terça-feira, 29 de junho de 2010

Pensamentos sobre competição

Mata-mata
Enquanto não começou o mata-mata, a maioria absoluta dos jogos da Copa foi mais eficiente do que um coquetel de Lexotan com Dormonid. Salvo honrosas exceções, as seleções todas pareciam jogar um "deixa como está pra ver como é que fica", buscando garantir a classificação em empates amistosos, vitórias magras e até em uma ou outra derrota. Os chamados "placares dilatados" foram apenas dois: Alemanha x Austrália e Portugal x Coréia do Norte. Nenhum outro superou a diferença de 3 gols.
Agora a história é outra.  Perdeu, sambou. E está todo mundo indo pra cima. Tem jogo bom de assistir, não é só retranca.
Semana passada o Federer estava perdendo de 2 sets a zero, 4x3 no terceiro set e seu adversário servia e ganhava. Era a primeira rodada de Wimbledon. Aposto que se não fosse perdeu, rodou o Federer tinha entregado o jogo.  Mas era pra valer, então ele deu o melhor de si, virou e ganhou. O último set foi um inequívoco 6x0 .

No esporte de alto nível
A competição é um dos elementos que torna o esporte mais interessante, tanto pra quem participa, quanto pra quem assiste. No esporte de alto nível, alguns dos momentos mais belos e emocionantes nasceram em situações de acirrada competição. Aquele "dibre" (em futebolês é dibre mesmo, não "drible"), que entorta o zagueiro forte, o sprint final entre dois corredores de uma maratona,  aquela bola que pega de raspão na rede e faz o tenista se esticar como um gato pra alcançá-la com a ponta da raquete, o esforço supremo do ciclista na fuga em plena montanha...As quebras dos recordes mundiais, nada mais são do que uma competição que atravessa os tempos.
Quando é pra valer, não escondemos o jogo. Competir é se arriscar, se expor. Há sempre a chance de fracassar e perder. Perder não é bom, mas pode render boas aprendizagens e perder uma prova justa e equilibrada costuma ser melhor do que ganhar numa situação desigual ou injusta.

No esporte amador
Nós não somos olímpicos e nem semideuses mas também gostamos de competir. Afinal, competir é comparar competências. E nós gostamos de comparar. Nós com nós mesmo, nós com os outros da mesma categoria, e com as outras mulheres (ou homens). Pode ser um short, um olímpico, um longo ou um Iron. Se identificamos alguém da nossa categoria um pouco à frente, a energia se renova e vamos ao encalço do rival momentâneo, se estamos na reta final, avistando o pórtico, e ouvimos os passos de alguém que se aproxima, tentamos acelerar e não perder a posição. Quem não gosta de ganhar? E de ganhar bem, fazendo o melhor possível?
No nosso caso, ainda bem, as provas não são excludentes. Não tem problema se ficarmos em último lugar. Na prova seguinte, podemos estar lá de novo, pra tentar ser, pelo menos, o penúltimo. Há Kona e Clearwater, além de outros campeonatos mundiais para os quais é necessário se qualificar. Mas são poucas, e, em geral, a disputa por uma vaga nessas competições, servem como um estímulo a mais para os amadores, mas sem estragar o prazer de simplesmente competir. Conseguir a vaga é encarado como um presente, não como uma obrigação.

Crianças e competição
Não sou das que acham que "o mundo é competitivo então precisamos ensinar nossos filhos logo cedo a competir pra ganhar" e rapidamente se confunde competitividade com egoísmo, egocentrismo e falta de solidariedade. Os pais fazem crianças de seis anos de idade, enfrentarem um vestibulinho, pois desde cedo está se pensando nas reais chances de ela passar no vestibular, entrar numa boa faculdade, pra poder vencer na vida.
E, falando em criança, também é o fim da picada deixar uma criança ganhar para não sofrer (com) a derrota. O que ela aprende com isso?
1. Que os adultos trapaceiam.
2. Que perder é péssimo.
E o que ela deixa de aprender?
Sua verdadeira competência naquilo que está sendo posto a prova. Então, em vez de fingir que seu filho corre mais rápido do que você,  estabeleça uma regra para que a competição seja mais justa. Corra de costas ou deixe ele sair 50 metros na sua frente, para que realmente haja uma uma disputa.
Para as crianças, a experiência da competição deve ser, o máximo possível,  inclusiva. Uma oportunidade para se superar, dar o melhor de si e não ser castigado por não ter atingido tal índice. Claro que ao participar de campeonatos e provas, mais cedo ou mais tarde, chegará a hora da peneira. Mas se elas tiverem na sua vida cotidiana muitas situações não exclusivas de esporte, vão encarar essas perdas com mais naturalidade.

Perder
Mas não saber perder não é prerrogativa das crianças. Aliás, elas aprendem rápido e sem traumas se puderem ter oportunidades de participar de competições justas, ganhar umas vezes, perder em outras... O duro é quando os adultos não aceitam as regras ou seus próprios limites e trapaceiam.  Profissionais ou amadores, isso sim, é lamentável.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Existe vida após o Iron

É verdade que dá mesmo uma tristezinha. Mas não chegou a uma depressão. Eu tinha medo dessa hora. Do pós Iron. Um pós parto sem nenê pra cuidar, um pós casamento sem lua de mel.
Tinha dito a mim mesma que não decidiria nada a respeito de outras provas até 30 de maio. Fazer ou não Penha, ir pra Santos nas outras etapas do Troféu Brasil, correr uma maratona...Tudo isso ficou pra depois. E o depois chegou.
As idéias foram e voltaram. Foram de novo. Aos poucos, algumas delas vieram pra ficar.
A primeira: Iron 2011. Já me inscrevi. Essa primeira decisão acabou definindo o resto.
Fazer o Iron é investimento de tempo e dinheiro. Não dá pra me manter no mesmo ritmo de treino e gastos o ano inteiro. Não é nem saudável. Portanto, decisão número 2: de junho a dezembro treinar menos, competir menos, gastar menos. Ter mais tempo e disposição nos fins de semana para ficar com os filhos. Ter mais tempo e disposição principalmente pra cuidar do meu adolescente que, embora seja o mais velho, está caçulinha, pedindo atenção da mãe e é um momento da vida dele que eu não posso vacilar.
Cheguei a cogitar uma ida a Buenos Aires em outubro pra correr a maratona. Além desta que corri agora na prova do Iron, nunca participei de uma. Fiquei com vontade. Mas não queria ter de viajar pra longe, investir em passagem, hospedagem... Infelizmente, a única maratona no Brasil no segundo semestre é a de Curitiba. Seria ótimo, se não fosse a data: 28 de novembro. 
O 70.3 de Penha descartei logo de cara. Teria de voltar a treinar mais intensamente agora e não estou afim. Quero descansar. Além disso, treinei dois anos seguido pra essa prova e, cá entre nós, esta época do ano, frio, é muito mais chata de treinar. Lamento apenas porque este ano vai ser animadíssimo. Vai ter um monte de amigos e amigas participando e isso, pra mim, é uma das coisas que torna a competição mais legal: o convívio antes e depois da prova, com todo mundo falando no assunto, brincando, trocando informações, comentando a prova... Não dá pra ter tudo, sempre.
Troféu Brasil. Como a Thelma escreveu há um tempo no blog dela: encheu! Inscrição cara, não tem chip de cronometragem, camiseta xexelenta, medalha e "trofeio" sem (mais) comentários. Cansei de bater cabeça naquele mar poluído. Pelo menos por uns tempos. E vou confessar: não sei fazer prova curta. Quando começo a entrar no ritmo da natação... hora de sair da água e pedalar. Encaixei o pedal... tá na hora de descer da bike e começar a correr. Começo a apertar na corrida...acabou!
Terceira decisão: fazer Pirassununga, no dia 28 de novembro. Maridão - que já começou seu projeto Iron 2012 - quer correr seu primeiro meio iron lá. Vamos juntos, é barato, não é tão longe, a prova é bem organizada e já é uma distância que me agrada mais. Sem contar que a camiseta, a medalha e (Oxalá!) o troféu são de bom gosto e qualidade!
Assim vou conseguir descansar e me recuperar totalmente, abrir espaços pra outras prioridades na minha rotina, relaxar um tiquinho a vida espartana, tomar um vinhozinho e guardar um pouco de dinheiro.
Não preciso de competições próximas para me manter motivada a treinar. Voltei aos treinos 4 dias depois do Iron e tenho seguido minha planilha com o mesmo entusiasmo de sempre.  Só que agora o volume de treinos é bem menor.
Estou contente com as minhas decisões. Elas foram amadurecendo aos poucos e percebi que compus um ciclo que tem a duração de um ano.  Gosto dessa maneira de organizar a vida numa rotina, mas numa rotina que tem variações. Gosto de ter esse planejamento longo que tem coisas pra acontecer lááá pra frente, mas que, ao mesmo tempo, também vão acontecendo um pouquinho por dia. Entendo que este tempo menos intenso vai ser importante quando chegar o período mais intenso. Gosto dessa diversidade.
Pode ser, é claro, que as coisas mudem e que eu precise reorganizar minha vida e prioridades. Isso sempre pode acontecer na vida de qualquer um. No meu caso, 2011 é um incógnita do ponto de vista profissional e, portanto, financeiro. Mas vou vivendo a cada dia com meus planos e metas a me guiarem.
Então, só pra não ser incoerente e não deixar de tocar no título deste post, SIM, existe vida após o Iron. Uma vida em que o Iron continua a ser um dos principais eixos organizadores, ainda que não seja a prioridade do momento.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Depois da linha de chegada



No atendimento
Terminada a prova, ainda ali na área próxima ao pórtico, comecei a me sentir meio zonza. Despedi-me dos meus filhos, encarregando o mais velho de levar os três menores até onde estavam meus pais e fui pro atendimento.
O médico me examinou e disse que eu não estava desidratada, minha pulsação estava boa, mas se eu estava meio tonta, poderia ficar deitada um pouquinho. Acabou me dando um sorinho. Passado um tempinho, comecei a me sentir melhor e a achar sacanagem ficar ocupando uma maca sem necessidade. Outro médico veio e começou a falar umas barbaridades. Disse que eu iria urinar sangue e que provavelmente não iria menstruar este mes. Não acertou nenhuma de suas catastróficas profecias.
Então, enrolada num cobertor de desabrigada e numa toalha de Ironman, peguei a minha merecida medalha, a camiseta de finisher e sai da confusão.

Pizza
Demorei pra encontrar minha família. Lição nº1: marque um ponto de encontro para depois da prova! Cansei e simplesmente sentei na calçada até aparecer alguém.  Estava sem poder nenhum de decisão. Só sabia que queria comer alguma coisa quente e salgada. Irene, minha sogra, me pegou pela mão e me levou até uma grade. Do lado de lá estavam as pizzas e a Nilma. Não tive dúvidas. Pulei a cerca e um guardinha veio me dizer que tinha de dar a volta. Olhei pra cara dele e disse "acabei de correr 42 km. Você não vai me fazer dar toda a volta, vai?" Acho que fui convincente. Ele deu um sorriso e me deixou seguir em frente.
Encontrei a minha amiga Nilma, devoramos alguns pedaços daquela pizza sem-vergonha como se fosse a pomodoro do Babbo Giovanni e saímos dali.

Fim da bateria
De novo me perdi da família, de novo sentei na calçada. Achei que tinha combinado um lugar.... mas me enganei! Lição nº2: combine o lugar de encontro DIREITO! Por fim eles me acharam. Passei o chip pro meu pai e ele o o meu marido foram buscar a bike e as sacolas. Não conseguia me imaginar fazendo esta operação. Lição nº3: escale um ou dois elementos pra fazer essa operação pra você depois da prova.
Meu marido foi pedalando e eu fui com meus pais até minha pousada. Precisava de um banho quente. Com as ruas bloqueadas, chegar lá pareceu um pesadelo kafkaniano. Lição nº4: estude o itinerário de volta pra chegar ao seu banho e roupas limpas e quentinhas para não viver um pesadelo kafkaniano.
O quarto não havia sido nem limpo nem arrumado. Fiz uma trouxinha e fui pra Canasvieiras dormir com a família. Subir e descer os dois lances de escada foi doloroso.
O plano era sair pra jantar. Mas, àquelas alturas, não tinha mais sobrado nenhuma energia. Fizemos um brinde com um Asti espumante que ganhei de um amigo no meu aniversário e guardei pra ocasião Mal tomei uma taça. Não descia.
Tomei um sopinha que minha sogra trouxe de um lugar próximo e fui pra cama.
Até a adrenalina baixar, levou um tempo. Mas consegui dormir.

Cinzas
O day after lembra um pouco uma quarta-feira de cinzas. Fantasia rasgada, um pouco de ressaca, um misto de alegria por ter feito bonito no sambódromo e de tristeza porque o momento de glória no sambódromo foi tão efêmero, passou tão rápido. Mas, assim como o carnaval, tem Iron de novo o ano que vem.

domingo, 13 de junho de 2010

Lições da corrida, pequenas histórias e algumas reflexões

Lições da corrida
1. A meia injinji é tudo. Tive ZERO desconforto nos pés. Zero bolhas, zero calos, zero unhas caídas. Obrigada pela dica João Paulo Conrado.
2.Tênis Newton, 2 números maiores, também nota dez.
3. Na próxima, vou marcar mais a diferença entre frente/costas da camiseta de manga comprida. Tinha sim, umas bolinhas marcando as costas, mas não tinha etiqueta (o que é ótimo, porque incomodaria se tivesse). Eu que não estava ligada!
4. Dá pra melhorar esta maratona. E vou treinar pra isso.

Pequenas histórias
O Sarhan, conforme ele mesmo havia anunciado, foi até o limite. Não. Passou do limite. Quebrou na corrida. Nem ao menos conseguiu voltar de carona numa moto. Estava sem capacete, teve de descer da garupa e vir andando.
O tal do gordinho, não só faturou os 40 mil reais como, no dia seguinte, durante o café da manhã, apostaram com ele mais R$ 100 que não faria 100 agachamentos. Não só ele fez, como o fez com uma cerveja - que estava tomando - na mão.
Nilma sofreu um acidente que quase acabou com sua prova. Por volta do km 120 do pedal, um amigo emparelhou com ela e começou a conversar - o que ela reconhece que não é muito adequado. Um terceiro ciclista veio e, ao ultrapassá-los, deparou-se com uma caramanhola da qual quis desviar-se mas´acabou caindo. Nilma passou por cima dele e caiu também.
O cara ficou meio atordoado. Nilma teve várias escoriações, rachou o capacete (aquele novinho, que ela comprou na véspera e não era cor-de-rosa), mas não foi nada sério. Esperaram o socorro chegar. E aí foi uma piada porque ela ajeitou o capacete com os dedos que sangravam e, como o capacete ficou sujo de sangue, acharam que ela estava com a cabeça machucada e não queriam deixá-la continuar na prova. Na primeira oportunidade, ela montou na bike e se picou. O cara atropelado, teve um estrago na bike, mas mesmo assim, continuou. Mais adiante teve de descer e empurrar por 12, 15 ou 21 km - cada um que deu sua versão do fato estipulou uma distância diferente. O nome dele? Tubarão.
Evandro Lopes, parceiro de treinos, terminou a prova em 13horas 25 min. Cruzei com ele na volta de Canas - ele subindo, eu descendo e, depois passei por ele na minh segunda volta. Ele estava andando, cansado, mas no firme propósito de terminar. Ele fez o Iron depois de uma batalha dura contra muitos, mas muitos, quilos a mais. Tinha pouco tempo de triathlon, mas muita obstinação. Tenho certeza de que ano que vem ele vai fazer uma prova melhor e mais rápida.
No dia seguinte a prova, eu soube que perdi o terceiro lugar por três minutos. Fiquei muito muito chateada. Mandei o seguinte e-mail pro Carlos Galvão:

Oi Galvão
Parabéns pelo IM 2010. Foi realmente sensacional! Participei das duas provas em Penha e do mundial em Clearwater, mas a experiência de completar um Ironman supera, em muito, a do 70.3.
Minha prova foi quase perfeita. De minha parte, saiu tudo como planejei. Entretanto, perdi o 3º lugar da categoria e, portanto um troféu que para mim teria um grande valor, por um erro da organização. Como você pode conferir, meu tempo na T1 foi de 11 minutos! Sabe por quê? Porque a minha sacola da bike não estava onde deveria e levou cerca de 5 minutos para ser encontrada. Eu sabia exatamente onde ela deveria estar. Tinha decorado local, que era fácil, pois era na fila H, no alto, na parte onde o cabide era de metal amarelo. E só estava a sacola preta. Ela foi encontrada do outro lado do suporte, embaixo, depois de muita procura e estresse. Chorei, fiquei desesperada. Achei que a prova terminaria ali, naquela hora.
No dia seguinte, soube que a terceira colocada chegou apenas 3 minutos antes de mim.
Sei que nem sempre as coisas saem como deveriam, mas um problema deste tipo deve ser evitado a qualquer preço! Os staffs precisam estar mais atentos, talvez seja preciso ter mais gente cuidando desta parte e as pessoas devem realmente estar capacitadas! É um momento muito importante do apoio! Meu marido tb testemunhou muita confusão na entrega de special needs.
Como o Iron só cresce a cada ano, acho importante lhe dar este feedback, pra que casos como o meu não voltem a ocorrer. Não sei se há algo que possa ser feito pra reparar meu dano – pouco provável - mas se houver, gostaria que fosse feito.
Um abraço,
Claudia Aratangy (nº 1287, mãe de 4 filhos, amiga da Lidiane e aquela que apareceu na matéria da Sportv!)

Ele me respondeu o seguinte:
Prezada Cláudia,
Obrigado pelo seu email e Parabéns pela sua prova............
Levantamos o ocorrido e tivemos uma situação na Tenda de transição que fugiu do nosso controle.......
Três cavaletes(cabides) quebraram durante a natação e algumas sacolas foram movimentadas. E muito provavelmente a sua foi recolocada na posição errada da original. Somente temos essa explicação para te dar.....Não podia ter acontecido, mas lamentávelmente algumas situações fogem ao nosso controle como mencionei acima.
Lembre-se que trabalhamos com mais de 1.200 staffs voluntários, que são brifados por mais de 80 coordenadores de área e tentamos manter todas as situações 100% monitoradas.....mas às vezes, imprevistos acontecem.
Enfim, lamento a situação e mais uma vez te parabenizo pela prova!
Um abraço,

Carlos Galvão
Latin Sports S/A

Pelo menos ele explicou o que aconteceu. Mas poderia pelo menos ter me dado um desconto na inscrição de 2011, não é?

Algumas reflexões
Ironman não é uma prova, é um projeto. Requer meses de preparação, organização, logística, experimentação, testes, treinos, estudo, tomada de decisões e, principalmente, a utilização e o desenvolvimento de uma série de competências.
Não acho que a gente sofra uma transformação ao cruzar a linha de chegada. Acredito que a transformação se dá ao longo desta preparação e é no momento da prova que colocamos à prova (desculpem a obviedade) tudo aquilo que planejamos e preparamos ao longo dos meses.
Reveses podem acontecer mas, a maioria deles não vai impedir você de terminar a prova caso você tenha desenvolvido seu projeto adequadamente.
Posso dizer que minha prova foi absolutamente coerente com minha preparação e meu planejamento. Eu havia estimado fazer um tempo entre 11 e 12 horas. Teria feito 11 e 30 se minha sacola não tivesse sido extraviada. Bastante precisa a minha estimativa, portanto.
Além de cumprir minha planilha com disciplina, cuidei e treinei minha alimentação e minha suplementação, experimentei roupas e tênis diferentes,  levei a sério a musculação e o alongamento, conversei e tirei dúvidas com várias pessoas mais experientes - esse blog, inclusive, foi um espaço onde pude trocar idéias e experiências com muita gente legal e que me ajudou.
Embora tenha todo um lado bastante racional e objetivo, pra mim, a preparação para o Iron foi também extremamente prazerosa. Gostei de ter um volume grande de treinos pra fazer, gostei do cansaço que senti depois dos treinos longos, gostei da sensação de estar dando conta de cada semana de treino, gostei de levar uma vida espartana. A parte das privações e dos sacrifícios todo mundo já sabe e é verdade. Mas é uma escolha, afinal de contas. Somos maiores de idade, esclarecidos e, se optamos por treinar para uma prova como o Iron, não cabe ficar reclamando e choramingando.
No meu caso, tentei alterar o mínimo possível minha rotina com a família. Isso significou, em alguns momentos, horas de descanso a menos. Por exemplo, aos domingos, mesmo podendo dormir até mais tarde, acordava bem cedo pra poder treinar e chegar em casa logo depois do café da manhã deles. Mas, como já disse, foi uma escolha.
Uns dias antes da prova, conversando com minha mãe, quando eu tentava explicar pra ele que triathlon é mais do que um estilo de vida, ela disse "é uma ideologia". Fiquei com aquilo martelando na cabeça. Fui atrás do significado literal de ideologia: conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc., de um indivíduo ou grupo de indivíduos.
Então, é isso mesmo. Não é apenas um jeito de viver. É a forma de sentir, pensar e entender o mundo. Nesta jornada para o Iron me dei conta da profunda mudança que eu e minha vida passamos ao longo dos últimos três anos. Não é superficial, não é passageira, não é um modismo. Aconteceu gradativamente e veio pra ficar.

No próximo (e provavelmente último) capítulo, respondo àquele post "Existe vida após o Iron?"

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer

Parte 8 (partes de 1 a 7, abaixo)

Então peguei a pulseira preta. A última.
Meu número de peito rasgou quando fui mostrá-lo no controle. Tive de dobrar e enfiar na bermuda pra não perder. Nas esteiras, eu desdobrava e mostrava.

De volta à avenida dos Búzios, onde a torcida estava concentrada. Não vi minha família, mas tinha certeza de que eles estariam me esperando na chegada. Na véspera minha mãe me perguntou "O que você gostaria de ter quando chegar amanhã?" E respondi "A única  coisa que eu quero é cruzar aquele pórtico junto com meus quatro filhos." E, durante essa volta, esta era a imagem que não parava de passar na minha cabeça.
Quando passei por ali de novo, o Emerson ainda gritou "Acho que você nâo está sofrendo muito!" E eu me perguntei "Será?" É que não parei de sorrir. Mesmo quando tive dor.

Saindo da avenida, o movimento diminui, então, não tendo distrações externas, as dores começam a dar o ar da (des)graça. É a hora da verdade. A lombar começou a ficar pesada. Os dois joelhos pareciam estar inchados. Tomei mais um Advil e prometi que não iria arrefecer. Faltava tããão pouco.

Passando pelos postos de hidratação pela última vez, aproveitei pra brincar e agradecer. "Valeu, pessoal! mesmo vocês não tendo vodca, muito obrigada pelo apoio e o carinho de vocês! I love you!" O pessoal respondia "Aêêê, valeu! Parabéns!" e aplaudia. Isso me custava uma energia extra, mas acho fundamental valorizar o trabalho dessa moçada. Vi atletas passando por eles gritando "Eu pedi pepsi, PORRA! Cadê a pepsi, CARALHO!" É o fim da picada. Os caras são voluntários e os outros, atletas amadores. Tem alguma coisa errada.

Depois do segundo posto,  a estrada tem uma leve inclinação que, nas duas primeiras voltas, nem senti. Mas na última, percebi que tinha de fazer um pouco mais de esforço pra manter o ritmo. Olhava o Garmin monitorando a cadência. Sub 4 sub 4 sub 4!

Então, mais um trechinho quase deserto - avenida dos Dourados e adjacências. Ali, passei pela segunda vez um figura que estava desde o início da minha primeira volta, mancando. E ele continuava mancando e sua expressão era de extremo sofrimento. Se ele tinha aguentado até aquele momento, pensei, iria até o fim.
E assim como ele, vi várias pessoas reunindo os restos de sua energia, resgatando, no fundo da alma, suas motivações, pra conseguir chegar até aquele corredor coberto por um tapete azul e atravessar o pórtico.

Na corrida tomei um gel a cada 30 minutos, além das duas doses de accelerade e dei uma mordida numa bisnaguinha e numa goiabinha. Não passei pela tal sopinha. Teve?
No penúltimo abastecimento, tomei um gole de pepsi e caiu muito bem.  Mantive o ritmo com os pulmões, o coração e com a mente. As pernas estavam cada vez mais pesadas. Olhava pro ritmo e, com surpresa, via que estava diminuindo. Como!? Eu estava acelerando! Então, ufff, arrancava aquele gás não sei de onde e voltava pro meu 5m20, 5m30.

Quando estava no km 38 lembrei daqueles vários treinos de transição que fiz com a Julinha às terças-feiras e pensei "É só mais um voltinha daquelas pela raia, rapidinho! Vou fazer de conta que a Juju tá aqui me puxando!" Puxa, como foi bom ter sido arrastada por ela todas aquelas vezes!

No 40, dei mais um golinho numa pepsi. Foi o que bastou pra eu me dar um banho. Sim. Desde o início da corrida que estava com vontade de fazer um xixi. mas não quis parar e nem tampouco ralaxar e me molhar como se estivesse na bike. Não por vergonha, não, mas porque iria molhar os pés e acabar formando bolhas. Segurei. Sublimei. Ah, mas na hora deste ultimo golinho, não teve jeito.
Tudo bem. Não ia incomodar, faltando tão pouco!

Ali já estava de volta à avenida dos Búzios. E não, não comecei a chorar. Não, não lembrei de todos os treinos, as privações, os sacrifícios, as madrugadas e o sofrimento e bla bla bla. Não. Minha cabeça ficou vazia. Eu era um coração pulsante com um pulmão onde cabia todo o ar de Jurerê levados por duas pernas irrefreáveis.
Não via, não ouvia. Até que vi meus filhos no caminho.
Agarrei todas as mãos que consegui e fui puxando os quatro comigo. Lembrei de pegar meu número e levantar, para ser identificada. "É a Claudia Aratangy, vem com seus filhos! Quatro!!! É uma creche!" ouvi o locutor (ele, de novo) brincar. 3h58m30s. Sub 4.
Cheguei ao pórtico.  Plena de energia. De alegria. Não derramei uma lágrima. Me senti forte.
Embaixo do pórtico, abracei meus filhos.
E ali terminou a jornada.

Mas ainda tenho umas coisinhas pra contar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer

Parte 7 (partes 1 a 6, abaixo)

Desta vez, mesmo sem cérebro, achei minha sacola amarela. Já pensou se a sacola tivesse sumido nessa hora? Eu iria duvidar da minha capacidade de discernimento meeesmo. Mas ela estava lá, com tudo que eu tinha deixado nela.
De novo joguei tudo em cima das cadeiras e, novamente, duas queridas me ajudaram na operação. O mais difícil, eu sabia, seria colocar as minhas super meias injinji. Mas até nisso eu havia pensado antes (ainda bem, porque naquela hora, pensar não ia prestar). Primeiro, passei um pouco de vaselina no pé, depois enfiei as meias até encostarem os dedos das meias, nos dedos dos pés e pedi pras minhas ajudantes colocarem dedinho por dedinho.
Foi um luxo. Me senti na pedicure. Cada uma colocou a meia em um pé e, portanto, em cinco dedos e, enquanto isso, eu tirava a camisa de ciclismo, pegava uma goiabinha, os géis e colocava nos bolsos da bermuda e do top, vestia o cinto de hidratação, a viseira, largava o óculos. Meias devidamente colocadas, calcei os tênis, apertei a roldana (é uma roldaninha mesmo), pedi o pote de vaselina e elas ajudaram a me lambuzar inteira com ele. Quase esqueci de colocar as garrafinhas com accelerade, que devia ter deixado no cinto antes, e quase esqueci de colocar o Garmin no pulso.
Nesse ínterim, reencontrei minhas pernas. O cérebro, não. Mas tinha alguns neurônios avulsos, que caíram na hora que tirei o capacete e ficaram por ali mesmo.
Com esses poucos neurônio consegui encontrar a saída E acionar o Garmin. Incrível!

Corrida
Começar a corrida, no meu caso, era terminar a prova. Não sei se era excesso de confiança ou se era puro autoconhecimento mas tinha certeza de que, em tendo começado a correr, cruzaria aquele pórtico antes das 17 horas regulamentares.
Logo após a saída, encontrei a Julinha que foi, por fora da pista, atropelando a platéia e me acompanhando.  Quando passei pelo MPR e pelo Emerson, eles gritaram "Calma! Calma! Diminui esse ritmo ou você não vai aguentar!". Olhei pro Garmin: 4m49s por km. É, realmente... era melhor desacelerar um pouco. Puxei o freio e fui com a Juju até a primeira entrada à direita, onde nos separamos.
A primeira volta tem 21 km e passa por duas subidas entre os kms 8-10 e depois volta por essas mesmas subidas, entre os 15 e 17.
Encaixei um ritmo firme entre 5m20s, 5m30 por km, até chegar na subida. Ela é íngreme, mas é curta. Decidi não andar mas continuar num trotinho bem miúdo. Fui que fui, passando uns e outros que caminhavam. No meio da ladeira, vi um branquelo sair rapidinho pra esquerda, onde tinha um matinho e umas pedras e, na maior sem cerimônia, abaixar as calças e agachar! Eca. Virei pro outro lado, mas não pude deixar de escutar os sons característicos de quem está no vaso solitário.
No alto da subida, tinha uma torcida festiva. Uma mulher me olhou bem e gritou "Eu te vi na TV! Eu te vi na TV!" Dei risada e respondi "era eu mesma, a maluca que tem quatro filhos!" e ela puxou uma salva de palmas pra mim.
A subida foi mais fácil do que eu imaginara. Chegando no plano, só alegria. Comecei a brincar com o pessoal dos pontos de apoio. Eles ficavam enfileirados, cada um com sua oferta "Água! Água" ou "Gatorade! Gatorade!" e ainda "Pepsi! Pepsi!" e eu passava perguntando a cada um "Vodca? Vodca?". No começo eles ficavam confusos (não sei porque, já que não tinham pedalado e os cérebros deles não tinham ido parar no capacete) mas depois também brincavam "Xii! Não tem! Só mais tarde!" E eu continuava a brincadeira "Mas que droga de bar! Nem uma vodca!"
Por volta do km 13, tive uma surpresa. A família toda estava ali, junto com mais uns outros malucos, fazendo a maior festa pra todos os atletas que passavam. Passei dando uma beijoca suada na bochecha de cada filhote e eles me acompanharam correndo por algum tempo. Na volta, idem! Aproveitei pra deixar meu cinto de hidratação com eles e avisar, mais uma vez pra os pequenos que correram um trechinho comigo "Eu estou bem! Fala pra vovó e pro vovô que eu estou muito bem!". Imaginava que poderiam estar preocupados, e quis tranquilizá-los.
Subidinhas de novo, descida e pronto!
Era só manter o ritmo.
O cérebro não fez muita falta. Entrei num transe, deixando a cabeça vazia.
Antes de terminar a primeira volta, alcancei a Nilma! Fiquei feliz, porque ela estava beeem na minha frente. Mas cheguei disse "Demorou, mas te alcancei" e ela respondeu "Aê! Você tá bem! Vai, vai em frente!" E eu fui mesmo.
Terminei a primeira volta e a passagem pela avenida dos Búzios, onde fica a maior parte do pessoal que está assistindo, é a hora mais gostosa. Você caras conhecidas vibrando, gritando seu nome, gente que você conhece pouco, mas que, naquela hora, age como se você fosse a pessoa mais importante do mundo e mesmo os desconhecidos, que torcem, parabenizam e aplaudem porque, afinal, você está participando de um IRONMAN!
Fiquei muito mas muito feliz, quando vi o Roi, meu marido, gritando pra mim, vibrando, totalmente tomado de entusiasmo. Aquilo me encheu o coração e os pulmões!
Saí pra segunda volta com mais pique ainda.
No km 23 tinha a parada estratégica do special needs. Fui clamando pela Gra, que logo achei. Eu iria colocar uma camiseta de manga comprida, pegar o accelerade e mais um advil. Ela perguntou se eu iria trocar de tênis ou de meia mas não! Eu tinha ZERO desconforto nos pés. Vesti a camiseta. Olhei, achei que estava de trás pra frente porque não tinha etiqueta. Tirei, vesti de novo. Aí realmente estava de trás pra frente. Tirei e vesti pela terceira vez, convencida de que não teria outro lado pra vestir. O cérebro me fez um pouquinho de falta nessa hora!
O sol começou a baixar e vestir mangas compridas foi uma boa. Nesta volta passei por uma menina muito forte da minha categoria. mas ela já tinha as duas pulseiras. Estava fechando a 3ª e última volta. Bom... pensei, lá se vai o 2º lugar. Imaginava que a Valéria estava na frente dela e que ela seria a segunda colocada. mas não fiquei chateada, não. Estava curtindo a prova.
Passei bastante gente. Muita gente andava. Muita gente estava caindo aos pedaços. Eu estava no mesmo ritmo.
Numa esquina sombria, na avenida dos Dourados, passei pelo Diglu, que perguntou "E aí? Você tá se divertindo?" respondi "Muuuuuiiiito!" e toquei em frente.
Fechei a segunda volta ouvindo o berro do MPR "Claudia! Você tá correndo muitoooo!" , o Emo, meu técnico "Claaaau, você é demaissss!" e o Roi  "Clau, ce tá voandooo!". Com tantas levantadas de bola, fui ficando cada vez mais convencida.Convencida de que eu tinha de terminar sub 4.
E agora faltava apenas a derradeira.


terça-feira, 8 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer

Parte 6 (partes 5, 4, 3, 2 e 1, abaixo)

Pois então estava eu de frente pro meu cabide onde só se via a sacola preta, vazia. A sttaff que me acompanhava ficou tão surpresa quanto eu.  Atônita, comecei a andar de um lado pro outro, feito uma barata que acabou de levar um chinelada, e a gritar "minha sacola sumiu! minha sacola sumiu! é número 1287! e sumiu! 1287!". Ninguém achava, um dos meninos disse pra eu procurar na tenda feminina mas, ao entrar lá e ver a pilha de sacolas azuis jogadas no canto, desanimei. Voltei pra área dos cabides e continuei gritando. Eu já estava chorando, pensando que tinha treinado um ano inteiro, levado toda a minha família, criado a maior expectativa de cruzar a linha de chegada, pra minha prova terminar daquele jeito patético. Se fosse a sacola da corrida, pensei, eu sairia descalça mesmo e pegaria um tênis emprestado com alguém do público. Mas capacete? Não poderia nem sair dali sem um na cabeça.
Um dos staffs me pedia "calma" e eu quase fui realmente grosseira com ele. Não dava pra ter calma.
Depois de uns cinco intermináveis minutos, a sacola apareceu. Estava pendurada num lugar nada a ver. Que alívio! Que felicidade!  Voltei a ficar com raiva deste incidente no dia seguinte, pois a perda desses minutos foi preciosa. Mas só vim a saber disso depois.
Me aprontei tentando tirar o atraso. Duas moças muito queridas me ajudavam, enquanto tentavam me acalmar. Joguei todo conteúdo da sacola sobre duas cadeiras e fuicoordenado a operação com uma cirurgião chefe na mesa de operações: "Camiseta de ciclismo! Comidas nos bolsos! Bandana! Capacete! Óculos de sol! Chamois butter! Vaselina! Meia! Sapatilhas!". As duas me disseram que o pessoal estava saindo sem manguitos, porque não estava frio. Com medo de que o tempo esfriasse - já que não estava lá muito confiável - decidi levar os manguitos nos bolsos da camisa e deixei a cortavento lá mesmo. Não passei protetor solar e não fez falta. Lambuzei a cintura da bermuda de vaselina e saí, patinha choca (eu sei, eu sei... está mais do que na hora de aprender a colocar a sapatilha com a bike andando mas... quantos segundos iria ganhar com isso?), pra pegar a bike.
 
No pedal
Esse era o trecho que eu mais temia. Não só porque é meu ponto mais fraco nas três modalidades, como também por ser onde pode acontecer os problemas: um chão, um pneu furado, uma dor nas costas, uma penalidade.
Fiz um trato comigo. Iria pedalar o máximo que conseguisse desde que as pernas não começassem a arder ou doer. Ou seja, desde que não fizesse muita força. Se desse pra fazer os 180 em seis horas, muito que bem. Se não desse, paciência. Era o meu primeiro e eu queria terminar de pé e não rastejando pela linha de chegada.
Tomei o único gel que tomaria na bike e, então, estrada, sem muito compromisso com o relógio.
O vento ajudou um bom pedaço. Numa prova dessas, você passa boa parte do tempo com gente próxima. Isso é bom e ruim. Bom, porque você percebe que está no jogo, não é uma tartaruga, nem uma lesma. Não se sente só. Ruim, porque se não tomar cuidado, toma penalização e se não prestar atenção, pode fechar alguém, quando vai ultrapassar alguém.
Quando alguém me passava, eu pensava com meus botões "Rá! Tá me passando agora, mas eu nadei melhor do que você-ê!". E o melhor era nas subidas. Sou levinha, então girava, girava, girava e deixava os mais fortinhos prá trás.
E nas descidas eu me lembrava do André Vanni "Não me vá chegar toda esfolada!" e soltava o freio, mas ficava 100% esperta.
Xixis, muitos. Mas muitos meeesmo em cima do selim. Sem dó. Só dava uma olhadinha pra ver se não ia banhar ninguém e pronto. Relaxava. Quase tomei um banho de uma que levantou do banco pra se aliviar e foi aqueeeela chuva.
Levei apenas uma garrfa de endurox r4 e o quickdrink com água, que repus em todos os postos de hidratação. Em dois ou tres deles, misturei um pouco de gatorade.
Se você pensa que quando a gente chega no centro de Floripa, tem muita gente pelas ruas torcendo e acompanhando a prova... doce ilusão. Ninguém está muito aí, não. Aliás, deve ter gente achando muito ruim porque várias ruas ficam bloqueadas. Uma ou outra criança, um outro cidadão, acenam e gritam palavras de incentivo.
O trecho mais chato é na avenida dos túneis. Muito vento  ali. E não acaba nunca. Você vem, você vaaaaaai, aí você veeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem de novo e vaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai de novo e então veeeeeeeeeeeeeeeem e vaaaaaaai embora. Quando você faz o retorno, pensa "agora é só voltar pro túnel"mas, procura o túnel e...cadê? "Não, não é possível! Não pode estar lá naquele morro! Não! Não pode ser tãããão longe!" Mas é. É longe. E tem vento.
Então eu aproveitava o vento a favor e passeava no vento contra, conforme o conselho do Leonardo, na véspera.
A velocidade caia muito. Mas muito mesmo.
Não consegui ficar muito no clipe. Meu ombro esquerdo, o famoso da ombrite, estava doendo. Decidi tomar um advil. Depois de um tempo, melhorou. Mesmo assim, não fiquei clipada boa parte do pedal.
A volta pra Jurerê passou mais rápido do que eu pensava. E a gente se anima "oba!oba!oba! Estou acabando a primeira parte e está tuuudo bem!".  Mas quase que justo no fim da primeira volta não acaba tudo bem.
Eu estava com o pneu reserva preso por uma cinta de velcro no quadro, no suporte de caramanholas. Quando cheguei no retorno, uma curva onde estava a torcida esperando e também onde ficava o special needs, o chão era de paralelepípedos e a bicicleta trepidava muito. Com isso, a cintinha de velcro foi se afrouxando e, quando vi, o pneu estava quase caindo. Fui pedalando e tentando segurar o pneu, pois não queria parar ali, já que teria de parar pra pegar coisas na sacola do special needs, logo depois da curva.
Péssima decisão.
Na hora de fazer a curva, tive de soltar o pneu que estava segurando. Resultado, ele se soltou,  foi parar entre o quadro e a roda, travou a roda e, por muito pouco, pouco pouco, pouco messsmo, eu não fui pro chão. Ia ser um beeelo chão, na frente de toooda a torcida, inclusive da minha família.
Mas, fui rápida no gatilho, consegui tirar a sapatilha em tempo recorde e evitei uma queda que ia virar piada pro resto da minha vida.
Parei, respirei, um staff veio me ajudar e o locutor (ele de novo), narrava minha situação "Gente, a Claudia teve um pequeno problema, mas parece que já está tuuuudo bem!" Aplausos da torcida. Ajeitei o pneu rebelde, subi na bike e dei um tremenda fechada num cara pois decidi cruzar a pista pro outro lado, no meio da curva, pra fazer um "give-me 5" com todos os meus filhos. Ele xingou todas as minhas gerações. Com razão. Mas nem liguei.




Fui passando pela área do special needs e gritando "Gra! Gra! Gra!". Roi me viu e gritou "ela tá ali na frente!" Parei e desci da bike pra firmar bem o pneu traiçoeiro e pensei "Isso é praga do dono que perdeu ele na rua". 
Pelas regras, a Gra não poderia tocar em mim nem tirar nada da sacola. Então foi um pouco atrapalhado pra eu conseguir pegar as comidas, a garrafa cheia de endurox que tinha deixado congelada, e encontrar a farmacinha - peguei mais um advil. Livrei-me dos manguitos e fui embora. Falei pra Gra, Junior e Roi "Eu estou bem! Estou me sentindo muito bem!". Queria tranquilizá-los.
Sem grandes novidades na segunda volta. O vento um pouco pior e, lá na boca dos túneis, cheirinho de churrasco! Os pessoal do apoio decidiu assar uma carninha ali. Nem ofereceram.
Alimentei-me conforme o planejado, de 30 em 30 minutos uma porção de carboidrato:
- bisnaguinha com creamcheese light e geléia
- minhoquinhas (gomas hummmm)
- stiksy
- goiabinha (biscoito recheado)
- bananinha com açúcar
- batatinhas
A batatinha não deu muito certo. Coloquei orégano nelas na véspera (coisa que nunca tinha feito antes) e o orégano amargou a batata. Só comi uma - blergh! Ruim demais!
Nessas segunda volta, garoou em alguns momentos. Redobrava a atenção, principalmente nas curvas e descidas.
Vi gente machucada. Vi muita gente de pneu furado - com o apoio ajudando. Vi muitos fiscais vigiando mas pouca gente com o número de peito riscado.  Fiquei com medo de ser penalizada nas subidas. Apesar de não ser vácuo, fica todo mundo embolado e os árbitros, meio manés (da ilha hahaha), acabam penalizando quem está na confusão. Aconteceu com a Nilma, em Penha, e com o Pedro, nesta prova.
O ombro voltou a doer e eu voltei a tomar advil e o ombro melhorou de novo.
Nas passagens pelos postos de hidratação maior perigo é atropelar uma caramanhola jogada, perder o rumo e dar com os burros n'água. Ou, como no caso da Nilma, alguém à sua frente passar por uma caramanhola, se desequilibrar, cair e você passar por cima (do caído) e tombar também.
Passei incólume por todas as garrafinhas.
Faltando uns 15, 20 quilômetros, a chuva engrossou. Meu óculos ficou cheio de gotinhas de água e eu não estava enxergando nada. Já não tenho olhos muito bons, sem óculos de grau, na chuva...Foi tenso. Ora olhava um pouco por baixo das lentes, ora olhava por cima. Pensei em tirar e guardar no bolso de trás, mas a chuva iria machucar meus olhos. Tenho medo de deixá-los desprotegidos.
Tinha me preparado para sofrer muito os últimos 30 km. Não sofri. Está certo que não me matei, mas terminei os 180 km melhor do que imaginava.
Não lembrei de colocar no volantinho pra deixar as pernas um pouco mais soltas nos últimos kms, mas lembrei de soltar as sapatilhas e tirar os pés delas antes da linha de desmonte. 6h12min. Não foi tão mal assim.
Lições do pedal:
1. Dá pra melhorar este tempo. Mais tempo de cara no vento. Precisa ficar mais fácil do que é aguentar o vento fazendo mais força, com menos esforço. Vocês entendem.
2. Acertei na alimentação. Meia em meia hora, variada, doce e salgada e com endurox. Nada que não tivesse experimentado durante os treinos. A minhoquinha ganhou o prêmio de mais gostosa! Quanto à batatinha, nunca mais dorme no orégano.
3. Uma caramanhola e o quickdrink é mais do que suficiente se você deixar mais uma caramanhola com suplmento no special needs. Menos peso pra carregar!
4 Não é bom negócio usar dois tipos de pneu. Isso obriga a levar tubular E câmera sobressalente. Muita coisa.
5. Juro que vou ensaiar a troca de pneus tubulares. Não precisei trocar mas, se precisasse, estaria em maus lençóis. Iria fazer metade do serviço  e depois rezar pra assistencia da prova aparecer. Melhor ter segurança nestes departamento também.
6. Prender o tubular direito pra não tomar outro susto daqueles.
T2
Desci da bike e entreguei pro primeiro que estendeu as mãos.

Ao dar o primeiro passo, pensei "uau! Cadê minhas pernas?" em seguida, tirei o capacete e, nessas, acho que o cérebro foi junto: entrei na área de transição sem saber pra que lado ir. O staff apontava insistentemente pra um lado mas eu estava indo pro outro. Até que uma me pegou pela mão e me levou na direção certa.

domingo, 6 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer

Parte 5 (partes 1, 2, 3 e 4, abaixo)

Na água
Dado o sinal, entramos todos na água. Fiquei posicionada à direita, pois a correnteza puxava pra esquerda. Eu e a torcida do Corinthians. A do Flamengo. A do Boca. E a do River Plate também.
Nas primeiras dezenas de metros não conseguia avistar a bóia e, de verdade, nem me preocupei com isso. Segui o fluxo e vi que tinha gente à minha esquerda e à minha direita. Às vezes em cima e embaixo também. Portanto, não deveria estar no caminho errado.
Tomei algumas bordoadas, mas menos do que imaginava. Depois da prova localizei um tremendo hematoma na coxa. Não tenho a menor idéia de como ele foi parar lá, mas deve ter sido durante a natação.
Finalmente avistei a primeira bóia. Estava indo na direção certa!
No contorno da bóia, formava-se uma correnteza e nem era preciso dar braçadas. Cabeça pra fora da água e ia sendo puxada pela multidão. Pensei "beleza. Não estou fazendo feio. Tou no meio da galera".
Da primeira pra segunda bóia são uns cento e pouco metros. Adernei pra esquerda, mas logo corrigi. Tentei pegar umas esteiras mas, ou o cara acelerava e eu o perdia,  ou eu que estava mais rápida e precisava logo ultrapassar. De qualquer modo, percebi que o fato de estar naquele bolo de gente, torna mesmo a natação mais fácil e rápida.
Contorno da segunda bóia, também com correnteza. Rumo à praia. Como estava loooonge. Para a felicidade dos míopes e astigmáticos como eu, havia um enorme balão de ar na praia, em direção ao qual nadei boa parte do tempo. O inflável vermelho, o ponto exato onde iríamos sair, estava pequeno e pouco visível. Abençoado balão colorido! Corrigi o rumo, virando um pouco mais à direita, quando já estava perto da praia.
Saí da água me sentindo bem. Prometi a mim mesma que não olharia pro relógio. Iria no feeling.
Daí a gente passa por um corredor humano. Caloroso e animado. Vi caras conhecidas, ouvi meu nome ser chamado algumas vezes e, no meio dele, conclamei o público"E aí!? Cadê a torciiiida?!Tenho 4 filhoooos! Mereço ou não mereço os aplausos???" A galera delirava, gritava, aplaudia! Vi minha família, entusiasmada, e parei pra dar um beijo molhado em cada um e pra dizer "Eu tou bem! Eu tou bem!"Tomei um golinho de gatorade. E fui saindo dali com menos fôlego e mais cansada do que quando saí da primeira perna.
Quase entrando no mar, vi o Roi, animadíssimo, gritei "eu te amoooo!" posei pra foto:




Rumo a segunda perna. Comecei mais leve. Estava sem ar de tanta festa.  Respiração normalizou, pensei "Tá facil. Dá pra apertar". E imprimi um ritmo um pouco mais forte. Contorno da terceira bóia, correnteza ainda, mas mais fraca. Quarta bóia ali pertinho. Só cem metros e aí é ladeira abaixo.
Da quarta, pra praia. Os toldos brancos das tendas eram meu norte. De novo, eu insistia em ficar à esquerda deles e ia corrigindo.
Então localizei o pórtico por onde iríamos passar e meu coração acelerou. "Está acabando a primeira parte dessa bagaça!"
Saí da água e o cronômetro marcava 1h 06 minutos. Falei em voz alta "O quêêê??? Não acredito!" O locutor da prova viu e comentou "Ela não acredita! Mas é verdade!! Uma hora e seis minutos de prova!"
Não tinha passado creme suficiente nos braço e, por isso, tive um pouco de dificuldade para arrancar as mangas da roupa de borracha.
Voei pra área onde o pessoal puxa sua roupa e, de lá arranquei pra T1.
Lições aprendidas:
1. Fiz cinco treinos com a roupa de borracha. Quatro na piscina, em São Paulo, e um no mar, na quinta, véspera da prova. Foi muito bom ter feito isso. Estava totalmente à vontade no wetsuit. Não senti nem UM incômodo.
2. Nas semanas que antecederam o Iron nadei bastante com  a cabeça alta. Isso também fez com a posição não me cansasse durante a prova.
3. Faltou treino no mar. Para quem, como eu, tem problema de navegação, uns treininhos em águas abertas, ajudam.
4. A ombrite  (tendinite no supra espinhal)  não me tirou do jogo, mas atrapalhou um  pouco. Teria mais confiança e teria ido mais forte ainda se pudesse ter treinado mais forte e com palmar. Isso praticamente não aconteceu.
5. Fazer um óculos de grau pra natação é algo ser considerado.
6. Mais condicionadorrrrr nas pernas e braço pra roupa deslisar na hora de tirar!


T 1
Cheguei animadíssima na tenda da transição. Dei um gás, passei um monte de gente no tapete azul e, como ao entrar não tinha nenhum staff segurando minha sacola azul, fui direto ao cabide.
Mas minha sacola azul não estava lá. Só a preta. Conferi o número mais uma vez no cabide: 1287. A sacola não estava lá. "Isso não pode estar acontecendo. Estou tendo um pesadelo". Não era. A sacola da bike, com capacete, roupa, comida, não estava ali. Sem ela, eu não poderia continuar a prova.

sábado, 5 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer



Parte 4 (partes 1, 2 e 3, abaixo)

Finalmente chegou o dia.
A noite foi mal dormida. Demorei pra apagar e acordei às 2h30 completamente acesa. Até dormir de novo, custou. Tentei mentalizar a prova algumas vezes, mas sempre acabava me distraindo com algum detalhe e nunca chegava nem ao fim da bike.
Precisamente às 4h05 o despertador tocou. Ou, pra ser mais exata, OS DESPERTADORES tocaram. Não queria correr o risco de perder a hora e ter de me arrumar no afogadilho. Gra e Roi iriam me pegar às 4h30.
Acordei na hora que o sono tinha acabado de se aprofundar. Normal. Mesmo assim, pulei da cama e comecei a me aprontar. Primeiro de tudo: banheiro. Um sanguinho indicava que a menstruação poderia vir a qualquer momento mas, se não tinha descido até aquela hora, dificilmente, com todo o esforço que faria, desceria no meio da prova. Eu estava salva.
Resolvi todos os assuntos de toilete. Até pra isso eu treinei!

Precisava comer. Inicialmente tinha pensado em fazer um macarrão mas, já na noite anterior vi que não era uma boa idéia. Não desceria. Então parti pras bisnaguinhas com geléia. Perfeito. De repente, me veio uma crise. Tinha colocado pouca geléia nas bisnaguinha que iria levar! O que fiz??? Abri uma por uma e coloquei mais geléia!

O tempo não parecia muito frio. Vesti o chip e o top e a bermuda com os quais iria fazer toda a prova. Nada de por roupa seca depois da natação.

Meus acompanhantes chegaram e, de chinelinho no pé, sacola branca na mão com roupa de borracha, touca da prova, óculos, gel, garrafinhas de suplementos e comidinhas, caminho da roça. Ou melhor, caminho da raça.
Ajustes finais

Conseguimos uma vaguinha na porta da transição. Entrei pro body marking - pintura corporal parece coisa de ritual indígena... Mas talvez seja mesmo apropriado. Infelizmente "minha fotógrafa" não estava lá neste momento, mas o Roi registrou o momento com o celular:





Fui até a bike, tirei a capinha, coloquei algumas das comidas na bento box e fui em busca de uma bomba. Encontrei o Rodrigo Zerlotti, atleta da Ironminds,  que me levou até a tenda dos mecânicos e me recomendou pro "Pezão", dizendo que eu era "gente fina, pode tratar bem!". Também deu a dicade não encher demais pois esperávamos encarar uma chuvinha e com 200 libras na roda da frente, pesando apenas 50 kg, o risco de um chão não é desprezível.
Levei a bike de volta pra casinha e fui pra tenda.
Lá peguei as meias de compressão da sacola da bike e decidi vestir. Sábia decisão. Coloquei as comidinhas na sacola da bike e fui até a sacola da corrida pra colocar as garrafinhas de accelarede que deveria ir no cinto de hidratação. O que eu NÃO FIZ: deixá-las já encaixadas no cinturão. Teria sido um tempo a menos na T2.
Encontrei a Nilma e ficamos juntas naquela excitação nervosa, zanzando de um lado pro outro, passando protetor, ficando com vontade de fazer xixi, a boca seca, o coração com taquicardia.
Saímos da área de transição, encontramos Roi e Gra e fomos rumo ao El Divino, restaurante de frente de onde se dá a largada.





Surpresa
No caminho uma brisa de maconha soprava no ar. Maconha. Dá pra acreditar? Quem precisa de outra droga além de endorfina, ali?
Fomos até o restaurante pra vestir as roupas de borracha e finalmente ir pra largada. Achei que tinha esquecido do gel da natação, mas não, estava na sacola com o marido. Tomei o gel às 6h30 e fiquei bebericando água até a largada. Também belisquei umas gominhas e comi até um bisnaguinha.
Nilma me deu um creminho da Natura que, segundo ela, era o the best para escorregar a roupa de borracha. Não passei o suficiente nos braços e acabei também não passando o meu bom e velho condicionador. Por outro lado, não esqueci de passar o bodyglide na nuca.
Estávamos lá, na maior função passa creme, veste roupa de borracha, testa óculos, quando minha turma chegou. Nem acreditei que conseguiria vê-los antes da largada! Imediatamente o Martim abre seu casaco e me mostra sua camiseta. Uma foto minha, correndo! Todos - marido, sogro, sogra, mãe, outros filhos (e o pai que estacionava o carro) estavam uniformizados! Não acreditei. Nas costas, os dizeres:
Na foto, o Felipe, colega de MPR, está lendo a camiseta da minha mãe.

Fiquei emocionada com a surpresa. Não estava esperando e aquilo me deu mais energia ainda.
Abracei e beijei todos e começamos, Nilma e eu, a nos encaminhar pro tapete onde você precisa passar para registrar sua entrada na área de largada.
No caminho, uma muvuca. Tinha uma passarela de madeira e alguns espectadores lá se acomodaram, diminuindo a passagem que já era estreita. pra piorar, tinha gente vindo no sentido oposto, não sei se dirigindo pra onde.
Apertadas e vagorosas, fui gritando "um passinho à frente, por favor, que nós vamos descer no próximo!", pra abrir caminho. Atrás de nós, tinha um que esbravejava "Dêem passagem para os ATLETAAAAAS! Passagem para os ATLETAAASSSSS!"
Mais um last kiss no marido, abraço no sogrão, na sogra, mãe, beijos em cada filho, abraço na madrinha de Iron, Gra. Só faltou o pai! E vamos nós.
O dia começava a raiar, vermelho. Helicópteros. Dor de barriga.
Nilma ao lado, todos começam a se desejar boa prova, boa sorte. No microfone, o locutor está bravo com o pessoal que não vem para trás do pórtico. Serão desclassificados, ameaça ele.
Não é preciso. Às 6h55 o sol desponta. Às 7h01 é dada a largada.







quinta-feira, 3 de junho de 2010

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer


Parte 3 (partes 1 e 2, abaixo)

Jantar de massas

Estava em dúvida se ia ou não ao jantar de massas mas, como a família topou e o preço não era extorsivo, fomos todos.

O lugar, o clube P12, era muito bonito. Decks de madeira, espreguiçadeiras e piscinas, ali, mirando o mar. Num dia de sol sua localização é privilegiada. A desvantagem é que as pessoas ficaram separadas, pois o espaço é todo dividido e, no nosso caso, ficamos longe do palco e nos sentimos fora da cerimônia. Nem ao menos um telão havia lá para que pudèssemos acompanhar os acontecimentos. Mal e mal ouvíamos o que era dito pelo microfone. Só prestei atenção quando escutei que o Vilela estava sendo homenageado.

As mesas eram grandes e a família sentou reunida. Pena que não deu pra ficar também junto com os amigos. Nem sempre se pode ter tudo.

A comida estava razoável e faltou refri sem açúcar pra turma light e diet. Como se pode ver pelas fotos, estou alegre, mas tenho um certo brilho assustadiço nos olhos.

A família quis ir comer um doce de sobremesa. Acompanhei-os até a sorveteria mas, no momento em que olhei o relógio e vi que eram 21h20 e e eles ainda decidiam se iam de sorvete ou de petit gateau, pedi licença e fui pra rua pedir carona.

Primeira "dedada" e... surprise surprise! Dois velhos conhecidos: Andreson - atleta MPR - e sua espoesa Ligia, parceiros de aventura em Pirassununga, 2009.

De volta à minha agua furtada, fiz uma vistoria atrás dos meus companheiros de quarto. Afinal, não estava podendo nem com o marido, iria aguentar perninlongos? Armada de travesseiro e toalha exterminei os quatro que me esperavam na surdina.

Não dormi o sono dos justos, mas consegui descansar.

Sexta - o dia das sacolas

Não era o dia D, mas quase. A preparação pra prova é mega importante e hiper difícil. Como eu não sou tatu e nem master em logística, convoquei os dois doutores no assunto: meu pai e meu marido e ainda torci para que a Gra chegasse a tempo de dar o seu ok. Afinal ali, nenhum dos três tinha participado de iron.

Durante meu café da manhã solitário, com as listas da Thelma em mãos, comecei a fazer as minhas próprias listas.

Foram seis:

1. Azul - bike
2. Verde - special needs bike
3. Amarela - corrida
4. Vermelha - special needs corrida
5. Branca - geral
6. Preta - natação

Roi e meu pai passaram pra me buscar e fomos até Canasvieiras, onde eles ficaram hospedados, pra eu dar uma olhada nas famosas subidas de Jurê-Canas-Jurê e aproveitar pra dar uma beijoca nos meninos.

Quando vi as tais subidas fiquei confiante. Nada que eu não tivesse treinado na USP, na Aclimação e até em Águas de Lindóia.

Depois, voltamos pro meu cafofo para arrumar as sacolas.

Coloquei as seis em cima da cama com as respectivas listas ao lado. Conforme aprendi com a Viveka em Clearwater, primeiro a gente coloca as coisas EM CIMA das sacolas, depois de conferir pela enésima vez é que coloca dentro.

Assim fizemos. Meu pai, Roi e eu. Havia aquela mala com as coisas mais importantes que eu ainda não havia mexido nela. Foi por ali que começamos. No meio do processo, a Gra chegou. Isso foi ótimo pois ela me ajudou a tomar as decisões finais e fazer alguns ajustes, do tipo colocar uma blusa mais grossa na special needs da corrida, caso a tal massa de ar polar (que aquelas alturas a meterologia previa) realmente chegasse, a deixar uma dose extra de accelerade pronta também nesta sacola e a me livrar do cinto de hidratação depois dos 21km.

Decidi ir sem a palmilha, decidi colocar no special needs da corrida um tênis diferente do que sairia para correr e prendi um gel na bike para tomar logo na saída. Seria o único da bike.

Então, para registro, as sacolas ficaram assim:

1. Azul - bike
- sapatilha
- meia
- meia de compressão
- camiseta de ciclismo
- capacete
- cinta com nº de peito
- óculos escuros
- luvas
- chamois butter
- manguitos
- corta vento
- toalha
- bandana rosa previamente preparada (com mini elásticos deu certinho!!!)
- comidinhas: batatinhas, bisnaguinhas, minhocas goma, stiksy, goiabinha, bananinha
- protetor solar

2.Verde - special needs - bike
- outra camiseta ciclismo
- mais comidinhas, idem sacola bike
- endurox R4 (que foi colocado na manhã seguinte, congelado)
- farmácia: luftal, Eno, dorflex e advil
- kit socorro bike: pneus sobressalente, 2 cápsulas CO2, câmera, silvertape

3. Amarela - corrida
- toalhinha
- tênis newton
- meia injinji
- Garmin (colocado no dia seguinte)
- camiseta manga curta
- manguitos
- viseira
- cinturão de hidratação com 4 géis no bolso e BCAA num potinho plástico
- garrafinhas do cinturão com accelerade (levei no domingo)
- géis
- bananinha e goiabinha
- kit farmácia: micropore, vaselina, luftal, Eno, dorflex e advil
- protetor solar
- óculos escuros sobressalente
- nº de peito reserva

4. Vermelha - special needs corrida
- blusinha skarp manga comprida
- casaquinho mais grosso
- tênis mizuno
- meia injinji
- caramanhola com accelerade (levei no domingo)
- kit farmácia: micropore, vaselina, luftal, Eno, dorflex e advil

5. Branca - geral
- caramanhola com Endurox R4 em pó
- ornitargin, multivitamínicos, vitamina E, C e Omega 3
- roupa de borracha
- óculos de natação
- 1 gel para antes da largada
- macaquinho reserva pro caso de querer trocar a roupa antes de pedalar
 POR CIMA DA BRANCA
- top e bermuda que iria vestir (estava decidida a nadar, pedalar e correr com a mesma roupa, mas levei uma roupa resevar caso mudasse de idéia)
- roupa pra por cima pra ir pra largada e pra vestir na chegada
- chinelo
- chip

 6. Preta - natação
- Vazia!
Em cada uma delas coloquei duas obs - pois, ainda por cima, corria o risco de menstruar durante a prova.

Depois de conferir umas 200 vezes e marcar as coisas que não estavam na sacola e deveriam ser colocadas no dia seguinte, comecei a preparar as bebidas: 1,5 de Endurox R4 numa caramanhola, mas 1,5 em outra, accelerade pras garrafinhas do cinto e mais uma dose aguada do special needs. Fizemos uma lambança fenomenal pela enorme suíte: paredes, chão do quarto e do banheiro, pia, toalhas... tudo ficou lambuzado de endurox e ou accelerade.
Terminado este serviço, combinei com meu pai e Roi que eles iriam todos me encontrar as 16h15 para irmos pro check in da bike onde não apenas eu iria entregar as sacolas mas também encontrar a fotógrafa que iria começar o registro da prova.
Fui com a Gra e o Junior almoçar de novo no Taikô. O vento, desta vez, estava assustador. Não deu nem pra sentarmos lá fora.
Eles me deixaram nas Alamandas e, de novo, fiquei curtindo um pouquinho da Roland Garros até a hora marcada.

Bike check in
Às 16h15, pontualmente, a torcida não uniformizada bateu à minha porta.
Fui pedalando, enquanto eles, de carro, levaram as sacolas azul, amarela e preta.
No caminho fui conversando com um atleta, Leonardo, de MG que, em poucos minutos, me deu um conselho de quem já tinha alguma experiência. "Não lute contra o vento. Apenas pedale." Agradeci, e segui meu caminho.
A fila de entrada era imensa. Mas aquela folia! Julia, Gra, Junior, Marcos e seu irmão Alcy,  Lidiane, Kim, Nilma, Evandro... todo mundo lá!

Logo em seguida chegou meu técnico Emerson, junto com o chefão, MPR que  fui apresentar aos meus pais. Tinha certeza de que eles iriam me elogiar! Queria que meus pais ficassem orgulhosos de mim. Que importa que eu tenha 46 anos? Quem não gosta de "se mostrar" pros pais?

Meus sogros e meus pais estavam impressionadíssimos com o clima de festa instaurado naquela fila. Mas nem em show de rock o astral é tão animado e festivo.

Chamei Theo, meu filho mais velho e fomos pro fim da fila. Enquanto a fila andava vagarosamente, ele tentava me convencer de que seria uma boa idéia ele se inscrever na corrida do Arrastão no fim do ano e levar o seu cachorro  - o fox paulistinha, Pudim - pra correr junto. Não sei, não. Talvez ele estivesse fazendo uma dieta da supercompensação pra ter uma idéia dessas, naquela hora. E ele ainda brigou comigo "Mãe! Você não está prestando atenção! Não é uma boa idéia?"

Quanto mais perto ia chegando da entrada, mas elétrica eu ia ficando.


Entrei, fui acompanhada de uma simpática voluntária e do marido da fotógrafa que me deu dicas boas pra localizar rapidamente minha bike: entraria no corredor em frente à logo da Latin Sports e minha bike estaria bem de frente do painel da Giant - sua própria marca.
Zerei o cateye, ajeitei a capa que nos foi dada para proteger a bike e então, devidamente fotografada, entrei na área das sacolas.

Aprendi fácil onde era meu cabide da sacola azul: passando o corredor H, entrada à esquerda,  no fim do primeiro suporte, onde tem um metal amarelo (diferente do resto)  no alto.
Sacola da corrida, no corredor do outro lado, no alto também.  Tudo muito simples.
Missão cumprida.
Saí dali e encontrei a turma. Fomos pra areazinha onde havia café e pastéis. Julia estava batendo figurinha com os meninos, Marcos entrevistava todo mundo, Roi papeava com os amigos, minha mãe e minha sogra faziam novos amigos, meu sogro e meu pai zanzavam por ali filmando e fotografando.

Encontrei o Sarhan que, quando pedi uma dica de quem já tinha experiência, disse "Divirta-se!" Minha mãe adorou esse conselho.
Estava gostoso ali. Era a véspera da prova, aquela hora que fica uma tensão densa e agradável de expectativa no ar.

A noite da véspera
Pedi ao Roi que fosse jantar comigo. Só ele. Isso deu uma certa confusão na logística dos carros, mas conseguimos nos acertar.
Fomos nos dois, a pé, ali pertinho. jantamos uma comidinha caseira e comi o máximo que aguentei:
- Prato GG de macarrão com molho vermelho
- Filé de frango pedaço P
- Batatas assadas M
- Sopinha creme de batata e cenoura com macarrão P
- suco de laranja
Conversamos calmamente. Eu até que estava disfarçando bem minha ansiedade.
Tomei minhas vitaminas, me troquei e deitei. Mentira! Ainda preparamos as batatinhas com sal e orégano,  as bisnaguinhas com creamcheese light e geléia e os embrulhinhos com stiksy.
 Roi foi embora. Fiquei sozinha com todos os meus sonhos e expectativas para tentar dormir.

Iron 2010, diário de uma insanidade ou 11 horas 35 minutos e 17 segundos que levaram quase um ano pra acontecer

Parte 2 (parte 1, lá embaixo)

Treino de natação


Dormi mal, claro. Estava morrrrta de fome e não agüentava mais comer peito de peru com queijo cottage e nem bifinho magro com saladinha sem graça. O melhor a fazer era chegar logo no dia seguinte pra poder me empanturrar de carbo. Mas quem consegue dormir com fome? Fora isso, tinha um pernilongo no quarto que decidiu cochichar em meu ouvido. Tentei ignorar, mas não foi possível. Então, lá pelas tantas da noite, acendi a luz e fui à caça do maldito. Assassinei-o a sangue quente e depois que este esfriou, voltei a dormir.

Adorei quando raiou o dia. Voei pra cima de uma banana maçã que tinha comprado na véspera. Foi a mais saborosa que comi na vida. Daí mandei 4 bisnaguinhas com geléia – manjar dos deuses. E um iogurte desnatado – bah! Ainda tinha direito a um pãozinho francês com (bah!) queijo branco e (baaaaaaah!) peito de peru e um cafezinho. Claro que as Alamandas não tinha café da manhã. Então fui a pé, já com todo o equipamento para o treino no mar.

O dia estava esplendoroso. O mar, aparentemente, uma piscina.

Encontrei um pessoal da Sumaré Sports que se dispôs a cuidar das minhas coisas enquanto eu nadasse. Diferentemente de Clearwater, o treino ali não tem muita estrutura além das bóias. Em CW há um guarda volumes, chuveirinho e até água e gatorade para os atletas.

Foi “dada a largada” e saímos todos mais ou menos juntos pra nadar. Não sei se sou eu que tendo pra esquerda ou se havia correnteza. O fato é que toda vez que levantava a cabeça pra achar a bóia, ela estava à minha direita! Fiz a perna bem de leve e saí pra tomar um solzinho.

Delícia! Dali a pouco Nilma chegou e ela, Neto e eu ficamos lá batendo um papinho relax enquanto os saradões iam e vinham. Até que passou um nada sarado. Aliás, bem gordinho. Aí fiquei sabendo que ele estava fazendo parte de uma aposta: caso terminasse o Iron, ganharia 40 mil reais de 4 amigos (amigos???). Se não terminasse, daria 2 mil para cada um.

A caminho do restaurante onde iria almoçar encontrei, ao lado de uma lombada, um pneu tubular novinho, dobrado e caído no chão. Olhei pra um lado, olhei pro outro, nem um ciclista à vista. Não tendo a quem devolver, coloquei dentro da mochila e levei.

Terminando o almoço encontrei o Pedro, conhecido de treinos e provas, fizemos a maior festa e combinamos de encontrar mais tarde.


Treino de pedal

Peguei o kit e fui esticar as pernas até a hora de dar uma girada. Que luxo! Assistir a Roland Garros em plena 5ª feira útil.

Saímos então, Nilma e eu pra dar um role de bike. Só de estar lá, em cima da magrela, já fiquei emocionada. Ali na estradinha, saindo de Jurerê, não me contive: “U-huuuuuu! Eu tou em Jurerê! Eu vou fazer o IIIIIIIIIIIIIrooooooooooooon!”gritei pro vento.

À noite, jantei com o Pedro, que me contou toda a história de como chegou ao triathlon e ao Iron. Adoro ouvir esses relatos. Cada pessoa tem uma motivação, um passado, um sonho. Todos diferentes, todos com pontos idênticos.

Dormi melhor, mas combinei comigo mesma que não iria preguiçar muito na cama, não. O tempo amanheceu fechado e, a cada hora, a previsão era mais catastrófica: “frente fria com ciclone tropical, temporais e ventos de 25 a 30km/h” foi uma das mais lights que ouvi aquele dia.


Plano B

Depois do café, fui ao congresso técnico. Durante a apresentação, o diretor da prova, Galvão, aventou a possibilidade de ter de executar o Plano B – ou seja, caso os bombeiros avaliassem que o mar estava muito perigoso a natação seria substituída por 10k de corrida.

Imediatamente começou um zumzum na platéia. Já pensou? Não ter a natação? Apesar de ser melhor corredora do que nadadora, ficaria frustrada se não pudesse completar um verdadeiro Iron.

Em seguida, fui à feirinha onde encontrei Nilma experimentando capacetes e o Neto, com sua paciência de Jó, ao lado, estranhando que ela NÃO iria comprar um rosa, como de costume. Nilma é a Penélope Charmosa em pessoa. Vive de rosa, tem um humor rosa, mas não brinca em serviço. Uma monstra no pedal.



Golfinhos

Neto foi pedalar e nós duas pegamos uma carona até o Taikô para o almoço. Julinha tinha acabado de chegar com seu tio e foi nos encontrar lá. Pedro também foi. E os golfinhos também!

Pra quem não conhece, o Taikô é um restaurante charmosíssimo, pé na areia, que geralmente não fica aberto para almoço mas, por ocasião da prova, estava. Mas aparentemente, ninguém sabia. Ele foi só nosso.

Sentados de frente pro mar podíamos ver que estava bem diferente do dia anterior. Mexido e cinza. Uns malucos nadavam de roupa de borracha e, de repente, pareceu que os malucos tinham ficado mais malucos, porque nadavam com uma braçada em cada direção! Aí é que vimos que não eram malucos. Eram golfinhos. Enormes! Fizeram um show para nós e ninguém tinha uma câmera decente pra fotografar.

No almoço, o pobre tio da Julinha teve de agüentar nossa conversa monotemática. Em compensação, ele se vingou comendo lulas e camarões empanados e tomando uma loirinha daquelas.


Chegada da família


Ficamos fazendo hora até que minha turma chegou: pai, mãe, sogro, sogra, marido e os quatro filhos. Foi aquela invasão na calma do restaurante.

Felizmente, Juju tinha as figurinhas do álbum da Copa pra trocar com eles, que ficarão concentrados no “tenho, não tenho”.

Não demorou muito, abandonei a turma pra ir dar uma corridinha. Como a pousada era meio longe peguei carona numa pick up de “hermanos”. Por sinal, como tinha hermanos...

Voltei à pousada para me trocar e também para comer um caminhão de suspiros e um vagonete de bisnaguinhas, conforme as ordens da Mari.


O último treino

Às 16h30 saímos numa galerinha para um trotinho leve. Meu derradeiro treino antes da prova. O astral não poderia ser melhor. Cheia de açúcar no sangue, transbordava de doçura e energia. 
Julinha, como sempre, foi puxando a turma: o casal André e Simone, de Jau, Nilma, Pedro e Artur, um leitor deste blog! Foi muito divertido descobrir, no meio da corrida, que ele era um dos meus seguidores. Não parecia um treino, parecia uma festa, de tão animada que foi a conversa. Nunca vou esquecer este treino!

Quando terminamos e estávamos na porta do Campanário conversando sobre a previsão de chuva e vento na prova, André me disse: “Esta é a prova mais importante da sua vida, principalmente porque toda a sua família está aqui. Tome muito cuidado nas curvas pra tomar um chão. Já pensou você, em vez de chegar ao fim, na corrida, aparecer no meio da prova toda ralada?” Foi algo que ouvi com atenção e levei a sério. Não iria deixar isso acontecer.