terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Grazielli e os Ironmen

Perda insuportável
Nenhum acontecimento me toca mais do que a morte de uma criança.  Mesmo se for ficção, imaginar a dor dos pais, me deixa atordoada. Não consigo. É intolerável.  Evito pensar. Mesmo porque, de que adiantaria? Viver pensando que os filhos podem nos ser arrancados de uma hora pra outra, que a vida é um fio muito tênue e que somos governados pelo acaso, não serve pra nada. Só pra aumentar a angústia. Não há o que se possa fazer. Nem rezar posso, já que não creio.

Então, quando uma morte como esta, da menininha em Bertioga, invade os noticiários, imediatamente me coloco no lugar dessa mãe e fico apavorada.  Não, não existe nada pior. Sinto vontade de pegar meus quatro filhos, coloca-los debaixo das minhas asas e não deixa-los fazer nada sem que meus olhos atentos, meus braços fortes, minhas pernas rápidas estejam lá para evitar que qualquer mal lhes atinja.  Impossível. Ainda que eu estivesse onipresente, jamais conseguiria evitar acidentes estúpidos e fatais como este, de um jet ski indomado por um menino de 14 anos, chegar até a areia e atingir minha criança. (Tenho certeza de que se esta mãe tivesse consciência do que iria acontecer, ainda que por uma fração de segundo, teria se jogado na frente da filha. Não houve esse tempo.)
Desejos e limites
Mesmo com todos os sentimentos irracionais que uma tragédia dessas provoca, há algo que não pode passar batido. E me inspiro num post da minha amiga Luciana Gerbovic, que dizia:
Em vários condomínios classificados como "de luxo" eu vejo uma placa: "proibido menores ao volante". Não entendo. Não é óbvio, se em todo o território nacional menores não podem dirigir? Não, não é óbvio. Não é óbvio porque em muitos desses lugares o dinheiro é a lei. Se o pai tem dinheiro, o menor pode dirigir carro, moto, triciclo, jet ski...

Este menino de 14 anos fez o que todas as crianças e adolescentes fazem: pediu aos seus pais algo que queria. Sim, faz parte do script de crianças e adolescentes ter desejos e expressá-los. É absolutamente legítimo. E, eu diria mais: é saudável. Contudo, não é obrigação dos pais atender a todos os desejos de seus filhos. Para isso – entre outras coisas – servem os pais. Atender tudo que for necessário,  dizer “sim” ao que for possível e limitar o que for inadequado, perigoso, pouco saudável ou simplesmente o que não for prioritário no momento - ter recursos disponíveis significa que você pode atender ao desejo, mas não que você deva. Isso, claro, dá trabalho. Principalmente se você quiser educar filhos autônomos, terá de explicar cada um de seus “nãos” e ter bons argumentos.  E, com certeza, seu IBOPE com os pequenos vai cair: “você é uma chata!”, “isso não é justo! A mãe do Pedrinho deixa ele jogar Call of Duty a noite inteira, por que só a gente não pode?” e por aí vai. (De vez em quando, como diz minha mãe, temos direito a um “porque não”.  Mas não é bom abusar.) Então, como não é todo mundo que aguenta ficar mal na fita, temos muitas crianças e jovens por aí, sem a menor tolerância à frustração, sem a menor capacidade de compreender que seu desejo não é uma ordem, sem noção do que é essencial, do que é superfluo, do que é luxo ou do que é privilégio.

Neste ponto, discordo um pouco da Lu, pois isso não é prerrogativa das classes abastadas. Os "menos favorecidos" também tem tido imensas dificuldades em dizer não aos seus rebentos. Uma cena inesquecível do documentário "criança, alma do negócio" é uma adolescente mostrando no quintal minúsculo, de sua casa de periferia também minúscula, espremido entre o tanque e o varal, um jet ski.

Se a mãe não consegue dizer não ao seu filho que quer tomar coca-cola e comer batata frita todo o dia isso é um crime contra seu próprio fiho, mas não contra os filhos dos outros. Provavelmente ela, mãe, vai acabar pagando por isso. A criança, infelizmente, também.  Mas não outras crianças.

O limite e as faltas
Mas o caso deste menino de Bertioga e nesses casos que minha amiga Luciana citou, a situação extrapola o âmbito familiar. Quando um pai ou uma mãe consentem que seu filho menor de idade dirija um veículo motorizado, estamos falando de faltas bastante graves: infração explícita da lei, risco para a criança que dirige e risco para as demais pessoas.

 E aí, voltando a concordar com minha amiga, acredito que alguns mais abastados, se consideram privilegiados, isolam-se ao máximo dos problemas causados pela desigualdade e hoje creem que vivem num mundo à parte.  Ora, ora então porque não ter leis próprias? Vamos deixar nossos filhos que são mais espertos, educados e ricos que os outros, agirem como se a lei não fosse para eles.

Então, por favor, não sejamos hipócritas. Não nos supreendamos com a corrupção, com o favorecimento, com o nepotismo que assola este país. Isso não é privilégio da classe política e isso tem, sim, a ver com a forma como educamos nossos filhos.

E eu com isso?
Não se trata de dar uma de franciscano e ir morar em bairros populares ou colocar os filhos para estudar em escolas públicas.  Nem deixar de frequentar (argh) shoppings.  Trata-se, em primeiro lugar, de não agir como quem está acima da lei – seja com os filhos, seja diante deles. Trata-se também, de educar filhos que não se achem melhores que outros, merecedores de tratamento diferenciado, pequenos tiranos que desprezarão e desrespeitarão os que não fazem parte de seu círculo.

O poder judiciário, a educação escolar, os políticos têm sim, uma grande parcela de responsabilidade nas mudanças que precisam ocorrer pra termos um país mais justo e menos corrupto.  Entretanto,  nós, pais da nova geração que vai comandar esse país – pais das crianças que estão no Santa Cruz, no Vera Cruz, Lourenço Castanho, Dante, Bandeirantes etc, temos de lembrar que podemos fazer a nossa parte, educando pessoas que pensem mais no bem comum. E sim, muitos triatletas estão neste seleto grupo.

E o Ironman com isso?
O que pode fazer de um ironman uma pessoa bacana (mas não melhor ou pior do que ninguém) é sua capacidade de tolerar frustrações, sua persistência, esforço, abnegação.  Cruzar a linha de chegada, jogando limpo, seja em 8h ou em 17 horas, é um ótimo exemplo de que medalhas têm de ser merecidas, títulos precisam ser conquistados. E que isso, além de ser mais justo e digno é, também, mais prazeroso.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Identidade, diversidade, fraternidade

Londres
Quando tinha meus vinte e poucos anos, terminei a faculdade e fui pra Europa. Duca, meu ex-marido, namorado à época, e eu, viajamos um pouquinho e depois nos instalamos em Londres, pra uma temporada que veio a ser de um ano e meio. Morávamos no que lá se chama bedsit e aqui seria equivalente a uma quitinete. Só que em vez de ser num prédio de apartamentos, era numa casa de dois andares. Minha vida, ao longo dos meses que passei ali, foi muito diferente da que eu tinha vivido até então. E, lembre-se, isso foi na década de 80. Não existiam celulares, smartphones, PCs, lanhouses, Ipads, skypes, emails... nada desses aparatos que nos mantém em comunicação o tempo todo. Para falar com família eu descia até o térreo onde ficava um telefone público/particular e fazia uma colect call pro Brasil. Com os amigos, cartas.  Mas, embora eu escrevesse bastante, nem todos respondiam. E demoraaaaava pra chegar resposta. Muitas, nem chegavam. Nem todo mundo tinha o hábito de se corresponder. A sensação de distância e isolamento era forte. 
Fizemos novos amigos, estudamos inglês, passeamos em Camdem Town, fomos a shows do Cure, Smiths, Cult, Waterboys, It’s Imaterial, bebemos em pubs, lemos a NME e a Melody Maker, apostamos em corridas de cachorro, andamos ao longo do Tamisa, fizemos faxina, comemos chinese take away e fish’n’chips, compramos no Sainsbury, decoramos as cores das linhas do “tube”, visitamos os Kew Gardens, fiz babysitting, saímos pra dançar, brigamos bastante também. 
Foi uma experiência que fez diferença na minha formação pessoal. Tudo que vivi foi importante. Mas, talvez, o que tenha sido o mais interessante foram as reflexões acerca da minha própria identidade (o bom e velho “quem sou eu?” issue). Percebia que, em estando fora do meu habitat natural: casa dos pais, SP, amigos da faculdade e outros, família, carrinho, meus discos, meus livros, meus filmes e tudo mais, me obrigava a entrar em contato com a minha essência. Sou o que faço ou sou o que sou? Sou formada pelo meio em que vivo ou tenho um âmago, um cerne, um eu interior que permanece o mesmo, independente das circunstâncias? 


Identidade
Longe de querer esgotar essas questões, e sem querer me alongar na história sobre minha temporada londrina, o que isso tem a ver com triathlon e com o momento atual? Tudo. Assim como naqueles idos da década de 80, nos últimos tempos, estas questões existenciais voltaram. Repaginadas, mas voltaram. Estou (assim espero, oxalá, knainóri) terminando um período de afastamento quase total dos treinos. De outubro até agora, praticamente não treinei. Deixei de ser triatleta? Sou triatleta ou estou triatleta? Deixei de ser atleta? Deixei, em alguma medida, de ser “Claudia”?  Quão triatleta eu sou, e quanto o fato de ser triatleta compõe minha identidade? 
Na adolescência, quando a questão da identidade começa a aparecer, é comum os jovens formarem turmas que se vestem com um tipo de roupa, ouvem um tipo de música e repetem jargões.  “Meus iguais me compreendem, são como eu, me identifico com eles, portanto, não estou só”. Isso, segundo minha mãe psicóloga,  é uma maneira de suportar a idéia da solidão que descobrimos ao deixarmos de ser criança e nos deparamos com um mundo interior, só nosso, impossível de compartilhar integralmente com quem quer que seja. Ninguém, nem mesmo o mais amoroso dos companheiros, pode participar nem compreender inteiramente este universo. 
Desde os idos de 2007, aos poucos, passei a integrar a tribo dos triatletas. Sim, tribo. Têm seus rituais, linguagem, modos de vestir e viver. Como um grupo de “emos” ou “góticos”. Por um lado, pode ser bem divertido a essas alturas da vida, fazer parte de uma turma com a qual tenho tantas afinidades.  Por outro, não temos mais ilusões com relação a uma identificação absoluta.  E isso também é uma questão sobre a qual tenho pensado. Qual meu grau de identificação, afinidade e profundidade nas relações com as pessoas do triathlon? Se eu por (des)ventura ou por opção deixar de ser triatleta continuarei próxima delas?


Diversidade
Bem, chega de tantas perguntas. Vamos a algumas conclusões. O fato de estar passando um tempo sem treinar muito e de não ter objetivos a vista me fez perceber que sim, o triatlon e o estilo de vida decorrente dele fazem parte da minha vida mas, apenas uma parte de mim é triatleta. Tenho muitas outras facetas que são tão importantes e que tem tanto ou mais peso quanto essa: sou mãe, esposa, mulher, festeira, amiga, blogueira, educadora, corintiana, leitora, filha... E, indo um pouco mais longe, o que está no âmago da minha relação com o triathlon é o prazer em fazer uma atividade física, em superar limites, em fazer algo bem feito e ter convívio social. Se eu não puder fazer triatlon, nem correr, nem pedalar, nem nadar, então vou jogar badminton, ou tênis, ou praticar SUP, ou dançar ou alguma coisa que faça suar e sentir bem!


Fraternidade
Quanto aos amigos, claro está que há pessoas que vieram pra ficar e o triatlon foi apenas a porta de entrada. Encontramos-nos e falamos sim, de treinos e provas, mas a conversa vai muito mais longe: já até brincamos de Imagem e Ação e não conversamos um “A” sobre nossos esportes! Descobri que são pessoas com quem posso contar não só quando estou “na ponta dos cascos”, mas, principalmente, na hora do aperto, quando estou manquitola, com a “patinha quebrada”. Lógico que há também relacionamentos superficiais, que não sobreviveriam caso eu deixasse de treinar mas, isso não é exclusividade do triathlon, é?  
Nos últimos cinco meses minha rotina mudou. Não dormi tão cedo, abri mão de treinar por motivos banais, não segui planilha, não fiz relatórios dos meus poucos treinos, não escrevi no blog, não deixei de beber tacinhas de vinho quando tive vontade e até saí um dia pra dançar. E os bons amigos estiveram por perto.  


Percebi que  treinar pro Iron faz com que o lado triatleta seja preponderante sobre os outros e que não dá mesmo – pra mim, pelo menos – pra ficar o tempo todo com ela – Claudia triatleta – mandando em tudo. È necessário dar uma folguinha – não só pro corpo, mas pras outras Claudias que me habitam poderem se exercitar.     

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Destreinada


Eis que resolvi ressuscitar este blog. Depois de meses de dormência, por motivos de força menor, vamos voltar a escrever.  

Nossa. Tanto tempo sem escrever, acho que perdi a mão. Não encontro o assunto certo. Quando parece certo, o tom soa errado.
Primeiro ia me justificar. Desfiar um rosário de atribulações, para que você, caro leitor, me perdoasse a ausência. Entretanto, não tem desculpa, não tem perdão. Tampouco tem importância.  Foi uma escolha. Escolhi silenciar um pouco e usar o tempo do blog em outros afazeres. Filhos, muitas leituras, amigos... prioridades outras. Em suma: não há uma justificativa.
Pensei também em escrever sobre envelhecimento. Fiz aniversário há pouco e isso faz a gente pensar na vida, nas metas, no passar do tempo, nos ganhos, nas perdas. Assustei. O tema era duro. Doloroso. Rugas, cabelos brancos, menopausa chegando, a impressão de que o sol já não está mais em seu zênite, de que o jogo já está no 2º tempo. Muito deprê. Claro, iria comentar sobre como a idade também dá perspectiva, como a chegada da maturidade nos deixa mais atento às nossas próprias armadilhas e, sobre como a gente pode perceber que está se tornando um ser humano melhor; passamos a ser mais tolerantes com outros e menos exigentes para com gente mesmo. Também ia falar sobre o papel do esporte nesta fase da vida: como nos ajuda a sofrer menos e até a envelhecer melhor, e mais devagar. Desisti.
Então pensei em contar sobre minha falta de rotina de treinos e o esforço que tenho feito para não me desorganizar, nem parar de vez. Mas aí teria de contar que estou lesionada desde outubro e explicar que é uma tendinite de isquiotibiais, dar todo o longo histórico, entrar em detalhes ortopédicos e fisioterapeuticos e aí, bah, que chaaaato. “Pô, essa mulher só fala de lesão e falta de treinos!” dirá meu leitor. Desencanei disso também.
Por que não fazer um relato sobre a maratona de Buenos Aires? Afinal, foi minha primeira maratona (as do Iron não contam, são testes de sobrevivência, como diz meu amigo Portelinha). E foi ótima. Um trajeto bonito, plano, prova bem organizada, sem muvuca. Tudo de bom. Mas... foi há quatro meses! Não vou conseguir lembrar os detalhes, não vou conseguir narrar com emoção. Já esfriou.
Um dos momentos-pérola
Minhas férias! Um clássico das redações escolares. Queria emoldurar os muitos momentos “top ten” que vivemos. Mas foram muito mais que dez. E ainda que todos tivessem sido fotografados, ainda assim, as fotos, emolduradas, não iram conseguir trazer todas as emoções e sensações dos dias que passamos juntos. Não fomos pra Disney. Nem pro Japão. Nem pra Europa, França e Bahia. Sequer fomos pra um lugar novo. Nosso destino foi a velha conhecida praia de Paúba, onde passamos já tantas outras férias e finais de semana. Não sei o que foi diferente, que fez tudo ser tão intensamente bom. Gostaria de colecionar os momentos pérolas, diamantes, ouro puro, que vivemos juntos. Sem compromisso com a cronologia, sem ordem de importância. mas o que isso tem a ver com triathlon? Como isso poderia interessar aos leitores?
Então resolvi partir pra outro estilo. Humor. Comecei a imaginar uma publicação sobre triathlon que não fosse séria, que parodiasse as revistas femininas, as de fofoca ou as de carro. Uma revista sincera, com matérias do tipo:
“Muito além do Garmin – as funções que você nunca usou e porque elas não servem para nada mesmo” ou
 “Colucci revela: jamais pensei que iria gostar de me depilar com cera quente”.
“As dez provas mais sofridas de Ironman: escolha a sua!”
E outras bobagens do gênero. Mas fiquei insegura. Não achei as tiradas muito boas e não deu muita vontade de continuar. Fiquei pelo caminho.
Talvez eu esteja destreinada. Talvez seja besteira voltar a blogar. Não posso dizer que não tenha tentado. Não posso dizer que não falei das flores.


sábado, 30 de julho de 2011

Depressão pós-iron ou o quê?

Carnaval
Dessa vez não escapei.
Terminou a prova e fiquei com um travo amargo na boca. Imagino que a sensação é parecida com a do pessoal que desfila no carnaval. São meses de ensaio. Semanas para a preparação da fantasia. E então chega a noite da apoteose, da glória, a hora de sambar, sorrir, suar, dar o sangue e curtir.
No dia seguinte a fantasia está rasgada, os músculos estão doloridos e bate aquela melancolia da 4ª de cinzas, saudade da emoção intensa vivida na véspera. O remédio e pensar que no próximo ano, tem mais.
O ano passado, assim que terminou a prova já estava decidida a participar do Iron 2011. Em menos de uma semana já estava treinando e pensando no desfile, ops, no Iron seguinte.

Porque não
Desta vez foi diferente. Decidi antes mesmo de fazer a prova que não iria em 2012. Descansei. Dormi. Dormi! Fiquei uma semana sem treinar nadica de nada. Chegou dia 6 de junho, as inscrições para 2012 abriram mas me mantive firme na decisão tomada. Ou seja: tirei o próximo carnaval do meu horizonte.
Nos seis meses que antecedem o Iron somos absorvidos pelos treinos: dormimos, acordamos, sonhamos, nos alimentamos, respiramos, triathlon. Mesmo não querendo, mesmo me esforçando para que isso não acontecesse, não consegui evitar um certo distanciamento da família. A cabeça fica em outro mundo.
Durante o horário comercial até mantive a cabeça focado no trabalho mas, como a rotina não estava fácil, nem divertida, os treino funcionaram muitas vezes como válvula de escape. (Nada como se preocupar em manter o pace a 4m50s o km para não ter capacidade de pensar em absolutamente mais nada.)
Também me convenci a não fazer porque esse volume e intensidade de treinos por tanto tempo é muito desgastante, particularmente para uma senhora de 47 anos. Mas confesso que a sensação de força e poder que a preparação pro Iron propicia supera, muitas vezes, a de cansaço.
Outro ponto contra é o "investimento" - eufemismo para gastos. Este ano até gastei menos que o ano passado. Mesmo assim foi dinheiro. E, ultimamente não posso fazer tudo que gostaria. Preciso conciliar meus próprios desejos com os desejos e necessidades dos meninos. Não é fácil. Nem simples. Nem barato.

E agora?
E agora inventei uma maratona em Buenos Aires.  Tenho treinado direitinho mas, sei lá. Não parece de verdade. Não parece sério. Não parece completo. Falta alguma coisa. Uma nadadinha, talvez?  Já melhoraria. Uma voltinha de bike? Aí, sim!
Brincadeiras à parte, o fato é que está sendo bom não treinar tanto. O cansaço acumulado deu as caras. Fico imaginando como eu estaria se tivesse pego a vaga pro Hawaii. Nossa. Além de não ter quase ninguém com o mesmo foco, e a canseira? Treinar 160 km de pedal? Dá até arrepio.
E agora a vida segue e cabem outras fazeres e pensares, que não são apenas os triatléticos. Dá mais tempo pra curtir os amigos e, sem dúvida, e isso é ótimo.  A gama de assuntos se ampliou e, não sei se é impressão minha, parece que o leque de problemas, idem. Mas deixa isso pra lá.
Entretanto, sem dúvida, há um vazio.

Churras com amigos e família. Agora dá tempo.
Sabedoria
Rikka, um amigo querido de longa data, surfista e massagista,  que vem cuidando de mim há mais de ano com suas massagens que me endireitam,  me deu o conselho mais sábio.
Eu me queixava dessa sensação de vazio, da falta daquela intensidade toda e da ansiedade que eu estava pra ter algum Iron no horizonte.
E ele me disse algo mais ou menos assim: "Curta este momento. Sinta esse vazio. Aquiete seu coração e sua alma.  Não dá pra gente ficar o tempo todo vivendo no pico, na intensidade, no máximo, visando sempre o próximo desafio. Viva o dia de hoje. É importante aprender a viver o presente com suas características e não ficar só olhando pro futuro. É importante tirar lições desses momentos difíceis."
Tenho me esforçado por colocar em prática os ensinamentos de meu amigo. Não tem sido fácil. Mas quem disse que gosto do que é fácil?

domingo, 10 de julho de 2011

Ironman da Áustria - por Roger Haybittle

Não estive lá. Mas meu amigo Roger Haybittle - Ironman super experiente esteve e escreveu um relato esclarecedor, muito divertido e gentilmente autorizou-me a publicá-lo aqui. Impagável e imperdível. Confiram.


Inscrição para o IronMan Austria: US$ 550,00
Passagem de avião: US$ 1.500 São Paulo/Milão
Hotel de frente para o lago com as montanhas Dolomitas ao fundo: 45 euro/noite com café da manhã
As loiras austríacas... ...peitudas... ...desacompanhadas... ...de topless... ...não tem preço!

A todos meus amigos, atletas ou não, filhos não atletas e ídolos,
primeiramente quero declarar que quebrei já nos 90km da bike. No excuses. Quebrei mentalmente. Um desastre. Depois explico.
Segundamente, Ironman Austria em Klagenfurt é sensacional.
Se existe uma prova de Iron a ser feita fora do pais ela deve ser na Austria. Acreditem.
A vibe em Klagenfurt em função do Ironman é indescritível! Esqueçam Jurerê. O apoio da cidade e da galera é fantástico!

Pré largada
Tudo muito organizado. Não existe “body marking” pois a pulseira de atleta tem uma marca holográfica assim como o adesivo da bike. Tudo checado via leitor ótico. Mais nada. Nem a touca da natação é numerada.

Vale tudo
Largamos 2.800 atletas as 7h na beira do lago com temperatura da água semelhante a Jurerê. Ótima. Visual espetacular.
Confesso que não me senti confortável pois largamos entre dois piers nos quais não tinha para onde sair nos primeiros 100 mts a não ser para frente, e rápido, já que a galera vinha com tudo atrás!! Acabei hiperventilando e a respiração foi pro saco.
Tive que me recompor dentro da água para nadar 3x1. Mas era muita gente!
Os últimos 400mts eram dentro de um canal da largura de uma piscina com 4 raias, porém com 2.800 atletas!
Vocês não imaginam a pancadaria. Lembrei dos treinos odiosos do Daniel no ATC que manda a gente nadar com respiração frontal.
Nunca apanhei e bati tanto enquanto nadava! Um horror! Nadava de mão fechada e dando coice! E tomava porrada!
O problema é que não dava para passar por cima dos mais lentos a frente e também não dava para diminuir o ritmo, pois a galera que vinha atrás vinha com tudo para passar por cima.
Como diz meu filho, foi um UFC aquático!
Saí da água com 1h09m e cruzamos por dentro do hotel oficial da prova! Show e diferente.
A tenda para troca de roupa da água para bike é única, ou seja, tudo junto misturado, homem e mulher.

Cochilada
Sai pra pedalar. Estrada sensacional. Na primeira descida cravei 62 km/h  clipado. Que cagaço! E a galera passando a 70 km/h!
Quando chegou a marca dos 30 km, numa subida, veio a primeira decepção. Na troca do volantão para o volantinho, numa subida, a corrente escapou. Parei para arrumar e destravar a corrente 3 vezes no mesmo lugar. Você já tentou clipar a sapatilha em subida?
Impossível. Comecei a ficar puto.
Resumindo, nos primeiros 90 km da bike parei 8 vezes para arrumar a corrente e como não tinha a marcha mais leve tive que subir as montanhas fazendo mais força. São 850 mts de elevação para cada 90km. O mesmo que subir de Santos a São Paulo.
A prova começou a ir pro saco.
Além disso, o dia ficou encoberto e comecei a sentir frio. Na virada dos 90km já estava de saco cheio, com frio e desanimado.
Como o hotel ficava no km 100 pensei em parar na recepção, subir para o quarto, pegar uma blusa e voltar para a prova. Beleza.
O que eu não contava era que a cama estivesse feita, linda, olhando para mim, aconchegante... Não resisti e deitei... ...quando acordei tinham se passado 22 minutos.
Agora sim, pensei, FUDEU. Vou passear com a bike e curtir o visual das montanhas.

Alpinismo com Downhill
Sai do hotel beleza, discretamente e voltei para a prova. Bora! Mais 80 km e termino este martírio.
O que eu não contava era que além de mais 4 escapadas da corrente meu volantinho fosse partir no meio. CRÉÉC. Agora sim, FUDEU.
Sem volantinho e com as montanhas pela frente tinha 3 alternativas: 1) sentar e chorar;
 2) voltar na contramão;
3) e seja o que Deus quiser.
Optei pela terceira. Fui em frente. Depois de tanta merda, agora eu ia terminar de qualquer jeito.
Obviamente a única alternativa era praticar alpinismo nas subidas empurrando a bike e praticar downhill nas descidas.  Foda. Toda galera passando e você empurrando. Ninguém merece.
Pensem no astral do Tour de France, mas,  num Iron. O asfalto nas subidas todo pintado pelos familiares, a galera ao lado da estrada enlouquecida com os atletas e você empurrando a bike. BROCHANTE!
Terminei a bike leg com 7h30m. Haja bunda. Lembrem que o campeão do Ironman Áustria terminou a prova COMPLETA em 7h45m.

Cervejada... ...de graça
Saí para a maratona destruído mentalmente. Fiz os primeiros 10 kms para média de 5m30s e daí comecei a pensar, pensar, pensar e conclui: FODA-SE!
Agora vou pra galera. Literalmente. Lembrei do Massa que  caminhou 30 km no Iron Brasil e não se entregou. Resolvi fazer o mesmo. Vou caminhar e me divertir com a galera da Áustria. Nunca tomei tanta cerveja na vida. Nada melhor numa maratona extenuante. E isso que não gosto de cerveja.
Quando a galera via que eu era do Brasil (pela camiseta, não pelo nome) o negocio virava uma várzea.
Eu parava, tomava um gole de cerveja e ia em frente... ...até o próximo bar. Ai tudo se repetia. Essa é uma prova boa para o Carneiro e para o Rodolfo (amigos que gostam de uma breja). Não iam chegar ao fim.
Posso assegurar a todos que caminhar por volta de 30 km a 9:15/9:45/km dói pra caramba. Principalmente aqueles músculos que a gente não usa regularmente. É horrível.     
Com este processo de caminhada acabei fazendo um monte de novas amizades pois todos passavam pelo mesmo dilema. Me diverti muito com ironmans de Trinidad, Venezuela, Canada, UK, USA, Irlanda, Slovenia, Estônia e obviamente com a loiras peitudas da Áustria. Que fazem topless durante a prova. Que beleza!  
Terminei a maratona em 5h30m.

Garanto a todos que, completar esta prova em 14h40m (3h35m pior que meu PR e 1h28m pior que meu 1º Iron em 2002) foi, de longe, a que mais me trouxe satisfação e sentimento de dever cumprido.
Em nome de meus filhos e amigos eu nunca poderia desistir.

Que todos se inspirem em:

NEVER, NEVER, NEVER FUCKING GIVE UP!! UNDER ANY CIRCUNSTANCE!!

PARA AQUELES QUE CURTEM O IRONMAN, UM DIA FAÇAM O IRONMAN AUSTRIA. GARANTO QUE NÃO VAO SE ARREPENDER!!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ironman II - Lições e agradecimentos

Lições de um segundo Iron
A experiência desta prova foi muito diferente da primeira, mesmo assim, uma regra se confirmou: o resultado da prova expressa o que foi treinado. Nas provas curtas é possível ter um tempo melhor do que os tempos de treino. No Iron não há menor possibilidade. Na melhor das hipóteses, você faz o que treinou.
Com exceção da natação, fui mais rápida em todos os meus tempos:

Natação 2010 1h06m35s Natação 2011 1h09m59s

T1 2010 11m25s (perderam minha sacola...) T1 2011 5m08s

Ciclismo 2010 6h12m51s Ciclismo 2011 5h59m37s

T2 2010 6m00s T2 2011 2m46s

Corrida 20103h58m30 Corrida 2011 3h57m35s

Aprendi a ser rápida na transição, pedalei melhor e ainda consegui baixar quase um minuto na corrida.
Treinei melhor, fiz um tempo melhor.
Saber lidar com as próprias expectativas, exigências e críticas é quase impossível de treinar e, durante o Iron, são obstáculos tão ou mais difíceis do que as distâncias que temos de transpor. Isso, depois do debut, é muito mais complicado. Quando estava me preparando para o primeiro Iron fiz uma estimativa do tempo que iria demorar MAS não me cobrei muito, não. O principal objetivo era cruzar a linha de chegada sem rastejar. No segundo, no mesmo percurso que o primeiro, não tem jeito: queremos superar nossa própria marca. Ao longo de toda a prova essa cobrança martelou minha cabeça e não foi bom. Passei por uma montanha russa de sensações, alternando momentos em que me sentia bem tanto física quanto psicologicamente com outros em que queria desistir.
Ao longo dos meses estive muito focada. Minha prioridade era cumprir minha planilha, no ritmo proposto. Abri mão de treinar com amigos e amigas porque queria fazer o meu ritmo e não bater papo. Foi muito mais solitário. Não fiz treinos de corrida na rua, pra não quebrar o ritmo –  fiquei na USP,  no Ibira e  noVilla Lobos. Algumas vezes, esteira. Sem música. Nos longos, com fuelt belt (com gel e accelerade), meia de compressão, viseira, o tênis e o modelo de meia que iria usar. O mais parecido com a prova possível.
No pedal tentei sempre andar com a média acima dos 30km/h. Não foi fácil e algumas vezes caí na tentação de pegar uma roda. Ainda assim, buscava uma roda daquelas bem difíceis, atrás da qual eu tivesse de fazer força.
Foi uma viagem solitária, focada e concentrada. Assim como a prova. Sem muitas gracinhas e brincadeiras. Um pouquinho, porque não combina comigo ser sisuda. Séria sim, sisuda não.
Entendi melhor o que é ser um Ironman. Dei muito mais de mim, terminei mais perto do limite, com a sensação de que venci a guerra depois de uma série de árduas batalhas. Por incrível que pareça, acho que tenho margem pra melhorar ainda um pouco mais. E, confesso, isso me assusta.


Agradecimentos
O Iron é uma prova individual mas, mesmo assim, competimos respaldados por uma equipe: técnicos, nutricionistas, parceiros de treino e família.
Meu segundo Iron não escapou à regra. A lista de pessoas que ajudaram, torceram e apoiaram é extensa. Agradecer nunca é demais. Então... agradeço, sem nomear todo mundo. Quem não for citado textualmente, mas estiver lendo este relato, por favor, sinta-se contemplado pela minha gratidão. Agradeço:

O apoio da minha família que, mais uma vez, soube compreender e suportar o fato de ter uma mãe/esposa/filha pouco disponível por tanto tempo.

Ao meu técnico Wagner Spadotto, a quem devo muito do meu resultado. Ele soube exigir de mim, colocar metas difíceis mas possíveis e, no momento crítico estava lá para me incentivar. Wagner você é um PUTA TÉCNICO além de ser uma pessoa maravilhosa. Conhecer e conviver com o Spadotto Team também deu aos treinos e ao Iron um gostinho especial. Valeu Spadotta, Karla, Kaká, Ronaldo e Nati!

À Julinha, parceira de treino, companheira de padoca e de momentos familiares além de técnica especializada em compressão de bisnaguinhas.

Nilma e Pedro Fernandes pela companhia sempre animada e as intermináveis conversas sobre triathlon.

Thelma e Gra, irmãs, amigas, madrinhas de triathlon, pela torcida e as palavras “calmantes” antes da prova.

Mari Klopfer pelas conversas, toques e a confiança no meu bom senso.

Aos amigos triatletas, corredores e técnicos da MPR, Planet, Sumaré Sports, BK (entre outras assessorias) por suas palavras de incentivo e por compartilharem comigo esta paixão pelo esporte.

A todos os amigos não triatletas e colegas de trabalho que tiveram paciência de me ouvir contar sobre os treinos e a prova e que torceram por mim mesmo sem entender como posso gostar desta insanidade.

Aos leitores deste blog que me escrevem, me incentivam, me acompanham.

sábado, 18 de junho de 2011

Ironman II – pós prova - A vida não é filme

A chegada estava uma muvuca. Como se vê no post anterior a este, nem dá pra me ver na foto de tanta gente que estava chegando ao mesmo tempo. Pena. Queria uma imagem como a do ano passado, bem debaixo do pórtico, com toda a família. Mas tudo bem. Paramos um pouco adiante e tiramos esta outra que postei ali em cima.
Abracei e beijei meus amores e combinei que nos encontraríamos no funil da chegada. Em 2010 fiquei meia hora procurando alguém da família depois da prova e isso não foi nada divertido. Apesar de não estar rastejando, estava bem cansada e sentia um pouco de tontura. Decidi passar por uma avaliação médica – se achassem que eu deveria tomar o soro, tomaria, caso contrário, medalha, camiseta e rua! O seu dotô me olhou e disse: bem... um pouco desidratado todo mundo aqui está... Se quiser um sorinho, deite aí na maca, alguém já lhe coloca.
Achei melhor só dar uma deitadinha pra passar a tontura e depois ir embora. Fui parar bem do lado do Flavinho Souza Ramos que chegou menos de 10 minutos antes de mim (hehehe) e engatamos numa conversa animada que nem parecia que a gente tinha acabado de completar um Iron.  E, bem, já que o papo estava bom e não tinha um chope pra acompanhar, decidi tomar o soro mesmo. A moça que foi colocá-lo em mim estourou duas veias e não teve sucesso. Desisti e decidi me hidratar por via oral que é mais agradável e não estoura a veia de ninguém.
Saí dali enrolada naquele coberto de papel alumínio e, na hora de pegar a medalha e a camiseta de finisher encontrei o Roger Haybittle, feliz da vida porque tinha melhorado seu tempo.  
Encontrei meu pessoal no local combinado. 
Sentei na calçada e lancei âncora. Lembrei que tinha pego umas broinhas de milho e um sache de mel no café da manhã e que deveriam estar dentro da minha mochila que estava com a minha mãe. Que delícia!!! Foi a melhor coisa que comi o dia inteiro. Mas lembrei também que tinha prometido à Mari, minha nutricionista, que tomaria as vitaminas e uma medida de (bleeeeergh) R4 logo após a prova.  Como estávamos bem em frente à residência dos Blois, lá foi ela bater e pedir água pra fazer a mistura. De quebra, trouxe o Daniel, que já estava de banho tomado e roupa seca e limpa. Que inveja.
 Ficamos lá, de papo furado. A Julinha passou e os meninos foram fazer uma segunda chegada com ela.
Daniel, de banho tomado


Com o R4 na mão: "será que vou tomar?"


Enrolada no alumínio, com os meninos, esperando a Juju.
Quando ela chegou, passei meu chip e o cartãozinho pro Roi pegar minha bike e fomos pegar a van pro hotel.
Ju e Martim, logo após a chegada dela
Levantar dali e andar até o ponto de onde saia o transporte foi um esforço e tanto. Fomos andando pela rua e chegou um momento em que teríamos de subir na guia. Julinha e eu nos entreolhamos. Ambas queríamos evitar este movimento. Não parecia possível elevar a perna, flexionar o joelho, apoiar o pé, colocando o peso na perna da frente, elevar a perna de trás e apoiar. Muito complexo e doloroso. Assim como parecia impossível entrar na van. Não foi fácil. Quase choramos, pedimos um guindaste, mas conseguimos.
Depois do banho e antes do jantar, eu e Roi resolvemos abrir o site pra ver se tinha algum resultado da prova.  Pegamos a lista de inscritas e fomos checando uma a uma. Assim descobri que tinha ficado como segunda da categoria.
Bem, se minha vida fosse um filme, eu teria vencido e a vaga para Kona seria minha. Mas não foi assim. Sim, ficaria feliz em ser a primeira e levar a vaga. Mas não fiquei chateada. Vice-campeonato, pódio e troféu de Ironman? Bom demais. Fiquei muito satisfeita com o resultado. E fomos comemorar, com pizza, jantar, familiares e amigos, o aniversário da Juju e os nossos Irons.
Feliz da vida, no pódio, com meu troféu de vice.