quinta-feira, 9 de julho de 2009

Sobe e desce ou a Lua na USP

Outra hora dou seqüência à história de como tudo começou. Vamos diversificar os tópicos, é saudável.

Pedal na subida é o melhor treino da USP. Nesta última terça foi sensacional. Lua cheia descendo no alto da subida da Química. Pedalávamos em direção a ela até o topo e então, como se desistíssemos de alcançá-la, virávamos as costas e retornávamos. A cada subida, ela ficava maior e mais alaranjada. E lá pela metade do treino, o céu, na descida começou a ficar rosa e, no fim, o sol vermelho, apareceu.
Na subida, não dá para pensar em nada que não seja a própria subida: o esforço da pedalada; a troca de marchas; aquele ponto ali, um pouco antes da lua, onde devo chegar e, a partir dele, aumentar o RPM (rotações por minuto, ou seja, o giro da perna); aquele cara, naquela bicicleta, que quero ultrapassar, porque sei que consigo; a hora de pedalar em pé, amassando o pedal com a sapatilha, a hora de pedalar sentada e puxar a sapatilha pra cima; sobe pulsação, aumenta respiração, a perna queima, o calor aumenta.
Na descida, os pensamentos são soprados pelo vento que bate gelado. Mas os sentidos têm de estar aguçados. Quanto maior a velocidade, mais atentos aos buracos, carros, ônibus, pedestres, outros ciclistas, lombadas e curvas temos de ficar. As pernas giram, descansando; os batimentos decrescem, a respiração acalma, o frio aumenta.
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes. E eu queria mais.
Nas noites mais geladas, o único desconforto, é o térmico. Como coloco muita roupa pra não passar frio, morro de calor na subida e congelo na descida. Mas, nessa terça, não. Foi perfeito.



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Como tudo isso começou? (Parte 1)

Tenham paciência comigo. Gosto de contar histórias. E, como a Lu (Lúcia Mandel, que trabalha comigo) pediu, vou explicar de onde veio essa insanidade. Mas vou resgatar isso láááá no fundo do baú. E vai virar uma novela. Com alguns capítulos.






Sempre gostei de esportes. Nunca fui muito boa em nenhum deles.
Quando entrei na 5ª série, era a caçula da classe. Saí de uma escolinha com meia dúzia de alunos por turma e entrei, sem direito a período de adaptação, em uma com trinta e três. Saí da 3ª série primária e fui direto pra 5ª, sem direito à transição. Além de mim, duas outras “Claudias” na classe e virei Claudinha (diminutivo que, confesso, até hoje não gosto). As meninas tinham peitinhos nascendo. Eu nem usava parte de cima de biquíni.

As meninas vestiam camiseta hang-ten, calça cocota e tênis All Star. Eu vestia shorts de menino e vivia descalça. As meninas e meninos jogavam vôlei, handebol e basquete. Eu ainda brincava de esconde-esconde e pega-pega. Percebi que deveria ter algo de errado. Comigo. Então, me escondia nas fileiras do fundo da classe. Tinha medo até de tossir na sala de aula.
As aulas de educação física eram um suplício. Basquete, handebol ou vôlei. Aqueles exercícios em fila, em que todos podiam assistir minha falta de habilidade. E lá, as meninas gozavam de mim porque, em vez de comprar aqueles calções bufantes, supostamente femininos, minha mãe comprara, por engano, um shorts masculino.
O pior momento, entretanto, era na hora da escolha dos times. Os tops de linha eram os capitães e escolhiam; os melhores eram disputados um a um; os médios, eram escolhidos; os ruins, ficavam no fim da fila e os “casos perdidos que não têm jeito nenhum pro esporte” bem, esses sobravam nos times. Era indiferente em que time eu, a Daniela-dos-cabelos-verdes, o Sidnei (chamado, graciosamente, de Sidnéia) ou o Peidão, iríamos ficar. Para os líderes do pelotão éramos igualmente imprestáveis e a elite torcia o nariz quando ingressávamos na equipe. E isso era nefasto para nosso IBOPE. Na escola onde eu estudava, ser bom nos esportes, estar entre os escolhidos, era tudo. Ou seja: eu era um nada.
A certa altura, consegui aprender a jogar vôlei. Não sabia dar “saque por cima” e muito menos cortar. Mas meu toque e manchete eram decentes. E eu já não furava mais todas as bolas, nem botava todos os saques na rede.
Veio então o esperado Campeonato Mirim, o evento mais importante do ano. O professor de educação física convocava as diferentes seleções, só com os melhores. Todos os alunos ficavam ansiosos, aguardando “A LISTA”. Os escolhidos teriam um uniforme especial, poderiam faltar na aula (E em provas, o que era ainda melhor!)em dias de jogo e, claro, seu já elevado prestígio cresceria paulatinamente à medida que o time vencesse.
Algumas pessoas eram convocadas para fazer parte de todas as seleções: Zaba, Tiche, Aninha. Eram as mais populares da escola. Outras, tinham vaga garantida em algum dos times, porque eram treinavam em clubes, como a Patricia Botelho, por exemplo.
Na 5ª série eu não nutri nenhuma espécie de ilusão quanto à minha convocação. Já na 6ª série...

(continua... e muito!)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Fim do T(o)urno


A hora de dormir é um caso sério para os triatletas. Para quem acorda duas vezes por semanas às 4:20, três vezes por semana às 5:15 e mais uma ou duas às 5:45, estar na cama cedo é uma meta a ser alcançada todos os dias, ou melhor, noites. Mas, com quatro meninos em casa, não é assim tão simples.
Depois de um dia de trabalho fora, resolvendo as brigas entre os filhos, organizando a ida ao futsal (ou a volta da escola no dia em que o carro quebra), pelo telefone, procuro não chegar tarde. O horário de dormir fica piscando na minha cabeça, particularmente às segundas e quartas, por causa do treino da madrugada. Não posso desperdiçar um minuto ou acabo dormindo tarde demais. É um autêntico contra-relógio.

O jantar está pronto. 1ª Etapa: conseguir trazê-los para a mesa.
Eu – Pessoal, está na meeeeeesa!
Eles – Ah, mãe, deixa a gente jogar futebol só mais um pouquinho! Bem agora que o Martim ia catar no gol, droga!

2ª Etapa: conseguir fazê-los lavar as mãos sem ensopar o chão ou uns aos outros. (E, enquanto eles discutem comigo para ganhar mais uns minutinhos de jogo eu, para não perder nem um minuto, aproveito para pegar a bicicleta na garagem, encher os pneus e, se der, já solto a roda da frente. Tudo isso, sem sujar o modelito “senhora diretora”, que estou usando.)

3ª Etapa: jantar em paz.Todos querem falar. Ao mesmo tempo. Quando Ian começa, Félix, seu gêmeo, reclama que é ele quem deve falar primeiro, porque, afinal, nasceu 57 segundos mais cedo. Martim ri, e chama Félix de chorão. Félix se enfurece e chuta a canela de Martim. Ian começa a chorar porque ninguém está prestando atenção na história dele. Theo, o adolescente, suspira fundo e me olha, solidário. Alguns arrotos e peidos, gritos e reclamações mais tarde, terminamos. (Enquanto tiramos os pratos da mesa, aproveito para preparar meu papaia, e pegar as caramanholas.)

4ª Etapa: subida para o banho.
Eu: quem vai pro banho primeiro?
Martim: Último!
Ian: Segundo!
Félix: Ah, não vale! Vamos tirar jó-quem-po!
Eu: logo pro banho, senão não vai dar tempo de ver “Drake e Josh”.
Martim: Primeiro!
Ian: Segundo!
Félix: Ah, não vale!!! Vamos tirar jó-quem-po!
(E, enquanto isso, eu preparo as caramanholas e ponho na geladeira).

5ª Etapa: banho sem desastres e nem (muito) desperdício de água e gás. (Barulho de água escorrendo)
Eu: Ian, você não entrou no banho ainda?
Ian: Deu vontade de fazer cocô!
Eu: Então desliga a água, né Ian!
Ian: Agora não dá... tou no “vaso solitário”!
E lá vou eu, fechar as torneiras, mas ele já saiu do “vaso solitário” e ligo a água de novo. (Desço correndo as escadas, abro a porta da frente e destranco o carro para por a bike, e quando vou por a bike, vejo que o Félix ainda não subiu pro banho!)

6ª Etapa: segundo banho sem desastres, nem molhaceira no banheiro.
Eu: Félix! Você não foi pro banho ainda?
Félix: Calma, mãe! O Ian ainda não terminou.
Eu: Ian! Você ainda não terminou!?
Ian: Já tou no “queme”!
Eu: vai logo, Ian! Olha o desperdício de água!
(E o tempo vai escorrendo. Desço de novo e consigo encaixar a bike no carro, mas não sem deixar uma linda marca de corrente na calça da “senhora diretora”. Ainda falta o resto do equipamento. Subo novamente).
Eu (exaltada): Félix! Não entrou no banho ainda! Ian! Que molhaceira é essa!?
Finalmente, Ian sai e Félix entra debaixo do chuveiro.

7º Etapa: terceiro banho. Martim é mais eficiente. Mas preciso averiguar se ele realmente se lavou. Quando ele senta na cama pra ver televisão, sinto o cheiro de chulé.
Eu: Martim, você lavou seu pé?
Ele: Claro, mãe!
Eu: e esse chulé?
Martim: Não sei...Que chulé?
Eu: Pode voltar pro chuveiro e esfregar direito, com bastante sabonete.
Ele: Ah, mãe que saco!!! Posso ir no intervalo??
(Desço de novo e coloco sapatilhas, luvas e capacete no carro).
8ª Etapa: assistir TV no meu quarto. Enquanto assistem“Grandes destruições”, pego a calça de ciclismo, o a blusa, a jaqueta, bandana, e coloco no meu banheiro.
Dou uma olhada para ver se reina a paz. Então pego o monitor cardíaco, tênis e meia, levo pro banheiro.

9ª Etapa: colocar o time pra dormir.
Reclamam, mas me beijam e vão escovar os dentes e deitar.
Aí vou fazer a transição, digo, toalete: barba, cabelo, bigode, ops, dentes, pele, cabelo. E a casa ta caindo lá no “dormitório” deles. Vou até lá.
Eu: Agora chega! Acabou o dia! É pra dormir! Ian, você não vai se aquietar?
Ian: kikikikikihihihihi.
Eu: Ian! Você quer ir dormir lá embaixo na sala, sozinho?
Ian: Não!
Eu: então sossega.
(Volto pro meu quarto, visto o pijama). Algumas ameaças e broncas mais tarde, finalmente, acalmam.

10ª Etapa, colocar o time pra dormir de novo. Quando tudo parece silencioso, escuto passinhos ligeiros descendo as escadas.
Eu: onde vocês pensam que vão???
Ian: Tou com sede!
Félix: tou com fome, quero comer banana.
Eu: Rápido. E, Félix, vai ter que escovar os dentes de novo.
Eles voltam e, finalmente, encerramos esta etapa.

Última etapa. Mandar o Theo pra cama. Encostar a cabeça no travesseiro e apagar. Previsão de horas de sono: 6.

Pergunta: será que o Lance Armstrong encarava um Tour desses?

domingo, 5 de julho de 2009

Confissões na padoca

Adoro o treino de sábado. Dá pra acordar um pouquinho mais tarde – 5:45 e o melhor, depois da missão cumprida, a recompensa: café com bobagens na Estrela do Butantã. Hoje, saindo da padaria, teve até um que sugeriu: por que a gente não vem direto pra cá? Para que fazer o treino, se essa é a parte mais divertida?
Sem querer desmerecer o pedal, nosso café é mesmo um momento especial.O grupo de pessoas que vai nunca é o mesmo. Alguns, como eu, é claro, batem ponto todo o sábado. O Emerson, garçom (garçom em padoca?!) que nos atende, já sabe de cor o meu pedido – suco de laranja, baguete de parmesão com queijo branco tomate e orégano, uma média só de café expresso.
Os primeiros tópicos da conversa são os próprios pedidos: “que fome, hein?!” “Mas que sanduba light! E você lá precisa disso, magrela?”. Em seguida, antes da chegada dos esperados comes e bebes, a conversa ruma, invariavelmente para as condições gerais do treino: “nossa, hoje tava frio demais!” “Assim, não vai dar, a USP ta cada dia mais cheia! Tinha congestionamento naquela raia!” “Você viu aquela hora que o cara veio correndo na contramão com um cachorro?” “E quando passou aquele pelotão da assessoria X, com cinqüenta caras, a milhão?! Não pode, onde já se viu, pleno sábado!” “Foi forte, hoje. Quase não agüentei!”
Já de estômagos forrados, começam os comentários mais personalizados e as maledicências: “Pô, o Cachorro Louco quebrou todo mundo hoje, começando forte daquele jeito!” “E o ‘Fusion’? Quase me derrubou na volta da raia, outra vez! Quando é que alguém vai ensinar aquele cara a pedalar? È um mala!” E por aí vamos, falando com tamanha seriedade, como se aqueles problemas fossem realmente graves e a gente precisasse discuti-los até chegar a uma solução para os casos.
Essa etapa da conversação costuma durar até a chegada dos sanduíches, quando conseguimos sair um pouco do universo exclusivo do traithlon e passamos a outros mais genéricos: a economia, a seleção brasileira, uma pitadinha de política, a juventude de hoje... Mas, a melhor parte vem quando começamos a nos interessar uns pelos outros. Ops, não me entendam mal. Começamos a saber quem são as pessoas com quem compartilhamos essa grande paixão. Às vezes passamos anos convivendo e nem sabemos o nome uns dos outros! Assim, por exemplo no nosso momento na padoca, soubemos que Omar saiu dos confins da Argentina, com vinte e poucos anos e veio, com a cara e a coragem para São Paulo, onde está há 30; ouvimos de outro a história de sua depressão, tão assustadora para ele mesmo, mas que encara com bravura, e luta para não se render a ela; conhecemos a história do Marcos, que fez parte da seleção brasileira de vela, mas que depois do acidente sofrido por seu técnico, teve que virar o leme e partir em outra direção; rimos muito com os tragicômicos causos do Cachorro Louco, que não quer ver seu nome exposto na internet, mas que deveria ele próprio escrever um blog, já que tem um dom natural para narrativa; demos bronca em algumas mulheres que se queixavam da solidão mas que organizaram suas vidas como uma planilha de triathlon (de preparação para um ultraman!!!) e esperam um homem que se encaixe direitinho no pequeno espaço que elas lhes reservaram; e ouvimos ironmen confidenciarem gestos delicados e atenciosos com suas esposas. Um repertório vasto e, muitas vezes bastante íntimo. Uma troca de pequenos segredos com pessoas que, não fosse a paixão pelo triathlon, dificilmente iríamos conhecer. Já chegamos a ficar mais de duas horas depois do treino, com o umbigo atarraxado na mesinha de fórmica. E olha que ninguém bebe nada mais forte do que café. Talvez seja o efeito da endorfina, que leva a gente a isso. Para mim, tem sido um dos raros momentos de vida social, já que não consigo mais sair para jantares, nem para barzinhos e muito menos para baladas. E é uma ótima pedida.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Hospedagem em Penha




Hoje comprei as passagens aéreas e fiz minha reserva de hotel em Penha. Não por acaso. Afinal, voltei a correr depois de duas semanas parada. Este ano, o nome do filme de meu treino de corrida é O Eterno Retorno. É a quarta vez que volto. Agora quero ir direto, sem escalas na terra dos ortopedistas, até Penha. Penha, Santa Catarina, bem entendido. Lá acontecerá a prova dos 70.3 para a qual espero, boto fé e investi dinheiro (na passagem e na reserva do hotel), estarei pronta para competir.Estive lá em 2008 – por sinal, estava na ponta dos cascos, correndo sem medo de ser feliz depois de me recuperar de uma lesão no quadril com o luxuoso auxílio da Cacau, minha fisio. Mas, no ano passado, vacilei e deixei pra fazer a reserva de hotel quando já era tarde demais. Sobrei. Não que haja grandes opções em Penha, a maioria dos lugares é bastante simples e muito pouco charmosa. Mas o Hotel Lorimar superou minhas piores expectativas. Cheguei dois dias antes da prova, de mala e cuia, ou melhor, de mala e bike, e do aeroporto fui direto ao hotel. Seu Lorimar, um autêntico barriga verde, branquelo e simpático me levou, pessoalmente, ao meu quarto. A porta se abria em cima da cama de casal, que era quase dentro do banheiro, onde pia, chuveiro e vaso sanitário se amontoavam. Do outro lado da cama, se espremia uma beliche e, pendurada no teto, uma pequena televisão. E o armário? Onde ficava mesmo? Acho que embaixo do beliche ou atrás da porta do banheiro.Quando seu Lorimar afastou a porta – porque era impossível abri-la – quase cai de desgosto. Mas não havia onde. Que remédio. Quem manda deixar tudo pra última hora? Não tinha pra onde ir.Colocar a bike dentro do quarto foi um sufoco. Tive de tirar as duas rodas. Exagero. Só uma. E, como estava sozinha mesmo, acomodei a magrela na cama de baixo da beliche. Isso me causou um certo transtorno porque, durante a noite, não conseguia me ajeitar na cama porque o colchão era muito macio e estou acostumada com colchão firme. O colchão da beliche era melhor. Então, me desculpei com minha companheira e fiz contorcionismo para conseguir tira-la da cama, puxar o colchão, empurrar o meu colchão para a cama de cima da beliche, colocar o outro colchão na minha cama (que era de casal) e ajeitá-la novamente sobre o estrado. Uf. Depois de tudo isso quase que eu não precisava mais fazer a prova.Mas o pior ainda estava por vir. O meu maravilhoso quarto ficava no térreo, praticamente colado à recepção. Ou seja, toda a movimentação, os diálogos, as reclamações e até os chavecos chegavam até mim em stereo system.Ocorre que seu Lorimar tem uma filha muito bonita, Shirley, na flor da idade. Não que ela não fosse flor que se cheire, pelo contrário – ela fazia sucesso com todos, inclusive com crianças. Criancinhas. Falantes. E isso não foi bom.Eu estava cansada, não tinha nada pra fazer e iria encarar meu primeiro meio Ironman dali a menos de dois dias. Precisava descansar. Fui dormir. Você acha???Impossível. Seu Lorimar, na recepção, fazia questão de puxar papo com todos. Em alto e bom som. E a maioria respondia. Em alto e bom som. Até que ela chegou. A criancinha. Ela e seu pai. E, por sugestão de seu Lorimar, em alto e bom som, pediram uma pizza, em alto e bom som. Mas antes mesmo de pedirem a pizza, ela perguntou, em alto e bom som: “Onde ta a Shirley? A Shirley ta aqui?”. E, não sei porque, ela repetiu esta pergunta umas quinhentas e setenta e quatro vezes. Em alto e bom som. E, não sei por que cargas d’água, ninguém parecia se importar. Nem tampouco se dar ao trabalho de responder.Até a minha bicicleta já estava nervosa. Às 22 horas, achei que já podia pedir silêncio. Então afastei a porta, apenas o suficiente para colocar a boca para fora, e gritei: “A SHIRLEY NÃO ESTÁ!!! E SERÁ QUE AGORA DÁ PRA FAZER MENOS BARULHO???”Mas, seu Lorimar parecia ter compulsão em falar. Nessa hora porém, tentou ao menos abaixar o volume. Só depois da meia-noite, quando o movimento diminuiu, é que se calou de vez e eu pude adormecer.No dia seguinte, rodei a baiana e a Shirley, que estava no comando, para minha alegria, me mudou para um quarto na parte de cima, do lado do Nick (que treina na mesma assessoria que eu) e do Douglas (seu irmão). Nossa, este segundo aposento era um luxo comparado ao primeiro. Até a bike ficou contente. Mas o melhor foi que, à tarde, descobri que tínhamos uma ilustre companheira hospedada na nossa pousada. Nada menos que a triatleta olímpica Mariana Ohata! Então, quando encontrava o pessoal e me perguntavam onde eu estava hospedada e se meu hotel era bom, eu respondia: ”é uma espelunca. Mas é uma espelunca olímpica. Seu hotel tem algum atleta olímpico hospedado? Pois o meu, tem!”Este ano, não arrisquei. Fiz logo minha reserva no Vila Olaria. Afinal, eu duvido que a Mariana repita a dose e fique no Lorimar. E não sendo olímpica, tou fora!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Meia final

Desde que comecei a treinar praticamente parei de acompanhar o futebol de que tanto gosto. Abri mão, porque tenho de fechar os olhos cedo ou porque, no domingo, se o jogo não for muuuito bom, os olhos se fecham sozinhos. Ontem abri uma meia exceção e assisti metade do jogo. Aliás, diga-se de passagem, foi uma final muito pouco corintiana. Sem sofrimento. Na era A. M. (antes do Mano) a escrita seria outra: provavelmente dois a zero pro Inter no primeiro tempo e a gente se descabelando durante todo o segundo tempo até o último minuto. É ou não é? Se assim fosse eu não poderia ter ido dormir. Mas meu coringão fechou o assunto no primeiro tempo e no intervalo pude desligar a TV, confiante de que a parada estava ganha. Estaremos lá, no ano de centenário.Acordei no meio da noite com os fogos. Parecia virada de ano. Fiquei mais tranquila ainda e aprofundei o sono até as 4:20. Logo que acordei tinha uma mensagem “Dá-lhe timão!” no meu celular. Beleza. Vesti uma calça preta de ciclismo, camisa, jaqueta, bandana alvinegra e, por cima de tudo, minha camisa autografada (inclusive pelo Nilmar hahaha).
Fui para USP. Meu único medo era que algum são paulino ou palmeirense invejoso e ciclista me derrubasse no pelotão. Alguns protestaram, outros passaram e me saudaram solidários e espalhafatosos.
Sigo o futebol à meia distância. Conheço metade do time. Assisto até o meio do jogo. Mas não consigo ser meio corintiana. É como ser meio tratleta. Impossível.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Transições na madrugada


Não gosto de pular da cama tão cedo nesta época do ano. Especialmente pro treino de pedal, num horário indecente. Mas há algo que me impulsiona e antes das 04h30min estou de pé. Acho que é um hitlerzinho que habita em mim. Pra dificultar (ou facilitar), deixo o despertador láááá no banheiro, então, ele fica tocando até eu ir desligá-lo. Aí, já acordei mesmo, só preciso me vestir. O banheiro é a minha área de transição número 1 – T1. Tênis, top, faixa do monitor cardíaco, meia e/ou meia calça conforme o frio, calça de ciclismo, blusa de ciclismo, jaqueta corta-vento, bandana, relógio – nesta ordem, de baixo para cima, empilhados. Faço xixi enquanto calço as meias e visto top (tou craque em fazer xixi em movimento!), depois visto o resto, lavo a cara e espanto o resto do sono, escovo os dentes. A casa dorme. A rua dorme. O bairro dorme. Até os mortos do cemitério do Araçá, que são meus vizinhos, parecem ainda mais adormecidos neste horário. Todo este silêncio e a escuridão chegam a dar certa melancolia, uma pitada de angústia. Mas meu Hitler de estimação me empurra: vá, você não vai se arrepender, diz ele. O celular serve de lanterna, se o marido estiver dormindo. Vou até o quarto dos três pequenos para o ritual da coberta. Martim dorme de barriga pra baixo, com os ombros tensos e o edredom preso entre suas pernas e a parede. Tento deixá-lo mais confortável e mais aquecido. Ele se ajeita. Parece aprofundar-se no sonho. Félix, na cama do meio, invariavelmente está pendurado na cama, com o edredom e travesseiro no chão. Puxo suas pernas, ajeito o travesseiro e devolvo o edredom ao seu devido lugar. Ian costuma ficar enrolado feito um rocambole. É tão complicado ajeitá-lo que algumas vezes ele até abre os olhos e diz “oi mãe!”, como se seu dia estivesse começando. O Theo... a porta está fechada, ele tem 15 anos e não me atrevo mais a entrar sem bater. Bater está fora de cogitação. Então torço para que ele esteja bem aquecido.Desço para o posto de abastecimento um P1– cozinha. O mamão já está lá desde ontem, num prato, ao lado da faca e da colher, o gel e a bananinha separados. As caramanholas, já preparadas na geladeira, com maltodextrina ou só com água mesmo. No meu escritório, área de transição número dois – T2 – ficam os óculos, carteira, dentro de uma sacola, onde coloco a alimentação. É só pegar. Se, por acaso, algo me desviar a atenção neste momento, deixo a caramanhola em cima da mesa e... Já era! Vou pro treino sem hidratação.O carro é a área de transição número três – T3. A bicicleta, o capacete, as luvas e as sapatilhas estão lá desde a noite anterior. Às vezes tenho de tirar o carro do marido da frente. Aí encontro minhas amigas coelhas. Michelle Obama e Black, a coelha albina, os únicos seres vivos acordados na face da terra do meu jardim, vem me saudar. Então abro o portão, solto o freio e só ligo o carro quando já estou na rua, pra fazer menos barulho. Muitas vezes nem o vigia se digna a me acenar. Dorme.
Parto. E neste momento, percebo que não preciso mais de Hitler.