Mata-mata
Enquanto não começou o mata-mata, a maioria absoluta dos jogos da Copa foi mais eficiente do que um coquetel de Lexotan com Dormonid. Salvo honrosas exceções, as seleções todas pareciam jogar um "deixa como está pra ver como é que fica", buscando garantir a classificação em empates amistosos, vitórias magras e até em uma ou outra derrota. Os chamados "placares dilatados" foram apenas dois: Alemanha x Austrália e Portugal x Coréia do Norte. Nenhum outro superou a diferença de 3 gols.
Agora a história é outra. Perdeu, sambou. E está todo mundo indo pra cima. Tem jogo bom de assistir, não é só retranca.
Semana passada o Federer estava perdendo de 2 sets a zero, 4x3 no terceiro set e seu adversário servia e ganhava. Era a primeira rodada de Wimbledon. Aposto que se não fosse perdeu, rodou o Federer tinha entregado o jogo. Mas era pra valer, então ele deu o melhor de si, virou e ganhou. O último set foi um inequívoco 6x0 .
No esporte de alto nível
A competição é um dos elementos que torna o esporte mais interessante, tanto pra quem participa, quanto pra quem assiste. No esporte de alto nível, alguns dos momentos mais belos e emocionantes nasceram em situações de acirrada competição. Aquele "dibre" (em futebolês é dibre mesmo, não "drible"), que entorta o zagueiro forte, o sprint final entre dois corredores de uma maratona, aquela bola que pega de raspão na rede e faz o tenista se esticar como um gato pra alcançá-la com a ponta da raquete, o esforço supremo do ciclista na fuga em plena montanha...As quebras dos recordes mundiais, nada mais são do que uma competição que atravessa os tempos.
Quando é pra valer, não escondemos o jogo. Competir é se arriscar, se expor. Há sempre a chance de fracassar e perder. Perder não é bom, mas pode render boas aprendizagens e perder uma prova justa e equilibrada costuma ser melhor do que ganhar numa situação desigual ou injusta.
No esporte amador
Nós não somos olímpicos e nem semideuses mas também gostamos de competir. Afinal, competir é comparar competências. E nós gostamos de comparar. Nós com nós mesmo, nós com os outros da mesma categoria, e com as outras mulheres (ou homens). Pode ser um short, um olímpico, um longo ou um Iron. Se identificamos alguém da nossa categoria um pouco à frente, a energia se renova e vamos ao encalço do rival momentâneo, se estamos na reta final, avistando o pórtico, e ouvimos os passos de alguém que se aproxima, tentamos acelerar e não perder a posição. Quem não gosta de ganhar? E de ganhar bem, fazendo o melhor possível?
No nosso caso, ainda bem, as provas não são excludentes. Não tem problema se ficarmos em último lugar. Na prova seguinte, podemos estar lá de novo, pra tentar ser, pelo menos, o penúltimo. Há Kona e Clearwater, além de outros campeonatos mundiais para os quais é necessário se qualificar. Mas são poucas, e, em geral, a disputa por uma vaga nessas competições, servem como um estímulo a mais para os amadores, mas sem estragar o prazer de simplesmente competir. Conseguir a vaga é encarado como um presente, não como uma obrigação.
Crianças e competição
Não sou das que acham que "o mundo é competitivo então precisamos ensinar nossos filhos logo cedo a competir pra ganhar" e rapidamente se confunde competitividade com egoísmo, egocentrismo e falta de solidariedade. Os pais fazem crianças de seis anos de idade, enfrentarem um vestibulinho, pois desde cedo está se pensando nas reais chances de ela passar no vestibular, entrar numa boa faculdade, pra poder vencer na vida.
E, falando em criança, também é o fim da picada deixar uma criança ganhar para não sofrer (com) a derrota. O que ela aprende com isso?
1. Que os adultos trapaceiam.
2. Que perder é péssimo.
E o que ela deixa de aprender?
Sua verdadeira competência naquilo que está sendo posto a prova. Então, em vez de fingir que seu filho corre mais rápido do que você, estabeleça uma regra para que a competição seja mais justa. Corra de costas ou deixe ele sair 50 metros na sua frente, para que realmente haja uma uma disputa.
Para as crianças, a experiência da competição deve ser, o máximo possível, inclusiva. Uma oportunidade para se superar, dar o melhor de si e não ser castigado por não ter atingido tal índice. Claro que ao participar de campeonatos e provas, mais cedo ou mais tarde, chegará a hora da peneira. Mas se elas tiverem na sua vida cotidiana muitas situações não exclusivas de esporte, vão encarar essas perdas com mais naturalidade.
Perder
Mas não saber perder não é prerrogativa das crianças. Aliás, elas aprendem rápido e sem traumas se puderem ter oportunidades de participar de competições justas, ganhar umas vezes, perder em outras... O duro é quando os adultos não aceitam as regras ou seus próprios limites e trapaceiam. Profissionais ou amadores, isso sim, é lamentável.
terça-feira, 29 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Existe vida após o Iron
É verdade que dá mesmo uma tristezinha. Mas não chegou a uma depressão. Eu tinha medo dessa hora. Do pós Iron. Um pós parto sem nenê pra cuidar, um pós casamento sem lua de mel.
Tinha dito a mim mesma que não decidiria nada a respeito de outras provas até 30 de maio. Fazer ou não Penha, ir pra Santos nas outras etapas do Troféu Brasil, correr uma maratona...Tudo isso ficou pra depois. E o depois chegou.
As idéias foram e voltaram. Foram de novo. Aos poucos, algumas delas vieram pra ficar.
A primeira: Iron 2011. Já me inscrevi. Essa primeira decisão acabou definindo o resto.
Fazer o Iron é investimento de tempo e dinheiro. Não dá pra me manter no mesmo ritmo de treino e gastos o ano inteiro. Não é nem saudável. Portanto, decisão número 2: de junho a dezembro treinar menos, competir menos, gastar menos. Ter mais tempo e disposição nos fins de semana para ficar com os filhos. Ter mais tempo e disposição principalmente pra cuidar do meu adolescente que, embora seja o mais velho, está caçulinha, pedindo atenção da mãe e é um momento da vida dele que eu não posso vacilar.
Cheguei a cogitar uma ida a Buenos Aires em outubro pra correr a maratona. Além desta que corri agora na prova do Iron, nunca participei de uma. Fiquei com vontade. Mas não queria ter de viajar pra longe, investir em passagem, hospedagem... Infelizmente, a única maratona no Brasil no segundo semestre é a de Curitiba. Seria ótimo, se não fosse a data: 28 de novembro.
O 70.3 de Penha descartei logo de cara. Teria de voltar a treinar mais intensamente agora e não estou afim. Quero descansar. Além disso, treinei dois anos seguido pra essa prova e, cá entre nós, esta época do ano, frio, é muito mais chata de treinar. Lamento apenas porque este ano vai ser animadíssimo. Vai ter um monte de amigos e amigas participando e isso, pra mim, é uma das coisas que torna a competição mais legal: o convívio antes e depois da prova, com todo mundo falando no assunto, brincando, trocando informações, comentando a prova... Não dá pra ter tudo, sempre.
Troféu Brasil. Como a Thelma escreveu há um tempo no blog dela: encheu! Inscrição cara, não tem chip de cronometragem, camiseta xexelenta, medalha e "trofeio" sem (mais) comentários. Cansei de bater cabeça naquele mar poluído. Pelo menos por uns tempos. E vou confessar: não sei fazer prova curta. Quando começo a entrar no ritmo da natação... hora de sair da água e pedalar. Encaixei o pedal... tá na hora de descer da bike e começar a correr. Começo a apertar na corrida...acabou!
Terceira decisão: fazer Pirassununga, no dia 28 de novembro. Maridão - que já começou seu projeto Iron 2012 - quer correr seu primeiro meio iron lá. Vamos juntos, é barato, não é tão longe, a prova é bem organizada e já é uma distância que me agrada mais. Sem contar que a camiseta, a medalha e (Oxalá!) o troféu são de bom gosto e qualidade!
Assim vou conseguir descansar e me recuperar totalmente, abrir espaços pra outras prioridades na minha rotina, relaxar um tiquinho a vida espartana, tomar um vinhozinho e guardar um pouco de dinheiro.
Não preciso de competições próximas para me manter motivada a treinar. Voltei aos treinos 4 dias depois do Iron e tenho seguido minha planilha com o mesmo entusiasmo de sempre. Só que agora o volume de treinos é bem menor.
Estou contente com as minhas decisões. Elas foram amadurecendo aos poucos e percebi que compus um ciclo que tem a duração de um ano. Gosto dessa maneira de organizar a vida numa rotina, mas numa rotina que tem variações. Gosto de ter esse planejamento longo que tem coisas pra acontecer lááá pra frente, mas que, ao mesmo tempo, também vão acontecendo um pouquinho por dia. Entendo que este tempo menos intenso vai ser importante quando chegar o período mais intenso. Gosto dessa diversidade.
Pode ser, é claro, que as coisas mudem e que eu precise reorganizar minha vida e prioridades. Isso sempre pode acontecer na vida de qualquer um. No meu caso, 2011 é um incógnita do ponto de vista profissional e, portanto, financeiro. Mas vou vivendo a cada dia com meus planos e metas a me guiarem.
Então, só pra não ser incoerente e não deixar de tocar no título deste post, SIM, existe vida após o Iron. Uma vida em que o Iron continua a ser um dos principais eixos organizadores, ainda que não seja a prioridade do momento.
Tinha dito a mim mesma que não decidiria nada a respeito de outras provas até 30 de maio. Fazer ou não Penha, ir pra Santos nas outras etapas do Troféu Brasil, correr uma maratona...Tudo isso ficou pra depois. E o depois chegou.
As idéias foram e voltaram. Foram de novo. Aos poucos, algumas delas vieram pra ficar.
A primeira: Iron 2011. Já me inscrevi. Essa primeira decisão acabou definindo o resto.
Fazer o Iron é investimento de tempo e dinheiro. Não dá pra me manter no mesmo ritmo de treino e gastos o ano inteiro. Não é nem saudável. Portanto, decisão número 2: de junho a dezembro treinar menos, competir menos, gastar menos. Ter mais tempo e disposição nos fins de semana para ficar com os filhos. Ter mais tempo e disposição principalmente pra cuidar do meu adolescente que, embora seja o mais velho, está caçulinha, pedindo atenção da mãe e é um momento da vida dele que eu não posso vacilar.
Cheguei a cogitar uma ida a Buenos Aires em outubro pra correr a maratona. Além desta que corri agora na prova do Iron, nunca participei de uma. Fiquei com vontade. Mas não queria ter de viajar pra longe, investir em passagem, hospedagem... Infelizmente, a única maratona no Brasil no segundo semestre é a de Curitiba. Seria ótimo, se não fosse a data: 28 de novembro.
O 70.3 de Penha descartei logo de cara. Teria de voltar a treinar mais intensamente agora e não estou afim. Quero descansar. Além disso, treinei dois anos seguido pra essa prova e, cá entre nós, esta época do ano, frio, é muito mais chata de treinar. Lamento apenas porque este ano vai ser animadíssimo. Vai ter um monte de amigos e amigas participando e isso, pra mim, é uma das coisas que torna a competição mais legal: o convívio antes e depois da prova, com todo mundo falando no assunto, brincando, trocando informações, comentando a prova... Não dá pra ter tudo, sempre.
Troféu Brasil. Como a Thelma escreveu há um tempo no blog dela: encheu! Inscrição cara, não tem chip de cronometragem, camiseta xexelenta, medalha e "trofeio" sem (mais) comentários. Cansei de bater cabeça naquele mar poluído. Pelo menos por uns tempos. E vou confessar: não sei fazer prova curta. Quando começo a entrar no ritmo da natação... hora de sair da água e pedalar. Encaixei o pedal... tá na hora de descer da bike e começar a correr. Começo a apertar na corrida...acabou!
Terceira decisão: fazer Pirassununga, no dia 28 de novembro. Maridão - que já começou seu projeto Iron 2012 - quer correr seu primeiro meio iron lá. Vamos juntos, é barato, não é tão longe, a prova é bem organizada e já é uma distância que me agrada mais. Sem contar que a camiseta, a medalha e (Oxalá!) o troféu são de bom gosto e qualidade!
Assim vou conseguir descansar e me recuperar totalmente, abrir espaços pra outras prioridades na minha rotina, relaxar um tiquinho a vida espartana, tomar um vinhozinho e guardar um pouco de dinheiro.
Não preciso de competições próximas para me manter motivada a treinar. Voltei aos treinos 4 dias depois do Iron e tenho seguido minha planilha com o mesmo entusiasmo de sempre. Só que agora o volume de treinos é bem menor.
Estou contente com as minhas decisões. Elas foram amadurecendo aos poucos e percebi que compus um ciclo que tem a duração de um ano. Gosto dessa maneira de organizar a vida numa rotina, mas numa rotina que tem variações. Gosto de ter esse planejamento longo que tem coisas pra acontecer lááá pra frente, mas que, ao mesmo tempo, também vão acontecendo um pouquinho por dia. Entendo que este tempo menos intenso vai ser importante quando chegar o período mais intenso. Gosto dessa diversidade.
Pode ser, é claro, que as coisas mudem e que eu precise reorganizar minha vida e prioridades. Isso sempre pode acontecer na vida de qualquer um. No meu caso, 2011 é um incógnita do ponto de vista profissional e, portanto, financeiro. Mas vou vivendo a cada dia com meus planos e metas a me guiarem.
Então, só pra não ser incoerente e não deixar de tocar no título deste post, SIM, existe vida após o Iron. Uma vida em que o Iron continua a ser um dos principais eixos organizadores, ainda que não seja a prioridade do momento.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Depois da linha de chegada
No atendimento
Terminada a prova, ainda ali na área próxima ao pórtico, comecei a me sentir meio zonza. Despedi-me dos meus filhos, encarregando o mais velho de levar os três menores até onde estavam meus pais e fui pro atendimento.
O médico me examinou e disse que eu não estava desidratada, minha pulsação estava boa, mas se eu estava meio tonta, poderia ficar deitada um pouquinho. Acabou me dando um sorinho. Passado um tempinho, comecei a me sentir melhor e a achar sacanagem ficar ocupando uma maca sem necessidade. Outro médico veio e começou a falar umas barbaridades. Disse que eu iria urinar sangue e que provavelmente não iria menstruar este mes. Não acertou nenhuma de suas catastróficas profecias.
Então, enrolada num cobertor de desabrigada e numa toalha de Ironman, peguei a minha merecida medalha, a camiseta de finisher e sai da confusão.
Pizza
Demorei pra encontrar minha família. Lição nº1: marque um ponto de encontro para depois da prova! Cansei e simplesmente sentei na calçada até aparecer alguém. Estava sem poder nenhum de decisão. Só sabia que queria comer alguma coisa quente e salgada. Irene, minha sogra, me pegou pela mão e me levou até uma grade. Do lado de lá estavam as pizzas e a Nilma. Não tive dúvidas. Pulei a cerca e um guardinha veio me dizer que tinha de dar a volta. Olhei pra cara dele e disse "acabei de correr 42 km. Você não vai me fazer dar toda a volta, vai?" Acho que fui convincente. Ele deu um sorriso e me deixou seguir em frente.
Encontrei a minha amiga Nilma, devoramos alguns pedaços daquela pizza sem-vergonha como se fosse a pomodoro do Babbo Giovanni e saímos dali. Fim da bateria
De novo me perdi da família, de novo sentei na calçada. Achei que tinha combinado um lugar.... mas me enganei! Lição nº2: combine o lugar de encontro DIREITO! Por fim eles me acharam. Passei o chip pro meu pai e ele o o meu marido foram buscar a bike e as sacolas. Não conseguia me imaginar fazendo esta operação. Lição nº3: escale um ou dois elementos pra fazer essa operação pra você depois da prova.
Meu marido foi pedalando e eu fui com meus pais até minha pousada. Precisava de um banho quente. Com as ruas bloqueadas, chegar lá pareceu um pesadelo kafkaniano. Lição nº4: estude o itinerário de volta pra chegar ao seu banho e roupas limpas e quentinhas para não viver um pesadelo kafkaniano.
O quarto não havia sido nem limpo nem arrumado. Fiz uma trouxinha e fui pra Canasvieiras dormir com a família. Subir e descer os dois lances de escada foi doloroso.
O plano era sair pra jantar. Mas, àquelas alturas, não tinha mais sobrado nenhuma energia. Fizemos um brinde com um Asti espumante que ganhei de um amigo no meu aniversário e guardei pra ocasião Mal tomei uma taça. Não descia.
Tomei um sopinha que minha sogra trouxe de um lugar próximo e fui pra cama.
Até a adrenalina baixar, levou um tempo. Mas consegui dormir.
Cinzas
O day after lembra um pouco uma quarta-feira de cinzas. Fantasia rasgada, um pouco de ressaca, um misto de alegria por ter feito bonito no sambódromo e de tristeza porque o momento de glória no sambódromo foi tão efêmero, passou tão rápido. Mas, assim como o carnaval, tem Iron de novo o ano que vem.
terça-feira, 15 de junho de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
Lições da corrida, pequenas histórias e algumas reflexões
Lições da corrida
1. A meia injinji é tudo. Tive ZERO desconforto nos pés. Zero bolhas, zero calos, zero unhas caídas. Obrigada pela dica João Paulo Conrado.
2.Tênis Newton, 2 números maiores, também nota dez.
3. Na próxima, vou marcar mais a diferença entre frente/costas da camiseta de manga comprida. Tinha sim, umas bolinhas marcando as costas, mas não tinha etiqueta (o que é ótimo, porque incomodaria se tivesse). Eu que não estava ligada!
4. Dá pra melhorar esta maratona. E vou treinar pra isso.
Pequenas histórias
O Sarhan, conforme ele mesmo havia anunciado, foi até o limite. Não. Passou do limite. Quebrou na corrida. Nem ao menos conseguiu voltar de carona numa moto. Estava sem capacete, teve de descer da garupa e vir andando.
O tal do gordinho, não só faturou os 40 mil reais como, no dia seguinte, durante o café da manhã, apostaram com ele mais R$ 100 que não faria 100 agachamentos. Não só ele fez, como o fez com uma cerveja - que estava tomando - na mão.
Nilma sofreu um acidente que quase acabou com sua prova. Por volta do km 120 do pedal, um amigo emparelhou com ela e começou a conversar - o que ela reconhece que não é muito adequado. Um terceiro ciclista veio e, ao ultrapassá-los, deparou-se com uma caramanhola da qual quis desviar-se mas´acabou caindo. Nilma passou por cima dele e caiu também.
O cara ficou meio atordoado. Nilma teve várias escoriações, rachou o capacete (aquele novinho, que ela comprou na véspera e não era cor-de-rosa), mas não foi nada sério. Esperaram o socorro chegar. E aí foi uma piada porque ela ajeitou o capacete com os dedos que sangravam e, como o capacete ficou sujo de sangue, acharam que ela estava com a cabeça machucada e não queriam deixá-la continuar na prova. Na primeira oportunidade, ela montou na bike e se picou. O cara atropelado, teve um estrago na bike, mas mesmo assim, continuou. Mais adiante teve de descer e empurrar por 12, 15 ou 21 km - cada um que deu sua versão do fato estipulou uma distância diferente. O nome dele? Tubarão.
Evandro Lopes, parceiro de treinos, terminou a prova em 13horas 25 min. Cruzei com ele na volta de Canas - ele subindo, eu descendo e, depois passei por ele na minh segunda volta. Ele estava andando, cansado, mas no firme propósito de terminar. Ele fez o Iron depois de uma batalha dura contra muitos, mas muitos, quilos a mais. Tinha pouco tempo de triathlon, mas muita obstinação. Tenho certeza de que ano que vem ele vai fazer uma prova melhor e mais rápida.
No dia seguinte a prova, eu soube que perdi o terceiro lugar por três minutos. Fiquei muito muito chateada. Mandei o seguinte e-mail pro Carlos Galvão:
Oi Galvão
Parabéns pelo IM 2010. Foi realmente sensacional! Participei das duas provas em Penha e do mundial em Clearwater, mas a experiência de completar um Ironman supera, em muito, a do 70.3.
Minha prova foi quase perfeita. De minha parte, saiu tudo como planejei. Entretanto, perdi o 3º lugar da categoria e, portanto um troféu que para mim teria um grande valor, por um erro da organização. Como você pode conferir, meu tempo na T1 foi de 11 minutos! Sabe por quê? Porque a minha sacola da bike não estava onde deveria e levou cerca de 5 minutos para ser encontrada. Eu sabia exatamente onde ela deveria estar. Tinha decorado local, que era fácil, pois era na fila H, no alto, na parte onde o cabide era de metal amarelo. E só estava a sacola preta. Ela foi encontrada do outro lado do suporte, embaixo, depois de muita procura e estresse. Chorei, fiquei desesperada. Achei que a prova terminaria ali, naquela hora.
No dia seguinte, soube que a terceira colocada chegou apenas 3 minutos antes de mim.
Sei que nem sempre as coisas saem como deveriam, mas um problema deste tipo deve ser evitado a qualquer preço! Os staffs precisam estar mais atentos, talvez seja preciso ter mais gente cuidando desta parte e as pessoas devem realmente estar capacitadas! É um momento muito importante do apoio! Meu marido tb testemunhou muita confusão na entrega de special needs.
Como o Iron só cresce a cada ano, acho importante lhe dar este feedback, pra que casos como o meu não voltem a ocorrer. Não sei se há algo que possa ser feito pra reparar meu dano – pouco provável - mas se houver, gostaria que fosse feito.
Um abraço,
Claudia Aratangy (nº 1287, mãe de 4 filhos, amiga da Lidiane e aquela que apareceu na matéria da Sportv!)
Obrigado pelo seu email e Parabéns pela sua prova............
Levantamos o ocorrido e tivemos uma situação na Tenda de transição que fugiu do nosso controle.......
Três cavaletes(cabides) quebraram durante a natação e algumas sacolas foram movimentadas. E muito provavelmente a sua foi recolocada na posição errada da original. Somente temos essa explicação para te dar.....Não podia ter acontecido, mas lamentávelmente algumas situações fogem ao nosso controle como mencionei acima.
Lembre-se que trabalhamos com mais de 1.200 staffs voluntários, que são brifados por mais de 80 coordenadores de área e tentamos manter todas as situações 100% monitoradas.....mas às vezes, imprevistos acontecem.
Enfim, lamento a situação e mais uma vez te parabenizo pela prova!
Um abraço,
Carlos Galvão
Latin Sports S/A
Pelo menos ele explicou o que aconteceu. Mas poderia pelo menos ter me dado um desconto na inscrição de 2011, não é?
Algumas reflexões
Ironman não é uma prova, é um projeto. Requer meses de preparação, organização, logística, experimentação, testes, treinos, estudo, tomada de decisões e, principalmente, a utilização e o desenvolvimento de uma série de competências.
Não acho que a gente sofra uma transformação ao cruzar a linha de chegada. Acredito que a transformação se dá ao longo desta preparação e é no momento da prova que colocamos à prova (desculpem a obviedade) tudo aquilo que planejamos e preparamos ao longo dos meses.
Reveses podem acontecer mas, a maioria deles não vai impedir você de terminar a prova caso você tenha desenvolvido seu projeto adequadamente.
Posso dizer que minha prova foi absolutamente coerente com minha preparação e meu planejamento. Eu havia estimado fazer um tempo entre 11 e 12 horas. Teria feito 11 e 30 se minha sacola não tivesse sido extraviada. Bastante precisa a minha estimativa, portanto.
Além de cumprir minha planilha com disciplina, cuidei e treinei minha alimentação e minha suplementação, experimentei roupas e tênis diferentes, levei a sério a musculação e o alongamento, conversei e tirei dúvidas com várias pessoas mais experientes - esse blog, inclusive, foi um espaço onde pude trocar idéias e experiências com muita gente legal e que me ajudou.
Embora tenha todo um lado bastante racional e objetivo, pra mim, a preparação para o Iron foi também extremamente prazerosa. Gostei de ter um volume grande de treinos pra fazer, gostei do cansaço que senti depois dos treinos longos, gostei da sensação de estar dando conta de cada semana de treino, gostei de levar uma vida espartana. A parte das privações e dos sacrifícios todo mundo já sabe e é verdade. Mas é uma escolha, afinal de contas. Somos maiores de idade, esclarecidos e, se optamos por treinar para uma prova como o Iron, não cabe ficar reclamando e choramingando.
No meu caso, tentei alterar o mínimo possível minha rotina com a família. Isso significou, em alguns momentos, horas de descanso a menos. Por exemplo, aos domingos, mesmo podendo dormir até mais tarde, acordava bem cedo pra poder treinar e chegar em casa logo depois do café da manhã deles. Mas, como já disse, foi uma escolha.
Uns dias antes da prova, conversando com minha mãe, quando eu tentava explicar pra ele que triathlon é mais do que um estilo de vida, ela disse "é uma ideologia". Fiquei com aquilo martelando na cabeça. Fui atrás do significado literal de ideologia: conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc., de um indivíduo ou grupo de indivíduos.
Então, é isso mesmo. Não é apenas um jeito de viver. É a forma de sentir, pensar e entender o mundo. Nesta jornada para o Iron me dei conta da profunda mudança que eu e minha vida passamos ao longo dos últimos três anos. Não é superficial, não é passageira, não é um modismo. Aconteceu gradativamente e veio pra ficar.
No próximo (e provavelmente último) capítulo, respondo àquele post "Existe vida após o Iron?"
1. A meia injinji é tudo. Tive ZERO desconforto nos pés. Zero bolhas, zero calos, zero unhas caídas. Obrigada pela dica João Paulo Conrado.
2.Tênis Newton, 2 números maiores, também nota dez.
3. Na próxima, vou marcar mais a diferença entre frente/costas da camiseta de manga comprida. Tinha sim, umas bolinhas marcando as costas, mas não tinha etiqueta (o que é ótimo, porque incomodaria se tivesse). Eu que não estava ligada!
4. Dá pra melhorar esta maratona. E vou treinar pra isso.
Pequenas histórias
O Sarhan, conforme ele mesmo havia anunciado, foi até o limite. Não. Passou do limite. Quebrou na corrida. Nem ao menos conseguiu voltar de carona numa moto. Estava sem capacete, teve de descer da garupa e vir andando.
O tal do gordinho, não só faturou os 40 mil reais como, no dia seguinte, durante o café da manhã, apostaram com ele mais R$ 100 que não faria 100 agachamentos. Não só ele fez, como o fez com uma cerveja - que estava tomando - na mão.
Nilma sofreu um acidente que quase acabou com sua prova. Por volta do km 120 do pedal, um amigo emparelhou com ela e começou a conversar - o que ela reconhece que não é muito adequado. Um terceiro ciclista veio e, ao ultrapassá-los, deparou-se com uma caramanhola da qual quis desviar-se mas´acabou caindo. Nilma passou por cima dele e caiu também.
O cara ficou meio atordoado. Nilma teve várias escoriações, rachou o capacete (aquele novinho, que ela comprou na véspera e não era cor-de-rosa), mas não foi nada sério. Esperaram o socorro chegar. E aí foi uma piada porque ela ajeitou o capacete com os dedos que sangravam e, como o capacete ficou sujo de sangue, acharam que ela estava com a cabeça machucada e não queriam deixá-la continuar na prova. Na primeira oportunidade, ela montou na bike e se picou. O cara atropelado, teve um estrago na bike, mas mesmo assim, continuou. Mais adiante teve de descer e empurrar por 12, 15 ou 21 km - cada um que deu sua versão do fato estipulou uma distância diferente. O nome dele? Tubarão.
Evandro Lopes, parceiro de treinos, terminou a prova em 13horas 25 min. Cruzei com ele na volta de Canas - ele subindo, eu descendo e, depois passei por ele na minh segunda volta. Ele estava andando, cansado, mas no firme propósito de terminar. Ele fez o Iron depois de uma batalha dura contra muitos, mas muitos, quilos a mais. Tinha pouco tempo de triathlon, mas muita obstinação. Tenho certeza de que ano que vem ele vai fazer uma prova melhor e mais rápida.
No dia seguinte a prova, eu soube que perdi o terceiro lugar por três minutos. Fiquei muito muito chateada. Mandei o seguinte e-mail pro Carlos Galvão:
Oi Galvão
Parabéns pelo IM 2010. Foi realmente sensacional! Participei das duas provas em Penha e do mundial em Clearwater, mas a experiência de completar um Ironman supera, em muito, a do 70.3.
Minha prova foi quase perfeita. De minha parte, saiu tudo como planejei. Entretanto, perdi o 3º lugar da categoria e, portanto um troféu que para mim teria um grande valor, por um erro da organização. Como você pode conferir, meu tempo na T1 foi de 11 minutos! Sabe por quê? Porque a minha sacola da bike não estava onde deveria e levou cerca de 5 minutos para ser encontrada. Eu sabia exatamente onde ela deveria estar. Tinha decorado local, que era fácil, pois era na fila H, no alto, na parte onde o cabide era de metal amarelo. E só estava a sacola preta. Ela foi encontrada do outro lado do suporte, embaixo, depois de muita procura e estresse. Chorei, fiquei desesperada. Achei que a prova terminaria ali, naquela hora.
No dia seguinte, soube que a terceira colocada chegou apenas 3 minutos antes de mim.
Sei que nem sempre as coisas saem como deveriam, mas um problema deste tipo deve ser evitado a qualquer preço! Os staffs precisam estar mais atentos, talvez seja preciso ter mais gente cuidando desta parte e as pessoas devem realmente estar capacitadas! É um momento muito importante do apoio! Meu marido tb testemunhou muita confusão na entrega de special needs.
Como o Iron só cresce a cada ano, acho importante lhe dar este feedback, pra que casos como o meu não voltem a ocorrer. Não sei se há algo que possa ser feito pra reparar meu dano – pouco provável - mas se houver, gostaria que fosse feito.
Um abraço,
Claudia Aratangy (nº 1287, mãe de 4 filhos, amiga da Lidiane e aquela que apareceu na matéria da Sportv!)
Ele me respondeu o seguinte:
Prezada Cláudia,Obrigado pelo seu email e Parabéns pela sua prova............
Levantamos o ocorrido e tivemos uma situação na Tenda de transição que fugiu do nosso controle.......
Três cavaletes(cabides) quebraram durante a natação e algumas sacolas foram movimentadas. E muito provavelmente a sua foi recolocada na posição errada da original. Somente temos essa explicação para te dar.....Não podia ter acontecido, mas lamentávelmente algumas situações fogem ao nosso controle como mencionei acima.
Lembre-se que trabalhamos com mais de 1.200 staffs voluntários, que são brifados por mais de 80 coordenadores de área e tentamos manter todas as situações 100% monitoradas.....mas às vezes, imprevistos acontecem.
Enfim, lamento a situação e mais uma vez te parabenizo pela prova!
Um abraço,
Carlos Galvão
Latin Sports S/A
Pelo menos ele explicou o que aconteceu. Mas poderia pelo menos ter me dado um desconto na inscrição de 2011, não é?
Algumas reflexões
Ironman não é uma prova, é um projeto. Requer meses de preparação, organização, logística, experimentação, testes, treinos, estudo, tomada de decisões e, principalmente, a utilização e o desenvolvimento de uma série de competências.
Não acho que a gente sofra uma transformação ao cruzar a linha de chegada. Acredito que a transformação se dá ao longo desta preparação e é no momento da prova que colocamos à prova (desculpem a obviedade) tudo aquilo que planejamos e preparamos ao longo dos meses.
Reveses podem acontecer mas, a maioria deles não vai impedir você de terminar a prova caso você tenha desenvolvido seu projeto adequadamente.
Posso dizer que minha prova foi absolutamente coerente com minha preparação e meu planejamento. Eu havia estimado fazer um tempo entre 11 e 12 horas. Teria feito 11 e 30 se minha sacola não tivesse sido extraviada. Bastante precisa a minha estimativa, portanto.
Além de cumprir minha planilha com disciplina, cuidei e treinei minha alimentação e minha suplementação, experimentei roupas e tênis diferentes, levei a sério a musculação e o alongamento, conversei e tirei dúvidas com várias pessoas mais experientes - esse blog, inclusive, foi um espaço onde pude trocar idéias e experiências com muita gente legal e que me ajudou.
Embora tenha todo um lado bastante racional e objetivo, pra mim, a preparação para o Iron foi também extremamente prazerosa. Gostei de ter um volume grande de treinos pra fazer, gostei do cansaço que senti depois dos treinos longos, gostei da sensação de estar dando conta de cada semana de treino, gostei de levar uma vida espartana. A parte das privações e dos sacrifícios todo mundo já sabe e é verdade. Mas é uma escolha, afinal de contas. Somos maiores de idade, esclarecidos e, se optamos por treinar para uma prova como o Iron, não cabe ficar reclamando e choramingando.
No meu caso, tentei alterar o mínimo possível minha rotina com a família. Isso significou, em alguns momentos, horas de descanso a menos. Por exemplo, aos domingos, mesmo podendo dormir até mais tarde, acordava bem cedo pra poder treinar e chegar em casa logo depois do café da manhã deles. Mas, como já disse, foi uma escolha.
Uns dias antes da prova, conversando com minha mãe, quando eu tentava explicar pra ele que triathlon é mais do que um estilo de vida, ela disse "é uma ideologia". Fiquei com aquilo martelando na cabeça. Fui atrás do significado literal de ideologia: conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc., de um indivíduo ou grupo de indivíduos.
Então, é isso mesmo. Não é apenas um jeito de viver. É a forma de sentir, pensar e entender o mundo. Nesta jornada para o Iron me dei conta da profunda mudança que eu e minha vida passamos ao longo dos últimos três anos. Não é superficial, não é passageira, não é um modismo. Aconteceu gradativamente e veio pra ficar.
No próximo (e provavelmente último) capítulo, respondo àquele post "Existe vida após o Iron?"
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer
Parte 8 (partes de 1 a 7, abaixo)
Então peguei a pulseira preta. A última.
Meu número de peito rasgou quando fui mostrá-lo no controle. Tive de dobrar e enfiar na bermuda pra não perder. Nas esteiras, eu desdobrava e mostrava.
De volta à avenida dos Búzios, onde a torcida estava concentrada. Não vi minha família, mas tinha certeza de que eles estariam me esperando na chegada. Na véspera minha mãe me perguntou "O que você gostaria de ter quando chegar amanhã?" E respondi "A única coisa que eu quero é cruzar aquele pórtico junto com meus quatro filhos." E, durante essa volta, esta era a imagem que não parava de passar na minha cabeça.
Quando passei por ali de novo, o Emerson ainda gritou "Acho que você nâo está sofrendo muito!" E eu me perguntei "Será?" É que não parei de sorrir. Mesmo quando tive dor.
Saindo da avenida, o movimento diminui, então, não tendo distrações externas, as dores começam a dar o ar da (des)graça. É a hora da verdade. A lombar começou a ficar pesada. Os dois joelhos pareciam estar inchados. Tomei mais um Advil e prometi que não iria arrefecer. Faltava tããão pouco.
Passando pelos postos de hidratação pela última vez, aproveitei pra brincar e agradecer. "Valeu, pessoal! mesmo vocês não tendo vodca, muito obrigada pelo apoio e o carinho de vocês! I love you!" O pessoal respondia "Aêêê, valeu! Parabéns!" e aplaudia. Isso me custava uma energia extra, mas acho fundamental valorizar o trabalho dessa moçada. Vi atletas passando por eles gritando "Eu pedi pepsi, PORRA! Cadê a pepsi, CARALHO!" É o fim da picada. Os caras são voluntários e os outros, atletas amadores. Tem alguma coisa errada.
Depois do segundo posto, a estrada tem uma leve inclinação que, nas duas primeiras voltas, nem senti. Mas na última, percebi que tinha de fazer um pouco mais de esforço pra manter o ritmo. Olhava o Garmin monitorando a cadência. Sub 4 sub 4 sub 4!
Então, mais um trechinho quase deserto - avenida dos Dourados e adjacências. Ali, passei pela segunda vez um figura que estava desde o início da minha primeira volta, mancando. E ele continuava mancando e sua expressão era de extremo sofrimento. Se ele tinha aguentado até aquele momento, pensei, iria até o fim.
E assim como ele, vi várias pessoas reunindo os restos de sua energia, resgatando, no fundo da alma, suas motivações, pra conseguir chegar até aquele corredor coberto por um tapete azul e atravessar o pórtico.
Na corrida tomei um gel a cada 30 minutos, além das duas doses de accelerade e dei uma mordida numa bisnaguinha e numa goiabinha. Não passei pela tal sopinha. Teve?
No penúltimo abastecimento, tomei um gole de pepsi e caiu muito bem. Mantive o ritmo com os pulmões, o coração e com a mente. As pernas estavam cada vez mais pesadas. Olhava pro ritmo e, com surpresa, via que estava diminuindo. Como!? Eu estava acelerando! Então, ufff, arrancava aquele gás não sei de onde e voltava pro meu 5m20, 5m30.
Quando estava no km 38 lembrei daqueles vários treinos de transição que fiz com a Julinha às terças-feiras e pensei "É só mais um voltinha daquelas pela raia, rapidinho! Vou fazer de conta que a Juju tá aqui me puxando!" Puxa, como foi bom ter sido arrastada por ela todas aquelas vezes!
No 40, dei mais um golinho numa pepsi. Foi o que bastou pra eu me dar um banho. Sim. Desde o início da corrida que estava com vontade de fazer um xixi. mas não quis parar e nem tampouco ralaxar e me molhar como se estivesse na bike. Não por vergonha, não, mas porque iria molhar os pés e acabar formando bolhas. Segurei. Sublimei. Ah, mas na hora deste ultimo golinho, não teve jeito.
Tudo bem. Não ia incomodar, faltando tão pouco!
Ali já estava de volta à avenida dos Búzios. E não, não comecei a chorar. Não, não lembrei de todos os treinos, as privações, os sacrifícios, as madrugadas e o sofrimento e bla bla bla. Não. Minha cabeça ficou vazia. Eu era um coração pulsante com um pulmão onde cabia todo o ar de Jurerê levados por duas pernas irrefreáveis.
Não via, não ouvia. Até que vi meus filhos no caminho.
Agarrei todas as mãos que consegui e fui puxando os quatro comigo. Lembrei de pegar meu número e levantar, para ser identificada. "É a Claudia Aratangy, vem com seus filhos! Quatro!!! É uma creche!" ouvi o locutor (ele, de novo) brincar. 3h58m30s. Sub 4.
Cheguei ao pórtico. Plena de energia. De alegria. Não derramei uma lágrima. Me senti forte.
Embaixo do pórtico, abracei meus filhos.
E ali terminou a jornada.
Mas ainda tenho umas coisinhas pra contar.
Então peguei a pulseira preta. A última.
Meu número de peito rasgou quando fui mostrá-lo no controle. Tive de dobrar e enfiar na bermuda pra não perder. Nas esteiras, eu desdobrava e mostrava.
De volta à avenida dos Búzios, onde a torcida estava concentrada. Não vi minha família, mas tinha certeza de que eles estariam me esperando na chegada. Na véspera minha mãe me perguntou "O que você gostaria de ter quando chegar amanhã?" E respondi "A única coisa que eu quero é cruzar aquele pórtico junto com meus quatro filhos." E, durante essa volta, esta era a imagem que não parava de passar na minha cabeça.
Quando passei por ali de novo, o Emerson ainda gritou "Acho que você nâo está sofrendo muito!" E eu me perguntei "Será?" É que não parei de sorrir. Mesmo quando tive dor.
Saindo da avenida, o movimento diminui, então, não tendo distrações externas, as dores começam a dar o ar da (des)graça. É a hora da verdade. A lombar começou a ficar pesada. Os dois joelhos pareciam estar inchados. Tomei mais um Advil e prometi que não iria arrefecer. Faltava tããão pouco.
Passando pelos postos de hidratação pela última vez, aproveitei pra brincar e agradecer. "Valeu, pessoal! mesmo vocês não tendo vodca, muito obrigada pelo apoio e o carinho de vocês! I love you!" O pessoal respondia "Aêêê, valeu! Parabéns!" e aplaudia. Isso me custava uma energia extra, mas acho fundamental valorizar o trabalho dessa moçada. Vi atletas passando por eles gritando "Eu pedi pepsi, PORRA! Cadê a pepsi, CARALHO!" É o fim da picada. Os caras são voluntários e os outros, atletas amadores. Tem alguma coisa errada.
Depois do segundo posto, a estrada tem uma leve inclinação que, nas duas primeiras voltas, nem senti. Mas na última, percebi que tinha de fazer um pouco mais de esforço pra manter o ritmo. Olhava o Garmin monitorando a cadência. Sub 4 sub 4 sub 4!
Então, mais um trechinho quase deserto - avenida dos Dourados e adjacências. Ali, passei pela segunda vez um figura que estava desde o início da minha primeira volta, mancando. E ele continuava mancando e sua expressão era de extremo sofrimento. Se ele tinha aguentado até aquele momento, pensei, iria até o fim.
E assim como ele, vi várias pessoas reunindo os restos de sua energia, resgatando, no fundo da alma, suas motivações, pra conseguir chegar até aquele corredor coberto por um tapete azul e atravessar o pórtico.
Na corrida tomei um gel a cada 30 minutos, além das duas doses de accelerade e dei uma mordida numa bisnaguinha e numa goiabinha. Não passei pela tal sopinha. Teve?
No penúltimo abastecimento, tomei um gole de pepsi e caiu muito bem. Mantive o ritmo com os pulmões, o coração e com a mente. As pernas estavam cada vez mais pesadas. Olhava pro ritmo e, com surpresa, via que estava diminuindo. Como!? Eu estava acelerando! Então, ufff, arrancava aquele gás não sei de onde e voltava pro meu 5m20, 5m30.
Quando estava no km 38 lembrei daqueles vários treinos de transição que fiz com a Julinha às terças-feiras e pensei "É só mais um voltinha daquelas pela raia, rapidinho! Vou fazer de conta que a Juju tá aqui me puxando!" Puxa, como foi bom ter sido arrastada por ela todas aquelas vezes!
No 40, dei mais um golinho numa pepsi. Foi o que bastou pra eu me dar um banho. Sim. Desde o início da corrida que estava com vontade de fazer um xixi. mas não quis parar e nem tampouco ralaxar e me molhar como se estivesse na bike. Não por vergonha, não, mas porque iria molhar os pés e acabar formando bolhas. Segurei. Sublimei. Ah, mas na hora deste ultimo golinho, não teve jeito.
Tudo bem. Não ia incomodar, faltando tão pouco!
Ali já estava de volta à avenida dos Búzios. E não, não comecei a chorar. Não, não lembrei de todos os treinos, as privações, os sacrifícios, as madrugadas e o sofrimento e bla bla bla. Não. Minha cabeça ficou vazia. Eu era um coração pulsante com um pulmão onde cabia todo o ar de Jurerê levados por duas pernas irrefreáveis.
Não via, não ouvia. Até que vi meus filhos no caminho.
Agarrei todas as mãos que consegui e fui puxando os quatro comigo. Lembrei de pegar meu número e levantar, para ser identificada. "É a Claudia Aratangy, vem com seus filhos! Quatro!!! É uma creche!" ouvi o locutor (ele, de novo) brincar. 3h58m30s. Sub 4.
Cheguei ao pórtico. Plena de energia. De alegria. Não derramei uma lágrima. Me senti forte.
Embaixo do pórtico, abracei meus filhos.
E ali terminou a jornada.
Mas ainda tenho umas coisinhas pra contar.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer
Parte 7 (partes 1 a 6, abaixo)
Desta vez, mesmo sem cérebro, achei minha sacola amarela. Já pensou se a sacola tivesse sumido nessa hora? Eu iria duvidar da minha capacidade de discernimento meeesmo. Mas ela estava lá, com tudo que eu tinha deixado nela.
De novo joguei tudo em cima das cadeiras e, novamente, duas queridas me ajudaram na operação. O mais difícil, eu sabia, seria colocar as minhas super meias injinji. Mas até nisso eu havia pensado antes (ainda bem, porque naquela hora, pensar não ia prestar). Primeiro, passei um pouco de vaselina no pé, depois enfiei as meias até encostarem os dedos das meias, nos dedos dos pés e pedi pras minhas ajudantes colocarem dedinho por dedinho.
Foi um luxo. Me senti na pedicure. Cada uma colocou a meia em um pé e, portanto, em cinco dedos e, enquanto isso, eu tirava a camisa de ciclismo, pegava uma goiabinha, os géis e colocava nos bolsos da bermuda e do top, vestia o cinto de hidratação, a viseira, largava o óculos. Meias devidamente colocadas, calcei os tênis, apertei a roldana (é uma roldaninha mesmo), pedi o pote de vaselina e elas ajudaram a me lambuzar inteira com ele. Quase esqueci de colocar as garrafinhas com accelerade, que devia ter deixado no cinto antes, e quase esqueci de colocar o Garmin no pulso.
Nesse ínterim, reencontrei minhas pernas. O cérebro, não. Mas tinha alguns neurônios avulsos, que caíram na hora que tirei o capacete e ficaram por ali mesmo.
Com esses poucos neurônio consegui encontrar a saída E acionar o Garmin. Incrível!
Corrida
Começar a corrida, no meu caso, era terminar a prova. Não sei se era excesso de confiança ou se era puro autoconhecimento mas tinha certeza de que, em tendo começado a correr, cruzaria aquele pórtico antes das 17 horas regulamentares.
Logo após a saída, encontrei a Julinha que foi, por fora da pista, atropelando a platéia e me acompanhando. Quando passei pelo MPR e pelo Emerson, eles gritaram "Calma! Calma! Diminui esse ritmo ou você não vai aguentar!". Olhei pro Garmin: 4m49s por km. É, realmente... era melhor desacelerar um pouco. Puxei o freio e fui com a Juju até a primeira entrada à direita, onde nos separamos.
A primeira volta tem 21 km e passa por duas subidas entre os kms 8-10 e depois volta por essas mesmas subidas, entre os 15 e 17.
Encaixei um ritmo firme entre 5m20s, 5m30 por km, até chegar na subida. Ela é íngreme, mas é curta. Decidi não andar mas continuar num trotinho bem miúdo. Fui que fui, passando uns e outros que caminhavam. No meio da ladeira, vi um branquelo sair rapidinho pra esquerda, onde tinha um matinho e umas pedras e, na maior sem cerimônia, abaixar as calças e agachar! Eca. Virei pro outro lado, mas não pude deixar de escutar os sons característicos de quem está no vaso solitário.
No alto da subida, tinha uma torcida festiva. Uma mulher me olhou bem e gritou "Eu te vi na TV! Eu te vi na TV!" Dei risada e respondi "era eu mesma, a maluca que tem quatro filhos!" e ela puxou uma salva de palmas pra mim.
A subida foi mais fácil do que eu imaginara. Chegando no plano, só alegria. Comecei a brincar com o pessoal dos pontos de apoio. Eles ficavam enfileirados, cada um com sua oferta "Água! Água" ou "Gatorade! Gatorade!" e ainda "Pepsi! Pepsi!" e eu passava perguntando a cada um "Vodca? Vodca?". No começo eles ficavam confusos (não sei porque, já que não tinham pedalado e os cérebros deles não tinham ido parar no capacete) mas depois também brincavam "Xii! Não tem! Só mais tarde!" E eu continuava a brincadeira "Mas que droga de bar! Nem uma vodca!"
Por volta do km 13, tive uma surpresa. A família toda estava ali, junto com mais uns outros malucos, fazendo a maior festa pra todos os atletas que passavam. Passei dando uma beijoca suada na bochecha de cada filhote e eles me acompanharam correndo por algum tempo. Na volta, idem! Aproveitei pra deixar meu cinto de hidratação com eles e avisar, mais uma vez pra os pequenos que correram um trechinho comigo "Eu estou bem! Fala pra vovó e pro vovô que eu estou muito bem!". Imaginava que poderiam estar preocupados, e quis tranquilizá-los.
Subidinhas de novo, descida e pronto!
Era só manter o ritmo.
O cérebro não fez muita falta. Entrei num transe, deixando a cabeça vazia.
Antes de terminar a primeira volta, alcancei a Nilma! Fiquei feliz, porque ela estava beeem na minha frente. Mas cheguei disse "Demorou, mas te alcancei" e ela respondeu "Aê! Você tá bem! Vai, vai em frente!" E eu fui mesmo.
Terminei a primeira volta e a passagem pela avenida dos Búzios, onde fica a maior parte do pessoal que está assistindo, é a hora mais gostosa. Você caras conhecidas vibrando, gritando seu nome, gente que você conhece pouco, mas que, naquela hora, age como se você fosse a pessoa mais importante do mundo e mesmo os desconhecidos, que torcem, parabenizam e aplaudem porque, afinal, você está participando de um IRONMAN!
Fiquei muito mas muito feliz, quando vi o Roi, meu marido, gritando pra mim, vibrando, totalmente tomado de entusiasmo. Aquilo me encheu o coração e os pulmões!
Saí pra segunda volta com mais pique ainda.
No km 23 tinha a parada estratégica do special needs. Fui clamando pela Gra, que logo achei. Eu iria colocar uma camiseta de manga comprida, pegar o accelerade e mais um advil. Ela perguntou se eu iria trocar de tênis ou de meia mas não! Eu tinha ZERO desconforto nos pés. Vesti a camiseta. Olhei, achei que estava de trás pra frente porque não tinha etiqueta. Tirei, vesti de novo. Aí realmente estava de trás pra frente. Tirei e vesti pela terceira vez, convencida de que não teria outro lado pra vestir. O cérebro me fez um pouquinho de falta nessa hora!
O sol começou a baixar e vestir mangas compridas foi uma boa. Nesta volta passei por uma menina muito forte da minha categoria. mas ela já tinha as duas pulseiras. Estava fechando a 3ª e última volta. Bom... pensei, lá se vai o 2º lugar. Imaginava que a Valéria estava na frente dela e que ela seria a segunda colocada. mas não fiquei chateada, não. Estava curtindo a prova.
Passei bastante gente. Muita gente andava. Muita gente estava caindo aos pedaços. Eu estava no mesmo ritmo.
Numa esquina sombria, na avenida dos Dourados, passei pelo Diglu, que perguntou "E aí? Você tá se divertindo?" respondi "Muuuuuiiiito!" e toquei em frente.
Fechei a segunda volta ouvindo o berro do MPR "Claudia! Você tá correndo muitoooo!" , o Emo, meu técnico "Claaaau, você é demaissss!" e o Roi "Clau, ce tá voandooo!". Com tantas levantadas de bola, fui ficando cada vez mais convencida.Convencida de que eu tinha de terminar sub 4.
E agora faltava apenas a derradeira.
Desta vez, mesmo sem cérebro, achei minha sacola amarela. Já pensou se a sacola tivesse sumido nessa hora? Eu iria duvidar da minha capacidade de discernimento meeesmo. Mas ela estava lá, com tudo que eu tinha deixado nela.
De novo joguei tudo em cima das cadeiras e, novamente, duas queridas me ajudaram na operação. O mais difícil, eu sabia, seria colocar as minhas super meias injinji. Mas até nisso eu havia pensado antes (ainda bem, porque naquela hora, pensar não ia prestar). Primeiro, passei um pouco de vaselina no pé, depois enfiei as meias até encostarem os dedos das meias, nos dedos dos pés e pedi pras minhas ajudantes colocarem dedinho por dedinho.
Foi um luxo. Me senti na pedicure. Cada uma colocou a meia em um pé e, portanto, em cinco dedos e, enquanto isso, eu tirava a camisa de ciclismo, pegava uma goiabinha, os géis e colocava nos bolsos da bermuda e do top, vestia o cinto de hidratação, a viseira, largava o óculos. Meias devidamente colocadas, calcei os tênis, apertei a roldana (é uma roldaninha mesmo), pedi o pote de vaselina e elas ajudaram a me lambuzar inteira com ele. Quase esqueci de colocar as garrafinhas com accelerade, que devia ter deixado no cinto antes, e quase esqueci de colocar o Garmin no pulso.
Nesse ínterim, reencontrei minhas pernas. O cérebro, não. Mas tinha alguns neurônios avulsos, que caíram na hora que tirei o capacete e ficaram por ali mesmo.
Com esses poucos neurônio consegui encontrar a saída E acionar o Garmin. Incrível!
Corrida
Começar a corrida, no meu caso, era terminar a prova. Não sei se era excesso de confiança ou se era puro autoconhecimento mas tinha certeza de que, em tendo começado a correr, cruzaria aquele pórtico antes das 17 horas regulamentares.
Logo após a saída, encontrei a Julinha que foi, por fora da pista, atropelando a platéia e me acompanhando. Quando passei pelo MPR e pelo Emerson, eles gritaram "Calma! Calma! Diminui esse ritmo ou você não vai aguentar!". Olhei pro Garmin: 4m49s por km. É, realmente... era melhor desacelerar um pouco. Puxei o freio e fui com a Juju até a primeira entrada à direita, onde nos separamos.
A primeira volta tem 21 km e passa por duas subidas entre os kms 8-10 e depois volta por essas mesmas subidas, entre os 15 e 17.
Encaixei um ritmo firme entre 5m20s, 5m30 por km, até chegar na subida. Ela é íngreme, mas é curta. Decidi não andar mas continuar num trotinho bem miúdo. Fui que fui, passando uns e outros que caminhavam. No meio da ladeira, vi um branquelo sair rapidinho pra esquerda, onde tinha um matinho e umas pedras e, na maior sem cerimônia, abaixar as calças e agachar! Eca. Virei pro outro lado, mas não pude deixar de escutar os sons característicos de quem está no vaso solitário.
No alto da subida, tinha uma torcida festiva. Uma mulher me olhou bem e gritou "Eu te vi na TV! Eu te vi na TV!" Dei risada e respondi "era eu mesma, a maluca que tem quatro filhos!" e ela puxou uma salva de palmas pra mim.
A subida foi mais fácil do que eu imaginara. Chegando no plano, só alegria. Comecei a brincar com o pessoal dos pontos de apoio. Eles ficavam enfileirados, cada um com sua oferta "Água! Água" ou "Gatorade! Gatorade!" e ainda "Pepsi! Pepsi!" e eu passava perguntando a cada um "Vodca? Vodca?". No começo eles ficavam confusos (não sei porque, já que não tinham pedalado e os cérebros deles não tinham ido parar no capacete) mas depois também brincavam "Xii! Não tem! Só mais tarde!" E eu continuava a brincadeira "Mas que droga de bar! Nem uma vodca!"
Por volta do km 13, tive uma surpresa. A família toda estava ali, junto com mais uns outros malucos, fazendo a maior festa pra todos os atletas que passavam. Passei dando uma beijoca suada na bochecha de cada filhote e eles me acompanharam correndo por algum tempo. Na volta, idem! Aproveitei pra deixar meu cinto de hidratação com eles e avisar, mais uma vez pra os pequenos que correram um trechinho comigo "Eu estou bem! Fala pra vovó e pro vovô que eu estou muito bem!". Imaginava que poderiam estar preocupados, e quis tranquilizá-los.
Subidinhas de novo, descida e pronto!
Era só manter o ritmo.
O cérebro não fez muita falta. Entrei num transe, deixando a cabeça vazia.
Antes de terminar a primeira volta, alcancei a Nilma! Fiquei feliz, porque ela estava beeem na minha frente. Mas cheguei disse "Demorou, mas te alcancei" e ela respondeu "Aê! Você tá bem! Vai, vai em frente!" E eu fui mesmo.
Terminei a primeira volta e a passagem pela avenida dos Búzios, onde fica a maior parte do pessoal que está assistindo, é a hora mais gostosa. Você caras conhecidas vibrando, gritando seu nome, gente que você conhece pouco, mas que, naquela hora, age como se você fosse a pessoa mais importante do mundo e mesmo os desconhecidos, que torcem, parabenizam e aplaudem porque, afinal, você está participando de um IRONMAN!
Fiquei muito mas muito feliz, quando vi o Roi, meu marido, gritando pra mim, vibrando, totalmente tomado de entusiasmo. Aquilo me encheu o coração e os pulmões!
Saí pra segunda volta com mais pique ainda.
No km 23 tinha a parada estratégica do special needs. Fui clamando pela Gra, que logo achei. Eu iria colocar uma camiseta de manga comprida, pegar o accelerade e mais um advil. Ela perguntou se eu iria trocar de tênis ou de meia mas não! Eu tinha ZERO desconforto nos pés. Vesti a camiseta. Olhei, achei que estava de trás pra frente porque não tinha etiqueta. Tirei, vesti de novo. Aí realmente estava de trás pra frente. Tirei e vesti pela terceira vez, convencida de que não teria outro lado pra vestir. O cérebro me fez um pouquinho de falta nessa hora!
O sol começou a baixar e vestir mangas compridas foi uma boa. Nesta volta passei por uma menina muito forte da minha categoria. mas ela já tinha as duas pulseiras. Estava fechando a 3ª e última volta. Bom... pensei, lá se vai o 2º lugar. Imaginava que a Valéria estava na frente dela e que ela seria a segunda colocada. mas não fiquei chateada, não. Estava curtindo a prova.
Passei bastante gente. Muita gente andava. Muita gente estava caindo aos pedaços. Eu estava no mesmo ritmo.
Numa esquina sombria, na avenida dos Dourados, passei pelo Diglu, que perguntou "E aí? Você tá se divertindo?" respondi "Muuuuuiiiito!" e toquei em frente.
Fechei a segunda volta ouvindo o berro do MPR "Claudia! Você tá correndo muitoooo!" , o Emo, meu técnico "Claaaau, você é demaissss!" e o Roi "Clau, ce tá voandooo!". Com tantas levantadas de bola, fui ficando cada vez mais convencida.Convencida de que eu tinha de terminar sub 4.
E agora faltava apenas a derradeira.
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