sábado, 4 de junho de 2011

Ironman II - Pimenta (ou shampoo) nos olhos dos outros, não arde! - Natação

Vai começar...

 Passei o pórtico e perdi a Juju. Queria ter dado mais uma abraço na filhinha – para quem não sabe “adotei” a Julia desde o ano passado. Só tenho filhos meninos (quatro) e, a essas alturas do campeonato não tenho intenção alguma de adotar um bebê e nem condições de produzir mais um. Mas uma menina faz falta na minha vida. Como a família da Ju mora fora de São Paulo, ela me adotou como mãe eventual. Os meus filhos amaram a idéia de ter uma irmãzinha e se dão todos muito bem. Então eu queria desejar boa prova pra ela embora soubesse que ela iria fazer uma boa prova. Até tranquilizei seus pais “verdadeiros” garantindo que ela faria abaixo de 12 horas.
Perdi-a no meio da confusão. Mas achei Nilma e Daniel o Marquinhos e mais 1800 atletas com nervos à flor da pele que, para seu bem, estavam devidamente protegidos por roupas de borracha.
Tentei girar um pouco os braços, mas não havia espaço. Conformei-me em rodar os ombros, mas sem exageros. Só o que faltava era eu tirar as minhas âncoras do lugar bem naquela hora – era naufrágio na certa (pra quem não sabe, em agosto fiz uma artroscopia de ombro e coloquei duas âncoras – vai entender como isso pode ajudar uma nadadora).
Foi aí que lembrei que tinha esquecido de 1, tomar o gel planejado para 15 minutos antes  e que estava por dentro da minha roupa de borracha, 2, passar filtro solar e 3, de tirar o excesso de shampoo jonhsons  para crianças que, supostamente deveria me ajudar a enxergar durante a natação. Pus os óculos. Estava uma meleca. Não dava pra mais pra ir até o mar. Faltavam 3 minutos pra largar. E eu não tinha nem um copinho d’água pra dar uma lavadinha. Danou-se. Vou no faro.
Começou!
O sol apareceu, soou a buzina. Disparei o Garmin e vambora.
O mar estava manso, a temperatura fria, sem ser congelante mas logo de cara, começou a pancadaria. Estava difícil achar um espaço pra nadar. Mas já havia aprendido em Penha, 2008. Vale-tudo, jiu-jitsu, boxe e, principalmente kickboxing. Teve uma hora que me senti até culpada. Acho chutei a cara de alguém. Mas não parei pra olhar, não. Ainda mais que eu estava cegueta, não ia enxergar mesmo. Na água é assim mesmo. Salve-se quem puder. 
O shampoo formou uma grossa película que dava a impressão de que o mundo à minha frente estava derretendo. Quando cheguei à primeira bóia, que forma uma tremenda correnteza que leva todo mundo sem necessidade de nadar.   Bem na curva, encontrei o Rodrigo Previatti Contheux, que também tinha levantado os óculos. Olhei pra ele e disse "Oiii! Você vem sempre aqui?"
Tirei os óculos e dei uma lavada. Não sei se foi pior ou melhor.
Olha eu ali, de touca vermelha.
Inferno 1.  Meu olho começou a arder. Um deles. “Será que estou louca? Este ardor deve ser psicológico! Shampoo jonhsons para crianças não arde!!!” Psicológico ou não, ardia de verdade. Segui nadando feito um pirata, só com um olho aberto.  Já não enxergo direito,  caolha... estava fácil.  Não tinha a menor idéia do lugar que deveria mirar. Não achei a bola inflável vermelha que marcava a entrada do retorno nem quando cheguei à praia. Ela estava lá? Disseram-me que sim. Mas não vi. Segui o fluxo e, pelo que vi do meu trajeto no Garmin,  fiz apenas um “v” desnecessário. No mais, fui quaaase em linha reta.
Beijinho, só de longe
Cheguei à praia vi o maridão firme, na torcida e entrei no corredor polonês. Tinha muita gente andando e gente que gritava, tentando correr “vamô gente, isso é um Iron, não é passeio no parque, não!!! Bora! Bora!” Engrossei o coro do “vamo gente!” Não estava lá pra brincadeiras. Vi a mãe e, dessa vez, não parei. Mandei o beijo de longe. (O Wagner disse que me batia se me visse parando pra dar beijinho e eu estava com medo de apanhar. É sério.)
Ondas!
A hora que avistei o mar pra encarar a segunda perna, vi que o vento tinha mudado. Duas ondas estouraram enquanto eu me aproximava, fazendo um strike. Assim que a segunda estourou, o mar baixou e eu, vupt, atravessei a área de maior risco e fui embora. Timing! Como diz o Kevin Johansen “timing is the answer to success!”
A correnteza parecia puxar mais e, na volta, consegui avistar a bóia amarela e me alinhar com ela. O efeito jonhson tinha, felizmente, passado.  Do outro lado tinha pedras. Eu lembrava bem disso. Queria passar bem longe delas. Com o mar feroz daquele jeito, era prudente passar o mais longe possível.
Assim que deu pé, puxei o zíper da roupa e comecei a tirá-la. No meio treino na piscina, tirar a manga do braço com o Garmin tinha sido um tormento. Teria de fazer isso dentro d’água – seria muito mais rápido.  E a onda veio e me ajudou a arrancar as mangas. O creminho da cunhada – karité butter da Body Shop, foi sensacional. Valeu, Roxana!
Saí com 1 hora e nove minutos do mar. Não tão bem como em 2010 mas, pelas condições, acho que não fui a única. Desta vez minha sacola não estaria perdida (se estivesse seria fácil localizá-la com todos aqueles adesivos) e, assim, meu tempo de transição compensaria essa diferença.

Ironman II - Antes da largada

Por incrível que pareça, dormi o sono dos justos na noite da véspera do Iron.  Jantamos no hotel mesmo – estava uma muvuca. Todo mundo quis jantar lá, e todos na mesma hora. Pobres garçons. Correram fácil uma maratona. E nem ganharam medalha.
Levantei às 3h50, vesti a roupa da prova com um agasalho por cima, peguei as garrafinhas e comidas na geladeira, organizei tudo na porta do quarto e desci pra tomar café.
É duro comer nessa hora. O estômago ainda está dormindo, não quer saber de trabalhar. Forcei um pouco e ainda levei três broinhas de milho e um mel pra comer dali a pouco. Óbvio que nem lembrei. E ainda bem.
Subi pra pegar as coisas e lá fomos nós — Roi e eu — no mico ônibus. Nem de longe eu estava tensa como no ano anterior. Mas a excitação e a emoção eram quase as mesmas.
Será que eu tava tensa?


Acho que não!
No caminho fui listando mentalmente tudo o que tinha de fazer:
1. Encher os pneus.
2. Colocar as comidas no bento box (vide o post Glossário).
3. Zerar o cateye.
4. Colocar as caramanholas nos suportes e abastecer o quickdrink com água e gatorade. Putz! Esqueci a água! Deve ter lá.
5. Prender as sapatilhas no clipe e prendê-las com elástico.
6. Levar a camiseta de ciclismo pra sacola de ciclismo.
7. Colocar as garrafinhas de accelerade no fuel belt (cinturão do Batman usado na corrida pra carregar líquidos e géis - vide glossário de novo).
8. Colocar o saquinho plástico com as garrafinhas de gel com água dentro da sacola da corrida.
Era bastante coisa.
Tinha também de entregar a sacola de special needs.
Body marking
Entrei na fila pra pintura corporal – ou body marking (para os leigos – os voluntários escrevem seu número de peito nas pernas e no braço) e, quando chegou minha vez, fui informada de que deveria entregar as sacolas de special needs em outra freguesia. Corri até lá, deixei as sacolas e voltei pro fim da fila.
Entrei na transição e fui seguindo minha lista mental, calmamente. Até a água que tinha esquecido, lembrei.
 Chamei o Arthur, mas ele não meu ouviu. Pena. Quando estava arrumando as bisnaguinhas amassadas no bento box lembrei do advil. Liguei pro Wagner, nos encontramos e ele me “passou a droga”. Coloquei dois no bento e um no fuel belt. Nunca se sabe quando o bicho vai pegar. Ano passado tomei três durante a prova.
Encontrei Marcos, Daniel, Kelly, Pedro... e a gente se cumprimenta como se não nos víssemos há anos!
Ah, o Pedro me deu um pouco de shampoo Jonhsons pra passar nos óculos de natação. Segundo ele, não deixa embaçar e, segundo a Jonhson & Jonhson, sem lágrimas, porque não arde nos olhos. Hum.
Benção, Wag!
Terminadas as arrumações, respirei fundo, pensei “espero que não esteja esquecendo nada” e sai da transição. Como o tempo voa quando você está lá! Já eram quase seis e meia quando saí dali. Mais um abraço nervoso no técnico. Benção.
Encontrei a Juju e a sua mãe, Mônica, que deu uma ótima notícia: a casa do primo Joel, que era ali do lado, estava à nossa disposição. BANHEIRO!!!! A clássica dor de barriga já me assolava. E, banheiro químico é, pra dizer pouco, deprimente.
Que casa hein, Joel?!

A casa do primo Joel é cinematográfica. Aaaaa, nada como um banheirinho cheiroso. Um luxo! Pra completar, era praticamente pé na areia. Dali, fomos pro ponto de encontro, mesmo do ano passado.
Pai, mãe e os dois caçulas. Theo e Martim ficaram dormindo. Eu já tinha liberado. Mas fiquei bem contente de ver o quarteto.
O tempo corria apertado. Passei um creminho maravilhoso que minha cunhada chilena me deu da Body Shop que é uma verdadeira manteiga. Nota dez. Minha mãe ajudou. Posamos pras fotos e tive de sair apressada – a largada seria em 10 minutos. Beijos e abraços em todos.
Mônica, Félix, Lidia, Roi, eu, Ju, Ian, Paulo e uma bunda que passava!
Fui até o pórtico de entrada com o marido. Um beijo e despedida. Estava segura de que faria uma boa prova. Só não imaginava que iria do céu ao inferno tantas vezes naquele dia. 
Adeus, vou à luta!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ironman II - Algumas histórias - Véspera

Que festa é essa?

Na noite de sexta-feira, antevéspera da prova, quem entrasse no saguão do hotel Il Campanário e não soubesse da existência da prova de Ironman ficaria intrigado.
Pedro, Nilma e eu, no bar, mas não pra beber
A primeira impressão é que está rolando uma festa. Muitas pessoas, embora não haja música, o clima é animado, há várias rodinhas de conversa. Poderia ser um casamento mas os trajes, esportivos (não esporte fino), não condizem com uma ocasião dessas. Também não se vêem bebidas alcoólicas, apenas água, café, sucos, isotônicos.
Quem sabe é uma convenção de alguma empresa? Também não. Há famílias inteiras — do patriarca setentão ao bebê de colo —, e crianças correndo pra lá e pra cá.
A maioria das pessoas está na faixa dos 30. O observador continua intrigado. Se não é uma festa e não é uma convenção... Talvez seja uma excursão! Mas, para onde, se está todo mundo, em plena sexta-feira, nove da noite, enfiado dentro do hotel em vez de passear?
É realmente uma cena inusitada e os não iniciados precisam de informações para poder fazer alguma idéia de que fenômeno é este. É bem possível também que, ao ouvir as explicações, conclua que, de duas, uma: ou ele não entendeu direito ou aquele bando todo, que irá para o matadouro em menos de 48 horas, é completamente insano em estar assim, relaxado, festejando, como se fosse divertir-se!

Outro mundo
Era este o clima quando minha família chegou na 6ª feira. Uma grande confraternização.
Desta vez, diferente de 2010, tratei de ficar em um dos hotéis “da prova” – o Campanário, onde ficam boa parte dos atletas. É caro? Sim, é. Mas vale muito a pena. No ano anterior, quis economizar, e o barato saiu caro.  Em primeiro lugar, porque a diferença de preço não é das mais absurdas e a qualidade da hospedagem e os serviços são muito, mas muito superiores. Fiquei sem café da manhã, sem espaço, sem janela e sem a arrumação diária do quarto!!! Foi um estresse.
Este ano, além de todo o conforto e dos serviços de qualidade (translado pra expo, transição e largada, casa de hospitalidade e oficina no hotel) o melhor de tudo era estar junto com os amigos todo o tempo. Julinha, Pedro e Nilma quase sempre, e ainda outros como Flavio, Valter, Marcos, Cesar, Giovane, PG, Kaká ...
Eu, Pedro, Daniel, Nilma, Marcos e Julinha
logo depois do treino no mar.
Essa convivência é um bálsamo. A gente pode ficar falando de Ironman 100% do tempo que ninguém vai reclamar.  Estratégia para alimentação, os trajes, as rodas, o ritmo, a forma física dos concorrentes às vagas para Kona... Os temas vão e vêem, com pequenas variações, temperados de risos e gozações mas também de palavras de apoio e confiança.
É um descanso pra cabeça. Esquecemos trabalho, família, dívidas; dos problemas pessoais, nacionais ou mundiais. Ficamos totalmente alienados. Se estourar a terceira guerra mundial e viermos a saber, nossas únicas preocupações serão: “Vai atrasar a largada? Haverá buracos no asfalto?”

Família ê
Os familiares, de modo geral, intuem que ali acontece uma loucura coletiva e, sabiamente, ficam no apoio e na torcida sem cobranças, nem exigências de atenção. Mesmo os acompanhantes de marinheiros de primeira viagem – como o Nilton e a Mônica, pais da Julinha, por exemplo, rapidamente perceberam que deveriam estar ao alcance de um telefonema, mas que não precisariam escoltá-la.

Os meus acompanhantes, que já conheciam o andamento daquela carruagem, foram na medida. A prioridade eram meus horários e ninguém ficava ofendido se, por acaso, meu programa era almoçar às13h e jantar às 20h e não acompanhá-los no almoço das 14h30 e jantar às 21h.
Mamãe na piscina...
...papai lendo. Eles também se divertiram um pouco!
Minha mãe cuidou da retaguarda, meu pai me acompanhou na entrega da bike e o marido ficou como um anjo da guarda, pairando por todos os lugares ao mesmo tempo: cuidando das crianças, atento às minhas necessidades e curtindo também o clima geral com os amigos.

Preparativos e ajustes
No sábado de manhã já estava quase tudo pronto para a entrega das sacolas e bike.  
Aconselhada pelo Wagner, decidi comprar aqueles recipientes de colocar gel diluído em água então ainda dei uma chegada a jato na feirinha. A feira abria às 9h. Às 9h10 já estávamos de volta, Ju e eu, com as garrafinhas.
Faltavam apenas detalhes: passar veda-rosca nos prolongadores de válvula (para os leigos – as rodas de competição são mais largas e, por isso a válvula dos pneus ou câmaras precisa de um prolongamento ou não há como enchê-los), passar cola nos pneus tubulares reservas (para os leigos – este tipo de pneu sem câmera é colado à roda) e prender um deles no suporte.

Wagner, meu técnico, tinha chegado na noite anterior e eu estava aflita para falar com ele. Queria que ele desse uma olhada na bike, ajeitasse o pneu no suporte, discutisse comigo detalhes da mudança relativa às sacolas de special needs.  Vou precisar fazer um tópico sobre esta questão. Vamos lá:

Sacolas em geral, e special needs em particular– pra leigos e não tão leigos

O kit da prova de Ironman tem, além do chip de cronometragem, uma camiseta (que não é a de finisher) e dois números de peito, SEIS sacolas: uma branca – geral; uma preta – natação, uma azul – ciclismo, uma amarela – corrida, uma verde – special needs ciclismo e uma vermelha – special needs corrida.
Sacolas personalizadas...
O planejamento do que vai em cada sacola leva meses e, um erro ou esquecimento pode ser (quase) fatal.  As mais importantes são a azul e a amarela. A azul você pega quando sai do mar, antes de ir pra bike. Ela deve conter, no mínimo, o seu capacete. Ele não pode ficar na bike e, sem este item, você não pode pedalar. Além disso, podem também estar nela uma roupa seca, óculos escuros, chamois butter (creme contra assaduras causadas causadas pelo atrito com o selim), número de peito (se você não estiver com ele, deve colocar neste momento) e parte da comida que vai consumir durante o pedal.
Na sacola de amarela, o mínimo que ela deve ter é um par de tênis, a menos, é claro, que você pretenda aderir à moda de correr descalço... mas não recomendo.  O que também pode ficar nela é um par de meias, o número de peito reserva preso a uma cinta reserva (pro caso do seu ter rasgado durante o pedal), um boné ou viseira, géis e outros suplementos.
...com adesivos coloridos!
E as special needs, afinal? Até o ano passado estas sacolas poderiam ser deixadas ou com os staffs ou com algum amigo ou parente que ficavam numa área delimitada pela organização da prova na qual o atleta poderia parar rapidamente para pegar, por exemplo, outro pneu reserva, uma garrafinha com suplemento, mais alimentação.
Qual a vantagem? Não ter de sair carregando um monte de peso morto. Afinal, a gente paga uma fortuna pra ter a bicicleta de carbono, levíssima e depois enche de tranqueira e recupera o peso perdido.
No special needs da corrida geralmente, o que se deixa é uma blusa de manga longa para o frio que chega ao cair da tarde, um tênis reserva, uma meia, algum suplemento.
Dá pra passar sem? Dá mas era preciso repensar as estratégias.
Agora um parênteses. ( ) Preciso tirar meu chapéu pro Carlos Galvão, organizador da prova. Quando o pessoal tomou conhecimento de que as sacolas de special needs não iriam mais poder ser entregues, que cada um ia ter de pegar a sua — todo mundo reclamou.  Minha expectativa era que na hora em que Galvão falasse sobre isso durante o congresso técnico fosse haver um protesto generalizado.
A expectativa era grande quando ele foi se aproximando do assunto. Na hora em que apareceu o slide que dizia SPECIAL NEEDS, pensei “é agora que o bicho pega!”. Ele foi, direto, firme e objetivo:
- Conforme está no regulamento da prova deste ano (Rá rá, ponto pra ele! Quem leu o regulamento???) cada atleta será responsável por pegar sua sacola de special needs.
- Isso é uma orientação dada pela WTC para todas as provas de Ironman.
- Vai ser muito melhor e mais organizado. Além do que, o special needs do ciclismo pode ser acessado nos km 45 e/ou 135 e da corrida em qualquer uma das três voltas.
Ninguém deu um pio. No final, ele ainda foi aplaudido efusivamente.
Para mim, foi uma lição. Comunicação é tudo. O cara não deu brecha pra discussão e nem por isso foi antipático ou autoritário.  Palmas pra ele.

Continuando os preparativos e ajustes
 Então decidi com o Wagner que não faria parada no special needs da bike a menos que furasse um pneu, pra pegar o reserva.  No mais levaria uma garrafa no suporte traseiro e outra no quadro, ambas com R4 (suplemento líquido). No quickdrink colocaria água e gatorade, reabastecendo nos postos.
Conversamos sobre alguns detalhes e combinamos de nos encontrar na hora da entrega de bike e sacolas.

Entrega de sacolas

Wagner prendendo o pneu no suporte
antes da entrega da bike
Fomos, meu pai de câmera em punho, e eu, dentro do horário estipulado pela organização que, este ano, foi seguido rigorosamente. Resultado? Não tinha fila alguma!! Lado bom, não tinha demora. Lado ruim, não teve a animação e os encontros que rolaram em 2010. Ano passado, como a fila era quilométrica, ao passar por ela a gente encontrava todo mundo que não tinha visto ainda.
Mas encontrei o Wagner de novo, a Cicarelli – miss simpatia de sempre, a Mari e o Diglu. Na hora de entrar com a bike na transição, a grande surpresa: o Arthur lá estava como staff! Ah, foi o máximo! Esvaziamos um pouco os pneus – porque ainda estava sol e os tubulares são danados pra estourar quando está quente -, depois colocamos a bike no suporte. Ele me aconselhou a levar as sapatilhas, me ajudou a encapar a bike (ainda bem que eu tinha guardado a capa do ano anterior) e se despediu prontificando-se a me ajudar no dia seguinte.
Dali fui deixar as sacolas na tenda. Desta vez personalizei minhas sacolas. Não queria correr o risco de ter alguma perda novamente.
Recepcionada pelo Arhur, staff mais que especial!
Tudo entregue, voltamos pro hotel para a última etapa de preparação: comidas.

Bisnaguinhas!!!
Julia, Nilma e eu preparando a merenda.
Reparem como estou comprimindo  a bisnaguinha
Julinha, Nilma e eu. No centro da mesa, vários pacotes de peito de peru, caixas de poleguinho light, sacos de bisnaguinha, potes de geléia sem açúcar, bananinhas, goiabinhas, minhoquinhas, stiksy, papel alumínio, pratos, colheres e facas.
Nossa conversa era de alto nível:
“Você usa um polenguinho inteiro numa bisnaguinha? Não é muito?”
“Que geléia é essa?”
“Essa minhoquinha não gruda no dente?”
O auge do nosso colóquio ocorreu quando a Federmann resolveu nos instruir acerca da técnica de diminuição do volume dos panifícios de pequeno porte através da compressão para retirada total do volume de ar. Traduzindo: ela ensinou como esmagar a bisnaguinha de modo que ela ficasse quase da espessura de uma folha de papel (papelão, vai...)
Na primeira demonstração ela pegou uma bisnaguinha recheada de polenguinho e foi até a porta de entrada do quarto, inseriu pouco abaixo da dobradiça e fechou. Resultado: polenguinho all over the place, inclusive ao lado do elevador!
Conclusão: melhor esmagar bisnaguinha sem recheio. Aí sim. A técnica foi infalível e a quantidade de bisnaguinhas por metro cúbico que podem ser colocadas no bento box é dez vezes maior do que quando não é comprimida.
Profa Dra J. Federmann ensinando a técnica de extração
máxima  de ar do panifício
As minhas eram todas recheadas então não utilizei a técnica da porta mas aproveitei o princípio da compressão e esmaguei-as com as mãos, de modo que elas realmente ficaram bem menos volumosas!
Demos muitas risadas e chamamos a Mônica, mãe da Juju, pra registrar o momento impar.

Ironman II - Algumas histórias Momentos de TAMsão

Depois da história do cateye achei que a sorte estava sorrindo para mim. Ate que recebo um torpedo do marido, que ainda estava em São Paulo. Era 5ª feira. “Onde estão as passagens de volta dos kids? Só encontrei as nossas”.
Eu havia emitido todas as passagens. Doze e-tickets. Ida pela Gol, volta pela TAM, vários deles tirados por milhagem, no início de março. Eu achava que tinha deixado tudo impresso em SP.
Assim que recebi o torpedo, subi até o quarto do hotel pra ver se, por acaso, estavam comigo. Não estavam. Desci e fui até a salinha dos computadores. Acessei meu webmail. Fucei e só achei seis, SEIS mensagens com as passagens do marido e minha. Das crianças, nada. Comecei a suar frio.
 Era hora de jantar. Nem fome eu tinha. Sentei à mesa com a Nilma e o Neto mas não conseguia desligar do assunto. Pobre Nilma. Deixei-a preocupada também.
Da mesa de jantar, de frente para o sexta refeição de macarrão com molho de tomate fresco, peito de peru e batatas assadas da temporada, liguei pra Celina, minha secretária, pra me certificar de que não estava louca. Tinha certeza de que havia emitido as passagens, mas precisava de uma confirmação. Muitas vezes praticamos o crime falsidade ideológica, nós duas. Ela se passa por mim pelo telefone para adiantar o expediente em coisas deste tipo. Celina se lembrava de que eu/ela realmente havia emitido ida e volta, em companhias diferentes.
Voltei à sala de computadores, entrei no site da TAM, xeretei na área “meus bilhetes” e nada. Liguei pra TAM. Expliquei a situação e pedi para procurarem meus filhos na lista de passageiros. Tinha o número do vôo, o dia, a hora, nome e sobrenome. O atendente (pra sorte dele, esqueci seu nome), de audível má vontade, disse “não consta, senhora.” Pânico.
Liguei pra casa e pedi pro Theo, meu filho mais velho, abrir meu computador e procurar na minha caixa postal. Embora o marido estivesse em casa eu não queria nem que ele desconfiasse do que estava acontecendo. Vai que eu tinha apagado a mensagem com o e-ticket do webmail... Ele encontrou só as passagens de ida, da Gol e as de volta, minha e do Roi.
Voltei ao restaurante. Estava desnorteada. Comecei a fazer as contas do prejuízo que iria ter:
1. Dificilmente haveria quatro lugares disponíveis no mesmo vôo que o nosso, portanto um de nós teria de perder a passagem para viajar com os meninos. Seriam cinco bilhetes comprados de véspera, muito mais caros.
2.  Passagens para 2ª feira? Rá! Sem chance. Então, além de tudo, teria de arcar com pelo menos mais cinco diárias.
Sem contar o desgaste de ter de resolver uma encrenca dessas àquelas alturas. Véspera do Iron. Era hora de ter de me preocupar com isso? Definitivamente, não.
Lembrei da viagem pro mundial de 70.3, em Clearwater, quando perdi os documentos no aeroporto, passaporte inclusive.
O pior era a sensação de que eu devia estar com a cabeça avariada. Ou a TAM estava fazendo uma grande besteira.
Nilma sugeriu que eu entrasse no site do Fidelidade TAM e verificasse meu extrato. Ela se levantou pra buscar o seu netbook, quando, acabou a energia. Pronto. Ficamos no escuro, e eu não iria conseguir checar.. Que remédio? Acabei de engolir minha refeição. Nilma e  Neto tentavam me acalmar “Liga de novo na TAM... às vezes é o atendente que não sabe procurar...”
O pessoal em volta percebeu que eu não estava pra brincadeiras. Minha cara deveria estar péssima. Ninguém fez gracinha.
A energia voltou e, como o netbook não estava encontrando a rede wi-fi fui até a salinha de computadores mais uma vez. Sim, as milhas tinham sido debitadas da minha conta. Onde diabos então estavam as passagens???
Tanto naveguei pelo site que acabei chegando numa página com uns códigos estranhos. Cliquei no primeiro. Mais uma vez, era minha passagem. Clique no segundo... achei a passagem do Theo! Nem tudo estava perdido. Já era um bilhete a menos pra pagar. Uma diária a menos também. Cliquei no terceiro código. Achei!!! As três passagens estavam lá. No mesmo vôo que eu!
Anotei os números e liguei, espumando, pra TAM. Desta vez, foi a Jennifer quem me atendeu. Contei toda a novela e passei os códigos. Claro que ela encontrou. Reclamei a respeito do coleguinha que não tinha encontrado com os nomes e sobrenomes. Sabem o que ela me respondeu? “Ah é porque ele precisa checar a lista toda de passageiros!” Nossa. Que difícil. Mais fácil dizer que “não consta”. Dá pra acreditar?
Solicitei que ela me enviasse os bilhetes eletrônicos e não desliguei a ligação enquanto eles não apareceram na minha caixa postal.
Respirei aliviada e voltei a sorrir. Mas, definitivamente, não precisava ter passado por essa.


terça-feira, 31 de maio de 2011

Ironman II — Algumas histórias — Olho de gato

Depois da novela do taquinho, finalmente fui dar uma volta com a bike. Eis que descubro que o Cateye (minicomputador de bordo que dá a velocidade, velocidade média, velocidade máxima, tempo decorrido, hora, distância e RPM) não está funcionando.
Cato a magrela e vou direto à oficina falar com o Manuel. Detalhe o Manuel - irmão do famoso (ao menos no mundo das bikes ele é famoso) Johnny Lin é o primeiro descendente de japonês que eu conheço com este nome. Pode ser preconceito meu, mas não combina. Mas isso não tem nada a ver coma história e o cara é o maior gente fina. Ele, o Edu e mais outro mecânico cujo nome não cheguei a saber, trabalharam incansavelmente das 9 às 19, sempre disponíveis e bem humorados.
Edu girou a roda pra lá, virou cateye pra cá... e nada de funcionar. Só marcava o RPM (giro). Até que ele pegou o sensor de outra roda – e o sem-vergonha funcionou. O sensor é um pequeno imã, de cerca de 5 milímetros de diâmetro que fica preso a um dos raios da roda.
Depois da confusão com o taquinho, parecia um problema simples de ser resolvido. Engano meu. Eles não tinham imãs sobressalentes. Lá ia eu de novo até a feirinha ver se achava alguém que vendesse. Já sabendo que precisaria de sorte párea encontrar sensores avulsos à venda. E comprar um novo conjunto de cateye completo estava fora de cogitação.
Chegando lá, fui direto ao stand do Max. Ele já tinha me salvado uma vez... quem sabe não me salvaria mais uma. Vi-o por ali, mas fiquei com vergonha de abordá-lo – “aquela maluca de novo” ele poderia pensar. Então encostei no balcão fiquei buscando com os olhos alguém que me atendesse.
Um cara parou bem na minha frente, do outro lado do balcão. Ele não tinha crachá de expositor. Sei lá porque, olhei pra ele e pergunte “você tem sensor de Cateye?”
Ele me olhou incrédulo e, em vez de responder, enfiou a mão no bolso e começou a procurar alguma coisa. Fiquei olhando pra ele e aguardei. Meio hesitante, ele me disse
“Tenho um a mais, aqui no meu bolso”
“Você não trabalha na loja?”, perguntei
“Não. Eu vim aqui pra comprar um tênis”, ele respondeu e me mostrou o saco plástico que segurava na outra mão.

O imã sensor, preso ao raio

Aí fui eu quem ficou de queixo caído.
“Ma-mas você não é da loja? E tem um sensor sobrando?”
“Pois é”, disse ele
“E você vai me emprestar?”
Ele, conformado, respondeu “Vou, né... acho que eu trouxe ele pra você!”
Tirou do bolso e me deu.
“Você é um anjo que caiu do céu!”
“Não, vim de Tocantins mesmo...”
Perguntei seu nome, trocamos os celulares e prometi devolver depois da prova. Não nos encontramos, mas acabei de mandar um torpedo pra ele pedindo o endereço pra enviar pelo correio.

Obrigada, Walter, de Tocantins!




Ironman II – algumas histórias Operação troca taco

Bike nova, sapatilha nem tanto
A 35 dias da prova tomei uma decisão bastante ousada e quase imprudente. Trocar de bicicleta. Não só porque teria pouco tempo pra me habituar a ela, mas, principalmente, porque estaria me endividando por, ao menos, cinco meses. O que eu não poderia imaginar é que a maior dor de cabeça que teria com essa mudança seria por conta do taquinho.
Quando fui montar a bike nova, os “especialistas” torceram o nariz: “hummmmm... este seu taquinho está muito fino. Vai quebrar. Precisar trocar.” “Ok”, respondi, “troque-se o taco”. Mas já era tarde. Eu queria pedalar no dia seguinte que era feriado e, como não tenho outra sapatilha, deixei pra fazer isso no sábado.
Para quem não é do ramo, esclareço que o taquinho é uma peça que fica embaixo da sapatilha e encaixa no pedal. A posição do taquinho é decisiva na geometria da pedalada. Taquinho torto, pedalada torta, desconfortável e, dependendo da distância, passível até de causar uma lesão.
Vai e vem
No sábado deixei a bike e a sapatilha. Na segunda, a bike estava pronta, mas a sapatilha... “Os parafusos oxidaram, está muito difícil de tirar. Precisa deixar de molho no WD40”. De novo, tinha treino no dia seguinte e não podia deixar a sapatilha. Levei pra casa, enchi de WD40.
Depois do treino deixei a sapatilha lá de novo. Na quarta, fui buscar. Não estava pronta.
“Não conseguimos. Não quer comprar uma nova?"
“Não. Esta está amaciada. Molinha. No jeito. Não quero usar outra
“Vai precisar serrar por dentro. Você usa palmilha?”
“Uso”
“Então deixa aí que nós vamos serrar.”
“Não deixo. Amanhã tem treino. Deixo depois do treino”.
Deixei depois do treino. Telefono pra saber. Tem treino no dia seguinte. “Já já fica pronta e eu te ligo. Meia hora”. Não ligou. Corro atrás de uma sapatilha emprestada. Minha amiga Kelly, me salva. Vou até a casa dela, quase nove da noite. Ela me espera de pijama na porta do prédio. Temos treino logo cedo.
Acho que foi só na 5ª vez, quando fiquei lá esperando, que a troca de taco foi feita. Agora precisava retornar ao Igor, do bike fit, pra fazer os ajustes. Chego no Igor, de taquinho novo, mas ele não consegue abrir os parafusos! Estão espanados.
Volto pra loja, troco os parafusos e o taquinho é ajustado. Mas não fica bom. Meus joelhos estão virados pra dentro. Só que é dia 24 de maio. Embarco no dia seguinte. Ligo pro Igor, mas não consigo falar. Não dá mais tempo. Agora é rezar pra encontrar algum santo que me ajude.

Em Flops
Chegando em Flops vou direto à oficina do hotel. O Manuel, irmão do Johnny Lin, me explica que arrumar o taquinho não está na programação deles. Nem têm os materiais necessários. Vou ter de arranjar esquadro, transferidor e um rolo! Rolo é um suporte onde se coloca a bike para pedalar com ela estacionada e também para fazer os ajustes do taquinho, selim, guidão etc.

Meu anjo salvador e eu

Está fácil... mando um torpedo pro pessoal, perguntando quem tem um rolo - sempre tem algum maluco que leva – mas, os que me respondem, não só não tem, como acham que estou maluca e ainda tiram uma da minha cara. A engraçadinha da Kelly responde “tenho rolo de macarrão, serve?”. O tempo urge e ruge. Fazer um novo fit, agooora????
E lá vamos eu, bike, sapatilha e seu marido, o taquinho, rumo à feirinha. Alguém há de me salvar. Vou passando ao lado das oficinas, meio perdida. Um careca grandão se posta ao meu lado e pergunta
“Posso te ajudar em alguma coisa?”

“Siimmmm! Pode me salvar!!!”

Então explico a situação pra ele. Ele coloca a bike no rolo e começa o seu serviço. Além do taquinho, ele alinha meu banco que está empinado pra cima, e abaixa ele um pouquinho. É simpático, firme e seguro. Quando pergunto seu nome, se apresenta, humilde “Sou o Max”. Quase caio das pernas (ou melhor, do rolo). É o Max, da Kona Bikes. Mega atencioso. Fica 15 minutos comigo e ajusta o taquinho. Não me cobra nada. Apenas que faça uma boa prova.

Obrigada Max, de Curitiba!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Longão na estrada

Ronaldo, Serginho, Diogo, Kaká, eu, Wagner e Roi. Missão cumprida.


Pico
Domingo, dia 1º de maio, rolou o treino de bike. É aquele tal, de 180 kms,  para o atleta ganhar confiança, saber que dá conta do recado, que segura as pontas (as costas, as pernas, os quadris). Nessa mesma semana rola também o famoso mais longo de corrida que, para alguns ultrapassa os 30 kms mas, a maioria faz até esta marca. É o pico do treinamento. E a sensação é essa mesmo. Vamos subindo, subindo e a cada semana a trilha fica mais íngreme, mais cansativa.


Temores
O Wagner, meu querido técnico, decidiu organizar um treino na estrada: Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Relutei muito em ir. Muito mesmo. Tenho um medo lascado de morrer na estrada. Sou cautelosa, não solto o freio e vou a 60 por hora nas descidas, ando o máximo possível à direita, presto a maior atenção nas entradas e saídas da rodovia mas... Não depende apenas de mim. Um carro desgovernado, um caminhão distraído, um buraco no acostamento... A chance de um incidente transformar-se em acidente e em uma tragédia, existem e não são remotas. Além disso, não gosto de retardar o grupo quando sei que a maioria pedala mais forte que eu. E ficar sozinha na estrada, não dá.
Depois de muito ponderar, discutir com o Wagner todos estes medos e saber que: 1. teríamos dois carros de apoio, 2. ele pedalaria uma boa parte com os mais lentinhos, 3. que meu maridão iria me escoltando, acabei topando.
Amanhecer
Chegamos no posto BR da Ayrton Senna com o dia clareando. O grupo era: Kaká, Ronaldo e Diogo - mais fortes e Serginho e eu - cafés com leite - e o Roi, meu marido, que não é café com leite, mas foi um doce e nos acompanhou. Wagner saiu pedalando junto e ficou - até decidir ir pro apoio - na rabeira. Karlinha, namorada do Kaká, e Dani, esposa do Wagner, deram o apoio, cada uma em um carro.

Primeiros quilômetros
No início, não escondi de ninguém que estava absolutamente tensa. Agarrava o guidão como se ele pudesse tentar escapar. Não parava de me perguntar "porque diabos entrei nesta enrascada? 180 quilômetros! Não vai acabar nunca!"
Chegamos ao primeiro pedágio e foi uma piada, pois passamos por uma cancela do Sem Parar, sem parar, o que fez com que um alarme disparasse e uma das cobradoras viesse correndo atrás da gente. Fizemos de surdos e seguimos em frente.

Relaxing
Depois da entrada para Mogi, o movimento diminui um pouco e comecei a me acalmar. O Wagner, que não é tatu, ficou do meu lado um bom tempo batendo papo, me dando uns toques sobre mudança de marcha e outros temas técnicos, falando da vida...cuidando de mim, me pageando sem me constranger.
A Dani parecia estar escoltando uma prova, não um treino. Torcia, vibrava, fotograva (todas as deste post são dela), gritava "Vaaaaaai Irooooooon!" "Vaaai Chrissie Wellingtoooon!". Era ótimo. Eu dava risada e lembrava porque estava ali.
Lá pelas tantas o Wagner ficou atrás com o Serginho e o Roi cuidou de mim, me ajudando em todos os trecho em que havia bifurcações, saídas e entradas de outras rodovias. Eu imaginava que ele devia estar louco pra ir com os caras que dispararam na frente, mas ele se controlou bem.

Túneis
Uma das partes mais desagradáveis é passar pelos túneis. São três, não são muito extensos, mas a combinação de barulho com escuridão é apavorante. Quando calha de passar um caminhão, o ruído é ensurdecedor.  A única vantagem é que dentro deles o acostamento tem o dobro do tamanho.
No Iron, também passamos por um túnel, mas sem o trânsito de carros, então, não há o barulho. Em compensação, não sei porque, é o lugar em que muitos atletas decidem descer de suas bikes e marcar território. Dá pra imaginar o cheiro.

Agua e gatorade
O xerife, esperando eu passar.
Normalmente, quando treino na USP, na ciclovia ou outros lugares, costumo dar uma paradinha para reabastecer as caramanholas de agua e gatorade, já que, diferente da prova, não tem ninguém pra me entregar enquanto pedalo. E, confesso, acho ótimo. Essas paradinhas são providenciais,  pois o treino é longo, estou exausta e é uma desculpa legítima pra parar por um minutinho que seja.
Mas não quando você vai treinar com seu técnico e ele decide que não tem paradinha, não. Ele mesmo vai dar uma de voluntário e entregar a água e o gatorade enquanto você passa por ele. É mole?! 180 km e nenhum refresco?! Só faltou ele me dizer "minha filha, é pro seu bem! você ainda vai me agradecer isso um dia..."


A volta e o pneu
Então o retorno foi feito já pertinho de Taubaté, sem nenhuma paradinha no Frango Assado. (E olha que eu adoro entrar no banheiro feminino, de sapatilha e capacete, toda desgrenhada, enquanto a mulherada do Cometão, tão desgrenhadas quanto eu, após 36 horas de viagem, me olham com aquela cara de "de que planeta ela veio?)".
E a volta é mais dura. Não só porque vc já está com 90 kms em cada perna mas porque a gente sai de 800 metros de altitude e chega a 300. Na ida não parece que tem mais descidas. Mas na volta COM CERTEZA tem muito mais subida.
Lá pelas tantas, Dani e Karlinha emparelharam o carro (o Wagner estava no outro, traidor,  não pedalou na volta) e eu implorei: dá uma caroninha??? Só uns 10 kms... eu não conto nada pro Wagner... depois eu te recompenso... você não vai se arrepender!" Não teve jeito. Ela não cedeu.
A coisa estava tão feia que comecei a pensar "fura pneu! fura pneu! assim vou poder esticar as pernas um pouquito!"
Um anjo passou, fez amém na mesma hora. Entre o primeiro e o segundo túnel,  furou não uma, mas duas vezes! Nunca fiquei tão feliz em ter um pneu furado! O Roi ficou comigo quase todo o tempo, e estava ali àquelas alturas. (Obrigada, amor!) Embora eu tenha feito boa parte da operação sozinha, tem um pedaço que as minhas mão femininas não dão conta: terminar de colocar o pneu na roda. É muito duro!!!
Subida na ida...

...subida na volta!

Chegada
Karla, eu e Dani - mais que apoio, torcida!
Custou mas acabamos chegando. No início de um retão, Karlinha cantou a bola "é logo ali!". Só que não era. Era lááá, não ali.  Não chegava nunca. Minhas costas, ombro e quadris estavam imprestáveis.
Finalmente chegou. Paramos no posto no sentido SP. Lá Karlinha, Dani, Roi e eu aguardamos Wagner para fazer o transporte para o outro lado. Fomos de carro já que parece que o retorno perto do posto onde deixamos os carros é perigoso. Enquanto esperávamos, Roi foi se trocar e eu e as meninas levamos aquele papo feminino, que cria intimidade em cinco minutos. As duas - Karla e Dani - já moram no meu coração!
Lá  chegando revelei a surpresa que havia preparado para todos: pão de ló recheado de doce de leite (leite moça cozido) - praticamente um bem-casado, só que sem o açúcar por cima. Delícia! Foi devorado com muito prazer por todos.
No final, gostei de ter ido. Sim, Wagner, nem vai demorar o dia pra eu dizer "você tinha razão". Independente do resultado da prova, sei que já sou  uma atleta melhor do que era antes de treinar com você - e você é sim o maior responsável por isso. Obrigada.
Repartindo o bolo. Hummmmmm.