domingo, 20 de fevereiro de 2011

Revista Alfa

Eu sei, eu sei. Teve o Internacional de Santos e eu não vou fazer um post sobre a prova. Pelo menos, não por enquanto. Sei lá... Tenho medo de ficar repetitiva. Se eu tiver um bom ângulo da história, que fique diferente do ano passado, prometo que faço meu relato.
Por hora, quero compartilhar com meus leitores um acontecimento na vida desta blogueira que a deixou muito feliz e que tem a ver com este blog. Um texto meu, sobre triathlon, foi publicado nesta revista bacanuda, a Alfa. É uma nova publicação da Editora Abril, voltada para o público masculino, classes A e B (mas muitas mulheres gostam dela também!).  Foi lançada em outubro e já está fazendo história. O Kiko Nogueira, diretor de redação, viu o blog e pediu que eu sugerisse uma pauta sobre triathlon e eu sugeri "Dez boas razões pra você fazer triathlon e outras dez (não tão boas assim) pra você continuar em casa". Escrevi o texto, ele gostou e publicou na Alfa que foi pras bancas agora em 11 de fevereiro. O mais legal - achei - é o fato de não ser uma  revista especializada em esportes.
A edição foi super caprichosa e valorizou o texto. A única mancada foi que, na minha minibiografia, num cantinho da página, faltou dizer que eu completei um Iron. Se tiverem oportunidade de ler, está nas páginas 121-124. Depois me contem o que acharam. E está no site deles
Abaixo a primeira página da matéria. E sim, antes que perguntem, o texto todo é meu. Nenhum repórter reescreveu depois de conversar comigo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Triathlon sem mistérios – pequeno glossário para não triatletas

Caros leitores, como este blog não é lido exclusivamente por triatletas e suponho que muitos devam ter dificuldades para entender os textos aqui postados, decidi, para dirimir as principais dúvidas, escrever um pequeno glossário com os termos básicos, porém fundamentais, para a compreensão do nosso amado esporte.

Alfa. Tipo de macho da espécie humana com alta incidência no grupo de triatletas. Costumam andar em bando e disputar a liderança dos treinos, causando, muitas vezes, a dissolução dos pelotões (vide). Desaparecem durante as competições.

Alimentação de treino. Lanche que seu filho leva pra escola e que você tem vontade de comer mas não tem mais idade para isso, os triatletas consomem, sem constrangimento, antes durante e depois do treinos: bisnaguinha com geléia, melzinho, todinho, bananinhas, entre outros.

Alvará. Permissão concedida pelo cônjuge do triatleta para participar dos treinos longos de final de semana. Obs.: Às vezes o triatleta, não requisitando o alvará com a devida antecedência, arrisca-se a treinar sem ele. Isso pode ter conseqüências matrimônio-judiciais gravíssimas.

Bento box. Pequena bolsinha que fica presa ao quadro da bike onde pode ser colocada a merenda e outros objetos. Costuma ficar melada com os restos de lanche (tal qual a lancheira de seu filho) e, além disso, adquire um odor característico em função da combinação com o suor depositado durante os treinos.

Bomba. Encontrada em dois modelos: de pé e manual, é um objeto que tem a função de encher as câmeras das bicicletas e que o triatleta sempre se esquece de levar (a de pé) quando o pneu está murcho e nunca está com uma (manual) quando seu pneu fura no meio do treino. Na segunda situação ele pode contar com um cilindro de CO2 (ver).

Buraco. Inimigo número 1 dos triatletas. Frequentemente encontrado na raia da USP, ataca os ciclistas ocasionando furos nos pneus, lesões nas rodas, tombos e, acima de tudo, brigas nos pelotões (ver).

Cadência ou ritmo. Modo de dizer a velocidade demonstrando aos demais que não é um corredor de esteira. Enquanto as pessoas dizem 12 km/h, triatletas e corredores experientes dizem 5 minutos/km.

Caramanhola. Conhecida também por squeeze ou garrafinha é um objeto extremamente perigoso, principalmente quando escapa de seu suporte na bicicleta da frente e cai na pista provocando pânico nos ciclistas e, não raro, acidentes sérios. Pode afetar também ciclistas inexperientes que, durante a complexíssima manobra de retirar e colocar a caramanhola no suporte perdem a direção e tombam.

CO2, cilindro de. Pequeno dispositivo que serve para encher as câmeras dos pneus na falta de uma bomba manual portátil. Devem ser atarraxados à válvula da câmera para enchê-las de uma só vez. Apesar de muito práticos, leves e de não ocuparem espaço, não há registros de que tenham funcionado alguma vez..

Chuva. Pretexto preferido dos triatletas para continuar dormindo às 3ª e 5ª de madrugada, sem culpa.

Facebook. Rede social em que alguns triatletas postam seus treinos, outros se irritam com os treinos postados pelos primeiros e todos, de um modo ou de outro, mostram para o mundo que o triathlon é a coisa mais importante que existe.

Feirinha. Local organizado antes de competições de triathlon com estandes de venda de equipamentos e roupas de triathlon onde os triatletas compram uma vasta quantidade de inutilidades caras como se estivessem fazendo barganhas.

Fuel belt. Cinto ridículo onde se encaixam garrafinhas para hidratação em treinos de corrida. Serve para que os triatletas demonstrarem que estão fazendo um treino longo.

Garmin. GPS de pulso que tem como finalidade registrar todos os detalhes dos treinos como: distância percorrida, velocidade média, elevação e frequência cardíaca mas que o triatleta esquece de por a bateria para carregar, de ligar na hora certa ou de levar para o treino.

Ironman. Doença que costuma acometer os triatletas após um ou dois anos de treino e que, frequentemente, leva a um estado de loucura. Nenhum tratamento eficaz foi descoberto até hoje a despeito das inúmeras pesquisas realizadas por cientistas havaianos.

Meia de compressão
Meias de compressão. Mistura de meião de futebol com a meia que minha vó usa, e que os triatletas vestem com muito orgulho. A diferença está nas cores e estampas estapafúrdias.

Padoca. Principal razão pela qual os triatletas treinam no sábado. Alguns, inclusive, nem treinam, apenas vão ao local para encontrar os demais, tomar café e conversar.

Pelotão. Bando de triatletas que querem ser como as escuderias do Tour de France, mas se comportam como as torcidas organizadas dos times de futebol, sem a organização destas.

Planilha. Motivo de sentimento de culpa e desavenças entre triatleta e seu técnico.

Roda, Zé Rodinha. Habilidade de participar do pelotão sem fazer força. Pessoa especialista nesta habilidade.

Roda Zipp, 404, 808, rodas fechadas Equipamento utilizado por triatletas na vã esperança de melhorar seu desempenho mas que funciona apenas quando as pernas destes já são fortes o suficientes para não precisar deste artifício.
Espartilho moderno

Roupa de borracha – wetsuit. Parente próxima do espartilho, é uma vestimenta que serve para apertar, sufocar e assar a nuca do triatleta durante a natação além de dificultar a transição.

Sapatilha. Calçado utilizado para constranger o triatleta iniciante que, na hora de parar, invariavelmente esquece que esta fica presa ao pedal, não lembra de soltá-la e vai pro chão como um saco de batatas na frente de todos.

Suplementação. Pozinhos, líquidos, géis, cápsulas e comprimidos de cor, gosto e consistência estranhos pelos quais se paga uma nota para, supostamente, melhorar a performance do atleta ou causar um desarranjo gastro intestinal providencial nas provas em que ele sabe que não terá uma boa performance.

Técnico. Pessoa a quem o triatleta ouve mais do que seu pai, sua mãe ou seu cônjuge. O que não quer dizer, entretanto, que o triatleta siga as orientações deste.

Transição. Local que o triatleta não encontra depois de nadar esbaforido ou de pedalar como um louco, onde há uma série de voluntários que não sabem o que fazer, à volta do qual seu filho, seu marido/esposa ou técnico ficam gritando – “vai, vai, você ta bem!” enquanto você nem percebe que saiu pra correr com o capacete na cabeça.

Treino. Forma de expressão utilizada pelos triatletas para diferenciar-se de quem faz exercícios ou ginástica.
 Troféu. Objeto de gosto duvidoso com o qual os triatletas adoram tirar foto em cima de um pódio.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Meu querido amigo

Era 2007 e eu estava começando a treinar e também acabara de ser contratada no meu atual emprego. Minha chefa, com quem eu já trabalhava antes e me conhecia bem, disse:

- Conversa com ele. Vocês vão se entender. Ele também gosta de esportes.

E não demorou que, num desses almoços descompromissados que a gente tem com as pessoas de trabalho, nos sentássemos lado a lado e começássemos a trocar confidências sobre nossas respectivas paixões: triathlon, a minha, tênis, a dele.

Então, ao longo destes quatro anos, almoçamos quase todos os dias juntos e conversamos de tudo - mas nosso assunto predileto – o esporte - esteve sempre em pauta.

Com ele aprendi a admirar Federer (embora, só pra provocá-lo, eu diga que gosto mais do Nadal), a considerar Roland Garros A prova de Grand Slam e descobri que há tantos – ou mais – torneios de tênis para amadores quanto há provas de triathlon e corridas de rua.

Por outro lado, ele aprendeu tudo sobre triathlon. Sabe o que é o clipe, uma caramahola e a diferença entre uma speed e uma contra-relógio, entre outras tantas coisas.

E quando ficamos mais próximos, ele também me ensinou coisas da política, da administração, da gestão. E eu pude falar mais sobre relacionamentos, conflitos, convívio.

Ao longo desses quatro anos tivemos discordâncias – sobre aspectos do nosso trabalho – mas nunca brigamos. Fui à sala dele chorar algumas vezes. Ele não foi à minha – porque é duro na queda – mas deixou escapar uma angústia ou outra, que acolhi como pude.

Ano passado, quando estava me preparando pro Iron ele me perguntava todo o dia como tinha sido meu treino. E seu interesse era genuíno. Entendia as minhas restrições alimentares e não se importava se, durante uma semana inteira, eu só quisesse comer no 7 Grill.

Na véspera da minha viagem para Floripa em maio do ano passado, ele estava de férias, mas combinamos de almoçar juntos. Eu estava insuportável. Não conseguia falar de outra coisa que não fosse a prova. Durante o almoço ele fez todas as perguntas que eu queria responder, disse o que eu queria ouvir e me acalmou sem nem se dar conta.

Muitas vezes durante o horário do almoço saímos para encontrar um cadarço de tênis pra ele entre os camelôs, comprar um pacote de maltodextrina ou à caça de baterias CR 3032 para o frequencímetro. Por incrível que pareça, nos divertíamos nessas pequenas jornadas. Conhecemos lugares escondidos como a “Casa das Baterias” e personagens inusitadas, como a sra Chun, da loja de perfumes importados. Temos em comum um pequeno e curioso repertório de pessoas e situações.

Ano passado ele perdeu o pai e, logo em seguida, a mãe. Estive no velório de ambos e no enterro e cremação de um e outra. Vivemos também um repertório de tristezas e perdas compartilhadas.

Agora, neste início de ano ele e várias outras pessoas de quem gosto muito, foram demitidos.

Quando a percebi a iminência de sua demissão me dei conta de como iria sentir sua falta. Vi que ele é muito mais do que um companheiro de trabalho. É um amigo. Meu melhor amigo.

Claro, vamos continuar a nos falar e sempre que possível, almoçar juntos. Não tê-lo no convívio diário, entretanto é, para mim, uma grande perda.

De qualquer modo, não posso deixar de registrar: obrigada por tudo, querido amigo!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cada macaco no seu galho ou Onde os macacos se encontram


Cada macaco... (ilustração tirada do Blog Sopa de Idéias)
 O triatleta é um espécime bastante peculiar que pode ser visto em bandos nas madrugadas da USP, em cima de bicicletas, em algumas trilhas do Ibirapuera e em academias da cidade. São os habitats onde se pode encontrá-los com mais freqüência, pois é onde ficam à vontade. Ou, como reza a música, o “galho” onde deve ficar cada macaco.
Entretanto há situações que em que é necessário compartilhar o galho e isso promove encontros, no mínimo, inusitados.

Estrada dos Romeiros
Como o próprio nome diz, a estrada é deles. Assim, pelo menos uma vez por mês, eles vêm aos montes, simulando uma ida à Roma, carregando em suas carroças aparelhos de som turbinados de onde bradam músicas sertanejas narrando histórias tristes de amores, despedidas, jornadas, saudades, amigos e, claro, cavalos. Estes, e seus primos jumentos, também fazem parte do tour religioso. Ao longo da pista é fácil identificar os rastros que deixam pelo caminho. Há também bicicletas paramentadas com chupetas(?), ursinhos de pelúcia e outros souvenires intrigantes. Participam jovens, velhos, crianças, mulheres, chapéus, bonés, garrafas de cachaça, cobertores, estandartes, berrantes e até santos e santas.
E, de repente, no meio deste happening, surgem os triatletas, também fazendo sua peregrinação. Nossa Meca é outra: Hawaii, mas nos contentamos em sonhar com Floripa, Pirassununga ou, simplesmente, Santos. Mas nos vemos ali, dividindo o chão com outra turma. Eles nos olham espantados, rapidamente notam que não pertencemos à romaria deles mas, os mais atentos, perceberão que também há devoção em nossos olhos. Assim, na maioria das vezes, não há brincadeiras de mau gosto ou atrevimento. Seguimos cada qual com seu Deus, com sua oração, mantra ou ladainha (WIT- what it takes é a de alguns).
No final, pagamos nossos pecados na subida do “cala a boca”, enquanto os romeiros pagam suas promessas.


Riacho Grande – os cantores de karaokê
Ali, ao lado da represa, enquanto tiramos a bike do carro, vestimos capacete e sapatilhas, abastecemos as caramanholas e passamos protetor solar, a música no boteco em frente rola alta e umas poucas vozes desafinadas denotam o clima de fim de festa. Uma moça, vestida a caráter (ou seria melhor dizer falta de?), sai de dentro trançando as pernas. Sem a menor cerimônia, ela vomita. Num carro ali perto, um rapaz e uma moça fumam, discutem, gritam um com outro e ela chora. Sua maquiagem já se transformou numa máscara de pierrô.
Por uns 20 ou 30 minutos, triatletas e karaokeiros (karaokistas??) compartilham o estacionamento. Os primeiros começando o dia enquanto a família dorme, entre planilhas e quilômetros, suplementos e endorfinas, os outros, terminando a noite, enquanto a família dorme – entre tapas e beijos, cigarros e vômitos.
A troca de olhares entre os dois grupos não chega a ser hostil, mas não é tampouco amistosa. Parece que cada um olha para o outro e pensa: como eles podem viver assim?


Riacho Grande – pescadores
Tá estressado? Vai pescar! São os dizeres do adesivo que decora o Voyage 89 estacionado à beira da represa. Eles também levantam cedo, munem-se de paciência, alimentos, equipamentos e rumam pra beira da Billings.
A maioria instala-se ali, ao lado da ponte, já perto da entrada do parque. Pescam, mas a também fazem churrasco, levam a família, nadam e (já não se fazem mas pescadores como antigamente) colocam o som do carro alto e estridente no volume máximo.
Nós triatletas passamos pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, sentimos o cheiro da carne sendo assada, ouvimos a algazarra das crianças na água, observamos aquele pescador que, como nós, persiste em sua atividade, incansável. Somos observados por eles com crescente indiferença a cada volta. Eles se acostumam como nosso ir e vir, nós nos acostumamos com o ficar deles.

Na praia

Biquínis mínimos, sungas e calções de tamanhos variados, grande profusão de barrigas máximas.. Eis que... O que é aquilo? Um pingüim? O Aquaman? Um ET? Não. Magro e emborrachado dos pés à cabeça, é um triatleta pronto para treinar.
Longe da beira, pra não trombar com os banhistas, o triatleta muitas vezes é perseguido e admirado por remadores (eventuais) de caiaques e botinhos de borracha, que costumam se aproximar pra ver que espécie de animal aquático é aquele.
O convívio costuma ser pacífico. Já a aproximação de lanchas e jetskis pode deixar o triatleta nervoso e agitado.


Ciclovia

Placa na ciclovia - (do blog De Verde Casa)
Muito se engana aquele que imagina que na ciclovia da CPTM os triatletas compartilhem o galho, digo, a pista apenas com seus parentes próximos – os ciclistas.
Ali os habitantes são outros mamíferos: roedores. As placas avisam logo no início do trajeto: cuidado com os animais silvestres – capivaras. E lá estão elas, tomando sol à beira do perfumado Rio Pinheiros, sem tomar conhecimento dos primatas sobre rodas.
Mas não são apenas as simpáticas capivaras que freqüentam o pedaço. Outros roedores, nada simpáticos, também atravessam a pista sem a menor cerimônia. Outro dia estávamos por ali e o mesmo rato (que parecia mais um cachorro) cruzou a pista na nossa frente três vezes.
Eca.

Outras
Estas são algumas situações permanentes em que invadimos ou compartilhamos os galhos alheios. Mas há outras, mais esporádicas: entrar no banheiro do posto de gasolina no meio de uma estrada – suada, de capacete e sapatilhas – enquanto o pessoal que veio de ônibus lá de Aparecida faz uma parada. Aparecer na piscina da academia com a roupa de borracha pra fazer um treininho pré prova. Parar no meio de um longão na chuva, ensopado e entrar numa padaria qualquer pra comprar um gatorade.
Por um lado, a gente vai se acostumando com os olhares incrédulos, mas, por outro, é preciso tomar cuidado pra não achar que somos mais donos dos galhos do que os outros macacos que os freqüentam conosco. Com exceção, é claro, do que não são macacos, são ratos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Insônias



Atire o primeiro lexotan aquele, triatleta ou não, que nunca foi assolado por uma insônia.

Diversidade de insônias

Existem vários tipos de insônia. Há aquelas que vão junto com a gente para cama: encosta-se a cabeça no travesseiro, apaga-se a luz e pronto, lá está ela, sorrindo na escuridão. Outras nos despertam no meio da noite, como se já estivéssemos atrasados para o treino, e varamos a madrugada, até que os pássaros comecem a cantar e o dia a clarear. Outras – as piores - viram a noite com a gente, estraçalhando nossos sonhos de treino pela manhã e embotando nosso dia inteiro.

Há insônias por motivos óbvios, como as insônias de véspera: de viagem, de competição, do parto. Há as insônias de preocupação: problemas de saúde na família, dívidas, incertezas na vida profissional. Há insônias de paixão: seja de felicidade, porque o ser amado nos ama e não sossegamos o facho de tanto contentamento ou, pelo contrário, o ser amado não nos ama, então a tristeza nos inquieta e nos impede de dormir em paz. E, claro, há insônias que combinam várias dessas razões e mais outras tantas.

Insônia de triatleta

Os triatletas têm um tipo especial de insônia chamado “descanso também é treino”. Acordamos cedo todos os dias para correr e/ou pedalar e/ou nadar, trabalhamos, nos alimentamos, cuidamos dos filhos, então queremos, o mais cedo possível, nos colocar na posição horizontal, fechar os olhos e apagar. Só descansando adequadamente é que nosso corpo assimila os treinos. Além disso, costumamos estar exaustos por volta das nove da noite.

Mas o sono tem seus caprichos. E mesmo fazendo tudo direitinho, indo pra cama cedo, podemos ser surpreendidos por uma das piores espécies de insônia: o corpo está cansado, dormimos pouco na noite anterior, o cérebro já não está funcionando bem... mas não conseguimos desligar. Os pensamentos começam a ficar confusos, o corpo parece que está afundando na cama... estamos quase lá... quando, sem mais aquela, uma voz parece nos chamar e nos trazer de volta ao estado de alerta. Então caímos na besteira de consultar o relógio. “Oh, droga! Faltam apenas 4horas e 45 minutos pra eu acordar!” Pronto. Era o que faltava para piorar a noite. Começamos a contabilizar os prejuízos da noite mal dormida e isso nos deixa ainda mais despertos. Danou-se. A gente, que gosta tanto de controlar tudo, de medir (e aproveitar) o tempo em segundos e “derrubar” as planilhas de treino cumprindo tudo que está ali fica desesperado quando se depara com uma situação dessas: não mandamos no nosso sono. É simples assim. E como isso é complicado!

Minha insônia

Noite passada sofri uma dessas. Deitei exausta. A noite anterior fora mal dormida (caiu uma tremenda tempestade durante a madrugada em Brotas onde eu estava), de manhã os meninos e eu nos aventuramos por uma mega tirolesa, à tarde 250 km dirigindo de volta pra São Paulo e à noite 18 km de corrida no Ibira. Comi, tomei um banho e caí na cama. Nem era tão cedo. Cadê o sono que estava aqui? Puf, sumiu num passe de mágica. Panquequei na cama, virando de um lado pro outro – pensando em todos os temas possíveis: filhos, trabalho, marido, treinos, futebol, férias, encanamento, escapamento do carro, aniversário, vida após a morte...até...(não olhei no relógio para não me desesperar) apagar um pouquinho para acordar antes do despertador que iria tocar as 4h22. Levantei até mais disposta do que imaginava, me troquei e fui pedalar.

Alguma idéia?

Não é muito comum isso acontecer. Pode ter sido a adrenalina da tirolesa, o TNT que tomei pra não ter sono na estrada, as preocupações com minha vida profissional e também porque corri apenas um par de horas antes de deitar. Não estou acostumada e talvez tenha ficado com endorfina demais circulando pelo sangue. O mais provável é que tenha sido uma combinação de todos esses fatores. De qualquer modo, estou planejando fazer meus treinos longos de corridas às quartas à noite e às quintas de madrugada vou pedalar. Será que dá pra acostumar?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Rápidas e rasteiras

Saí de férias e abandonei este blog. Pensei que iria ter mais tempo de escrever, mas incrível como a gente consegue se ocupar com tanto tempo livre. Quando se vê, o dia já foi e ainda é preciso providenciar jantar, traçar o jantar e ainda convencer os pequenos a irem pra cama. Na hora em que o movimento termina, só penso em dormir.

E como tenho dormido. Sem neuras. Treino na hora que dá. Estou descansada.

Levei meus filhos para aprender a surfar em Camburi. O professor, um surfista mais do que experiente e velho amigo meu - Rikka Costa, não só domou as ferinhas como conseguiu me convencer a tentar subir na prancha. E não é que eu consegui? Tá certo, foram três vezes, era um LONG BOARD mas eu fiquei em pé! É bom não ter medo de aprender coisas novas.

A filhinha adotada este ano – a Julinha – veio passar uns dias com a gente. Esta “adoção de coração” foi uma das melhores coisas de 2010.

E por falar em Julinha, dia desses aqui na praia, fomos dar uma corrida em Maresias. Fomos de carro até lá porque por aqui a estrada não tem acostamento e lá tem. Mas o movimento estava intenso, mesmo antes das 8 da manhã, e não foi um treininho propriamente relax. Uma hora mais ou menos depois que terminamos aconteceu um acidente feio por lá. Um bêbado, sem carta, resolveu fazer uma ultrapassagem bem no meio da muvuca. Pegou um cara de frente, em cheio. Parece que matou uma mulher. Péssimo.

Virei o ano bebendo, comendo chocolate e até um franguito à passarito de vez em quando. Vou voltar pra Esparta paulatinamente. Primeiro a cair fora: álcool.

Como é de praxe quando estamos na praia, enviamos uma embarcação com pedidos para Iemanjá. Fiz um pedido BEM EGOÍSTA. Óbvio, não vou compartilhá-lo com vocês. Por outro lado, minha promessa é pública: pretendo ser mais gentil este ano. Em primeiro lugar, com meu parceiro de vida mais próximo e importante: o marido, em segundo, com as pessoas. Copiei a idéia de uma amiga - Ana Castro. A meta é pelo menos uma gentileza por dia.

Terminei o ano esportivo com uma mudança importante: de técnico. Depois de quase quatro anos com o Emerson Gomes, passo a ser atleta do Wagner Spadotto. Continuo amando o Emerson e sei que fizemos um ótimo trabalho mas, como disse a ele, já me conformei com o fato de que tenho vários homens fixos na minha vida. O marido, por exemplo, não pretendo substituir pra dar uma variada... Mas o técnico, aí é possível!

O Wagner é um cara sério e competente. Neste ano conseguiu estar entre os poucos triatletas classificados pra Kona. E não só isso. Foi lá e fez bonito. Mas não foi por esta razão que eu quis tê-lo como técnico. Na verdade sinto que tenho uma grande afinidade com ele e que será muito interessante mudar a forma de trabalho. Serei mais exigida. Vamos ver.

O melhor post do ano é o que está no blog da Thelma. Não deixem de ler.

Então foi dada a largada pra temporada 2011. Não sei bem ainda o destino deste blog. Percebo que estou com vontade de escrever sobre outros temas que não os treinos e provas. A ver o que acontece.

Como não poderia deixar de ser, meu voto para 2011 é que as pessoas estreitem seus laços e alarguem seus horizontes.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Amarga derrota

Já escrevi algumas vezes neste blog sobre competir. E, nesses textos, falei de passagem sobre perder. De passagem mesmo porque desde que comecei a competir na vida adulta não passei por nada que pudesse lembrar uma derrota. Escrevo isso sem nenhuma arrogância. É verdade. Como a competição é mais do que qualquer coisa, comigo mesma e com os desafios aos quais me proponho, toda vez que me posiciono na largada, já me sinto uma vencedora (a Thelma escreveu belamente sobre isso no blog dela). Na linha de chegada, salvo um DNF que me aconteceu no meu primeiro Troféu Brasil por conta de um pneu furado, minha experiência também tem sido bem sucedida.
Mas nem só de trathlon vivemos nós e as derrotas podem acontecer em outros departamentos da vida. E serem muito mais penosas.
Eis que estou me havendo com uma derrota acachapante. Não foi nocaute. Foi por pontos. Veio aos poucos, se configurando um pouco a cada semana. A cada direto de direita que eu levava, ficava meio atordoada, tentava me recompor, mas percebia que a vitória estava ficando mais difícil.
Chega de tergiversar: a triste notícia é que meu filho mais velho levou pau na escola. Para qualquer mãe, isso já é duro, mas, pra mãe educadora, é o pior dos mundos.
Trata-se do meu mais velho, que está com 16 anos, idade em que os hormônios aceleram sua influência no comportamento na mesma medida em que os neurônios desaceleram em competência. Ano passado, no 1º do Ensino Médio, depois de empurrar com a barriga dois trimestres e meio, ele fez um certo esforço e passou por um triz, já na prorrogação. Na ocasião, fui muito clara: "Espero que você tenha aprendido a lição certa - não deixar as coisas se acumularem - e não a errada - 'passei um sufoco, mas no fim do tudo dá certo'." Pelo jeito, ele aprendeu a errada. Começou o ano "na flauta" e os problemas foram crescendo.
Desde abril - quando recebi o primeiro boletim e conversei com a coordenadora da escola dele - que venho apertando o cerco, tentando acompanhar mais de perto. E como é difícil.
O menino não tem nenhum problema, déficit de aprendizagem ou coisa que o valha. Não. Simplesmente não percebeu, ainda, que precisa começar a tomar as rédeas da própria vida. Na vida adulta, explicar pro chefe que você não terminou seu trabalho porque acabou o papel da impressora, ou porque alguém de sua equipe esqueceu de fazer uma parte ou porque a janela estava aberta e o vento levou...não cola!
Fiquei em cima - colocava um celular pra despertá-lo e ia com outro ao treino da madrugada, se ele não me ligasse na hora em que devia acordar eu parava no meio do treino pra tirá-lo da cama. Contratei um professor particular para dar umas aulas de reforço, limitei ainda mais os horários de computador e as saídas noturnas "para balada" foram pouquíssimas ao longo do ano. Não foi suficiente. Tivemos discussões horrorosas, brigas homéricas. Quando o trimestre foi terminando e as provas finais se aproximando, ele insistiu para que o deixasse fazer as coisas do seu jeito, que tudo iria dar certo. Recuei e parei de apertá-lo. Sentia a iminência do desastre e acreditava que quanto mais ele assumisse a responsabilidade pelos acontecimentos, melhor.
Não estou arrasada, mas estou triste. O custo deste erro de cálculo é alto. Por outro lado, só na derrota é possível perceber que a estratégia não funciona.
Se, de novo, ele passasse de ano estudando só para as provas finais, teria a confirmação de que, sim, é possível dar conta do recado na última hora. Embora me doa o coração, penso que esta era uma derrota necessária à aprendizagem de uma lição importante.
A lição não é só dele. É minha também. Estou pelejando para aprender a ser mãe de adolescente. Dar conta de criança, colocar limites, dizer "não", botar no colo, fazer as perguntas certas, calar quando convém...é, para mim, muito mais fácil com os três menores. Cansa, é verdade. Erro também, mas acerto muito mais vezes. Mas quando TODOS os limites são questionados, os "nãos" desobedecidos ostensivamente, as perguntas - provavelmente erradas - recebem respostas evasivas e o colo parece ser pequeno e inadequado pra acolher aquele "homão" no qual ele se transformou... a sensação é de que erro muito mais do que acerto.
Talvez este episódio venha a se transformar na pedra fundamental não apenas das mudanças dele com relação aos estudos, mas também numa nova maneira de a gente se relacionar. Quem sabe, daqui um pouco, este gostinho amargo dê lugar a sabores mais agradáveis. Tomara.