terça-feira, 23 de novembro de 2010

Peço desculpas!

Levei um puxão de orelha de um leitor - lá de Portugal - por causa do meu último post. E, relendo o que escrevi, e considerando o que ele ponderou, tenho de reconhecer: peguei pesado com os laranjinhas retardatários.
Segue um trecho da mensagem que ele me mandou:

Sempre leio os teus posts e são 5 estrelas! Muito bons mesmo! Desta vez porém fiquei triste por ler algumas palavras tuas. Desanimado até…Eu explico…eu sou um dos toucas laranjas que falas no teu post. Nado mal mesmo! Nado crawl mas devagar, porque não tenho (ainda) técnica nenhuma. Aprendi a nadar em Julho. (antes eu sabia andar na agua) LOL. Devo desistir do triatlo ? Mudar de desporto? Devo ficar quieto no meu mundo das corridas e só passear de bike na praia?
Não gosto de atrapalhar ninguém e por isso quando treino na piscina e incomodo alguém que nada mais depressa do que eu ( quase toda a gente) tenho o cuidado de pedir desculpa. No unico triatlo que eu fiz deixei-me ficar bem atrás, principalmente para não levar porrada.
Nesta prova que falas contudo, se eu saísse 5 minutos antes de ti eu iria certamente estar ali no meio desses toucas laranjas a atrapalhar. Na bike a mesma coisa. Quer eu tivesse 20 ou 50 anos sem história na bike é preciso treinar muito para conseguir uma boa média na bike.
Mas para evoluir é preciso ir lá sentir a adrenalina mas infelizmente atrapalhar também os profissionais do triatlo.
Acho que tem de haver muitos toucas laranjas, embora também seja preciso que esses toucas laranjas tenham o bom-senso de deixar passar quem nada e pedala mais rápido ( na agua é mais dificil).
Senão houvesse toucas laranjas a participar tínhamos triatlos com 15 participantes (pelo menos aqui em PT).

Fiquei chateada comigo mesma de ter passado a idéia de que gostaria de um triathlon só com gente rápida. Justo eu!? Eu que nado mais ou menos e pedalo mal? Justo eu, que sou daquelas traumatizadas, escolhida por último na aula de educação física? Não! Nunca! Sou totalmente a favor da inclusão e da participação de todos! Não! Nunca! Não quero, em hipótese alguma, defender a elitização do triathlon - que já é bastante elitista por razões financeiras - mas que tem, como um de seus grandes méritos, acolher profissionais e amadores, sem distinção.
Não falava sério quando me referi às touquinhas laranjas, retardatários que estavam pelo caminho, chamando-os  de "annoying oranges" - um personagem de vídeo chato pra caramba. Fui infeliz, já que posso ter ofendido pessoas que não são muito rápidas nem habilidosas mas estão lá batalhando, fazendo o melhor que podem, aprendendo com aqueles que são mais experientes e/ou mais talentosos e tomando o maior cuidado pra não atrapalhá-los.
Não são os mais lentos que estragam as provas de triathlon. São os mal educados, que não agradecem os volutários; são os sem-escrúpulos, que ficam na roda dos outros quando não é permitido o vácuo; são os sem-noção, que ultrapassam de forma perigosa; são os sem moral, que usam de doping pra conquistar as tão almejadas vagas pra Kona.
Então, por favor, me perdoem aqueles a quem posso ter magoado ou desanimado com minhas brincadeiras.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

De volta - Pirassununga 2010

Como é bom participar de provas. Não só pra competir, mas, principalmente, por fatores extrínsecos: conhecer pessoas novas, encontrar amigos, conviver por mais tempo e ficar mais amiga ainda de quem a gente já conhece.

O ano passado já tinha sido assim. Este ano foi, de novo, muito legal.

Começou com um telefonema da Cris, amiga da MPR que praticamente não treina mais, perguntando se tínhamos lugar pra ficar em Pira.  Em Pira, não tínhamos. Íamos ficar em Leme, que é próxima, mais nem tanto.  Então ela disse que um amigo - Rogério, também da MPR, estava indo sozinho pra uma casa bem perto da AFA (Academia da Força Aérea, onde acontece o Long) e perguntou se ela conhecia alguém que procurava lugar pra ficar. Na mesma hora liguei pras minhas parceiras Thelma e Julinha, que toparam sem pestanejar.

Véspera - aniversário da Thelma
Saímos sábado de manhã de SP. Thelma e eu, Julinha com meu filho Martim e Rogério. No caminho tivemos de fazer umas paradas estratégicas, já que estávamos naquele esquema de hidratação.

Chegamos em Pira quase uma da tarde. O sol estava derretendo o asfalto. Nos encontramos os cinco no Brasinha, um restaurante indicado por um amigo meu que é de lá. Graaande pedida. Nada de massa. Comemos um tal de Aruã - peixe amazônico - com arroz, batatas cozidas e legumes. E o papo com o Rogério, que tínhamos acabado de conhecer, rolou solto.

Passamos na nossa maison que tem o sugestivo nome de Paradise Lazer, deixamos as coisas e fomos buscar os kits. Dez minutos do nosso lar provisório até a entrada da AFA. Melhor, impossível. Chegando lá conheci um amigo blogueiro, o Rafael Farnezzi e e encontrei o meu amigo também blogueiro, sempre simpático e sorridente, Arthur Araújo.

Da esquerda pra direita: Rodrigo, Emerson, Daniel, Thelma, eu, Pocinho e Julinha, na Cantina Don Pepe.

Como era aniversário da Thelma, ainda em SP, reservei uns lugares numa cantina, encomendei um bolo e chamei o pessoal pra encontrar lá.

Foi delícia. Comida boa, lugar simpático e barato, clima gostoso, conversa animada e, o melhor de tudo, pessoas legais: Daniel e Vivi com a filha Julia (que rapidamente se entendeu com meu filho Martim, apesar da grande diferença de idade), Rogério, Emerson, Rodrigo, Carlos Pocinho, Julinha, Thelma e eu e a turma da Sumaré que passou por lá também. Fabiana, Mônica, Thiago e a Cururu que estava na maior ansiedade porque iria estrear na distância 70.3.

De volta ao nosso paraíso particular, Rogério, Thelma e eu ligamos o modo PPP - preparação pré prova. Enquanto isso, Martim e Julinha jogaram os colchões no meio da varanda, se jogaram em cima deles e desligaram.

O enigma da Julinha
À noite o paraíso não tão paradisíaco. Difícil dormir. Sirenes, músicas, luzes, conversas. O despertador tocou no melhor do sono.
Alguém precisa me explicar como a Julinha que chegou e caiu na cama sem arrumar nada, estava pronta na mesma hora que Thelma, Rogério e eu sem ter acordado uma hora mais cedo. É um mistério profundo.

Chegamos na AFA cedo, encontramos o Emerson e o pessoal da MPR e eu nem estava com aquele friozinho na barriga. Encontrei Corina Silveira e seu marido - ela estava super ansiosa; o Evandro - meu parceiro de Iron, que disse que ia passear no parque (em Pira não dá, Evandroooo!) a Cururu... um monte de gentes. E estava aquele clima de festa.

A expectativa era passar um calorão. Como disse a Thelma no blog dela, iríamos descer ao inferno. Então, estando lá, nada mais natural do que aproveitar e abraçar o diabo. Algo parecido com ir a Roma e VER o Papa.

Natação e os laranjas
E foi dada a largada. Os homens, cinco minutos antes das mulheres. E alguém me explique também como é que antes da primeira bóia na primeira volta eu já estava tropeçando em alguns deles. Dali em diante, só foi aumentando a densidade dos annoyings oranges (as tocas eram laranjas). E eu nem nado tão rápido assim. Eles é que nadam muito mal. Desculpe, pessoal, mas nadar 1900 metros de PEITO!? Acho mais honesto mudar de esporte. Ou aprender a nadar crawl.

Não sei ainda, mas ACHO que minha natação foi pior – o que era de se esperar – o pedal também ACHO que foi igual ou melhor do que ano passado e a corrida também deve ter sido um pouco mais alta este ano.

Nadei tranqüila, forçando um pouco mais na segunda volta. Senti sim, o braço um pouco cansado e dolorido no final, mas não demais. Na transição tentei passar um pouco de chamois butter mas, como não tem tenda, não deu pra espalhar como se deve. Resultado: fiquei com vários cortes e assaduras nas nádegas. Coloquei uma faixa no cabelo, capacete, óculos e sapatilha. Sem estresse, apesar do meu filho Martim ficar dizendo "vai mãe, vai logo!"e saí pra pedalar. Deixei numa marcha bem leve, porque a saída é numa subidinha e não tive dificuldades.

Ciclismo - porque eles não me passam?
Fiz a primeira volta mais tranqüila, apertei na segunda e na terceira e a quarta foi igual a primeira. Passei várias mulheres (e alguns homens) e não fui ultrapassada por nenhuma. Fiquei no clipe o tempo todo (e o ombro não doeu), volantão e volantinho só em duas pequenas subidas.

Não vi pelotões e nem gente pegando roda. Ouvi dizer que tinha um pelotão grande mas não passou por mim. Algumas vezes eu encostava em alguns caras que tentavam escapar, escapavam por um tempo mas, dali a pouco, eu já estava emparelhada de novo e às vezes até passava. Pensava com meus botões "eu com essa perna de mentirinha, mais velha, do suposto sexo frágil e com uma bike que não é nenhuma Ferrari... o cara com idade pra ser meu filho (ou pelo menos um caçula temporão), com esses pernões, do sexo (fisicamente) mais forte, com uma puta de uma bike..." Dava vontade de dizer: "Vai embora, cara! Você tem obrigação de me passar e sumir!"

Ao longo do percurso, os milicos, muito sérios, indicavam o caminho correto. Na terceira volta, não aguentei. Passava por eles e intimava: "E a torcida?Pô, pelo menos pras mulheres!". Os caras abriam um sorriso DESTE tamanho e gritavam: "Vai 53!" Aí eles voltavam a parecer moleques, como outros quaisquer!

Um pouco antes do final da bike emparelhei com um menino muito simpático. Comentamos sobre o calor e o abraço que daríamos no coisa-ruim na hora da corrida. Rimos os dois. Ele entrou na área de transição logo à minha frente e tinha a maior galera torcendo pra ele: "Vai, Cesinha! Aê, Cesinha!" Eu não aguentei e disse pra ele: "Cara, você tem a maior torcida particular da prova! Também quero!". Aí, a Fabiana que é uma amiga e estava nesta torcida, ouviu o que eu disse e gritou "Vai, Claudinha!". Eu ri e comentei com ele: "Viu?! Não é só você que tem torcida!" Não consigo deixar de me divertir e falar essas bobagens. Mesmo que sabendo que deveria ficar quieta pra poupar energia.

Na transição, coloquei uma viseira, garmin (que não achava o satélite no começo e me atrapalhou um pouco) e não passei mais protetor solar e nem vaselina nas axilas – o que me deixou com uma linda assadura e um bronzeado ma-ra-vi-lho-so - carimbo do diabo. Sai pra correr debaixo daquela lua. Tomei água ou gatorade em todos os postos, pelo menos um golinho. Agradecendo sempre. Coisa que pareceu surpreender os meninos que, muito gentilmente, respondiam entre espantados e felizes: "De naaada! Não tem de quê!"

Corrida - alguém tem um par de panturrilhas aí?
Nos primeiros 9 km – quase metade da prova – senti um tremendo cansaço nas panturrilhas. Inclusive pedi pro Kim um par novo, quando ele me ofereceu água. A Kelly (triatleta, ortopedista e amiga) bem que tentou me emprestar, mas não era meu número. Felizmente, dali em diante, melhorou e consegui correr sem tanto sofrimento. Mantive 5m20, 5h30. Na sombra e nos declives – que são suaves mas a gente sente a diferença – consegui ir um pouquinho mais forte. As palavras de incentivo das pessoas tanto no ciclismo, quanto na corrida, sempre animam a gente. Flavinho (que quebrou no pedal), Pedro (que veio direto de Miami só pra largar e pedalar, mas não fez a corrida), Marcos (que se contundiu em Clearwater mas veio assistir) e Mariana Hubinger (parceira de pelotão) que vieram de São Paulo, Mônica Bolognani, Mariana Prado e Diglu da 5 Ways, a Fabiana, Marcelo e Marcinha da Planet, Rodrigo e o Emerson da MPR, pessoas que cruzei durante a prova como o Lester, Marquinhos, Beto, da MPR,o mestre Vilela, de Santos, a Camila da Trilopez, a Vivi e o Daniel - que tiraram a foto abaixo e, claro, meu filho Martim.  Saber que ele me esperava na chegada não me deixou nem PENSAR em andar.
Chegando feliz. Foto Viviane Blois.

No final, ainda tive de dar um sprint porque uma atleta que eu havia passado no km 15 resolveu que queria chegar na minha frente, se aproveitando do fato de o Martim, me filho, vir correr os últimos metros comigo. E o Emerson tinha acabado de me dizer - você está emntre as dez primeiras! Cuidado atrás!". Mas nós não deixamos! Tirei energia do fundo do coração, o Martim se esfalfou, mas chegamos antes da adversária. Quase alcançamos a Julinha. Por 20 segundos. Teria sido o máximo cruzarmos a linha de chegada os três juntos. A Thelma nem vi. Só ouvi. Ela chegou em terceiro geral, dando pau em duas profissionais e sendo escoltada por motocicletas e suas sirenes. Melhor presente de aniversário, impossível! E ela merece.

Final feliz
Terminei cansada, mas sem cãimbras, nem dores. Fiz a prova em 5h24m03 mas não sei ainda as parciais. Ano passado, foram 5h18m32 mas não estava tão quente – parece que ontem chegou a fazer 35 graus durante a prova. A Ariane por exemplo, fez 4h23m ano passado e 4h30 este ano; a última colocada o ano passado fez em 7h06m e, a deste ano, em 7h36m. Acho que isso quer dizer que a prova foi mais difícil.
Fiquei em 1º na categoria (com quase 30 minutos em cima da segunda colocada) e em 10º no geral feminino. Bom demais para quem saiu do estaleiro há pouco e nem treinou tanto assim.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O amor fora de hora, o esporte amador

Estou cansada do amor. O amor tudo vence. Só o amor constrói. Amor, com o amor se paga. No amor e na guerra vale tudo. Ama ao próximo como a ti mesmo. Será?
O amor virou moda. Além de amar mãe,  pai, cônjuge e filhos, agora também precisamos amar o trabalho e, pior, amar as pessoas com quem trabalhamos. Haja amor! Bons médicos, amam sua profissão e devem tratar seus pacientes com amor. Professores, então! Nem se fale. Ai da professora que não amar seus alunos. Todos eles, sem exceção. Atores, artistas, músicos... os bons mesmo, têm paixão pelo que fazem. Será?
Me desculpem os amantes desse amor todo, mas não só acho isso mentiroso, como também penso que pior seria se fosse verdade.
Sem querer atrever-me a definir o que é amor vou, sim, ousar e afirmar que a presença de tal sentimento não é tão necessária quanto vem sendo apregoado ultimamente.
Em primeiro lugar, não é possível se obrigar a amar. Até hoje a poção do amor é procurada, mas sem muito sucesso. Talvez o alcool seja o que tenhamos de mais próximo a um afrodisíaco. Quem é que nunca viu (ou se viu) bêbado declarar seu amor para os entes queridos e pros entes nem tão queridos assim? Dificilmente se pode levar esses arroubos de afetuosidade muito a sério. Mesmo porque, no dia seguinte, o apaixonado já nem lembra mais de todo aquele amor.
Mas esqueçamos os bebados e os afrodisíacos.
Um médico, um professor, um técnico, não precisam amar o que fazem. Mas precisam ser comprometidos com as escolhas que fizeram em sua carreira e trabalhar com profissionalismo.
Esta idéia de que fazer o trabalho com amor é, necessariamente fazer um trabalho bem feito é perniciosa, pois pode eximir o sujeito de suar, ralar, estudar, aprender, ir em busca de conhecimento. Pode desprofissionalizar a relação dele com sua ocupação.
A professora não precisa amar todos os seus alunos, o médico não precisa amar seus pacientes. O técnico não precisa gostar de seus atletas. Mas todos têm a obrigação de respeitar seus pacientes, alunos, atletas. E o médico precisa ouvir e olhar para o ser humano que está á sua frente e ser capaz de colocar-se no lugar dele, ser compassivo com o doente e sua família, sacar que se para ele, médico, a doença e o tratamento são rotina, pra maioria dos doentes e suas famílias, não! Não precisa de amor. Conhecimento,solidariedade, humanidade, compaixão, sim. Amor? Não necessariamente . O professor tem a obrigação de fazer o melhor de si e acreditar que todos, sim TODOS os seus alunos são capazes de aprender, e investir nisso. A despeito das "famílias desestruturadas" de uns, da pobreza de outros, da aparente lerdeza de alguns. Todos podem e é obrigação do professor dar o melhor de si para que todos tenham oportunidade de aprender. Mas, pra saber o que cada um precisa e como ensinar, é preciso avaliar, estudar, planejar. Amor? Supérfluo. O técnico, idem. Precisa estar atento, analisar a individualidade de cada atleta, buscar a melhor palavra, o melhor exercícío, a "dura" mais precisa. Mais uma vez, pra ser competente, é necessário observar, estudar, avaliar, pesquisar. Amar?
E o tal do amor-próprio? Defendo uma idéia relativamente simples: este amor advém, principalmente, da confiança que construímos acerca das nossas capacidades. Elogios, aprovação e cumprimentos dos outros, ajudam, mas não são a essência. O principal é perceber que (nos)superamos, aprendemos, que conseguimos conquistar com braço forte.
Não há lugar onde o amor se encaixe melhor do que no esporte amador. O amador se entrega a essa ocupação sem esperar recompensa, pagamento ou reconhecimento. É um amor desinteressado mas, ao mesmo tempo,  altamente comprometido. É como amor a uma causa: dá sentido à nossa vida, nos dedicamos a ela, nos sacrificamos e não esperamos nada em troca. Quase um amor canino.
Não estou dizendo que os atletas profissionais não possam amar e se divertir com sua ocupação. Mas é seu ganha pão. Existe a obrigação de treinar, de competir, de ter resultado.  O amador refaz a escolha a cada dia que se levanta pra treinar: está desobrigado, mas escolhe levantar cedo e treinar. Escolhe não ir dormir tarde, escolhe abrir mão da festa.
E, embora o amador ame (quase) incondicionalmente o esporte ele é sim, recompensado algumas vezes. Na sensação agradável de terminar um treino longo e constante, na hora em que consegue atingir uma determinada marca, na disposição que conquista para tocar sua vida.
Amor é amor. Não é possível nos obrigarmos a a amar e, para ser duradouro, é necessário cuidados diários. E, de uma hora para outra, ele pode acabar ou ir morrendo aos poucos. Mas tanto na vida afetiva quanto na esportiva, não podemos deixar de aprender com nossas histórias de amor. Pois é isso que nos permite amar novamente, mais e melhor: pessoas ou esportes.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para não ser esponja

Minha sábia mãe vive dizendo que nós precisamos formar nossas crianças e jovens para serem filtros e não esponjas. Em vez de absorverem tudo que se lhes coloca pela frente, que passem a ter critérios de modo que possam fazer escolhas.
Mas isso não é nada, nada simples. Nem mesmo para nós adultos. Por exemplo: desde que a Nike inventou que, para correr, é preciso um tênis especial, ninguém duvidou. No mundo inteiro corredores passaram a procurar aquele tênis, convenceram-se de que sim, amortecimento é crucial, saber se sua pisada é supinada, pronada ou neutra pode mudar o rumo de sua vida ou, ao menos, de sua passada.
Mais empresas, mais tecnologia. Diferentes modelos para treinos e competições, para corridas longas ou curtas, para corredores rápidos ou lentos. As revistas especializadas têm, ao menos uma vez por ano, a obrigação e o hábito de lançar um guia para o pobre consumidor/corredor para orientá-lo na árdua tarefa de escolher um tênis. Flexibilidade ou leveza? Amortecimento ou resiliência? São tantas opções que, para acertar na escolha é preciso debruçar-se sobre o guia e fazer um longo e detalhado estudo. Claro que no momento em que o feliz consumidor consegue finalmente escolher, a Asics já lançou um novo modelo com ainda mais tecnologia.
E...bem... quem foi que disse que toda esta parafernália faz diferença? Quem viu pesquisas e estudos provando que o amortecimento, por exemplo, diminui as lesões? Quem disse que a pessoa que pisa em pronação precisa de uma correção compensatória? Vou além: quem viu um estudo ou pesquisa que não tenha sido patrocinado pelos próprios fabricantes de tênis? Quantas vezes paramos para duvidar daquilo que parece "científicamente comprovado"?
Anúncios de televisão mostram um senhor, nem tão idoso, nem tão jovem; a idade é suficiente para o levarmos a sério. Trajando jaleco branco, ele nos garante que o produto X é comprovadamente mais eficiente que os outros. Confesse: você fica, ou não, inclinado a acreditar nele?
E olhe que nós, que temos acesso a internet, lemos e ou escrevemos blogs, somos realativamente bem informados e críticos. Ainda assim, caímos em alguns contos do vigário.
Como pais, a responsabilidade é ainda maior. Não só porque somos modelos para os pequenos como também porque é fundamental ajudá-los a perceber as artimanhas da publicidade para seduzi-los. haja paciência, argumentos e perseverança para dizer "não" aos filhos explicando porque.
Ser filtro, e não esponja, implica, principalmente, em saber ler. Não ler de qualquer jeito. Mas ler dialogando com o texto. Perguntando quem escreveu este texto? Para quem escreveu? Com que intuito? Parece óbvio? É não. A revista O2, por exemplo, faz cobertura de provas e também organiza provas. Você costuma prestar atenção nos anunciantes das revistas? Você repara se existe alguma coincidência entre matérias e anúncios? Vocês souberam que houve uma grande paralisação nos bancos durante o período eleitoral? Notaram que a mídia praticamente ignorou este fato? Quem são os maiores anunciantes dos jornais e das TVs em horário nobre?
Não estou dizendo pra ficar paranóico, pentelho, vendo pelo em ovo. Mas para, principalmente nos momentos em que se tem de fazer uma escolha, uma compra ou tomar um decisão, não procurar atalhos e nem se deixar levar por aparências.
Ser filtro, e não esponja, implica num exercício permanente de duvidar e de se informar. A autonomia intelectual e moral, embora comece seu desenvolvimento ainda na infância, precisa estar permanentemente em uso. Não é para preguiçosos. Não é para acomodados.

Ah, para saber mais sobre o assunto corridas x tênis recomendo o livro Nascido para Correr: a experiência de descobrir uma nova vida, de Cristopher McDougall, da editora Globo.
E sobre o assunto criança x consumo,  o filme Criança, a alma do negócio, disponível para download na página do Instituto Alana .

sábado, 30 de outubro de 2010

Dois trios, três duplas - Revezamento Bertioga-Maresias

Pelo quarto ano consecutivo faço essa prova. No primeiro ano participei apenas como torcida, já que estava de patinha quebrada. mesmo assim, me senti parte da equipe.
Neste último sábado, porém, em vez de irmos em sexteto como nas edições anteriores, montamos dois trios: um feminino o outro masculino. Foi muito divertido.

Nosso esquema para a prova, made by Roi
 Uma parte da graça dessa prova é organizar a logística: carros de apoio, quem leva quem aonde e que horas. Tínhamos uma boa equação: dois trios de corredores (Julinha, Mari e eu/ Roi, meu marido + David e Zé), um carro de apoio com motorista (Tamara, esposa do Zé), um carro sem motorista, nove trechos a serem percorridos.
O Roi pode não ser bom em encontrar as coisas mas é perito em montar planilhas, esquematizar informações e colocar no papel. Portanto, mais uma vez, a logística da prova ficou por sua conta.
Viajamos na sexta à noite, no Doblo: David, Mari, Julinha, Roi e eu. Paramos num posto e comemos uns sanduíches de pão borrachento com queijo gosduroso e mal derretido. Ninguém nem ligou. Lembrei de tantas vezes que desci pro litoral e parei neste mesmo posto, louca pra chegar na praia, tomar cerveja, umas vodcas, ficar na farra até altas da madrugada e acordar tarde e com dor de cabeça no dia seguinte. A parte boa era conviver com os amigos, dar risadas, falar besteira. Então alguns anos depois, estou indo novamente pra praia com amigos e marido, rindo e falando besteira. Só que sem a ressaca do dia seguinte. provas de corrida podem sem uma coisa ótima!
Chegamos à nossa Pousada, simples mas limpa e ao lado do PC1 - largada do segundo trecho. Ficamos num "chalé triplex" que não era um chalé nem aqui nem na China e sim um apartamentinho de dois andares, com várias camas, cozinha e dois banheiros.
Aprontamos as coisas pro dia seguinte - principalmente eu, que seria a primeira a correr - e nos jogamos nas camas.
A noite não foi das melhores. Gente batendo papo, crianças gritando, barulhos em geral. Mas, se o desempenho das provas dependesse das noites da véspera, eu teria sempre um péssimo resultado. É raro dormir bem.
Na manhã seguinte, Mari acordou queixando de dor de garganta. Tossiu a noite inteira. Sorte que a Julinha dorme como uma pedra, nem escutou.
Tamara e Zé passaram pra me pegar. Nós dois faríamos uma dupla, pois correríamos os mesmos trechos: 1, 4 e 7.  Chegamos a cinco minutos da largada. Não deu nem pra alongar. E, confesso, não deu também aquela emoção que costumava me dar antes do início de uma competição. Seria um longo dia e eu estava tranquila.
Fomos juntos, num ritmo mais lento do que a maioria dos corredores mas, pouco a pouco, fomos apertando o passo. Falei pro Zé que ele poderia ir, sem se preocupar comigo. Ele foi, mas logo emparelhei. A areia dura, o tempo fechado, o espaço aberto e a musiquinha no Ipod nos empolgaram e chegamos ao final do trecho 1 bem acelerados. Lá, nos esperava a segunda dupla: Mari e David, além da Tamara que nos levou até nosso próxima largada.
Fiquei muito contente com meu desempenho. Tenho treinado corrida bem mais ou menos portanto, estava temerosa. Os joelhos estavam ótimos, mas fiz um gelinho assim mesmo.
Nem deu muito tempo de descansar, já era hora do nosso segundo trecho, que saia de Guaratuba e também vai pela praia quase todo o tempo. Como o Roi chegou um pouco antes, Zé largou na frente e passei metade da corrida tentando alcançá-lo. Enquanto esperávamos nossa saída ele veio com aquela conversa de que não aguentaria manter o mesmo ritmo tal e coisa. Ba-le-la. Saiu queimando o chão e eu me esbafori pra chegar nele. Resultado, no final o joelho começou a pegar. Não o que estava doendo ultimamente. O outro. O esquerdo, que  foi o primeiro a começar a doer logo depois do Iron, então passou pro direito.  Caprichei nos cuidados com o direito. O esquerdo ficou invejoso e resolveu doer no final da nossa segunda perna.
Zé terminou um pouquinho na minha frente mas, não adiantou nada. A Mari tinha pifado e, para não perdermos a viagem, o David esperou eu chegar para levar nosso chip até o o trecho em que a Julinha assumiria.
Tomei um advil, fiz gelo e rezei. O trecho 7,  Juréia - Juqueí, era o meu último, porém o mais difícil. Mais uma vez, nossa espera foi curta. Julinha e Roi vieram voando.
Zé também estava cansado e foi mais devagar. Logo de saída vi que meu joelho não iria dar trégua. O piso, pra complicar ainda mais a situação, é muito irregular: estrada de terra toda esburacada, pedregulhos, serrinha, areia dura e, no finzinho, areia fofa pra acabar com a gente de vez.
Quase desisti. Mas, quando se está em equipe, a responsabilidade é maior. Depois, esse negócio no joelho é só chato e doloroso, mas não é grave. Correr com o joelho assim não vai arrebentar meu tendão, quebrar minha patela ou me aleijar de qualquer modo. Respirei fundo, tente me distanciar da dor e, no final, consegui até apertar um pouco mais o passo. Sobrevivi, terminei com o joelho inchado mas, como diz o ditado, ajoelhou, tem de rezar ou, no caso - correr.
David levou os dois chips novamente. Entregou para Roi e Julinha e, até sair o resultado da prova não sabíamos se ele tinha entregado o chip certo.
Os dois fizeram o trecho final. Fui no carro com o Zé e Tamara, enfiada no teto solar, mexendo com os corredores. Festeja e aplaudia os "solo" e as pessoas que conhecia.  Às vezes os corredores que estavam próximos ficam esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu brincava "ah, não, você não é solo, tá fazendo só este trechinho, não merece aplauso".  Avistamos a Julinha descendo a ladeira sem freio algum e, até estacionar o carro, Roi e ela já tinham chegado. Uma pena. É muito legal todo mundo estar junto na reta final.
Nem esperamos o resultado. Afinal, sabíamos que não seria justo levarmos troféu e subirmos no pódio, já que nossa equipe teve de fazer uma gambiarra pra não sair da prova. Outra pena. Ficamos em terceiro no trio feminino e, tenho certeza, de que teríamos ficado em terceiro se a Mari tivesse corrido porque além de ela ter acompanhado bem o David em seu primeiro trecho, ficamos uns 30 minutos na frente das quartas colocadas.  Acontece.
Mari e David conseguiram carona pra São Paulo e subiram assim que terminamos. Nós cinco fomos almoçar num delicioso restaurante italiano lá em Maresias. Tomamos vinho, comemos bem e falamos de tudo um pouco. E começamos a planejar o próximo ano.
Mais uma vez, foi ótimo. Nada como uma corrida pra gente se divertir com os amigos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Na minha companhia

Nos últimos tempos tenho fugido do assunto "treinos". Não só porque estava meio café-com-leite mas também porque outros assuntos me pareceram mais interessantes e relevantes. Mas hoje volto às origens.
Terminei as sessões de fisio, voltei a nadar,  mas o ombro ainda está se recuperando. A cirurgia foi apenas há dois meses. Meus joelhos estão sub judice desde o Iron. Não posso abusar. Isso tudo diminuiu meu rendimento cárdio - respiratório. Ganhei um pouquinho de peso.
Tenho treinado bastante na minha própria companhia. Não porque não goste de parcerias - muito pelo contrário - mas porque estou num momento de readaptação em que preciso, mais do que nunca, prestar atenção nos sinais que o corpo me dá e  adequar meu ritmo a essas informações. Perto dos outros, conversando, tentando acompanhar, me distancio de mim mesma.
No domingo de feriado, fui para Romeiros. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que eu não ia. Minha primeira e única tentativa de ir este ano foi frustrada. No pedágio o carro pifou e acabei indo pra USP.
Além do meu marido, estavam mais três colegas de MPR fortes e animados - Daniel, Marquinhos e Flávio. Sai do carro, me arrumei e dei adeus. Sabia que eles me alcançariam, passariam e deixariam bem pra trás, portanto, quanto antes eu saísse, menos eles teriam de me esperar na volta. Eles ofereceram companhia, acharam que eu estava antissocial, mas não era nada disso. Simplesmente não queria fazer nenhuma concessão em matéria de ritmo: iria muito devagar pra não detornar joelhos nem sentir dores no ombro.
E lá fui e fiz 70 kms solitária. Sem sofrer. Fiz Romeiros sem sofrer! Está certo que não vou contar qual foi minha velocidade média mas, pra vocês terem uma idéia, mal suei.
Dois dias depois, na terça do feriado, estava em Igaratá e resolvi fazer um longuinho de 18k. Saí, como sempre, do sítio dos meus sogros e rumei pela terra até a estrada de asfalto que liga Igaratá a Santa Isabel. Normalmente sigo em direção à Santa Isabel e, embora a paisagem circundante seja agradável a estrada não tem acostamento e vou pela contramão meio tensa, pois caminhões e "pois zés" cruzam comigo sem cuidado e sem desacelerar.

Estrada do Rio do Peixe
 Não costumo ir em direção à Igaratá porque é um trajeto muito curto, de cerca de 1,5 km, então não vale a pena. Mas nesse dia decidi ir pra lá primeiro, antes de rumar pra direção oposta. Ao chegar no portal da cidade em vez de fazer meia volta, segui em frente. Passei pela pracinha, pela rodoviária, pelo supermercado. Ou seja, cruzei a cidade inteira. Então reparei numa placa que nunca tinha visto antes: Estrada do Rio do Peixe, Igaratá Velha  6 km.  Por que não? pensei. E fui embora pela estrada. Asfalto precário e esburacado mas um entorno de colinas íngremes, pequenos sítios, flores, exemplares de araucária e, de vez em quando, uma nesguinha da represa (ou seria o tal Rio Verde?). Senti-me em Campos do Jordão. Pra completar, quase não me deparei com veículos motorizados. Mudei a trilha sonora animada e eletrônica e substitui por Norah Jones e Kevin Johansen pra combinar com o clima bucólico. Naquela toada, infiltrada naquela paisagem entrei naquele transe que só quem corre sabe como é. Um transe em que você fica completamente sintonizado com seu corpo mas, ao mesmo tempo, está integrado ao ambiente como se fosse a atmosfera que está nele e onde ele está: perfumes, cores, texturas, formas. Meu desejo era seguir por horas a fio, confundida com aquele lugar.
Sabia que não poderia correr adiante por tempo indeterminado.  Uma hora teria de voltar sob pena de me machucar. O que me consolou foi pensar que na volta, veria a mesma estrada de um ângulo diferente e também o fato de que poderei retornar ali quando for a Igaratá. Mas, na próxima, deixo o carro na cidade, de lá pego a estrada e vou até...?
Na sexta passada fui correr pelas ruas de São Paulo logo ao amanhecer. Lá pelas tantas, cheguei à entrada do Minhocão e, vejam só, ele ainda estava fechado para o tráfego. Faltavam 15 minutos para abrir. Não tive dúvida. Tive o privilégio de correr solitária pelo Elevado, enquanto a cidade despertando, se agitava logo abaixo dos meus pés e me espiava sonolenta das janelas dos prédios ao redor. Calculei o tempo exato para não ser pega de surpresa pela abertura da cancela. Imaginar-me ilhada no viaduto com os carros passando rentes a mim não era nada convidativo. Desci a rampa no instante em que o o marronzinho da CET se encaminhava para abrir o portão. Uma caravana de carros aguardava impaciente.

Treinar junto com outra pessoa é divertido. Conversamos, rimos, brincamos. Mas nos distraímos, desconectamos do nosso corpo, das nossas sensações, da percepção do que está em volta. Algumas sensações só conseguimos ter se estamos focados naquilo que estamos fazendo, se sairmos do verbal, pararmos de pensar em palavras e nos concentrarmos no sensual (relativo aos sentidos, não à sexualidade). Em nossa exclusiva companhia, na cidade adormecida, no campo desconhecido, por entre as curvas de Romeiros é possível aprender um pouco mais sobre a gente mesmo e sobre o mundo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Pelo fim da animosidade

Impossível deixar o tema escapar. Sei que os meus fiéis leitores acessam este blog atrás de posts sobre treinos, provas etc mas, sinceramente, me sentiria ridícula em escrever sobre meu treino de hoje (o primeiro de natação depois de quase dois meses), ignorando o que acabou de acontecer.

Não, não se preocupe. Não farei campanha pra nenhum candidato. Não escondo meu voto, mas não acho que seja relevante divulgá-lo. Quero, sim, fazer um apelo ao espírito esportivo no período eleitoral. Estou muito incomodada com a falta de respeito de pessoas supostamente educadas e esclarecidas no debate político. Uns desqualificam o Serra porque ele seria carrancudo ou “limitado espiritualmente” outros acusam Dilma de “trator” e de idiota, assim como havia os que chamavam Marina de “filha de Maria” em tom de deboche. Que espécie de debate é esse? Atire a primeira pedra quem não bate na mesa de vez em quando, acorda mal humorado, fica meio abestalhado em algumas situações ou que tenha convicções espirituais, religiosas ou esotéricas . Não seria mais útil, interessante e honesto que avaliássemos e discutíssemos programas, propostas, idéias, currículo e atuação profissional?

E quando escrevo “discutir” não estou falando em bater boca. Embora pareça, política não é futebol. No futebol, não tem acordo. Nasceu corintiano, corintiano até morrer – menos o meu marido, é claro – mas isso é história pra outra ocasião. Torcida não tem racionalidade alguma. É paixão. E, a menos que ultrapasse os limites da civilidade como, infelizmente às vezes vemos acontecer, não há mal em que seja paixão. É legítimo defendermos nossa paixão clubística sem nenhum argumento decente.

Mas, com política não pode ser assim. Não podemos ser sectários e defender partidos ou pessoas apenas porque um dia em nossa vida os escolhemos e nunca mais revimos essa escolha. Não podemos defender nossa posição na base do grito, da torcida mais barulhenta, da bandeira maior – há que se ter argumentos.

Política também não é religião. Religião tem a ver principalmente com fé, crença, dogmas. Sim, há também os valores, mas é a fé o eixo central. O debate político não deveria ser uma questão de fé, nem de crença, mas de princípios. Quais são os princípios que regem os seus atos? Quais os princípios regem as suas escolhas? Não basta escolher candidatos que se aproximem mais de seus princípios – mas de ser fiel a esses princípios quando se posicionar, quando decidir compartilhar sua posição ou debate-la com alguém.

Por que é tão difícil um debate civilizado? Por que tanta animosidade? Por que ficamos irritados, raivosos, com os que não pensam como nós? Por que raramente conseguimos ouvir o que pessoas que pensam diferente de nós têm a dizer? Discordar, sobretudo, é uma arte. Assumir uma posição que não é condescendente tipo “ah, perdoai-os pai, eles não sabem o que dizem” nem agressiva “é um bando de idiotas mesmo” “chuuuupa, fulano(a)!”, ou cínica “ah, é tudo a mesma porcaria” mas, sinceramente disposta ao diálogo.

Somos uma democracia novata, mas já saímos das fraldas. A tranqüilidade com que transcorreram as últimas eleições é um feito do qual temos todos de nos orgulhar. Em poucas horas tivemos o resultado das urnas – e o volume de votos era sem precedentes— mais de 135 milhões! Ainda assim, ninguém contestou os resultados.

Mas temos muito, muito mesmo que aprender em termos de confronto de idéias, coerência de princípios, capacidade de escuta e posicionamento. Quando digo “temos” me incluo não apenas por força de expressão, mas porque também acho que preciso de um treino.

Como qualquer outra coisa que se queira fazer bem, dá trabalho. Exige autocrítica, conscientização, empenho e jogo de cintura. Bom... mas se você está planejando fazer um iron, não há de ser tão difícil assim!