Uma semana depois
Naquele dia não consegui me levantar da cama. Estava com sonda, com dreno, cateter epidural e mais a medicação via soro que entrava pela veia.
Até o meio da tarde, não me sentia mal, a dor estava controlada e tive até fome. Pude tomar suco e encarar uma gelatina. Permissão exclusiva para a ingestão de líquidos.
A lembrança desses dias está toda enevoada pelos efeitos da morfina, mas consigo resgatar os principais eventos.
Meu marido passou a manhã comigo, minha mãe chegou no meio da manhã com seu indefectível bordado e na hora do almoço recebi a visita da Thelma. Foi a primeira amiga a vir. Elegante, portando um enorme vaso de flores e esboçando um sorriso tranquilizador. Fez uma visita de médico, pra se certificar com os próprios olhos que eu estava bem. E, naquela hora, eu estava bem.
Queria receber a visita de meus filhos. Por um lado, sabia que era importante que me vissem logo, mas, ao mesmo tempo, temia que ficassem impressionados com meu estado, com aquele monte de tubos saindo e entrando do meu corpo.
Logo depois do almoço, minha sogra trouxe os dois caçulas, meus gêmeos de onze anos, Ian e Félix. Foi rápido, mas cumpriu seus propósitos: fiquei contente em vê-los e eles certamente aliviados em me ver. Eu conseguia falar, estava sentada e os tubos razoavelmente discretos.
Martim, de 13 anos, veio um pouco mais tarde e Theo, meu mais velho, quase não veio.
Para nosso azar, justo nesta semana, Theo estava vivendo a sua primeira dor de amor. Ele tem 18, quase 19 e namorava há dois. Na semana que a mãe está internada no hospital, a namorada "pede um tempo". E ele fica desnorteado. Felizmente, ele veio com meu pai. Enrodilhou-se aos meus pés na cama do hospital, como um filhotinho que necessita do calor e da proteção da mãe.
Meu colo estava avariado, mas consegui me ajeitar de modo a passar as mãos nos seus cabelos recém raspados, aparar suas lágrimas e ouvir o relato de sua tristeza confusa e surpresa.
Ai como dói. Como dói. E a dor dele é minha também. Há um ditado que diz "Quem a boca do meu filho beija, minha boca adoça". É verdade. mas, o revés é ainda mais forte e eu nunca havia sentido a potência de dor de amor em coração de filho.
Os dois ainda estavam ali quando comecei a passar mal. Uma onda de náusea me tomou e não deu tempo de fazer nada. Só vomitar. A contração abdominal foi muito dolorosa, principalmente no lugar do corte.
Foi um momento de virada. Dali em diante, meu estado geral piorou. Se até então eu tinha conseguido mandar mensagens tranquilizadoras e me comunicar com todo mundo. A partir dali, silenciei.
26 de fevereiro - tarde
Daniel liga avisando que conseguiu um horário na tomografia no final da tarde. Diz para eu enviar o pedido médico que eles lá na Digimagem se encarregariam de conseguir a famosa autorização prévia.
Resolvo essas pequenas operações, mas tenho um dia de trabalho pela frente. Toco a vida, como se nada tivesse acontecido.
Naquele dia, o Secretário da Educação (que respondia interinamente pelo expediente) nos pede - a mim e aos outros diretores da Fundação, que fiquemos a postos pois queria falar com todos nós.
Torço para que ele não nos chame bem na hora que eu preciso sair para fazer o exame.
No meio da tarde somos convocados. Faz uma fala relativamente rápida mas as outras pessoas começam a falar e falar e falar e não é tão simples a gente pedir licença e sair no meio de uma reunião com o senhor Secretário.
Olho o relógio, meus pé batem impacientes por debaixo da mesa e, dentro da minha cabeça, mando meus colegas de trabalho pelamordedeus encerrarem logo o assunto. Mas não tem jeito. Aproveito um momento de dispersão para me levantar e pedir licença ao Secretário, explicando que tenho um exame médico.
Ele - que é atleta também e sabe um pouco das minhas estripulias - brinca comigo ah, é por conta da sua vida de atleta? Respondo de modo que só ele me escuta não, infelizmente, não. É um exame pra descartar o pior. Puxa, ele responde, não há de ser nada. Por favor, me mantenha informado. Agradeço e zarpo pro Tatuapé.
Daniel, meu anjo protetor, me espera na recepção. Fique tranquila, que isso não há de ser nada. Por que você está tão preocupada? Porque o histórico de câncer na família e grande.
Entendi.
Ele então me explica como é o exame. Eu nunca fiz. É rápido, e precisa de contraste. O contraste, me diz ele, provoca uma série de sensações desagradáveis: calores, sensação de que fez xixi na calça, náusea...Um horror! preparei para o pior.
A auxiliar me pergunta se eu tenho alergia ao contraste. Não sei. Nunca usei. Se eu for alérgica, o que vai acontecer? Vou morrer? ela ri. Não. A gente tem medicamentos pra evitar que isso aconteça. E então reforça todo o calvário que eu iria passar durante o exame.
Resignada, entro na sala do exame, esperando pelo pior.
Tudo se passa de modo, rápido, fácil e indolor. Ufa.
Daniel me espera à porta. Se eu tivesse que laudar exames abdominais, morreria de fome! Amanhã, assim que o médico que faz este laudo chegar, ligo pra você e ele liga para o seu médico. Agradeço mais uma vez pela ajuda e o carinho e vou para casa.
Faz menos de 24 horas que li o laudo do ultrassom. Neste curto período, fiz tudo que estava ao meu alcance, resolvi o que dava para ser resolvido. Esta atividade toda dá vazão pra minha ansiedade que, até aquele momento, não era ainda, angústia.
Agora, eu preciso sossegar um pouco, até saber o resultado do exame, no dia seguinte.
(continua)
domingo, 31 de março de 2013
quarta-feira, 27 de março de 2013
(Meu) Iron 2013 - II
Uma semana depois
Converso animada até uma da
manhã. Estão todos visivelmente aliviados em me ver bem. Inclusive eu mesma.
Minha irmã e meus pais se despedem. Meu marido arruma a cama de acompanhante e
capota. Não foi um dia fácil pra ninguém.
Com a cama hospitalar
reclinada, me recosto e cochilo na medida do possível. Durante toda a
noite, enfermeiras entram e saem do
quarto para medir a pressão e a temperatura, trocar o soro verificar a sonda,
colocar medicações.
Ao amanhecer, o cirurgião vem
para a visita. Abre um sorriso e comenta que já não tenho mais a palidez
cadavérica dos que tomaram anestesia geral.
Diz que tudo correu bem mas que devo ter paciência, pois, foi uma
cirurgia grande, que requer muita calma no processo de recuperação.
26 de fevereiro
Acordo antes das 4h30, antes
mesmo de tocar o despertador. O marido, pelo jeito, desistiu de treinar, pois
continua dormindo. Meu bilhete ansioso continua no mesmo lugar, junto ao
espelho do banheiro. Deixo lá. Espero que ele veja quando acordar e me ligue. E
diga que não é nada. Que vai ficar tudo bem. E que venha me abraçar.
Vou pra USP pedalar. Direto pra
Bolinha (praça da Reitoria) e lá fico girando girando girando. Encontro um e
outro amigo e converso amenidades como se nada estivesse se contorcendo dentro
de mim. Quebrei no Internacional. Na corrida? Deve ter sido o calor. Não, não
foi o calor. Tive umas dores estranhas no abdômen. E, quando digo isso, volto a
pensar no assunto. Será que foi por isso que quebrei? Porque estou doente?
Muito doente? Tento espantar esses pensamentos pra longe acelerando meu giro. Consigo, por alguns instantes, esquecer do
assunto. Mas ele retorna. Uma ideia que parece ter um anzol, vai se enganchando
em qualquer pensamento.
O celular, que ficou junto ao
corpo, não tocou. Sinto-me só com aquele medo todo. Então vejo Pedro terminando
sua corrida.
Pedro é um amigo próximo,
querido, feliz. Ele me chama de fanfarrona.
Logo percebe que o assunto é
serio. Faço um breve relato da minha angústia. Não há de ser nada. Mas, se for,
você vai tirar de letra. Queria ter essa certeza. Vou me embora depois de prometer que o manterei
informado.
Ao entrar no carro, vejo que
Daniel me respondeu. Sua mensagem me acalma um pouco. Fica sossegada. Isso não
é absolutamente nada. Fica tranquila e assim que falar com o seu medico, liga
pra mim. Estarei na Digimagem a tarde e acredito que não vai ter problema algum
em fazer um encaixe hoje mesmo. Bjo
O que eu não sabia é que ele só
tinha recebido um pedaço do laudo, que mencionava “cistos parapiélicos” e não a
parte mais tenebrosa.
Chego em casa, torcendo para
encontrar o marido. Mas ele já foi. Subo correndo. No banheiro, confirmo que o
bilhete foi lido. Mas a resposta é curta, despreocupada. Tenho vontade de
chorar, mas acho melhor ligar pro meu médico.
Consigo achá-lo em casa. Leio o
trecho do laudo sobre o rim E. Ele também não gosta e diz que o caso deve ser
tratado por um especialista na área, um cirurgião urologista, já que,
provavelmente, pelas características e localização – está desviando fluxo
sanguíneo do rim – precisará ser retirado.
E o próprio cirurgião deve decidir qual exame complementar pedir –
tomografia ou ressonância.
Ligo para minha mãe e peço que
ela contate o urologista que cuidou do meu pai para saber que exame fazer. Ela
fala com ele, que pede uma tomografia computadorizada.
Imediatamente aciono o Daniel
por mensagem, pedindo a ele que me encaixe em algum horário.
Não são 9 horas. Preciso
ir pro trabalho.
(continua)
terça-feira, 26 de março de 2013
(Meu) Iron 2013 - I
25 de fevereiro de 2013
Estava eu terminando o post que sobre o Triathlon Internacional de Santos, quando resolvi dar uma olhada no site do laboratório onde havia feito, na manhã daquele dia, um ultrassom de rotina. Durante o exame, fiquei encasquetada pois o médico ligou o doppler enquanto examinava meu rim esquerdo. Na mesma hora pergunte "Por que você ligou o doppler?". A resposta foi evasiva. Uma embromação. Eram 22h30 quando li o laudo. Não consegui terminar o post.
Uma semana depois
Maligno ou benigno? Segundo o dr. Grohmann, assim que abri os olhos, na sala de recuperação, disparei a pergunta. Não lembro. Junto com ele estava também meu ginecologista, que acompanhou a cirurgia. Também não lembro disso.
Lembro, a partir de um certo momento, que escutei os enfermeiros discutirem se eu iria pra UTI, ou não. Não fui. O estado geral era bom. Pressão, batimentos, oxigenação.
Na minha mão, um instrumento mágico: parece um interrupto de abajur daqueles antigo, que a gente segura com os quatro dedos e aperta com a ponta do dedão. É a bombinha com o bônus de morfina, me explicam. Estou com um cateter peridural que injeta morfina permanentemente mas, caso a dor aumente, a cada 12 minutos, tenho direito a um plus.
Não sinto as pernas, a cabeça está leve, e a dor é afastada logo que se aproxima.
Converso com Aline, uma das auxiliares de enfermagem atenciosas, que explica sobre a bombinha. Ela tem o rosto lindo. Digo isso pra ela sem me importar com o que pode, equivocadamente, inferir. Deve ser o efeito das drogas.
Também puxo papo com Sergio, o corintiano. Quero subir pro quarto, quero ver meu marido, digo pra ele. Já estou bem.
Desci para o Centro Cirúrgico por voltas das 18h. Já é meia-noite. Não lembro de quando sai do quarto. Pela primeira vez, me deram o dormonid na veia. Nas duas artroscopias que fiz, tomei via oral e lembro da minha chegada à sala de cirurgia. Desta vez, é um grande apagão. (Que bobagens será que falei?)
Finalmente sou liberada para voltar ao quarto.
Chego falante, quase eufórica. Marido, mãe, pai e uma das irmãs. Fico sabendo que o corte foi na frente e não nas costas como inicialmente planejado. O médico quis ver (ver como as crianças veem, com as mãos) meu fígado também. Não encontrou nada. Ainda bem.
Dou uma olhada no curativo. É imenso. Não consigo saber como é a incisão. Mas dá pra perceber que é grande.
25 de fevereiro 2013
O marido dormia. Não tive coragem de acordar. Liguei para minha mãe. Li o laudo. Não é bom. Liga pro Nilson amanhã cedo.
Copiei a parte do laudo que descrevia o rim esquerdo e enviei para o Daniel, meu amigo e radiologista compartilhando minha angústia e pedindo ajuda pra agendar o exame complementar - sugerido pelo médico que escreveu o laudo - se possível, no dia seguinte mesmo.
Deixei um bilhete para o marido no espelho do banheiro, compartilhando minha angústia. Supunha que fosse acordar antes de mim. Assim compartilharia o assunto logo cedo. Feito isso, apaguei as luzes. Iria acordar cedo para treinar no dia seguinte. 4h30 da manhã.
mas não dava pra dormir. O medo de estar com câncer me assombrou a noite toda. Minha mãe teve linfoma aos 48 anos. Eu tenho 49. Ela está muito bem, mas passou por todo aquele tratamento violento de quimio e radio. Apavorada, mal dormi.
(continua)
Estava eu terminando o post que sobre o Triathlon Internacional de Santos, quando resolvi dar uma olhada no site do laboratório onde havia feito, na manhã daquele dia, um ultrassom de rotina. Durante o exame, fiquei encasquetada pois o médico ligou o doppler enquanto examinava meu rim esquerdo. Na mesma hora pergunte "Por que você ligou o doppler?". A resposta foi evasiva. Uma embromação. Eram 22h30 quando li o laudo. Não consegui terminar o post.
Uma semana depois
Maligno ou benigno? Segundo o dr. Grohmann, assim que abri os olhos, na sala de recuperação, disparei a pergunta. Não lembro. Junto com ele estava também meu ginecologista, que acompanhou a cirurgia. Também não lembro disso.
Lembro, a partir de um certo momento, que escutei os enfermeiros discutirem se eu iria pra UTI, ou não. Não fui. O estado geral era bom. Pressão, batimentos, oxigenação.
Na minha mão, um instrumento mágico: parece um interrupto de abajur daqueles antigo, que a gente segura com os quatro dedos e aperta com a ponta do dedão. É a bombinha com o bônus de morfina, me explicam. Estou com um cateter peridural que injeta morfina permanentemente mas, caso a dor aumente, a cada 12 minutos, tenho direito a um plus.
Não sinto as pernas, a cabeça está leve, e a dor é afastada logo que se aproxima.
Converso com Aline, uma das auxiliares de enfermagem atenciosas, que explica sobre a bombinha. Ela tem o rosto lindo. Digo isso pra ela sem me importar com o que pode, equivocadamente, inferir. Deve ser o efeito das drogas.
Também puxo papo com Sergio, o corintiano. Quero subir pro quarto, quero ver meu marido, digo pra ele. Já estou bem.
Desci para o Centro Cirúrgico por voltas das 18h. Já é meia-noite. Não lembro de quando sai do quarto. Pela primeira vez, me deram o dormonid na veia. Nas duas artroscopias que fiz, tomei via oral e lembro da minha chegada à sala de cirurgia. Desta vez, é um grande apagão. (Que bobagens será que falei?)
Finalmente sou liberada para voltar ao quarto.
Chego falante, quase eufórica. Marido, mãe, pai e uma das irmãs. Fico sabendo que o corte foi na frente e não nas costas como inicialmente planejado. O médico quis ver (ver como as crianças veem, com as mãos) meu fígado também. Não encontrou nada. Ainda bem.
Dou uma olhada no curativo. É imenso. Não consigo saber como é a incisão. Mas dá pra perceber que é grande.
25 de fevereiro 2013
O marido dormia. Não tive coragem de acordar. Liguei para minha mãe. Li o laudo. Não é bom. Liga pro Nilson amanhã cedo.
Copiei a parte do laudo que descrevia o rim esquerdo e enviei para o Daniel, meu amigo e radiologista compartilhando minha angústia e pedindo ajuda pra agendar o exame complementar - sugerido pelo médico que escreveu o laudo - se possível, no dia seguinte mesmo.
Deixei um bilhete para o marido no espelho do banheiro, compartilhando minha angústia. Supunha que fosse acordar antes de mim. Assim compartilharia o assunto logo cedo. Feito isso, apaguei as luzes. Iria acordar cedo para treinar no dia seguinte. 4h30 da manhã.
mas não dava pra dormir. O medo de estar com câncer me assombrou a noite toda. Minha mãe teve linfoma aos 48 anos. Eu tenho 49. Ela está muito bem, mas passou por todo aquele tratamento violento de quimio e radio. Apavorada, mal dormi.
(continua)
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Ironman 2012 - Staff e torcida - Parte 2
Chegadas e mais chegadas
Deixamos nossos postos de staff e fomos tomar
um merecido café na Expo Iron (feirinha de produtos que fica do lado
da área de transição). Com direito a pão-de-mel e tudo.
Em seguida, fomos até as arquibancadas ver o
pessoal cruzar a linha de chegada.
A ideia era ficar meia hora, apenas, mas
acabamos ficando quase duas horas.
Chegamos ali com 9h25 minutos de prova. O pessoal forte dos amadores e as
mulheres do profissional estavam terminando a prova. Eu nunca tinha visto “de fora”. É mesmo um
momento comovente e inspirador.
O que mais impressiona é a alegria. Por mais
que a pessoa esteja no fim das suas energias, a estrondosa maioria, quando pisa
no tapete azul que leva até o pórtico, tem ainda forças pra iluminar o rosto,
brilhar os olhos e escancarar um belo sorriso. Cruzado o pórtico, para alguns,
o disjuntor cai e dali vão direto pra maca. Mas, no mais das vezes, dá pra
abraçar e beijar os seres amados que tiveram a paciência de suportar um
triatleta em família por meses, com todas as suas neuras, ausências, conversas
monotemáticas, entre outras manias.
| Família uniformizada |
Cada um ali tem uma história e a gente
consegue vislumbrar um pouquinho delas no desfile do tapete azul. Pelo que
soube, na maioria das provas de Ironman pelo mundo afora, não se
pode atravessar o pórtico acompanhado. Aqui, é uma autêntica festa:
- Famílias inteiras uniformizadas;
- Atletas pais com nenês de colo;
- Atletas pais, com mulheres enormes de
grávidas;
- Atleta portando faixas com declarações de
amor;
- Atleta professor, acompanhado de toda a sua
turma;
- Atletas filhos, com seus pais e irmãos;
- Atletas, mães, com marido (ou sem) sua prole de filhos e até
netos!
O amor e o companheirismo são homenageados em
100% das travessias dos amadores. Não tem como os olhos não marejarem.
Nem vimos o tempo passar e foi duro sair
dali. Mas tínhamos prometido à nossa chefa que voltaríamos, então fomos nos
reapresentar em nosso posto.
Estava tudo absolutamente tranquilo naquela
transição. Não tinha nada pra gente
fazer. Pedimos pra ser exoneradas e fomos embora.
Pizza,
cerveja e a torcida mais animada
Logo que saímos, encontrei minha querida rival
mega super máster atleta Valeria Rosati que, mais uma vez, levou a melhor e vai, pela terceira vez, pra Kona.
Torci muito por ela durante a prova, porque, além de ela ser forte mesmo, é uma
pessoa simpática, bacana e humilde. E ela me deu um abração e agradeceu a
torcida.
Em seguida, voltamos pra arquibancada onde
estavam a Mari Klopfer e a Simone Lotito. Como já tinham se passado mais de 12
horas de prova, sugeri que fossemos pra outro lugar, comer alguma coisa e
torcer pro pessoal que ainda estava fazendo a prova. Mari foi conosco e Simone juntou-se a nós
depois.
![]() |
| A pizza e a cerveja mais divertidas que já comemos |
Com o anoitecer, a animação vai arrefecendo e
é duro para quem ainda está no meio do percurso da corrida.
Fomos andando em direção ao Campanário e já
começamos uma muito animada torcida pro pessoal que estava correndo.
Estava tão divertido torcer, que decidimos
buscar a pizza no Spazio e darmos conta delas ali, sentadas na guia.
E foi o que fizemos. Cerveja numa mão, pizza
na outra e gritos de incentivo, de boca cheia mesmo.
Quando alguém lançava olhares cúpidos para
nossa refeição, prometíamos: “Vai lá, termina a prova e volta aqui que a gente
te dá uma pizza!”
Lá pelas tantas, passou um e pediu: “dá um
pedaço, dá um pedaço!” olhando pro pedaço que a Thelma segurava. Não teve como.
Ela mesma nos disse “o pedaço era dele, eu só estava segurando!”
Revigoradas com a pizza e a cerveja,
levantamos e começamos a torcida mais animada do Iron. Sério. Veio gente
filmar, fotografar e assistir.
![]() |
| O Túnel da Energia - olha o sorriso dela! |
Aplaudíamos e saudávamos todos. Começamos a
cantar para aqueles que vinham andando desanimados. Nosso coro era “Quem ta andando
a gente anima! Quem ta andando a gente anima! Quem ta andando a gente anima!”,
batendo palma e cantando cada vez mais forte e rápido, até que a pessoa
começasse a trotar. Aí comemorávamos como um gol de final de campeonato e, de
quebra, eu ainda gritava “lindooooo! Lindoooo!”.
Conseguimos fazer quase todo mundo trotar. E
todo mundo, todo mundo, sorrir.
Lá pelas tantas, chegou a Julinha, que
rapidamente entrou na brincadeira e era a mais engajada. Ia láááá longe
conversar com a pessoa que estava andando, avisando que íamos animá-la e que
ela, sem dúvida, iria conseguir dar um trotinho.
Na nossa frente, instalou-se um pessoal com a
bandeira do Chile. Cantamos pra eles:
“Chi-chi-chi le-le-le
vi-va Chi-le!”
Do alto de um prédio, uma galera começou a
fazer coro conosco.
Inventamos um “túnel energizante, descãimbrante”.
Quem passasse por ele, voltaria a correr e fizemos a hola, para aqueles que
vinham correndo ou trotando.
Até o “tchu e o tchá” a gente cantou.
Foi uma verdadeira festa. Alegramos muita
gente mesmo. Com a nossa animação, só o pessoal que estava no posto de hidratação,
uns 400 metros
adiante. Eles também estavam cantando,
dançando e brincando com todo mundo.
Chegada
da Kelly
![]() |
| Comitiva da Kelly |
Por volta de 14h30 minutos de prova, a Kelly,
nossa querida amiga, apareceu para fechar a prova.
Decidimos acompanhá-la até o final. Dali até a
chegada eram mais ou menos 1500
metros . E lá fomos aplaudindo, em comitiva.
Dali até o final, fomos anunciando e pedindo aplausos:
“Pessoal, esta é a Kelly! Ela está terminando
o Iron! Palmas pra ela!”
E assim ela foi acalmada por todo o
percurso. Todo mundo, naquele 1,5
km , a ovacionou.
Quando chegamos ao tapete azul, ela acelerou e
nós a deixamos ir.
Ela cruzou o pórtico e olhou pra trás.
Fez sinal para que fossemos até lá.
Fomos correndo e, no pórtico, demos um “peixinho”
aos pés dela.
Depois, levantamos, a abraçamos e giramos.
Por últimos, posamos para uma foto no pórtico.
Um carnaval. Inesquecível, pra todas nós.
![]() |
| "Palmas pra Kelly!!!"(veja o vídeo da chegada) |
Apagar
das luzes – os últimos
Depois da chegada da Kelly, voltamos ao nosso
posto na frente do Campanário. Consegui
convencer as meninas e assistirmos os últimos competidores chegando. Estávamos
as quatro bastante cansadas mas, puxa, eu queria prestigiar o pessoal que não
desiste.
E fomos nós. No caminho, uma senhora apontou
pra mim e disse: “Esta menina, de anteninhas, animou muita gente! Vocês está de
parabéns, viu?!”. Adorei. Principalmente a parte da “menina”. Nada como ter
anteninhas pra parecer mais jovem.
Cruzamos também um atleta, que nos perguntou “E
a Kelly? Chegou?” Nada como ter anteninhas, pra ser reconhecida.
Já não tinha muita gente nas arquibancadas e
os que estavam, esperavam ansiosos, temendo que o atleta que esperavam não
conseguisse chegar tempo.
Vimos chegar a Theo Carroll, a competidora
mais idosa, de sessenta e tantos anos que, no entanto, não foi a última.
E o Ivan, de Rondônia, que aprendeu a nadar com mais de 40 anos, só
pra poder completar um Iron – e estava com uma enorme e barulhenta torcida.
E a Alicia Collins, a triatleta mais gorda que
já vi. Como ela conseguiu carregar aquele peso todo – praticamente concentrado
no seu quadril e adjacências - por quase 17 horas? Será que é saudável? Não é perigoso para as
articulações? Ficamos, as quatro, nos perguntando.
E o último a chegar foi um rapaz de trinta e
poucos anos, Bruno. Nem gordo, nem magro. Por que será que ele custou tanto a
fazer a prova? Enigmas do triathlon.
Aos dez segundos, foi feita uma contagem
regressiva e, felizmente, se havia alguém para chegar (e acho que havia) não
estava perto o suficiente para ter esperanças de cruzar a linha.
E assim terminou o Iron 2012.
Uma coisa é certa. Em 2013 estarei lá. De qual
lado do balcão, ainda não sei.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Ironman 2012 - staff e torcida - Parte 1
Decisão
Não, não completei o Ironman 2012. Mas estive lá.
Desde que fui ao campeonato mundial de Iron 70.3, em Clearwater, tenho vontade de participar como voluntária.
Lá fiquei impressionada com a maneira como as pessoas nos acolhiam: desde a entrega do kit, feita, no meu caso, por um senhor britânico, de mais de 60 anos, que acompanhava o filho que iria correr a prova, até o moleque de uns 17, que me entregou a toalha na linha de chegada, todos pareciam empenhados em fazer com que você se sentisse feliz e importante. Na minha última volta, já na corrida, me derreti toda e fui declarando meu amor a todos os voluntários: "I love you all! Thanks a lot! You're awesome", eu gritava.
A experiência desta prova foi maravilhosa e, tenho certeza, o staff contribuiu muito para isso.
Em todas as provas de que participo faço questão de agradecer aos voluntários e percebo que quando eles estão curtindo estar ali, o astral é outro.
Ano passado, quando encontrei meu querido amigo Artur Araujo no checkin da bike, trabalhando como voluntário, percebi como era legal ter alguém conhecido ali, me recepcionando.Então, este ano, quando decidi que assistiria ao Iron, resolvi também participar como staff. E de quebra, convenci Thelma e Dri - amigas triatletas - a fazerem o mesmo.
O processo de cadastramento como voluntária foi confuso. Entrei no site, me inscrevi na área de transição das bikes mas não recebi nenhuma confirmação via email. Apenas uma mensagem no próprio site dizendo que estava tudo ok. Mas... não estava.
Semanas depois, a Dri recebeu um e-mail, confirmando a participação dela. mas Thelma e eu, nada. Escrevi pra pessoa que enviou a mensagem pra Dri e ela mandou cadastrar no site de novo. Cadastrei, anotei o horário que estaria disponível e enviei de novo. Mas o meu cadastro não foi confirmado.
Depois, foi o cadastro da Dri que sumiu. Uma confusão! E cada hora a coordenadora marcava um horário diferente para gente "pegar e largar". Somos persistentes e fizemos marcação cerrada até o momento de começar efetivamente o trabalho - mas isso eu conto daqui a pouco.
Anteninhas
Desde que combinamos de ir juntas: Thelma, Adri e eu, como voluntárias, mais a Marina Klopfer - nutricionista que virou amigona - eu tinha certeza de que iria ser um fim-de-semana especial. A começar pelo fato de viver cercada de meninos, que gostam de fazer coisas de meninos e se comportar como meninos. Acrescido do fato de, no fim-de-semana anterior termos tido uma comemoração no paintball, com 20 meninos (sim, meninOs, do sexo masculinoooo) que depois foram almoçar em casa e tivemos, Roger (marido e pai, responsável por todos estes cromossomos Y) e eu que dar conta da turba que estava ensandecida com tanta adrenalina. Eu MERECIA passar um fim de semana com meninas, que agem como meninas, falando besteiras e fazendo brincadeiras de meninAs. Foi o paraíso.
Saindo de casa, vesti uma linda tiara rosa, com anteninhas de borboletas na ponta - bem de menina. Fiquei com ela na cabeça o fim de semana inteiro. Aposto que se tivesse marido ou filhos junto ia ser um tal de "mãe, você está ri-dí-cu-la com esta tiara! tira isso". Com as amigas foi só diversão. E a anteninha teve uma função muito útil: era fácil de me localizar e me reconhecer, de longe, na multidão.
Sábado
Chegamos, fomos pegar o carro alugado e, entre o balcão da locadora no aeroporto e o estacionamento da locadora, quase perdemos as CNHs das três que tinham CNH. Por sorte, as anteninhas, que serviam como radar também, me levaram a revistar os bolsos da Dri - que achava que tinha passado os documentos pra Mari, que tinha certeza que não e quase ficou tenso. Mas lá estavam as CNHs, Thelma foi nomeada piloto oficial e eu - por causa das anteninhas que vem com GPS, fui a copiloto.
Fomos pra Barra da Lagoa e, com um belo cenário de fundo, tomamos uma cerveja, comemos um peixe, enquanto um sol suave e agradável iluminava e aquecia. Recusamos delicadamente o casal que queria cantar uma música para nós e, pra moça que veio com "posso falar com vocês um pouquinho?" respondi tranquila e veementemente - "não". O que ela não esperava. Ainda mais vindo de uma moça de anteninhas.
Quase não encontramos nosso hotel, porque ninguém tinha o endereço e nem lembrava o nome. Acabamos achando o "Sonho Meu" em Canasvieiras, depois de alguns telefonemas.
Largamos as coisas na nossa cobertura em - com direito a terraço e banheiro enorme de azulejos enormes (lajotas???) pretos e brancos - um luxo! Totalmente kitch, que combinava muito com as minhas anteninhas.
Fomos pra Jurerê, nos apresentar pra chefe do staff e dar uma corridinha.
A corrida foi uma delícia. Todo mundo estava naquela neura dos últimos preparativo pro Iron no dia seguinte e a gente correndo na maior curtição. No meio do caminho encontramos o Galindez (elite do triathlon) que não estava brincando em serviço.
Voltamos para um banho rápido. Recorde olímpico. Quatro mulheres e um banheiro e levamos menos de uma hora para estar todas prontas!
Passamos no Campanário, onde o pessoal jantava seu macarrãozinho básico, com água ou suquinho e fomos comer nossa pizza com vinho no Spazio.
Além de nós quatro, juntaram-se a nós três beldades: Simone Lotito, Julinha (minha filhinha) e a super atleta mega conhecida, sempre de pink e amiga querida - Nilma.
Deixamos o Jason - moço que atendia nossa mesa - até sem graça. E olha que ele tinha rebolado. Uma de nós (que não fui eu, óbvio, a única casada e MUITO BEM casada por sinal) que não vou dizer quem foi, ficou ensaiando para perguntar que horas ele largava. Mas só ensaiou. Quase passei minhas anteninhas pra ela ficar mais esperta...
Voltamos pro hotel zonzas de vinho e canseira. E dormimos tarde pra quem ia ter de levantar cedo no dia seguinte.
Largada e natação
A largada do Iron é um clássico. Sol nascendo, aquele mar de gente, a expectativa... Pena que tinha tanta, mas tanta gente, que quase não deu pra ver nada. Mesmo assim, é um clima contagiante.
Assim que o povo entrou na água, nos maravilhamos um pouco com aquele cardume voador contra o sol e logo fomos pra chegada da natação reservar um lugar, porque o curralzinho, onde o pessoal passa da primeira pra segunda boia, já estava lotado. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco vão começar a vender reservas para os melhores lugares de assistir o Iron. Estava muito concorrido.
Ficamos bem perto do relógio, logo depois de uma curva fechada que os atletas tinha de fazer e muita gente derrapava, quase caindo.
Ali conseguimos ver alguns amigos, mas não muitos, porque tem gente que sai irreconhecível da água: amassado, com o óculo na cara ou com uma expressão tão estranha que a gente não conseguia identificar quem era.
Depois da passagem da nossa amiga Kelly, subimos pra tomar um café.
Staff!
Passamos pela área das bikes pra nos apresentar à nossa chefe, mas ela não estava ali. Tomamos o café, com direito à tapioca e tudo (e a moça da tapioca achou a gente fácil pra entregar o pedido adivinha porque? por causa da anteninha!). Chegamos na transição, prontas pra trabalhar e "a chefe do setor foi resolver um problema. Deem uma volta por aí e voltem daqui 15 minutos". Muito obedientes, fomos dar uma volta.
Passados 15 minutos, Mariana rumou pra seu posto de nutricionista e nós três fomos nos apresentar mais uma vez. Mais uma vez fomos despachadas. "Voltem às 11h, que agora não tem nada pra fazer". Verdade. Não tinha mesmo. mas pedimos pra pegar nossa camiseta de staff. Era o que mais queríamos!
Fomos pra praia, estendemos a canga-cachecol da Dri, e passamos meia-hora lagarteando ao sol. Em silêncio, só ouvindo o mar. Nem parecia que em algum lugar rolava o Ironman!
De novo nos apresentamos. Não tinha nada pra fazer. O pessoal estava pedalando. Então, nos restou ir almoçar.
O almoço foi ok. Sentou conosco a Angela, voluntária pela segunda ou terceira vez, cujo pai, de 130 kg estava fazendo a prova, também pela segunda ou terceira vez. Segundo o que nos contou, ele é considerado herói na cidade de Paranaguá, onde mora. É o único triatleta do pedaço.
Quando voltamos, finalmente, parecia que seríamos úteis pra alguma coisa. Angela havia nos informados que seriam três equipes: uma, na linha de frente, que recebia as bikes dos atletas, uma intermediária, que recebia a bike da primeira equipe e, a terceira, que pegava da segunda equipe e guardava nos cavaletes.
É claro que a gente queria ficar na linha de frente, encontrando os atletas. Então fiquei esperta, atenta à movimentação e assim que vi o Patrick, um dos coordenadores do pedaço, começar a ir em direção da linha de desmonte, fui atrás dele. E ele disse "preciso de 10 voluntários aqui". Não perdi tempo e as meninas, espertas, seguiram a borboletinha. Atingimos nosso objetivo. Integramos a primeira equipe.
No batente
A ideia, infeliz, do pessoal, era que somente dois deles pegariam as bikes direto dos atletas e os demais pegariam deles pra levar pros outros. Óbvio que não deu certo. Primeiro, porque era chato. Todo mundo estava era afim de pegar as bikes das mãos dos atletas, segundo que, na hora que chegavam mais de duas bikes, a confusão estava armada, Então, o plano deles foi por água abaixo.
Na maior parte do tempo, a chegada dos atletas foi tranquila. De repente, chegava um pelotão, e aí era a maior correria e muito divertida por sinal.
A primeira leva chega nitidamente mais inteira. São os profissionais e o pessoal que pedala bem. Conforme o tempo vai passando, o estado geral vai piorando. Começam a chegar aqueles com cãibras, que mal conseguem descer da bike sozinhos, outros com as pernas tão duras que parecem uns robozinhos andando, outros que não sabem que rumo tomar.
A gente ficava atenta, oferecendo ajuda para quem quisesse tirar a sapatilha (e tava com medo de abaixar e não levantar nunca mais), inclinando a bike, pro pessoal da cãibra, tentando não atrapalhar os mais apressadinhos e incentivando todo mundo.
Alguns - poucos - agradeciam dizendo "obrigado", "valeu", "gracias" ou "thanks". Outros, estavam tão cansados, que apenas olhavam mas era fácil de identificar a gratidão no olha exausto. Uns beijavam a bike antes de correr pras tendas, outros diziam "aff, leva ela embora!", outros não queria entregar a bike, achavam que eram eles que teriam de levar de volta ao cavalete e era duro tirar a magrela destes.
Uns tiravam o cateye ou o polar, caramanholas e comidas de suas bento box antes de ir. Então, quando eu via que a pessoa estava muito atordoada, perguntava "Não quer levar nada daqui? Não está esquecendo nada?" e tinha alguns que acabavam pegando alguma coisa e agradeciam a lembrança.
Vimos gente chegando machucada, com a bermuda rasgada, braços sangrando, capacete detonado e que não desistiu. Vimos uns poucos também que abandonaram. Muito poucos.
Recebi a bike de alguns amigos que consegui identificar -Flavinho, Jacques, Nilma, Valeria - outros, mal consegui ver: Edu, Artur, Marquinhos, Alcy, Pedro, Serginho... Mas se uma de nós via, já avisava: "olha o Pedro!" a gente festejava "vai, Pedro!", mesmo se não estivesse vendo.
Tentamos incentivar as pessoas ao máximo: "agora não tem perigo de furar o pneu!", "vai, que é só a corrida!", "O mais difícil já foi!", "vai, que você está bem!" e outras frases do gênero. A maioria das pessoas apenas sorria. Outras, respondiam mau-humoradas "'só' 42 km", é?"
Diglu um amigo, ironman experiente, chegou de cabeça rachada, roda entortada e puto da vida.
"Fui atropelado!"disse ele, e começou a nos mostrar os danos.
Thelma perguntou "você vai desistir?"
E ele "Claro que não!"
Ela "Então o que você tá fazendo aqui? Vai embora, meu!"
Não precisou falar duas vezes. nem se despediu e pulou fora.
Quando a Nilma chegou, fizemos tanta bagunça que até a atrapalhamos um pouco. Fomos todas ajudá-la e ela não tinha por onde passar! Até o moço da organização passou um pito "não atrapalha, não atrapalha!".
Ficamos até a chegada da Kelly. E nos emocionamos as quatro com o encontro. A ajudamos a tirar as sapatilhas e, logo na sequencia, demos aquele abraço e ela partiu pra maratona.
Logo depois, decidimos que nossa presença ali não era tão imprescindível.
Foram perto de quatro horas que ficamos ali. mas passou muito rápido. Foi uma experiência diferente e acho que todo o triatleta, principalmente de Iron, deveria passar por ela pelo menos uma vez. (Continua)
Não, não completei o Ironman 2012. Mas estive lá.
Desde que fui ao campeonato mundial de Iron 70.3, em Clearwater, tenho vontade de participar como voluntária.
Lá fiquei impressionada com a maneira como as pessoas nos acolhiam: desde a entrega do kit, feita, no meu caso, por um senhor britânico, de mais de 60 anos, que acompanhava o filho que iria correr a prova, até o moleque de uns 17, que me entregou a toalha na linha de chegada, todos pareciam empenhados em fazer com que você se sentisse feliz e importante. Na minha última volta, já na corrida, me derreti toda e fui declarando meu amor a todos os voluntários: "I love you all! Thanks a lot! You're awesome", eu gritava.
A experiência desta prova foi maravilhosa e, tenho certeza, o staff contribuiu muito para isso.
Em todas as provas de que participo faço questão de agradecer aos voluntários e percebo que quando eles estão curtindo estar ali, o astral é outro.
Ano passado, quando encontrei meu querido amigo Artur Araujo no checkin da bike, trabalhando como voluntário, percebi como era legal ter alguém conhecido ali, me recepcionando.Então, este ano, quando decidi que assistiria ao Iron, resolvi também participar como staff. E de quebra, convenci Thelma e Dri - amigas triatletas - a fazerem o mesmo.
O processo de cadastramento como voluntária foi confuso. Entrei no site, me inscrevi na área de transição das bikes mas não recebi nenhuma confirmação via email. Apenas uma mensagem no próprio site dizendo que estava tudo ok. Mas... não estava.
Semanas depois, a Dri recebeu um e-mail, confirmando a participação dela. mas Thelma e eu, nada. Escrevi pra pessoa que enviou a mensagem pra Dri e ela mandou cadastrar no site de novo. Cadastrei, anotei o horário que estaria disponível e enviei de novo. Mas o meu cadastro não foi confirmado.
Depois, foi o cadastro da Dri que sumiu. Uma confusão! E cada hora a coordenadora marcava um horário diferente para gente "pegar e largar". Somos persistentes e fizemos marcação cerrada até o momento de começar efetivamente o trabalho - mas isso eu conto daqui a pouco.
Anteninhas
| Recém chegadas à Ilha do Desterro, ainda no aeroporto |
Saindo de casa, vesti uma linda tiara rosa, com anteninhas de borboletas na ponta - bem de menina. Fiquei com ela na cabeça o fim de semana inteiro. Aposto que se tivesse marido ou filhos junto ia ser um tal de "mãe, você está ri-dí-cu-la com esta tiara! tira isso". Com as amigas foi só diversão. E a anteninha teve uma função muito útil: era fácil de me localizar e me reconhecer, de longe, na multidão.
Sábado
Chegamos, fomos pegar o carro alugado e, entre o balcão da locadora no aeroporto e o estacionamento da locadora, quase perdemos as CNHs das três que tinham CNH. Por sorte, as anteninhas, que serviam como radar também, me levaram a revistar os bolsos da Dri - que achava que tinha passado os documentos pra Mari, que tinha certeza que não e quase ficou tenso. Mas lá estavam as CNHs, Thelma foi nomeada piloto oficial e eu - por causa das anteninhas que vem com GPS, fui a copiloto.
| Saúde! Na Barra da Lagoa |
Quase não encontramos nosso hotel, porque ninguém tinha o endereço e nem lembrava o nome. Acabamos achando o "Sonho Meu" em Canasvieiras, depois de alguns telefonemas.
Largamos as coisas na nossa cobertura em - com direito a terraço e banheiro enorme de azulejos enormes (lajotas???) pretos e brancos - um luxo! Totalmente kitch, que combinava muito com as minhas anteninhas.
Fomos pra Jurerê, nos apresentar pra chefe do staff e dar uma corridinha.
A corrida foi uma delícia. Todo mundo estava naquela neura dos últimos preparativo pro Iron no dia seguinte e a gente correndo na maior curtição. No meio do caminho encontramos o Galindez (elite do triathlon) que não estava brincando em serviço.
Voltamos para um banho rápido. Recorde olímpico. Quatro mulheres e um banheiro e levamos menos de uma hora para estar todas prontas!
| Embaixo:Thelma, Dri, Nilma e Julinha, em cima: Simone, eu e Mari. |
Além de nós quatro, juntaram-se a nós três beldades: Simone Lotito, Julinha (minha filhinha) e a super atleta mega conhecida, sempre de pink e amiga querida - Nilma.
Deixamos o Jason - moço que atendia nossa mesa - até sem graça. E olha que ele tinha rebolado. Uma de nós (que não fui eu, óbvio, a única casada e MUITO BEM casada por sinal) que não vou dizer quem foi, ficou ensaiando para perguntar que horas ele largava. Mas só ensaiou. Quase passei minhas anteninhas pra ela ficar mais esperta...
Voltamos pro hotel zonzas de vinho e canseira. E dormimos tarde pra quem ia ter de levantar cedo no dia seguinte.
Largada e natação
![]() |
| Borboletinhas apreciando a largada |
Assim que o povo entrou na água, nos maravilhamos um pouco com aquele cardume voador contra o sol e logo fomos pra chegada da natação reservar um lugar, porque o curralzinho, onde o pessoal passa da primeira pra segunda boia, já estava lotado. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco vão começar a vender reservas para os melhores lugares de assistir o Iron. Estava muito concorrido.
Ficamos bem perto do relógio, logo depois de uma curva fechada que os atletas tinha de fazer e muita gente derrapava, quase caindo.
Ali conseguimos ver alguns amigos, mas não muitos, porque tem gente que sai irreconhecível da água: amassado, com o óculo na cara ou com uma expressão tão estranha que a gente não conseguia identificar quem era.
Depois da passagem da nossa amiga Kelly, subimos pra tomar um café.
Staff!
| Finalmente, fardadas para o trabalho de staff |
Passados 15 minutos, Mariana rumou pra seu posto de nutricionista e nós três fomos nos apresentar mais uma vez. Mais uma vez fomos despachadas. "Voltem às 11h, que agora não tem nada pra fazer". Verdade. Não tinha mesmo. mas pedimos pra pegar nossa camiseta de staff. Era o que mais queríamos!
Fomos pra praia, estendemos a canga-cachecol da Dri, e passamos meia-hora lagarteando ao sol. Em silêncio, só ouvindo o mar. Nem parecia que em algum lugar rolava o Ironman!
De novo nos apresentamos. Não tinha nada pra fazer. O pessoal estava pedalando. Então, nos restou ir almoçar.
O almoço foi ok. Sentou conosco a Angela, voluntária pela segunda ou terceira vez, cujo pai, de 130 kg estava fazendo a prova, também pela segunda ou terceira vez. Segundo o que nos contou, ele é considerado herói na cidade de Paranaguá, onde mora. É o único triatleta do pedaço.
Quando voltamos, finalmente, parecia que seríamos úteis pra alguma coisa. Angela havia nos informados que seriam três equipes: uma, na linha de frente, que recebia as bikes dos atletas, uma intermediária, que recebia a bike da primeira equipe e, a terceira, que pegava da segunda equipe e guardava nos cavaletes.
É claro que a gente queria ficar na linha de frente, encontrando os atletas. Então fiquei esperta, atenta à movimentação e assim que vi o Patrick, um dos coordenadores do pedaço, começar a ir em direção da linha de desmonte, fui atrás dele. E ele disse "preciso de 10 voluntários aqui". Não perdi tempo e as meninas, espertas, seguiram a borboletinha. Atingimos nosso objetivo. Integramos a primeira equipe.
No batente
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| Esperando os atletas chegarem |
Na maior parte do tempo, a chegada dos atletas foi tranquila. De repente, chegava um pelotão, e aí era a maior correria e muito divertida por sinal.
A primeira leva chega nitidamente mais inteira. São os profissionais e o pessoal que pedala bem. Conforme o tempo vai passando, o estado geral vai piorando. Começam a chegar aqueles com cãibras, que mal conseguem descer da bike sozinhos, outros com as pernas tão duras que parecem uns robozinhos andando, outros que não sabem que rumo tomar.
A gente ficava atenta, oferecendo ajuda para quem quisesse tirar a sapatilha (e tava com medo de abaixar e não levantar nunca mais), inclinando a bike, pro pessoal da cãibra, tentando não atrapalhar os mais apressadinhos e incentivando todo mundo.
Alguns - poucos - agradeciam dizendo "obrigado", "valeu", "gracias" ou "thanks". Outros, estavam tão cansados, que apenas olhavam mas era fácil de identificar a gratidão no olha exausto. Uns beijavam a bike antes de correr pras tendas, outros diziam "aff, leva ela embora!", outros não queria entregar a bike, achavam que eram eles que teriam de levar de volta ao cavalete e era duro tirar a magrela destes.
Uns tiravam o cateye ou o polar, caramanholas e comidas de suas bento box antes de ir. Então, quando eu via que a pessoa estava muito atordoada, perguntava "Não quer levar nada daqui? Não está esquecendo nada?" e tinha alguns que acabavam pegando alguma coisa e agradeciam a lembrança.
Vimos gente chegando machucada, com a bermuda rasgada, braços sangrando, capacete detonado e que não desistiu. Vimos uns poucos também que abandonaram. Muito poucos.
Recebi a bike de alguns amigos que consegui identificar -Flavinho, Jacques, Nilma, Valeria - outros, mal consegui ver: Edu, Artur, Marquinhos, Alcy, Pedro, Serginho... Mas se uma de nós via, já avisava: "olha o Pedro!" a gente festejava "vai, Pedro!", mesmo se não estivesse vendo.
Tentamos incentivar as pessoas ao máximo: "agora não tem perigo de furar o pneu!", "vai, que é só a corrida!", "O mais difícil já foi!", "vai, que você está bem!" e outras frases do gênero. A maioria das pessoas apenas sorria. Outras, respondiam mau-humoradas "'só' 42 km", é?"
Diglu um amigo, ironman experiente, chegou de cabeça rachada, roda entortada e puto da vida.
"Fui atropelado!"disse ele, e começou a nos mostrar os danos.
Thelma perguntou "você vai desistir?"
E ele "Claro que não!"
Ela "Então o que você tá fazendo aqui? Vai embora, meu!"
Não precisou falar duas vezes. nem se despediu e pulou fora.
Quando a Nilma chegou, fizemos tanta bagunça que até a atrapalhamos um pouco. Fomos todas ajudá-la e ela não tinha por onde passar! Até o moço da organização passou um pito "não atrapalha, não atrapalha!".
Ficamos até a chegada da Kelly. E nos emocionamos as quatro com o encontro. A ajudamos a tirar as sapatilhas e, logo na sequencia, demos aquele abraço e ela partiu pra maratona.
Logo depois, decidimos que nossa presença ali não era tão imprescindível.
Foram perto de quatro horas que ficamos ali. mas passou muito rápido. Foi uma experiência diferente e acho que todo o triatleta, principalmente de Iron, deveria passar por ela pelo menos uma vez. (Continua)
| Thelma, eu e Dri. Quase todas as bikes entregues. Dever cumprido. |
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Grazielli e os Ironmen
Perda insuportável
Nenhum acontecimento me toca mais do que a morte de uma criança. Mesmo se for ficção, imaginar a dor dos pais, me deixa atordoada. Não consigo. É intolerável. Evito pensar. Mesmo porque, de que adiantaria? Viver pensando que os filhos podem nos ser arrancados de uma hora pra outra, que a vida é um fio muito tênue e que somos governados pelo acaso, não serve pra nada. Só pra aumentar a angústia. Não há o que se possa fazer. Nem rezar posso, já que não creio.
Este menino de 14 anos fez o que todas as crianças e adolescentes fazem: pediu aos seus pais algo que queria. Sim, faz parte do script de crianças e adolescentes ter desejos e expressá-los. É absolutamente legítimo. E, eu diria mais: é saudável. Contudo, não é obrigação dos pais atender a todos os desejos de seus filhos. Para isso – entre outras coisas – servem os pais. Atender tudo que for necessário, dizer “sim” ao que for possível e limitar o que for inadequado, perigoso, pouco saudável ou simplesmente o que não for prioritário no momento - ter recursos disponíveis significa que você pode atender ao desejo, mas não que você deva. Isso, claro, dá trabalho. Principalmente se você quiser educar filhos autônomos, terá de explicar cada um de seus “nãos” e ter bons argumentos. E, com certeza, seu IBOPE com os pequenos vai cair: “você é uma chata!”, “isso não é justo! A mãe do Pedrinho deixa ele jogar Call of Duty a noite inteira, por que só a gente não pode?” e por aí vai. (De vez em quando, como diz minha mãe, temos direito a um “porque não”. Mas não é bom abusar.) Então, como não é todo mundo que aguenta ficar mal na fita, temos muitas crianças e jovens por aí, sem a menor tolerância à frustração, sem a menor capacidade de compreender que seu desejo não é uma ordem, sem noção do que é essencial, do que é superfluo, do que é luxo ou do que é privilégio.
Neste ponto, discordo um pouco da Lu, pois isso não é prerrogativa das classes abastadas. Os "menos favorecidos" também tem tido imensas dificuldades em dizer não aos seus rebentos. Uma cena inesquecível do documentário "criança, alma do negócio" é uma adolescente mostrando no quintal minúsculo, de sua casa de periferia também minúscula, espremido entre o tanque e o varal, um jet ski.
Se a mãe não consegue dizer não ao seu filho que quer tomar coca-cola e comer batata frita todo o dia isso é um crime contra seu próprio fiho, mas não contra os filhos dos outros. Provavelmente ela, mãe, vai acabar pagando por isso. A criança, infelizmente, também. Mas não outras crianças.
O limite e as faltas
Mas o caso deste menino de Bertioga e nesses casos que minha amiga Luciana citou, a situação extrapola o âmbito familiar. Quando um pai ou uma mãe consentem que seu filho menor de idade dirija um veículo motorizado, estamos falando de faltas bastante graves: infração explícita da lei, risco para a criança que dirige e risco para as demais pessoas.
E aí, voltando a concordar com minha amiga, acredito que alguns mais abastados, se consideram privilegiados, isolam-se ao máximo dos problemas causados pela desigualdade e hoje creem que vivem num mundo à parte. Ora, ora então porque não ter leis próprias? Vamos deixar nossos filhos que são mais espertos, educados e ricos que os outros, agirem como se a lei não fosse para eles.
Então, por favor, não sejamos hipócritas. Não nos supreendamos com a corrupção, com o favorecimento, com o nepotismo que assola este país. Isso não é privilégio da classe política e isso tem, sim, a ver com a forma como educamos nossos filhos.
E eu com isso?
Não se trata de dar uma de franciscano e ir morar em bairros populares ou colocar os filhos para estudar em escolas públicas. Nem deixar de frequentar (argh) shoppings. Trata-se, em primeiro lugar, de não agir como quem está acima da lei – seja com os filhos, seja diante deles. Trata-se também, de educar filhos que não se achem melhores que outros, merecedores de tratamento diferenciado, pequenos tiranos que desprezarão e desrespeitarão os que não fazem parte de seu círculo.
O poder judiciário, a educação escolar, os políticos têm sim, uma grande parcela de responsabilidade nas mudanças que precisam ocorrer pra termos um país mais justo e menos corrupto. Entretanto, nós, pais da nova geração que vai comandar esse país – pais das crianças que estão no Santa Cruz, no Vera Cruz, Lourenço Castanho, Dante, Bandeirantes etc, temos de lembrar que podemos fazer a nossa parte, educando pessoas que pensem mais no bem comum. E sim, muitos triatletas estão neste seleto grupo.
E o Ironman com isso?
O que pode fazer de um ironman uma pessoa bacana (mas não melhor ou pior do que ninguém) é sua capacidade de tolerar frustrações, sua persistência, esforço, abnegação. Cruzar a linha de chegada, jogando limpo, seja em 8h ou em 17 horas, é um ótimo exemplo de que medalhas têm de ser merecidas, títulos precisam ser conquistados. E que isso, além de ser mais justo e digno é, também, mais prazeroso.
Nenhum acontecimento me toca mais do que a morte de uma criança. Mesmo se for ficção, imaginar a dor dos pais, me deixa atordoada. Não consigo. É intolerável. Evito pensar. Mesmo porque, de que adiantaria? Viver pensando que os filhos podem nos ser arrancados de uma hora pra outra, que a vida é um fio muito tênue e que somos governados pelo acaso, não serve pra nada. Só pra aumentar a angústia. Não há o que se possa fazer. Nem rezar posso, já que não creio.
Então, quando uma morte como esta, da menininha em Bertioga,
invade os noticiários, imediatamente me coloco no lugar dessa mãe e fico
apavorada. Não, não existe nada pior.
Sinto vontade de pegar meus quatro filhos, coloca-los debaixo das minhas asas e
não deixa-los fazer nada sem que meus olhos atentos, meus braços fortes, minhas
pernas rápidas estejam lá para evitar que qualquer mal lhes atinja. Impossível. Ainda que eu estivesse
onipresente, jamais conseguiria evitar acidentes estúpidos e fatais como este, de
um jet ski indomado por um menino de 14 anos, chegar até a areia e atingir
minha criança. (Tenho certeza de que se esta mãe tivesse consciência do que
iria acontecer, ainda que por uma fração de segundo, teria se jogado na frente
da filha. Não houve esse tempo.)
Desejos e limites
Mesmo com todos os sentimentos irracionais que uma tragédia dessas provoca, há algo que não pode passar batido. E me inspiro num post da minha amiga Luciana Gerbovic, que dizia:
Em vários condomínios
classificados como "de luxo" eu vejo uma placa: "proibido
menores ao volante". Não entendo. Não é óbvio, se em todo o território
nacional menores não podem dirigir? Não, não é óbvio. Não é óbvio porque em
muitos desses lugares o dinheiro é a lei. Se o pai tem dinheiro, o menor pode
dirigir carro, moto, triciclo, jet ski...Mesmo com todos os sentimentos irracionais que uma tragédia dessas provoca, há algo que não pode passar batido. E me inspiro num post da minha amiga Luciana Gerbovic, que dizia:
Este menino de 14 anos fez o que todas as crianças e adolescentes fazem: pediu aos seus pais algo que queria. Sim, faz parte do script de crianças e adolescentes ter desejos e expressá-los. É absolutamente legítimo. E, eu diria mais: é saudável. Contudo, não é obrigação dos pais atender a todos os desejos de seus filhos. Para isso – entre outras coisas – servem os pais. Atender tudo que for necessário, dizer “sim” ao que for possível e limitar o que for inadequado, perigoso, pouco saudável ou simplesmente o que não for prioritário no momento - ter recursos disponíveis significa que você pode atender ao desejo, mas não que você deva. Isso, claro, dá trabalho. Principalmente se você quiser educar filhos autônomos, terá de explicar cada um de seus “nãos” e ter bons argumentos. E, com certeza, seu IBOPE com os pequenos vai cair: “você é uma chata!”, “isso não é justo! A mãe do Pedrinho deixa ele jogar Call of Duty a noite inteira, por que só a gente não pode?” e por aí vai. (De vez em quando, como diz minha mãe, temos direito a um “porque não”. Mas não é bom abusar.) Então, como não é todo mundo que aguenta ficar mal na fita, temos muitas crianças e jovens por aí, sem a menor tolerância à frustração, sem a menor capacidade de compreender que seu desejo não é uma ordem, sem noção do que é essencial, do que é superfluo, do que é luxo ou do que é privilégio.
Neste ponto, discordo um pouco da Lu, pois isso não é prerrogativa das classes abastadas. Os "menos favorecidos" também tem tido imensas dificuldades em dizer não aos seus rebentos. Uma cena inesquecível do documentário "criança, alma do negócio" é uma adolescente mostrando no quintal minúsculo, de sua casa de periferia também minúscula, espremido entre o tanque e o varal, um jet ski.
Se a mãe não consegue dizer não ao seu filho que quer tomar coca-cola e comer batata frita todo o dia isso é um crime contra seu próprio fiho, mas não contra os filhos dos outros. Provavelmente ela, mãe, vai acabar pagando por isso. A criança, infelizmente, também. Mas não outras crianças.
O limite e as faltas
Mas o caso deste menino de Bertioga e nesses casos que minha amiga Luciana citou, a situação extrapola o âmbito familiar. Quando um pai ou uma mãe consentem que seu filho menor de idade dirija um veículo motorizado, estamos falando de faltas bastante graves: infração explícita da lei, risco para a criança que dirige e risco para as demais pessoas.
E aí, voltando a concordar com minha amiga, acredito que alguns mais abastados, se consideram privilegiados, isolam-se ao máximo dos problemas causados pela desigualdade e hoje creem que vivem num mundo à parte. Ora, ora então porque não ter leis próprias? Vamos deixar nossos filhos que são mais espertos, educados e ricos que os outros, agirem como se a lei não fosse para eles.
Então, por favor, não sejamos hipócritas. Não nos supreendamos com a corrupção, com o favorecimento, com o nepotismo que assola este país. Isso não é privilégio da classe política e isso tem, sim, a ver com a forma como educamos nossos filhos.
E eu com isso?
Não se trata de dar uma de franciscano e ir morar em bairros populares ou colocar os filhos para estudar em escolas públicas. Nem deixar de frequentar (argh) shoppings. Trata-se, em primeiro lugar, de não agir como quem está acima da lei – seja com os filhos, seja diante deles. Trata-se também, de educar filhos que não se achem melhores que outros, merecedores de tratamento diferenciado, pequenos tiranos que desprezarão e desrespeitarão os que não fazem parte de seu círculo.
O poder judiciário, a educação escolar, os políticos têm sim, uma grande parcela de responsabilidade nas mudanças que precisam ocorrer pra termos um país mais justo e menos corrupto. Entretanto, nós, pais da nova geração que vai comandar esse país – pais das crianças que estão no Santa Cruz, no Vera Cruz, Lourenço Castanho, Dante, Bandeirantes etc, temos de lembrar que podemos fazer a nossa parte, educando pessoas que pensem mais no bem comum. E sim, muitos triatletas estão neste seleto grupo.
E o Ironman com isso?
O que pode fazer de um ironman uma pessoa bacana (mas não melhor ou pior do que ninguém) é sua capacidade de tolerar frustrações, sua persistência, esforço, abnegação. Cruzar a linha de chegada, jogando limpo, seja em 8h ou em 17 horas, é um ótimo exemplo de que medalhas têm de ser merecidas, títulos precisam ser conquistados. E que isso, além de ser mais justo e digno é, também, mais prazeroso.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Identidade, diversidade, fraternidade
Londres
Quando tinha meus vinte e poucos anos, terminei a faculdade e fui pra Europa. Duca, meu ex-marido, namorado à época, e eu, viajamos um pouquinho e depois nos instalamos em Londres, pra uma temporada que veio a ser de um ano e meio. Morávamos no que lá se chama bedsit e aqui seria equivalente a uma quitinete. Só que em vez de ser num prédio de apartamentos, era numa casa de dois andares. Minha vida, ao longo dos meses que passei ali, foi muito diferente da que eu tinha vivido até então. E, lembre-se, isso foi na década de 80. Não existiam celulares, smartphones, PCs, lanhouses, Ipads, skypes, emails... nada desses aparatos que nos mantém em comunicação o tempo todo. Para falar com família eu descia até o térreo onde ficava um telefone público/particular e fazia uma colect call pro Brasil. Com os amigos, cartas. Mas, embora eu escrevesse bastante, nem todos respondiam. E demoraaaaava pra chegar resposta. Muitas, nem chegavam. Nem todo mundo tinha o hábito de se corresponder. A sensação de distância e isolamento era forte.
Fizemos novos amigos, estudamos inglês, passeamos em Camdem Town, fomos a shows do Cure, Smiths, Cult, Waterboys, It’s Imaterial, bebemos em pubs, lemos a NME e a Melody Maker, apostamos em corridas de cachorro, andamos ao longo do Tamisa, fizemos faxina, comemos chinese take away e fish’n’chips, compramos no Sainsbury, decoramos as cores das linhas do “tube”, visitamos os Kew Gardens, fiz babysitting, saímos pra dançar, brigamos bastante também.
Foi uma experiência que fez diferença na minha formação pessoal. Tudo que vivi foi importante. Mas, talvez, o que tenha sido o mais interessante foram as reflexões acerca da minha própria identidade (o bom e velho “quem sou eu?” issue). Percebia que, em estando fora do meu habitat natural: casa dos pais, SP, amigos da faculdade e outros, família, carrinho, meus discos, meus livros, meus filmes e tudo mais, me obrigava a entrar em contato com a minha essência. Sou o que faço ou sou o que sou? Sou formada pelo meio em que vivo ou tenho um âmago, um cerne, um eu interior que permanece o mesmo, independente das circunstâncias?
Identidade
Longe de querer esgotar essas questões, e sem querer me alongar na história sobre minha temporada londrina, o que isso tem a ver com triathlon e com o momento atual? Tudo. Assim como naqueles idos da década de 80, nos últimos tempos, estas questões existenciais voltaram. Repaginadas, mas voltaram. Estou (assim espero, oxalá, knainóri) terminando um período de afastamento quase total dos treinos. De outubro até agora, praticamente não treinei. Deixei de ser triatleta? Sou triatleta ou estou triatleta? Deixei de ser atleta? Deixei, em alguma medida, de ser “Claudia”? Quão triatleta eu sou, e quanto o fato de ser triatleta compõe minha identidade?
Na adolescência, quando a questão da identidade começa a aparecer, é comum os jovens formarem turmas que se vestem com um tipo de roupa, ouvem um tipo de música e repetem jargões. “Meus iguais me compreendem, são como eu, me identifico com eles, portanto, não estou só”. Isso, segundo minha mãe psicóloga, é uma maneira de suportar a idéia da solidão que descobrimos ao deixarmos de ser criança e nos deparamos com um mundo interior, só nosso, impossível de compartilhar integralmente com quem quer que seja. Ninguém, nem mesmo o mais amoroso dos companheiros, pode participar nem compreender inteiramente este universo.
Desde os idos de 2007, aos poucos, passei a integrar a tribo dos triatletas. Sim, tribo. Têm seus rituais, linguagem, modos de vestir e viver. Como um grupo de “emos” ou “góticos”. Por um lado, pode ser bem divertido a essas alturas da vida, fazer parte de uma turma com a qual tenho tantas afinidades. Por outro, não temos mais ilusões com relação a uma identificação absoluta. E isso também é uma questão sobre a qual tenho pensado. Qual meu grau de identificação, afinidade e profundidade nas relações com as pessoas do triathlon? Se eu por (des)ventura ou por opção deixar de ser triatleta continuarei próxima delas?
Diversidade
Bem, chega de tantas perguntas. Vamos a algumas conclusões. O fato de estar passando um tempo sem treinar muito e de não ter objetivos a vista me fez perceber que sim, o triatlon e o estilo de vida decorrente dele fazem parte da minha vida mas, apenas uma parte de mim é triatleta. Tenho muitas outras facetas que são tão importantes e que tem tanto ou mais peso quanto essa: sou mãe, esposa, mulher, festeira, amiga, blogueira, educadora, corintiana, leitora, filha... E, indo um pouco mais longe, o que está no âmago da minha relação com o triathlon é o prazer em fazer uma atividade física, em superar limites, em fazer algo bem feito e ter convívio social. Se eu não puder fazer triatlon, nem correr, nem pedalar, nem nadar, então vou jogar badminton, ou tênis, ou praticar SUP, ou dançar ou alguma coisa que faça suar e sentir bem!
Fraternidade
Quanto aos amigos, claro está que há pessoas que vieram pra ficar e o triatlon foi apenas a porta de entrada. Encontramos-nos e falamos sim, de treinos e provas, mas a conversa vai muito mais longe: já até brincamos de Imagem e Ação e não conversamos um “A” sobre nossos esportes! Descobri que são pessoas com quem posso contar não só quando estou “na ponta dos cascos”, mas, principalmente, na hora do aperto, quando estou manquitola, com a “patinha quebrada”. Lógico que há também relacionamentos superficiais, que não sobreviveriam caso eu deixasse de treinar mas, isso não é exclusividade do triathlon, é?
Nos últimos cinco meses minha rotina mudou. Não dormi tão cedo, abri mão de treinar por motivos banais, não segui planilha, não fiz relatórios dos meus poucos treinos, não escrevi no blog, não deixei de beber tacinhas de vinho quando tive vontade e até saí um dia pra dançar. E os bons amigos estiveram por perto.
Percebi que treinar pro Iron faz com que o lado triatleta seja preponderante sobre os outros e que não dá mesmo – pra mim, pelo menos – pra ficar o tempo todo com ela – Claudia triatleta – mandando em tudo. È necessário dar uma folguinha – não só pro corpo, mas pras outras Claudias que me habitam poderem se exercitar.
Quando tinha meus vinte e poucos anos, terminei a faculdade e fui pra Europa. Duca, meu ex-marido, namorado à época, e eu, viajamos um pouquinho e depois nos instalamos em Londres, pra uma temporada que veio a ser de um ano e meio. Morávamos no que lá se chama bedsit e aqui seria equivalente a uma quitinete. Só que em vez de ser num prédio de apartamentos, era numa casa de dois andares. Minha vida, ao longo dos meses que passei ali, foi muito diferente da que eu tinha vivido até então. E, lembre-se, isso foi na década de 80. Não existiam celulares, smartphones, PCs, lanhouses, Ipads, skypes, emails... nada desses aparatos que nos mantém em comunicação o tempo todo. Para falar com família eu descia até o térreo onde ficava um telefone público/particular e fazia uma colect call pro Brasil. Com os amigos, cartas. Mas, embora eu escrevesse bastante, nem todos respondiam. E demoraaaaava pra chegar resposta. Muitas, nem chegavam. Nem todo mundo tinha o hábito de se corresponder. A sensação de distância e isolamento era forte.
Fizemos novos amigos, estudamos inglês, passeamos em Camdem Town, fomos a shows do Cure, Smiths, Cult, Waterboys, It’s Imaterial, bebemos em pubs, lemos a NME e a Melody Maker, apostamos em corridas de cachorro, andamos ao longo do Tamisa, fizemos faxina, comemos chinese take away e fish’n’chips, compramos no Sainsbury, decoramos as cores das linhas do “tube”, visitamos os Kew Gardens, fiz babysitting, saímos pra dançar, brigamos bastante também.
Foi uma experiência que fez diferença na minha formação pessoal. Tudo que vivi foi importante. Mas, talvez, o que tenha sido o mais interessante foram as reflexões acerca da minha própria identidade (o bom e velho “quem sou eu?” issue). Percebia que, em estando fora do meu habitat natural: casa dos pais, SP, amigos da faculdade e outros, família, carrinho, meus discos, meus livros, meus filmes e tudo mais, me obrigava a entrar em contato com a minha essência. Sou o que faço ou sou o que sou? Sou formada pelo meio em que vivo ou tenho um âmago, um cerne, um eu interior que permanece o mesmo, independente das circunstâncias?
Identidade
Longe de querer esgotar essas questões, e sem querer me alongar na história sobre minha temporada londrina, o que isso tem a ver com triathlon e com o momento atual? Tudo. Assim como naqueles idos da década de 80, nos últimos tempos, estas questões existenciais voltaram. Repaginadas, mas voltaram. Estou (assim espero, oxalá, knainóri) terminando um período de afastamento quase total dos treinos. De outubro até agora, praticamente não treinei. Deixei de ser triatleta? Sou triatleta ou estou triatleta? Deixei de ser atleta? Deixei, em alguma medida, de ser “Claudia”? Quão triatleta eu sou, e quanto o fato de ser triatleta compõe minha identidade?
Na adolescência, quando a questão da identidade começa a aparecer, é comum os jovens formarem turmas que se vestem com um tipo de roupa, ouvem um tipo de música e repetem jargões. “Meus iguais me compreendem, são como eu, me identifico com eles, portanto, não estou só”. Isso, segundo minha mãe psicóloga, é uma maneira de suportar a idéia da solidão que descobrimos ao deixarmos de ser criança e nos deparamos com um mundo interior, só nosso, impossível de compartilhar integralmente com quem quer que seja. Ninguém, nem mesmo o mais amoroso dos companheiros, pode participar nem compreender inteiramente este universo. Desde os idos de 2007, aos poucos, passei a integrar a tribo dos triatletas. Sim, tribo. Têm seus rituais, linguagem, modos de vestir e viver. Como um grupo de “emos” ou “góticos”. Por um lado, pode ser bem divertido a essas alturas da vida, fazer parte de uma turma com a qual tenho tantas afinidades. Por outro, não temos mais ilusões com relação a uma identificação absoluta. E isso também é uma questão sobre a qual tenho pensado. Qual meu grau de identificação, afinidade e profundidade nas relações com as pessoas do triathlon? Se eu por (des)ventura ou por opção deixar de ser triatleta continuarei próxima delas?
DiversidadeBem, chega de tantas perguntas. Vamos a algumas conclusões. O fato de estar passando um tempo sem treinar muito e de não ter objetivos a vista me fez perceber que sim, o triatlon e o estilo de vida decorrente dele fazem parte da minha vida mas, apenas uma parte de mim é triatleta. Tenho muitas outras facetas que são tão importantes e que tem tanto ou mais peso quanto essa: sou mãe, esposa, mulher, festeira, amiga, blogueira, educadora, corintiana, leitora, filha... E, indo um pouco mais longe, o que está no âmago da minha relação com o triathlon é o prazer em fazer uma atividade física, em superar limites, em fazer algo bem feito e ter convívio social. Se eu não puder fazer triatlon, nem correr, nem pedalar, nem nadar, então vou jogar badminton, ou tênis, ou praticar SUP, ou dançar ou alguma coisa que faça suar e sentir bem!
Fraternidade
Quanto aos amigos, claro está que há pessoas que vieram pra ficar e o triatlon foi apenas a porta de entrada. Encontramos-nos e falamos sim, de treinos e provas, mas a conversa vai muito mais longe: já até brincamos de Imagem e Ação e não conversamos um “A” sobre nossos esportes! Descobri que são pessoas com quem posso contar não só quando estou “na ponta dos cascos”, mas, principalmente, na hora do aperto, quando estou manquitola, com a “patinha quebrada”. Lógico que há também relacionamentos superficiais, que não sobreviveriam caso eu deixasse de treinar mas, isso não é exclusividade do triathlon, é? Nos últimos cinco meses minha rotina mudou. Não dormi tão cedo, abri mão de treinar por motivos banais, não segui planilha, não fiz relatórios dos meus poucos treinos, não escrevi no blog, não deixei de beber tacinhas de vinho quando tive vontade e até saí um dia pra dançar. E os bons amigos estiveram por perto.
Percebi que treinar pro Iron faz com que o lado triatleta seja preponderante sobre os outros e que não dá mesmo – pra mim, pelo menos – pra ficar o tempo todo com ela – Claudia triatleta – mandando em tudo. È necessário dar uma folguinha – não só pro corpo, mas pras outras Claudias que me habitam poderem se exercitar.
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