quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ironman II - Algumas histórias - Véspera

Que festa é essa?

Na noite de sexta-feira, antevéspera da prova, quem entrasse no saguão do hotel Il Campanário e não soubesse da existência da prova de Ironman ficaria intrigado.
Pedro, Nilma e eu, no bar, mas não pra beber
A primeira impressão é que está rolando uma festa. Muitas pessoas, embora não haja música, o clima é animado, há várias rodinhas de conversa. Poderia ser um casamento mas os trajes, esportivos (não esporte fino), não condizem com uma ocasião dessas. Também não se vêem bebidas alcoólicas, apenas água, café, sucos, isotônicos.
Quem sabe é uma convenção de alguma empresa? Também não. Há famílias inteiras — do patriarca setentão ao bebê de colo —, e crianças correndo pra lá e pra cá.
A maioria das pessoas está na faixa dos 30. O observador continua intrigado. Se não é uma festa e não é uma convenção... Talvez seja uma excursão! Mas, para onde, se está todo mundo, em plena sexta-feira, nove da noite, enfiado dentro do hotel em vez de passear?
É realmente uma cena inusitada e os não iniciados precisam de informações para poder fazer alguma idéia de que fenômeno é este. É bem possível também que, ao ouvir as explicações, conclua que, de duas, uma: ou ele não entendeu direito ou aquele bando todo, que irá para o matadouro em menos de 48 horas, é completamente insano em estar assim, relaxado, festejando, como se fosse divertir-se!

Outro mundo
Era este o clima quando minha família chegou na 6ª feira. Uma grande confraternização.
Desta vez, diferente de 2010, tratei de ficar em um dos hotéis “da prova” – o Campanário, onde ficam boa parte dos atletas. É caro? Sim, é. Mas vale muito a pena. No ano anterior, quis economizar, e o barato saiu caro.  Em primeiro lugar, porque a diferença de preço não é das mais absurdas e a qualidade da hospedagem e os serviços são muito, mas muito superiores. Fiquei sem café da manhã, sem espaço, sem janela e sem a arrumação diária do quarto!!! Foi um estresse.
Este ano, além de todo o conforto e dos serviços de qualidade (translado pra expo, transição e largada, casa de hospitalidade e oficina no hotel) o melhor de tudo era estar junto com os amigos todo o tempo. Julinha, Pedro e Nilma quase sempre, e ainda outros como Flavio, Valter, Marcos, Cesar, Giovane, PG, Kaká ...
Eu, Pedro, Daniel, Nilma, Marcos e Julinha
logo depois do treino no mar.
Essa convivência é um bálsamo. A gente pode ficar falando de Ironman 100% do tempo que ninguém vai reclamar.  Estratégia para alimentação, os trajes, as rodas, o ritmo, a forma física dos concorrentes às vagas para Kona... Os temas vão e vêem, com pequenas variações, temperados de risos e gozações mas também de palavras de apoio e confiança.
É um descanso pra cabeça. Esquecemos trabalho, família, dívidas; dos problemas pessoais, nacionais ou mundiais. Ficamos totalmente alienados. Se estourar a terceira guerra mundial e viermos a saber, nossas únicas preocupações serão: “Vai atrasar a largada? Haverá buracos no asfalto?”

Família ê
Os familiares, de modo geral, intuem que ali acontece uma loucura coletiva e, sabiamente, ficam no apoio e na torcida sem cobranças, nem exigências de atenção. Mesmo os acompanhantes de marinheiros de primeira viagem – como o Nilton e a Mônica, pais da Julinha, por exemplo, rapidamente perceberam que deveriam estar ao alcance de um telefonema, mas que não precisariam escoltá-la.

Os meus acompanhantes, que já conheciam o andamento daquela carruagem, foram na medida. A prioridade eram meus horários e ninguém ficava ofendido se, por acaso, meu programa era almoçar às13h e jantar às 20h e não acompanhá-los no almoço das 14h30 e jantar às 21h.
Mamãe na piscina...
...papai lendo. Eles também se divertiram um pouco!
Minha mãe cuidou da retaguarda, meu pai me acompanhou na entrega da bike e o marido ficou como um anjo da guarda, pairando por todos os lugares ao mesmo tempo: cuidando das crianças, atento às minhas necessidades e curtindo também o clima geral com os amigos.

Preparativos e ajustes
No sábado de manhã já estava quase tudo pronto para a entrega das sacolas e bike.  
Aconselhada pelo Wagner, decidi comprar aqueles recipientes de colocar gel diluído em água então ainda dei uma chegada a jato na feirinha. A feira abria às 9h. Às 9h10 já estávamos de volta, Ju e eu, com as garrafinhas.
Faltavam apenas detalhes: passar veda-rosca nos prolongadores de válvula (para os leigos – as rodas de competição são mais largas e, por isso a válvula dos pneus ou câmaras precisa de um prolongamento ou não há como enchê-los), passar cola nos pneus tubulares reservas (para os leigos – este tipo de pneu sem câmera é colado à roda) e prender um deles no suporte.

Wagner, meu técnico, tinha chegado na noite anterior e eu estava aflita para falar com ele. Queria que ele desse uma olhada na bike, ajeitasse o pneu no suporte, discutisse comigo detalhes da mudança relativa às sacolas de special needs.  Vou precisar fazer um tópico sobre esta questão. Vamos lá:

Sacolas em geral, e special needs em particular– pra leigos e não tão leigos

O kit da prova de Ironman tem, além do chip de cronometragem, uma camiseta (que não é a de finisher) e dois números de peito, SEIS sacolas: uma branca – geral; uma preta – natação, uma azul – ciclismo, uma amarela – corrida, uma verde – special needs ciclismo e uma vermelha – special needs corrida.
Sacolas personalizadas...
O planejamento do que vai em cada sacola leva meses e, um erro ou esquecimento pode ser (quase) fatal.  As mais importantes são a azul e a amarela. A azul você pega quando sai do mar, antes de ir pra bike. Ela deve conter, no mínimo, o seu capacete. Ele não pode ficar na bike e, sem este item, você não pode pedalar. Além disso, podem também estar nela uma roupa seca, óculos escuros, chamois butter (creme contra assaduras causadas causadas pelo atrito com o selim), número de peito (se você não estiver com ele, deve colocar neste momento) e parte da comida que vai consumir durante o pedal.
Na sacola de amarela, o mínimo que ela deve ter é um par de tênis, a menos, é claro, que você pretenda aderir à moda de correr descalço... mas não recomendo.  O que também pode ficar nela é um par de meias, o número de peito reserva preso a uma cinta reserva (pro caso do seu ter rasgado durante o pedal), um boné ou viseira, géis e outros suplementos.
...com adesivos coloridos!
E as special needs, afinal? Até o ano passado estas sacolas poderiam ser deixadas ou com os staffs ou com algum amigo ou parente que ficavam numa área delimitada pela organização da prova na qual o atleta poderia parar rapidamente para pegar, por exemplo, outro pneu reserva, uma garrafinha com suplemento, mais alimentação.
Qual a vantagem? Não ter de sair carregando um monte de peso morto. Afinal, a gente paga uma fortuna pra ter a bicicleta de carbono, levíssima e depois enche de tranqueira e recupera o peso perdido.
No special needs da corrida geralmente, o que se deixa é uma blusa de manga longa para o frio que chega ao cair da tarde, um tênis reserva, uma meia, algum suplemento.
Dá pra passar sem? Dá mas era preciso repensar as estratégias.
Agora um parênteses. ( ) Preciso tirar meu chapéu pro Carlos Galvão, organizador da prova. Quando o pessoal tomou conhecimento de que as sacolas de special needs não iriam mais poder ser entregues, que cada um ia ter de pegar a sua — todo mundo reclamou.  Minha expectativa era que na hora em que Galvão falasse sobre isso durante o congresso técnico fosse haver um protesto generalizado.
A expectativa era grande quando ele foi se aproximando do assunto. Na hora em que apareceu o slide que dizia SPECIAL NEEDS, pensei “é agora que o bicho pega!”. Ele foi, direto, firme e objetivo:
- Conforme está no regulamento da prova deste ano (Rá rá, ponto pra ele! Quem leu o regulamento???) cada atleta será responsável por pegar sua sacola de special needs.
- Isso é uma orientação dada pela WTC para todas as provas de Ironman.
- Vai ser muito melhor e mais organizado. Além do que, o special needs do ciclismo pode ser acessado nos km 45 e/ou 135 e da corrida em qualquer uma das três voltas.
Ninguém deu um pio. No final, ele ainda foi aplaudido efusivamente.
Para mim, foi uma lição. Comunicação é tudo. O cara não deu brecha pra discussão e nem por isso foi antipático ou autoritário.  Palmas pra ele.

Continuando os preparativos e ajustes
 Então decidi com o Wagner que não faria parada no special needs da bike a menos que furasse um pneu, pra pegar o reserva.  No mais levaria uma garrafa no suporte traseiro e outra no quadro, ambas com R4 (suplemento líquido). No quickdrink colocaria água e gatorade, reabastecendo nos postos.
Conversamos sobre alguns detalhes e combinamos de nos encontrar na hora da entrega de bike e sacolas.

Entrega de sacolas

Wagner prendendo o pneu no suporte
antes da entrega da bike
Fomos, meu pai de câmera em punho, e eu, dentro do horário estipulado pela organização que, este ano, foi seguido rigorosamente. Resultado? Não tinha fila alguma!! Lado bom, não tinha demora. Lado ruim, não teve a animação e os encontros que rolaram em 2010. Ano passado, como a fila era quilométrica, ao passar por ela a gente encontrava todo mundo que não tinha visto ainda.
Mas encontrei o Wagner de novo, a Cicarelli – miss simpatia de sempre, a Mari e o Diglu. Na hora de entrar com a bike na transição, a grande surpresa: o Arthur lá estava como staff! Ah, foi o máximo! Esvaziamos um pouco os pneus – porque ainda estava sol e os tubulares são danados pra estourar quando está quente -, depois colocamos a bike no suporte. Ele me aconselhou a levar as sapatilhas, me ajudou a encapar a bike (ainda bem que eu tinha guardado a capa do ano anterior) e se despediu prontificando-se a me ajudar no dia seguinte.
Dali fui deixar as sacolas na tenda. Desta vez personalizei minhas sacolas. Não queria correr o risco de ter alguma perda novamente.
Recepcionada pelo Arhur, staff mais que especial!
Tudo entregue, voltamos pro hotel para a última etapa de preparação: comidas.

Bisnaguinhas!!!
Julia, Nilma e eu preparando a merenda.
Reparem como estou comprimindo  a bisnaguinha
Julinha, Nilma e eu. No centro da mesa, vários pacotes de peito de peru, caixas de poleguinho light, sacos de bisnaguinha, potes de geléia sem açúcar, bananinhas, goiabinhas, minhoquinhas, stiksy, papel alumínio, pratos, colheres e facas.
Nossa conversa era de alto nível:
“Você usa um polenguinho inteiro numa bisnaguinha? Não é muito?”
“Que geléia é essa?”
“Essa minhoquinha não gruda no dente?”
O auge do nosso colóquio ocorreu quando a Federmann resolveu nos instruir acerca da técnica de diminuição do volume dos panifícios de pequeno porte através da compressão para retirada total do volume de ar. Traduzindo: ela ensinou como esmagar a bisnaguinha de modo que ela ficasse quase da espessura de uma folha de papel (papelão, vai...)
Na primeira demonstração ela pegou uma bisnaguinha recheada de polenguinho e foi até a porta de entrada do quarto, inseriu pouco abaixo da dobradiça e fechou. Resultado: polenguinho all over the place, inclusive ao lado do elevador!
Conclusão: melhor esmagar bisnaguinha sem recheio. Aí sim. A técnica foi infalível e a quantidade de bisnaguinhas por metro cúbico que podem ser colocadas no bento box é dez vezes maior do que quando não é comprimida.
Profa Dra J. Federmann ensinando a técnica de extração
máxima  de ar do panifício
As minhas eram todas recheadas então não utilizei a técnica da porta mas aproveitei o princípio da compressão e esmaguei-as com as mãos, de modo que elas realmente ficaram bem menos volumosas!
Demos muitas risadas e chamamos a Mônica, mãe da Juju, pra registrar o momento impar.

Ironman II - Algumas histórias Momentos de TAMsão

Depois da história do cateye achei que a sorte estava sorrindo para mim. Ate que recebo um torpedo do marido, que ainda estava em São Paulo. Era 5ª feira. “Onde estão as passagens de volta dos kids? Só encontrei as nossas”.
Eu havia emitido todas as passagens. Doze e-tickets. Ida pela Gol, volta pela TAM, vários deles tirados por milhagem, no início de março. Eu achava que tinha deixado tudo impresso em SP.
Assim que recebi o torpedo, subi até o quarto do hotel pra ver se, por acaso, estavam comigo. Não estavam. Desci e fui até a salinha dos computadores. Acessei meu webmail. Fucei e só achei seis, SEIS mensagens com as passagens do marido e minha. Das crianças, nada. Comecei a suar frio.
 Era hora de jantar. Nem fome eu tinha. Sentei à mesa com a Nilma e o Neto mas não conseguia desligar do assunto. Pobre Nilma. Deixei-a preocupada também.
Da mesa de jantar, de frente para o sexta refeição de macarrão com molho de tomate fresco, peito de peru e batatas assadas da temporada, liguei pra Celina, minha secretária, pra me certificar de que não estava louca. Tinha certeza de que havia emitido as passagens, mas precisava de uma confirmação. Muitas vezes praticamos o crime falsidade ideológica, nós duas. Ela se passa por mim pelo telefone para adiantar o expediente em coisas deste tipo. Celina se lembrava de que eu/ela realmente havia emitido ida e volta, em companhias diferentes.
Voltei à sala de computadores, entrei no site da TAM, xeretei na área “meus bilhetes” e nada. Liguei pra TAM. Expliquei a situação e pedi para procurarem meus filhos na lista de passageiros. Tinha o número do vôo, o dia, a hora, nome e sobrenome. O atendente (pra sorte dele, esqueci seu nome), de audível má vontade, disse “não consta, senhora.” Pânico.
Liguei pra casa e pedi pro Theo, meu filho mais velho, abrir meu computador e procurar na minha caixa postal. Embora o marido estivesse em casa eu não queria nem que ele desconfiasse do que estava acontecendo. Vai que eu tinha apagado a mensagem com o e-ticket do webmail... Ele encontrou só as passagens de ida, da Gol e as de volta, minha e do Roi.
Voltei ao restaurante. Estava desnorteada. Comecei a fazer as contas do prejuízo que iria ter:
1. Dificilmente haveria quatro lugares disponíveis no mesmo vôo que o nosso, portanto um de nós teria de perder a passagem para viajar com os meninos. Seriam cinco bilhetes comprados de véspera, muito mais caros.
2.  Passagens para 2ª feira? Rá! Sem chance. Então, além de tudo, teria de arcar com pelo menos mais cinco diárias.
Sem contar o desgaste de ter de resolver uma encrenca dessas àquelas alturas. Véspera do Iron. Era hora de ter de me preocupar com isso? Definitivamente, não.
Lembrei da viagem pro mundial de 70.3, em Clearwater, quando perdi os documentos no aeroporto, passaporte inclusive.
O pior era a sensação de que eu devia estar com a cabeça avariada. Ou a TAM estava fazendo uma grande besteira.
Nilma sugeriu que eu entrasse no site do Fidelidade TAM e verificasse meu extrato. Ela se levantou pra buscar o seu netbook, quando, acabou a energia. Pronto. Ficamos no escuro, e eu não iria conseguir checar.. Que remédio? Acabei de engolir minha refeição. Nilma e  Neto tentavam me acalmar “Liga de novo na TAM... às vezes é o atendente que não sabe procurar...”
O pessoal em volta percebeu que eu não estava pra brincadeiras. Minha cara deveria estar péssima. Ninguém fez gracinha.
A energia voltou e, como o netbook não estava encontrando a rede wi-fi fui até a salinha de computadores mais uma vez. Sim, as milhas tinham sido debitadas da minha conta. Onde diabos então estavam as passagens???
Tanto naveguei pelo site que acabei chegando numa página com uns códigos estranhos. Cliquei no primeiro. Mais uma vez, era minha passagem. Clique no segundo... achei a passagem do Theo! Nem tudo estava perdido. Já era um bilhete a menos pra pagar. Uma diária a menos também. Cliquei no terceiro código. Achei!!! As três passagens estavam lá. No mesmo vôo que eu!
Anotei os números e liguei, espumando, pra TAM. Desta vez, foi a Jennifer quem me atendeu. Contei toda a novela e passei os códigos. Claro que ela encontrou. Reclamei a respeito do coleguinha que não tinha encontrado com os nomes e sobrenomes. Sabem o que ela me respondeu? “Ah é porque ele precisa checar a lista toda de passageiros!” Nossa. Que difícil. Mais fácil dizer que “não consta”. Dá pra acreditar?
Solicitei que ela me enviasse os bilhetes eletrônicos e não desliguei a ligação enquanto eles não apareceram na minha caixa postal.
Respirei aliviada e voltei a sorrir. Mas, definitivamente, não precisava ter passado por essa.


terça-feira, 31 de maio de 2011

Ironman II — Algumas histórias — Olho de gato

Depois da novela do taquinho, finalmente fui dar uma volta com a bike. Eis que descubro que o Cateye (minicomputador de bordo que dá a velocidade, velocidade média, velocidade máxima, tempo decorrido, hora, distância e RPM) não está funcionando.
Cato a magrela e vou direto à oficina falar com o Manuel. Detalhe o Manuel - irmão do famoso (ao menos no mundo das bikes ele é famoso) Johnny Lin é o primeiro descendente de japonês que eu conheço com este nome. Pode ser preconceito meu, mas não combina. Mas isso não tem nada a ver coma história e o cara é o maior gente fina. Ele, o Edu e mais outro mecânico cujo nome não cheguei a saber, trabalharam incansavelmente das 9 às 19, sempre disponíveis e bem humorados.
Edu girou a roda pra lá, virou cateye pra cá... e nada de funcionar. Só marcava o RPM (giro). Até que ele pegou o sensor de outra roda – e o sem-vergonha funcionou. O sensor é um pequeno imã, de cerca de 5 milímetros de diâmetro que fica preso a um dos raios da roda.
Depois da confusão com o taquinho, parecia um problema simples de ser resolvido. Engano meu. Eles não tinham imãs sobressalentes. Lá ia eu de novo até a feirinha ver se achava alguém que vendesse. Já sabendo que precisaria de sorte párea encontrar sensores avulsos à venda. E comprar um novo conjunto de cateye completo estava fora de cogitação.
Chegando lá, fui direto ao stand do Max. Ele já tinha me salvado uma vez... quem sabe não me salvaria mais uma. Vi-o por ali, mas fiquei com vergonha de abordá-lo – “aquela maluca de novo” ele poderia pensar. Então encostei no balcão fiquei buscando com os olhos alguém que me atendesse.
Um cara parou bem na minha frente, do outro lado do balcão. Ele não tinha crachá de expositor. Sei lá porque, olhei pra ele e pergunte “você tem sensor de Cateye?”
Ele me olhou incrédulo e, em vez de responder, enfiou a mão no bolso e começou a procurar alguma coisa. Fiquei olhando pra ele e aguardei. Meio hesitante, ele me disse
“Tenho um a mais, aqui no meu bolso”
“Você não trabalha na loja?”, perguntei
“Não. Eu vim aqui pra comprar um tênis”, ele respondeu e me mostrou o saco plástico que segurava na outra mão.

O imã sensor, preso ao raio

Aí fui eu quem ficou de queixo caído.
“Ma-mas você não é da loja? E tem um sensor sobrando?”
“Pois é”, disse ele
“E você vai me emprestar?”
Ele, conformado, respondeu “Vou, né... acho que eu trouxe ele pra você!”
Tirou do bolso e me deu.
“Você é um anjo que caiu do céu!”
“Não, vim de Tocantins mesmo...”
Perguntei seu nome, trocamos os celulares e prometi devolver depois da prova. Não nos encontramos, mas acabei de mandar um torpedo pra ele pedindo o endereço pra enviar pelo correio.

Obrigada, Walter, de Tocantins!




Ironman II – algumas histórias Operação troca taco

Bike nova, sapatilha nem tanto
A 35 dias da prova tomei uma decisão bastante ousada e quase imprudente. Trocar de bicicleta. Não só porque teria pouco tempo pra me habituar a ela, mas, principalmente, porque estaria me endividando por, ao menos, cinco meses. O que eu não poderia imaginar é que a maior dor de cabeça que teria com essa mudança seria por conta do taquinho.
Quando fui montar a bike nova, os “especialistas” torceram o nariz: “hummmmm... este seu taquinho está muito fino. Vai quebrar. Precisar trocar.” “Ok”, respondi, “troque-se o taco”. Mas já era tarde. Eu queria pedalar no dia seguinte que era feriado e, como não tenho outra sapatilha, deixei pra fazer isso no sábado.
Para quem não é do ramo, esclareço que o taquinho é uma peça que fica embaixo da sapatilha e encaixa no pedal. A posição do taquinho é decisiva na geometria da pedalada. Taquinho torto, pedalada torta, desconfortável e, dependendo da distância, passível até de causar uma lesão.
Vai e vem
No sábado deixei a bike e a sapatilha. Na segunda, a bike estava pronta, mas a sapatilha... “Os parafusos oxidaram, está muito difícil de tirar. Precisa deixar de molho no WD40”. De novo, tinha treino no dia seguinte e não podia deixar a sapatilha. Levei pra casa, enchi de WD40.
Depois do treino deixei a sapatilha lá de novo. Na quarta, fui buscar. Não estava pronta.
“Não conseguimos. Não quer comprar uma nova?"
“Não. Esta está amaciada. Molinha. No jeito. Não quero usar outra
“Vai precisar serrar por dentro. Você usa palmilha?”
“Uso”
“Então deixa aí que nós vamos serrar.”
“Não deixo. Amanhã tem treino. Deixo depois do treino”.
Deixei depois do treino. Telefono pra saber. Tem treino no dia seguinte. “Já já fica pronta e eu te ligo. Meia hora”. Não ligou. Corro atrás de uma sapatilha emprestada. Minha amiga Kelly, me salva. Vou até a casa dela, quase nove da noite. Ela me espera de pijama na porta do prédio. Temos treino logo cedo.
Acho que foi só na 5ª vez, quando fiquei lá esperando, que a troca de taco foi feita. Agora precisava retornar ao Igor, do bike fit, pra fazer os ajustes. Chego no Igor, de taquinho novo, mas ele não consegue abrir os parafusos! Estão espanados.
Volto pra loja, troco os parafusos e o taquinho é ajustado. Mas não fica bom. Meus joelhos estão virados pra dentro. Só que é dia 24 de maio. Embarco no dia seguinte. Ligo pro Igor, mas não consigo falar. Não dá mais tempo. Agora é rezar pra encontrar algum santo que me ajude.

Em Flops
Chegando em Flops vou direto à oficina do hotel. O Manuel, irmão do Johnny Lin, me explica que arrumar o taquinho não está na programação deles. Nem têm os materiais necessários. Vou ter de arranjar esquadro, transferidor e um rolo! Rolo é um suporte onde se coloca a bike para pedalar com ela estacionada e também para fazer os ajustes do taquinho, selim, guidão etc.

Meu anjo salvador e eu

Está fácil... mando um torpedo pro pessoal, perguntando quem tem um rolo - sempre tem algum maluco que leva – mas, os que me respondem, não só não tem, como acham que estou maluca e ainda tiram uma da minha cara. A engraçadinha da Kelly responde “tenho rolo de macarrão, serve?”. O tempo urge e ruge. Fazer um novo fit, agooora????
E lá vamos eu, bike, sapatilha e seu marido, o taquinho, rumo à feirinha. Alguém há de me salvar. Vou passando ao lado das oficinas, meio perdida. Um careca grandão se posta ao meu lado e pergunta
“Posso te ajudar em alguma coisa?”

“Siimmmm! Pode me salvar!!!”

Então explico a situação pra ele. Ele coloca a bike no rolo e começa o seu serviço. Além do taquinho, ele alinha meu banco que está empinado pra cima, e abaixa ele um pouquinho. É simpático, firme e seguro. Quando pergunto seu nome, se apresenta, humilde “Sou o Max”. Quase caio das pernas (ou melhor, do rolo). É o Max, da Kona Bikes. Mega atencioso. Fica 15 minutos comigo e ajusta o taquinho. Não me cobra nada. Apenas que faça uma boa prova.

Obrigada Max, de Curitiba!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Longão na estrada

Ronaldo, Serginho, Diogo, Kaká, eu, Wagner e Roi. Missão cumprida.


Pico
Domingo, dia 1º de maio, rolou o treino de bike. É aquele tal, de 180 kms,  para o atleta ganhar confiança, saber que dá conta do recado, que segura as pontas (as costas, as pernas, os quadris). Nessa mesma semana rola também o famoso mais longo de corrida que, para alguns ultrapassa os 30 kms mas, a maioria faz até esta marca. É o pico do treinamento. E a sensação é essa mesmo. Vamos subindo, subindo e a cada semana a trilha fica mais íngreme, mais cansativa.


Temores
O Wagner, meu querido técnico, decidiu organizar um treino na estrada: Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Relutei muito em ir. Muito mesmo. Tenho um medo lascado de morrer na estrada. Sou cautelosa, não solto o freio e vou a 60 por hora nas descidas, ando o máximo possível à direita, presto a maior atenção nas entradas e saídas da rodovia mas... Não depende apenas de mim. Um carro desgovernado, um caminhão distraído, um buraco no acostamento... A chance de um incidente transformar-se em acidente e em uma tragédia, existem e não são remotas. Além disso, não gosto de retardar o grupo quando sei que a maioria pedala mais forte que eu. E ficar sozinha na estrada, não dá.
Depois de muito ponderar, discutir com o Wagner todos estes medos e saber que: 1. teríamos dois carros de apoio, 2. ele pedalaria uma boa parte com os mais lentinhos, 3. que meu maridão iria me escoltando, acabei topando.
Amanhecer
Chegamos no posto BR da Ayrton Senna com o dia clareando. O grupo era: Kaká, Ronaldo e Diogo - mais fortes e Serginho e eu - cafés com leite - e o Roi, meu marido, que não é café com leite, mas foi um doce e nos acompanhou. Wagner saiu pedalando junto e ficou - até decidir ir pro apoio - na rabeira. Karlinha, namorada do Kaká, e Dani, esposa do Wagner, deram o apoio, cada uma em um carro.

Primeiros quilômetros
No início, não escondi de ninguém que estava absolutamente tensa. Agarrava o guidão como se ele pudesse tentar escapar. Não parava de me perguntar "porque diabos entrei nesta enrascada? 180 quilômetros! Não vai acabar nunca!"
Chegamos ao primeiro pedágio e foi uma piada, pois passamos por uma cancela do Sem Parar, sem parar, o que fez com que um alarme disparasse e uma das cobradoras viesse correndo atrás da gente. Fizemos de surdos e seguimos em frente.

Relaxing
Depois da entrada para Mogi, o movimento diminui um pouco e comecei a me acalmar. O Wagner, que não é tatu, ficou do meu lado um bom tempo batendo papo, me dando uns toques sobre mudança de marcha e outros temas técnicos, falando da vida...cuidando de mim, me pageando sem me constranger.
A Dani parecia estar escoltando uma prova, não um treino. Torcia, vibrava, fotograva (todas as deste post são dela), gritava "Vaaaaaai Irooooooon!" "Vaaai Chrissie Wellingtoooon!". Era ótimo. Eu dava risada e lembrava porque estava ali.
Lá pelas tantas o Wagner ficou atrás com o Serginho e o Roi cuidou de mim, me ajudando em todos os trecho em que havia bifurcações, saídas e entradas de outras rodovias. Eu imaginava que ele devia estar louco pra ir com os caras que dispararam na frente, mas ele se controlou bem.

Túneis
Uma das partes mais desagradáveis é passar pelos túneis. São três, não são muito extensos, mas a combinação de barulho com escuridão é apavorante. Quando calha de passar um caminhão, o ruído é ensurdecedor.  A única vantagem é que dentro deles o acostamento tem o dobro do tamanho.
No Iron, também passamos por um túnel, mas sem o trânsito de carros, então, não há o barulho. Em compensação, não sei porque, é o lugar em que muitos atletas decidem descer de suas bikes e marcar território. Dá pra imaginar o cheiro.

Agua e gatorade
O xerife, esperando eu passar.
Normalmente, quando treino na USP, na ciclovia ou outros lugares, costumo dar uma paradinha para reabastecer as caramanholas de agua e gatorade, já que, diferente da prova, não tem ninguém pra me entregar enquanto pedalo. E, confesso, acho ótimo. Essas paradinhas são providenciais,  pois o treino é longo, estou exausta e é uma desculpa legítima pra parar por um minutinho que seja.
Mas não quando você vai treinar com seu técnico e ele decide que não tem paradinha, não. Ele mesmo vai dar uma de voluntário e entregar a água e o gatorade enquanto você passa por ele. É mole?! 180 km e nenhum refresco?! Só faltou ele me dizer "minha filha, é pro seu bem! você ainda vai me agradecer isso um dia..."


A volta e o pneu
Então o retorno foi feito já pertinho de Taubaté, sem nenhuma paradinha no Frango Assado. (E olha que eu adoro entrar no banheiro feminino, de sapatilha e capacete, toda desgrenhada, enquanto a mulherada do Cometão, tão desgrenhadas quanto eu, após 36 horas de viagem, me olham com aquela cara de "de que planeta ela veio?)".
E a volta é mais dura. Não só porque vc já está com 90 kms em cada perna mas porque a gente sai de 800 metros de altitude e chega a 300. Na ida não parece que tem mais descidas. Mas na volta COM CERTEZA tem muito mais subida.
Lá pelas tantas, Dani e Karlinha emparelharam o carro (o Wagner estava no outro, traidor,  não pedalou na volta) e eu implorei: dá uma caroninha??? Só uns 10 kms... eu não conto nada pro Wagner... depois eu te recompenso... você não vai se arrepender!" Não teve jeito. Ela não cedeu.
A coisa estava tão feia que comecei a pensar "fura pneu! fura pneu! assim vou poder esticar as pernas um pouquito!"
Um anjo passou, fez amém na mesma hora. Entre o primeiro e o segundo túnel,  furou não uma, mas duas vezes! Nunca fiquei tão feliz em ter um pneu furado! O Roi ficou comigo quase todo o tempo, e estava ali àquelas alturas. (Obrigada, amor!) Embora eu tenha feito boa parte da operação sozinha, tem um pedaço que as minhas mão femininas não dão conta: terminar de colocar o pneu na roda. É muito duro!!!
Subida na ida...

...subida na volta!

Chegada
Karla, eu e Dani - mais que apoio, torcida!
Custou mas acabamos chegando. No início de um retão, Karlinha cantou a bola "é logo ali!". Só que não era. Era lááá, não ali.  Não chegava nunca. Minhas costas, ombro e quadris estavam imprestáveis.
Finalmente chegou. Paramos no posto no sentido SP. Lá Karlinha, Dani, Roi e eu aguardamos Wagner para fazer o transporte para o outro lado. Fomos de carro já que parece que o retorno perto do posto onde deixamos os carros é perigoso. Enquanto esperávamos, Roi foi se trocar e eu e as meninas levamos aquele papo feminino, que cria intimidade em cinco minutos. As duas - Karla e Dani - já moram no meu coração!
Lá  chegando revelei a surpresa que havia preparado para todos: pão de ló recheado de doce de leite (leite moça cozido) - praticamente um bem-casado, só que sem o açúcar por cima. Delícia! Foi devorado com muito prazer por todos.
No final, gostei de ter ido. Sim, Wagner, nem vai demorar o dia pra eu dizer "você tinha razão". Independente do resultado da prova, sei que já sou  uma atleta melhor do que era antes de treinar com você - e você é sim o maior responsável por isso. Obrigada.
Repartindo o bolo. Hummmmmm.

domingo, 24 de abril de 2011

Um segundo

 Dedico este post aos leitores como Bru Andriello e Richard Antunes que sempre me escrevem na hora que estou quase desistindo de continuar postando.

Faltam apenas 35 dias e, diferente do que possa parecer (pelo fato de eu não estar postando muito sobre o tema), sim, estou, novamente, entregue aos treinos, sonhando com a prova, imaginando como vai ser o grande dia.
Ano passado escrevi um texto comparando o Iron com o casamento, o parto, batismo. Vou voltar a comparar.

Segundo casamento
Muita gente termina um primeiro casamento afirmando: “nunca mais caio nessa!, agora só aventuras light!”. Para dali um ano, dois ou menos, ou tão logo a oportunidade apareça, insistir no risco. Muita gente diz o mesmo sobre o Iron:”é só uma vez pra ver como é... depois fico nas provas mais curtas!” Mas é só a inscrição abrir... e lá estamos de novo!

Cenas do meu segundo casamento
 O segundo Iron, assim como o segundo casamento, tem algumas vantagens. Já temos mais ou menos uma noção de como é a vida a dois, mais experiências, menos ilusões. Assim como já conhecemos o percurso, as pedras do caminho do segundo Iron.
Esforçamos-nos para entender onde pecamos no primeiro casamento e não cometer os mesmos erros, para minimizar nossas neuras de modo a não estragar nossa nova relação. Assim, no Iron, também analisamos nossas falhas da primeira vez para tentarmos evitá-las.
Mas, se vida fosse assim tão fácil, não teria graça. O segundo casamento também não será um mar de rosas (se você ainda acredita nisso, lamento tê-lo desiludido). São outros desafios (eufemismo para problemas) e temos que estar atentos para não deixar todo aquele amor, toda aquela paixão, escoarem pelo ralo (entupido, motivo da briga besta). E assim o cuidado com o segundo Iron deve ser justamente achar que, pelo fato de saber como é a prova, já ter as favas como contadas e deixar de prestar atenção nos detalhes, dar aquela esculhambadinha básica... e esquecer que cada largada é uma largada e que shit happens particularmente quando a gente não toma as precauões necessárias.
Não é todo mundo que celebra o segundo casamento com a mesma festa que o primeiro. Eu, particularmente, acho que devemos festejar mais ainda! Casar pela segunda vez significa continuar botando fé na relação amorosa. Assim como fazer um segundo Iron continuamos apostando na nossa capacidade de enfrentar uma parada duríssima, termos foco, disciplina etc etc. É transformar o episódico – um Iron – em uma escolha por um modo de vida. A linha de chegada continua então sendo merecedora de muita festa, risos, lágrimas e abraços!

Segundo filho
O primeiro filho é aquele que nos faz mães (ou pais), o primeiro Iron é o que nos torna Ironman (Ironwoman, Ironperson, whatever!). Mas nem por isso é menos impactante, emocionante e gratificante o segundo parto e o segundo filho.

Nascimento do segundo filho
 Talvez uma das coisas mais legais de esperar o segundo filho é que sabemos como é emocionante ver o filho pela primeira vez — seremos tomados por um misto de alívio por tudo ter dado certo e uma felicidade cheia de lágrimas. Assim é também com o segundo Iron: temos uma idéia das emoções que nos aguardam na linha de chegada – e, claro, há também o temor de não conseguirmos terminar. A sombra de um DND (Did Not Finish) existe sempre, por mais experiente que a pessoa seja.
Cada filho é um filho, cada Iron é um Iron. Com suas características, suas surpresas, alegrias e mazelas. Que graça teria se o segundo fosse idêntico ao primeiro (filho ou Iron)?
Estou na expectativa desse segundo Iron, como noiva em segundas núpcias, como mãe esperando segundo filho.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

GP Extreme



Da esquerda pra direita:  Ana Oliva, eu, Kelly, Thelma e Nilma antes da largada.  Um pouco de frio!
  Jus ao nome
Confesso que não prestei atenção ao nome da prova. Não me perguntei a que extremo o título se referia e me inscrevi acreditando que coincidiria com minha periodização. 1 km de natação, 100 km de pedal e 10 km de corrida? Ora, seria um ótimo treino de transição.
Antes de me inscrever fui pedir a benção ao Wagner, meu técnico. Ele torceu o nariz: “para quê uma prova a essas alturas do campeonato?” Insisti: “é uma prova nova, num lugar legal, as distâncias são boas pra encarar como treino.” Ele não se convenceu muito, mas cedeu.
Não me ocupei nem me pré-ocupei com a prova praticamente até chegar em São Carlos.
Saímos no sábado à tarde, Thelma e eu, nossas bikes, gatorades, caramanholas, bisnaguinhas e outros apetrechos. Pensei em levar um dos meus filhos, mas como não conhecia o lugar, não sabia se ele teria o que fazer durante a prova e acabei mudando de idéia. Fiz bem
Chegamos, depois de uma viagem sem intercorrências – mas com vários pit stops por conta de da hidratação contínua – largamos as tralhas no hotel e rumamos pro Damha para pegar os kits e participar do simpósio técnico.
Minha preocupação apareceu no momento em que começamos a descer uma ladeira interminável que dava no local da largada. Ô-oou. Será que vamos ter de subir isso aqui? Aos poucos fui me dando conta de que tinha me enfiado numa encrenca.
Encontramos a Nilma, o Sarhan, a Ana Oliva e mais algumas figurinhas carimbadas. Analisando o perfil da platéia que ouvia a explanação do organizador, dava pra perceber que não era uma prova para iniciantes.
Quem estava por ali também era a Daniella Cicarelli, causando furor entre os fãs. Eu já tinha cruzado com ela várias vezes nos treinos da MPR e em provas nas quais elas acompanhou seu namorado. Devo confessar que não nutria nenhuma simpatia por ela, não. Mas também não posso negar que era certa inveja, um incômodo de ver os queixos caindo por onde ela passava. E tive de dobrar minha língua.

Ciao, Bello!
Dali saímos direto pra cantina Ciao Bello, indicação de meu amigo Guilherme Gobatto, que é de lá, junto com o Cesinha e a Kelly. Ótimo negócio. Chegamos cedo, só havia uma mesa ocupada. Logo depois de nos acomodarmos entrou uma legião de triatletas com seus familiares e ocuparam uma mesa de uns 20 lugares. Olhamos uns para os outros e combinamos: vamos fazer o pedido rápido, pois se os pedidos dessa mesa entrarem antes do nosso, estamos roubados. Ótima estratégia. A Nilma, que chegou mais tarde, acabou esperando quase uma hora pela chegada de seu prato.
Comida boa e barata. Thelma e eu, nutricionalmente bem comportadas, mandamos um agnolotti recheado de ricota e espinafre mas a Kelly e o Cesinha dividiram um belo medalhão de filé com batata frita e tudo! Ele não ia mesmo fazer a prova, mas ela, sim. Quando me espantei com seu pedido, ela deu de ombros e respondeu: já comi macarrão hoje. Voltou-se pro seu filezão, que traçou junto com as batatinhas sem medo de ser feliz.

Noite
Voltamos pro hotel e começamos nossos preparativos pro dia seguinte. É um tal de preparar suplemento, cortar papel alumínio pra embrulhar bisnaguinha, ajeitar o pneu (eu SEMPRE esqueço de providenciar um suporte decente e ele vai preso numa gambiarra meia mussarela, meia calabresa, que ocupa o lugar de uma caramanhola), separar a roupa, carregar o relógio... Uma série de pequenas operações que acaba levando mais de uma hora. Só a Julinha consegue chegar, dormir em primeiro, acordar por último e estar pronta pra prova junto com todo mundo no dia seguinte. Thelma e eu debatemos este tópico mais uma vez: qual será o segredo da Juju? Será que ela tem uns duendes tipo aqueles do Papai Noel que deixam tudo preparado durante a noite?
Caí na cama quase onze. Cansada. Mas quem disse que conseguia dormir? A semana foi pesada, um dos meus gêmeos se acidentou, teve de passar por cirurgia e tudo, o outro gêmeo anda com crises de saudades, o trabalho também não está na melhor das fases... E por aí foi passeando a cabeça em vez de dar um shut off. Quando adormeci o sonho foi o clássico tenho de chegar à prova e não consigo. No caso, eu iria fazer DUAS provas. Uma de corrida e depois o GP. Lógico que acordei cansada.
Acordamos cedo, descemos pro café já com as bikes – o elevador era mínimo e imaginamos que todo mundo iria descer na mesma hora e seria aquela confusão. Boa estratégia. Tomamos café sossegadas, subimos para os ajustes finais e descemos de escada, sem estresse e sem bicicletas.

 
Poucas mulheres (Foto: Cesinha)
 Check in, Cecilia e largada
Viajar com a Thelma é tudo de bom porque nos entendemos super bem: nós duas gostamos de chegar cedo, vamos resolvendo uma coisa por vez... é tudo fácil, descomplicado e sem frescura.
Colocamos as bikes com folga no suporte da transição e, como bem descreveu o técnico Fabio Rosa, arrumamos nossas penteadeiras: toalha, bisnaguinhas, protetor solar, tênis, sapatilhas, escova de cabelo, batom, brincos, etc.
O tempo estava nublado e, logo que a elite começou a largar (era uma largada esquisita, tipo contra-relógio, um por vez) começou uma chuvinha. Droga, comentamos, vai molhar todas as coisas que estão na penteadeira. Então vi de longe duas meninas gêmeas e, em seguida, identifiquei a mãe – Cecilia Musselman – com seus dois braços engessados.
Abre parênteses para fazer uma homenagem. Cecilia chegou, via este blog, ao meu perfil no facebook. Adicionamos-nos e desde então, trocamos mensagens. Ela é é triatleta, da minha faixa etária, também mãe de gemelares, além de ser pediatra e trabalhar pra caramba. Mas tem sempre tempo pra escrever mensagens atenciosas e carinhosas para seus amigos. Sofreu um tremendo acidente há algumas semanas – por isso está com os dois braços engessados – e não ficou se lamentando. Está, de cabeça erguida, enfrentando um tsunami ortopédico que vem assolando a ela e seus familiares de uns 3 anos pra cá. Nosso encontro foi rápido, um pouco antes da largada. Ela estava tensa, pois seu marido, Max, ciclista profissional e corredor amador, está se recuperando de algumas lesões e estreava em provas de triathlon. Despedimos-nos ali, mas, durante a prova, passei por ela algumas vezes que, mesmo com os braços imobilizados, festejava minha passagem com uma torcida animadíssima.
Os homens largaram primeiro. Foi aí que percebemos quão poucas éramos nós. Vinte e uma. E eu, como já pude conferir, era a veterana.

Na água
Saindo da água e brigando com o Garmin (Foto: Cesinha)
Barrenta, rasa, longa e fácil. A mulherada saiu desatinada. Fui um pouco mais tranquila e, no final, dei uma apertadinha. Logo depois da primeira bóia deu certa aflição porque a água estava totalmente escura. Não se enxergava nada.
O Garmin se atrapalhou todo e eu me atrapalhei com ele. Coloquei no modo multidesporto mas alguma besteira eu fiz, porque ele não funcionou como tinha funcionado no Internacional. Saco. Perdi um tempinho tentando entender o que estava acontecendo, mas acabei desistindo.
 Corri pra bike, fiz quase tudo direito. Esqueci de colocar duas bisnaguinhas no bolso. A comida estava quase todas na bento-box, mas as bisnaguinhas não couberam. Quando me dei conta, já era tarde. Falta de concentração e mentalização da prova no dia anterior.


Pedal, subidas e Daniella
Depois de uns 2 kms planinhos chegava-se ao percurso da bike. E aí, dá-lhe ladeira. Logo no começo, fui ultrapassada por uma das minhas concorrentes da categoria – a Rita. Deixa quieto, pensei. Lembrei do Wagner “é sua semana regenerativa e encare como treino”. Não sei o que teria acontecido se eu quisesse alcançá-la. Provavelmente não teria feito diferença. E ela foi embora.
A subida não acabava nunca. Praticamente só na hora do retorno. Em alguns trechos amenizava um pouco, mas logo recomeçava. Não sei como é que alguém poderia tomar penalidade por vácuo. Ou era subida, ou era descida. O único trecho plano era chegando ao retorno. Mas era muito curtinho.
A primeira volta foi tensa. Caiu uma garoinha então, na hora da descida, sem conhecer o percurso, o medo de tomar um chão era grande.

Início da volta (Foto: Cesinha)
Na segunda volta, a garoa parou, e deu menos paura no retorno. Mas no início da interminável subida eu me perguntava em voz alta “Como foi mesmo que eu vim parar aqui? Onde eu estava com a cabeça?” Não fiz nenhum treino de subida este ano. Nada. Então, tive de ter muita calma e dosar a força pra aguentar até o fim e depois ainda ter pernas pra correr. Na subida.
Quando estava terminando o primeiro trecho de ladeira da terceira volta, passei pelo Fabio Rosa e pedi, de brincadeira, “Dá pra dar um empurrãozinho aí?” Ele levou a sério e com as mãos nas minhas costas, deu um certo impulso. A Cicarelli que vinha logo atrás de mim, ganhou um também. Logo em seguida, uma moto da arbitragem se aproximou e deu uma dura nela e depois em mim. Com muita educação “Não deixa ele fazer isso de novo, se não você será penalizada”.
Daniella me alcançou e comentou “Puxa, quase levamos um cartão!. A partir daí engatamos numa conversa que durou a terceira volta todinha. E vou ter que ser honesta: ela foi muito simpática. Brinquei com ela “não vem, não! Você já tem muita coisa, já leva muita vantagem sobre mim, não vale, além de tudo, ganhar no triathlon”. Ela riu e disse “não se preocupe, não vou ganhar”. Lá pelas tantas, quase tomamos outro cartão por estarmos lado a lado. “Vácuo lateral também não pode!” disse o fiscal. Vácuo lateral?!
Fui  na frente, mas no meio da quarta volta, ela me ultrapassou, pela direita e, mais uma vez, tomou dura do fiscal. E fomos assim, quase até o fim. O duro de ir perto dela era que TODO MUNDO batia palmas e torcia por ela. Os staffs se estapeavam pra ver quem ia entregar a água pra ela! Reclamei "tá vendo?! Assim não vale! A torcida é toda sua!" Mas tive o apoio e a torcida animadíssima do Cesinha, que valeu por uma multidão e da Cecília, é claro.

A simpática Dani, e eu.

Minha concorrente, a Rita, também me dava um alô sempre que cruzava comigo “Força, Claudia!”. A Kelly também, que estava um pouco atrás, também sempre festejava nossos encontros. Flavio - colega de MPR-  passou por mim e gritou "pô, um treino de 160km na Dom Pedro é mais fácil!" Coisas do triathlon.
Iniciei a última volta soltando uma série de impropérios impublicáveis que me ajudaram a ter forças pra ir até o fim e ainda ultrapassar a Daniella, a Nilma, mais uma que não sei o nome e encostar na Patrícia Bertolucci – minha outra adversária.
Cheguei à transição e xinguei mais um pouco, só de farra.

Corrida, ladeiras e tapinhas
Desconcentrada, mais uma vez, esqueci de pegar o accelerade que me esperava. Mas os géis eu levei. Ufa.
Vi a Patrícia saindo da transição e pensei “vou buscar”. As pernas estavam duras. Ainda bem que o primeiro quilômetro não era, ainda subida forte. Deu pra soltar as pernas e engatar o ritmo do primeiro pro segundo. No segundo, já no início da subida, passei minha amiga, que pediu pra eu puxá-la por uma cordinha. Brinquei: “ah, você não me puxou na bike, agora não te levo, não”.
Corrida, minha praia! (Foto: Cesinha)
E dá-lhe subida. Gente com cãibra, gente andando, resfolegando. Ah, mas eu gosto de correr. Cheguei até o topo, no retorno no 2,5km, e não tinha água. Pecado mortal.
Pra baixo, o santo ajuda. E como. Cheguei no retorno de baixo. Forte. Aí eu já estava feliz. Só mais 5km.
Sobe sobe sobe. Aí desce. Tapinha na bunda do Caio, do Rychard, do Fabio. Quebrados. O Rychard, maluco, tinha feito o short na véspera. Fiz um ritmo abaixo de 5m/km. Cruzei o Mauricio, amigo de blog, que foi a simpatia de sempre, e o Flavio de novo, já  indo embora,  quando eu estava chegando e ele vibrou com a minha corrida. Foi muito legal.
Na linha de chegada, catei a faixa, levantei e gritei “tem que ser fêmea pra caralho pra terminar essa porra! Não é macho, não! É FÊMEA, com F maiúsculo!”. Os staffs e quem tinha sobrado ali, riu e aplaudiu. 4h40m, segunda da categoria – palmas pra Rita que mandou muito bem.

Comentários, críticas e sugestões
O lugar é lindo, os retornos e curvas estavam bem sinalizados, a arbitragem, de modo geral, foi gentil. Um pouco “burra”, quero dizer, em alguns momentos faltava bom senso. Por exemplo, por que não deixar sair pelo outro lado da transição? Era só deixar alguém ali, de olho. Muita gente saiu assim mesmo.
Deveria ter mais um abastecimento no retorno de cima do pedal, não só com água mas com isotônico, frutas e outras coisas. R$ 380 de inscrição, é grana.
Não pode faltar água. Não fez calor. Se tivesse feito, ia ser um strike. R$ 380 é grana.
A largada, às 9h é muito tarde. Por que a elite largou um a um? Ninguém entendeu. Se a elite largar às 8h, os amadores podem largar 8h15 e a prova não termina tão tarde e nem a premiação. Começar a premiação às 16h??? Não dá. É um longo caminho pra São Paulo e adjacências.
Uma camiseta de finisher ia bem. Numa prova como esta, dá gosto usar. E, por R$ 380, tem de dar, né?

Acho que é só. Parabéns a todos que terminaram a prova. Foi casca. Talvez tenha sido a prova de triathlon mais difícil que fiz na vida. Nem no Iron sofri assim.
Quando liguei pro Wagner pra comentar como tinha sido duro, ele respondeu de bate pronto: "Bem feito". E foi mesmo. Bem feita.