, como diz o ditado, ajoelhou, tem de rezar ou, no caso - correr.
David levou os dois chips novamente. Entregou para Roi e Julinha e, até sair o resultado da prova não sabíamos se ele tinha entregado o chip certo.
Os dois fizeram o trecho final. Fui no carro com o Zé e Tamara, enfiada no teto solar, mexendo com os corredores. Festeja e aplaudia os "solo" e as pessoas que conhecia.  Às vezes os corredores que estavam próximos ficam esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu brincava "ah, não, você não é solo, tá fazendo só este trechinho, não merece aplauso".  Avistamos a Julinha descendo a ladeira sem freio algum e, até estacionar o carro, Roi e ela já tinham chegado. Uma pena. É muito legal todo mundo estar junto na reta final.
Nem esperamos o resultado. Afinal, sabíamos que não seria justo levarmos troféu e subirmos no pódio, já que nossa equipe teve de fazer uma gambiarra pra não sair da prova. Outra pena. Ficamos em terceiro no trio feminino e, tenho certeza, de que teríamos ficado em terceiro se a Mari tivesse corrido porque além de ela ter acompanhado bem o David em seu primeiro trecho, ficamos uns 30 minutos na frente das quartas colocadas.  Acontece.
Mari e David conseguiram carona pra São Paulo e subiram assim que terminamos. Nós cinco fomos almoçar num delicioso restaurante italiano lá em Maresias. Tomamos vinho, comemos bem e falamos de tudo um pouco. E começamos a planejar o próximo ano.
Mais uma vez, foi ótimo. Nada como uma corrida pra gente se divertir com os amigos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Na minha companhia

Nos últimos tempos tenho fugido do assunto "treinos". Não só porque estava meio café-com-leite mas também porque outros assuntos me pareceram mais interessantes e relevantes. Mas hoje volto às origens.
Terminei as sessões de fisio, voltei a nadar,  mas o ombro ainda está se recuperando. A cirurgia foi apenas há dois meses. Meus joelhos estão sub judice desde o Iron. Não posso abusar. Isso tudo diminuiu meu rendimento cárdio - respiratório. Ganhei um pouquinho de peso.
Tenho treinado bastante na minha própria companhia. Não porque não goste de parcerias - muito pelo contrário - mas porque estou num momento de readaptação em que preciso, mais do que nunca, prestar atenção nos sinais que o corpo me dá e  adequar meu ritmo a essas informações. Perto dos outros, conversando, tentando acompanhar, me distancio de mim mesma.
No domingo de feriado, fui para Romeiros. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que eu não ia. Minha primeira e única tentativa de ir este ano foi frustrada. No pedágio o carro pifou e acabei indo pra USP.
Além do meu marido, estavam mais três colegas de MPR fortes e animados - Daniel, Marquinhos e Flávio. Sai do carro, me arrumei e dei adeus. Sabia que eles me alcançariam, passariam e deixariam bem pra trás, portanto, quanto antes eu saísse, menos eles teriam de me esperar na volta. Eles ofereceram companhia, acharam que eu estava antissocial, mas não era nada disso. Simplesmente não queria fazer nenhuma concessão em matéria de ritmo: iria muito devagar pra não detornar joelhos nem sentir dores no ombro.
E lá fui e fiz 70 kms solitária. Sem sofrer. Fiz Romeiros sem sofrer! Está certo que não vou contar qual foi minha velocidade média mas, pra vocês terem uma idéia, mal suei.
Dois dias depois, na terça do feriado, estava em Igaratá e resolvi fazer um longuinho de 18k. Saí, como sempre, do sítio dos meus sogros e rumei pela terra até a estrada de asfalto que liga Igaratá a Santa Isabel. Normalmente sigo em direção à Santa Isabel e, embora a paisagem circundante seja agradável a estrada não tem acostamento e vou pela contramão meio tensa, pois caminhões e "pois zés" cruzam comigo sem cuidado e sem desacelerar.

Estrada do Rio do Peixe
 Não costumo ir em direção à Igaratá porque é um trajeto muito curto, de cerca de 1,5 km, então não vale a pena. Mas nesse dia decidi ir pra lá primeiro, antes de rumar pra direção oposta. Ao chegar no portal da cidade em vez de fazer meia volta, segui em frente. Passei pela pracinha, pela rodoviária, pelo supermercado. Ou seja, cruzei a cidade inteira. Então reparei numa placa que nunca tinha visto antes: Estrada do Rio do Peixe, Igaratá Velha  6 km.  Por que não? pensei. E fui embora pela estrada. Asfalto precário e esburacado mas um entorno de colinas íngremes, pequenos sítios, flores, exemplares de araucária e, de vez em quando, uma nesguinha da represa (ou seria o tal Rio Verde?). Senti-me em Campos do Jordão. Pra completar, quase não me deparei com veículos motorizados. Mudei a trilha sonora animada e eletrônica e substitui por Norah Jones e Kevin Johansen pra combinar com o clima bucólico. Naquela toada, infiltrada naquela paisagem entrei naquele transe que só quem corre sabe como é. Um transe em que você fica completamente sintonizado com seu corpo mas, ao mesmo tempo, está integrado ao ambiente como se fosse a atmosfera que está nele e onde ele está: perfumes, cores, texturas, formas. Meu desejo era seguir por horas a fio, confundida com aquele lugar.
Sabia que não poderia correr adiante por tempo indeterminado.  Uma hora teria de voltar sob pena de me machucar. O que me consolou foi pensar que na volta, veria a mesma estrada de um ângulo diferente e também o fato de que poderei retornar ali quando for a Igaratá. Mas, na próxima, deixo o carro na cidade, de lá pego a estrada e vou até...?
Na sexta passada fui correr pelas ruas de São Paulo logo ao amanhecer. Lá pelas tantas, cheguei à entrada do Minhocão e, vejam só, ele ainda estava fechado para o tráfego. Faltavam 15 minutos para abrir. Não tive dúvida. Tive o privilégio de correr solitária pelo Elevado, enquanto a cidade despertando, se agitava logo abaixo dos meus pés e me espiava sonolenta das janelas dos prédios ao redor. Calculei o tempo exato para não ser pega de surpresa pela abertura da cancela. Imaginar-me ilhada no viaduto com os carros passando rentes a mim não era nada convidativo. Desci a rampa no instante em que o o marronzinho da CET se encaminhava para abrir o portão. Uma caravana de carros aguardava impaciente.

Treinar junto com outra pessoa é divertido. Conversamos, rimos, brincamos. Mas nos distraímos, desconectamos do nosso corpo, das nossas sensações, da percepção do que está em volta. Algumas sensações só conseguimos ter se estamos focados naquilo que estamos fazendo, se sairmos do verbal, pararmos de pensar em palavras e nos concentrarmos no sensual (relativo aos sentidos, não à sexualidade). Em nossa exclusiva companhia, na cidade adormecida, no campo desconhecido, por entre as curvas de Romeiros é possível aprender um pouco mais sobre a gente mesmo e sobre o mundo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pelo fim da animosidade

Impossível deixar o tema escapar. Sei que os meus fiéis leitores acessam este blog atrás de posts sobre treinos, provas etc mas, sinceramente, me sentiria ridícula em escrever sobre meu treino de hoje (o primeiro de natação depois de quase dois meses), ignorando o que acabou de acontecer.

Não, não se preocupe. Não farei campanha pra nenhum candidato. Não escondo meu voto, mas não acho que seja relevante divulgá-lo. Quero, sim, fazer um apelo ao espírito esportivo no período eleitoral. Estou muito incomodada com a falta de respeito de pessoas supostamente educadas e esclarecidas no debate político. Uns desqualificam o Serra porque ele seria carrancudo ou “limitado espiritualmente” outros acusam Dilma de “trator” e de idiota, assim como havia os que chamavam Marina de “filha de Maria” em tom de deboche. Que espécie de debate é esse? Atire a primeira pedra quem não bate na mesa de vez em quando, acorda mal humorado, fica meio abestalhado em algumas situações ou que tenha convicções espirituais, religiosas ou esotéricas . Não seria mais útil, interessante e honesto que avaliássemos e discutíssemos programas, propostas, idéias, currículo e atuação profissional?

E quando escrevo “discutir” não estou falando em bater boca. Embora pareça, política não é futebol. No futebol, não tem acordo. Nasceu corintiano, corintiano até morrer – menos o meu marido, é claro – mas isso é história pra outra ocasião. Torcida não tem racionalidade alguma. É paixão. E, a menos que ultrapasse os limites da civilidade como, infelizmente às vezes vemos acontecer, não há mal em que seja paixão. É legítimo defendermos nossa paixão clubística sem nenhum argumento decente.

Mas, com política não pode ser assim. Não podemos ser sectários e defender partidos ou pessoas apenas porque um dia em nossa vida os escolhemos e nunca mais revimos essa escolha. Não podemos defender nossa posição na base do grito, da torcida mais barulhenta, da bandeira maior – há que se ter argumentos.

Política também não é religião. Religião tem a ver principalmente com fé, crença, dogmas. Sim, há também os valores, mas é a fé o eixo central. O debate político não deveria ser uma questão de fé, nem de crença, mas de princípios. Quais são os princípios que regem os seus atos? Quais os princípios regem as suas escolhas? Não basta escolher candidatos que se aproximem mais de seus princípios – mas de ser fiel a esses princípios quando se posicionar, quando decidir compartilhar sua posição ou debate-la com alguém.

Por que é tão difícil um debate civilizado? Por que tanta animosidade? Por que ficamos irritados, raivosos, com os que não pensam como nós? Por que raramente conseguimos ouvir o que pessoas que pensam diferente de nós têm a dizer? Discordar, sobretudo, é uma arte. Assumir uma posição que não é condescendente tipo “ah, perdoai-os pai, eles não sabem o que dizem” nem agressiva “é um bando de idiotas mesmo” “chuuuupa, fulano(a)!”, ou cínica “ah, é tudo a mesma porcaria” mas, sinceramente disposta ao diálogo.

Somos uma democracia novata, mas já saímos das fraldas. A tranqüilidade com que transcorreram as últimas eleições é um feito do qual temos todos de nos orgulhar. Em poucas horas tivemos o resultado das urnas – e o volume de votos era sem precedentes— mais de 135 milhões! Ainda assim, ninguém contestou os resultados.

Mas temos muito, muito mesmo que aprender em termos de confronto de idéias, coerência de princípios, capacidade de escuta e posicionamento. Quando digo “temos” me incluo não apenas por força de expressão, mas porque também acho que preciso de um treino.

Como qualquer outra coisa que se queira fazer bem, dá trabalho. Exige autocrítica, conscientização, empenho e jogo de cintura. Bom... mas se você está planejando fazer um iron, não há de ser tão difícil assim!

domingo, 26 de setembro de 2010

No pain no gain?

Dizem que nós, esportistas, temos uma tolerância maior à dor. Um dia estava pedalando com uns amigos e ouvi o seguinte: “Fui pedalar  lá em Romeiros semana passada. Nooooosssa, como eu sofri! Foi muito bom! Adorei!” Então parece que não apenas toleramos a dor, como, em certa medida, até gostamos dela.

Do que, exatamente, gostamos? Creio que gostamos de controlar a dor, de saber que vamos superá-la, de sermos mais fortes que ela.

Mas o que é a dor? Geralmente é sintoma de algo que não vai bem. Então, em que medida devemos, mesmo, tolerá-la? “A dor é passageira, a derrota é para sempre”. Já ouvi esta frase, atribuída a Lance Armstrong, dezenas de vezes entre os triatletas. Será mesmo? Às vezes a dor não é passageira. É uma lesão mais séria. E aí, você não desiste, cruza linha de chegada com uma lesão que não será passageira coisíssima nenhuma. Vai lhe acompanhar por meses. Talvez, se tivesse desistido, a derrota seria temporária e a dor também!

Muitas vezes não sabemos quando é hora de tolerar e seguir em frente, quando é preciso parar. Com o tempo e a experiência de treinos e provas podemos nos tornar mais hábeis em escutar nosso corpo e classificar as dores em perigosas/não perigosas. Digo “podemos” porque se trata de realmente criar uma sintonia fina e tentar distinguir as nuances. Ou seja, não negligenciar os sintomas e passar por cima todas às vezes até ganhar um repouso forçado ou, pelo contrário, correr pro ortopedista depois de qualquer treino mais forte.

Nessas últimas semanas estou tendo um convívio intenso com a dor. Da minha maior ou menor tolerância à dor dependia minha recuperação e, portanto, meu retorno completo aos treinos. A dor, neste caso, é um sintoma mas, ao contrário da maioria das situações, o aumento da dor, não é um aumento de lesão, mas sim de mobilidade articular. Então tenho agüentado firme. O instinto me mandaria puxar o braço na direção oposta àquela que a fisioterapeuta está empurrando. Expiro e, com lágrimas escorrendo pelo canto do olho, mas sem emitir um gemido, tento colaborar e ampliar ainda mais a extensão do movimento. Fui recompensada. Volto pra piscina daqui uma semana. Menos de dois meses após a cirurgia. A previsão era de três meses. Sem dúvida aumentei meu limiar de tolerância à dor com essa experiência. Não diria que é prazeroso mas, certamente, estou me sentindo mais forte.

E o outro tipo de dor? A dor da tristeza? Será que temos de aumentar nosso limiar de tolerância a esta dor também?

Eu fico com essa dor, ah essa dor, tem de morrer. A dor que nos ensina e a vontade de não ter...

Segundo o mestre Luiz Melodia, essa dor ensina. Aí também, dor é sintoma. Algo que não vai bem. E oh, embora a dor da tristeza possa ter sido provocada pelo outros (por outros, por outra) — como a dor física é provocada por treinos ou traumas, — ela é SUA. Assim como o tendão é seu e ele pode agüentar mais ou menos kms, precisar de mais ou menos alongamento, os sentimentos feridos também são seus e cabe a você aprender o que lhe faz mal, o que lhe faz bem, o que você precisa mudar para se deixar machucar menos.

Não dá pra viver sem se machucar. Isso lá é verdade. Tanto pro esporte quanto pra os departamentos mais sensíveis e subjetivos da vida. Mas quando aumentamos nossa tolerância à dor da tristeza fortalecemo-nos? Ou nos endurecemos? Tornamos-nos pessoas melhores? Ou piores? Precisamos sofrer todas as dores? Não há algumas que poderíamos evitar? Será que há momentos em que, para crescer, para se libertar de algo, ou, fazendo uma analogia com meu ombro, pra ter uma recuperação mais rápida e ser recompesada, precisamos aguentar firmes a dor?

Nesse caso também, a gente precisa de muita estrada, muitos papos com bons amigos e muita reflexão pra encontrar a medida. Pra não tolerar o intolerável, pra não transformar em lesão permanente pequenas coisas que nos incomodam e às quais não damos atenção no cotidiano ou, por outro lado, pra não correr da raia ou logo falar em rompimento à primeira dor que aparece. Pra, de fato, aprender mais sobre si mesmo com a dor.

A vida não é pra principiantes. E, quando se trata dessas dores, nós esportistas, somos como o restante da humanidade: nem melhores, nem piores.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Equipamento em manutenção

Uma das coisas que mais me irrita é quando um elevador, uma esteira ergométrica ou um aparelho de musculação estão com a mensagem acima. Escrita num pedaço de papel ou numa plaquinha de plástico, dá na mesma. Na maioria das vezes é a mais absoluta mentira. Não se avista ninguém nas proximidades com uma caixa de ferramentas, macacão sujo de graxa e muito menos fazendo a manutenção do equipamento. Ninguém tem coragem de escrever a triste realidade: equipamento quebrado.

No meu caso, entretanto, “equipamento em manutenção” é a mais pura verdade. Estou funcionando, mas não a pleno vapor e tem sim, alguém trabalhando no equipamento. Ela não está de macacão, nem suja de graxa — pelo contrário. Está de jaleco branco, bem limpinha, mas leva consigo uma série de ferramentas: faixas de elástico, bolsas de gelo, maquininhas de eletrodos e, principalmente, um par de mãos que escondem sua força e a firmeza atrás de unhas delicadamente pintadas.

Mais uma vez, estou cumprindo uma planilha de sessões de fisioterapia. É quase um treino. Ocupa o lugar do treino. Tem momentos de muita dor. Nunca antes na história de tratamentos fisioterápicos desta atleta que vos escreve eu havia sentido tanta dor.

Mariana, com sua carinha de boneca de porcelana, pega meu braço e vai empurrando, empurrando e empurrando até que eu comece a ver estrelas, planetas, cometas e buracos negros. É para o meu bem, eu sei. Mas dói.

Logo na primeira sessão ela me conta sobre um alemão que bateu o recorde em recuperação rápida e em estoicismo. Segundo reza a lenda, ela praticamente se pendurava no braço do senhor Ingo e ele não mexia nem a sobrancelha.

Acho que ela me contou essa história pra me provocar. Decidi que não vou lhe dar o gostinho de me ver gemer de dor nem uma vezinha.

Assim, meu progresso tem sido rápido. Da primeira para a segunda vez que fui lá a amplitude do meu movimento aumentou muito. No primeiro dia eu só levantava o braço à altura do peito. Na segunda, já esta acima da cabeça!

Não contei pra ela, mas fiquei treinando em casa.
O movimento mais doloroso. (Este não sou eu. Não mudei tanto assim por ter ficado sem treinar)

Como viu que sou firme, cada dia ela força mais o meu limite. Estou adquirindo técnicas para suportar a dor e deixá-la ampliar a movimentação do meu braço o máximo possível. Fecho os olhos, respiro, deixo o corpo entregue e tento levar a minha mente pra bem longe dali, me concentro em outra parte do corpo — a mão direita por exemplo, repito, dentro da minha cabeça “já vai passar, já vai passar, já vai passar”. E passa mesmo.

Estou, claro, de olho na marca a ser superada – a do Ingo. Acho que são 10 sessões.


Lições sobre o ombro

De fato, estou cada dia melhor. Aprendi, neste período, muitos fatos interessantes sobre o ombro e adjacências:

1. O ombro é a parte mais sociável do corpo (a expressão "ombro amigo" confirma minha tese. Todo mundo gosta de por a mão nele. Repare: desde os mais íntimos, que apóiam a mão no seu ombro pra dar o beijinho de “oi”, até os nem tão chegados que dão um tapinha amistoso pra manter uma certa distância ou aqueles mais animados que dão logo um tapão. De qualquer modo, aiiii! Acredite se quiser, nem mesmo com a tipóia as pessoas tomam cuidado.

2. Usamos o ombro para uma série de tarefas que eu nunca tinha imaginado. Afivelar o cinto de segurança e ligar o pisca, abrir a tampa de um pote bem fechado, fechar o zíper da calça e girar a chave na fechadura;

3. Homens sabem vestir e desvestir blusas fechadas de um modo que usa muito menos o ombro. Veja: As mulheres, primeiro, colocam a cabeça e depois os braços, os homens primeiro enfiam os braços nas mangas e, por último, a cabeça. Pra tirar, o movimento é no sentido contrário. Tive de aprender este jeito masculino de vestir e desvestir.

5. O ombro é mais importante do que o travesseiro para uma boa noite de sono. Um ombro meia boca é prejudicial ao seu descanso. Os médicos não te contam quanto é difícil conseguir dormir. Acho que se eles contassem ninguém operaria se tivesse escolha.

Aprendi o suficiente por essas cinco semanas. Está bom. Feliz ou infelizmente, diferente de elevadores e aparelhos de musculação, nosso equipamento não sai da manutenção já pode ser usado como se nada tivesse acontecido. Nossa volta é mais lenta e gradual. Mas já estou em uso, sim.