sexta-feira, 31 de julho de 2009

Peixe fora d'Águas?

Voltei, finalmente, de uma semana de intenso trabalho em Águas de Lindóia. Estava temerosa desses cinco dias lá. Para quem decide fazer triathlon, a rotina é fundamental. Mais do que uma rotina, é uma vida espartana. Alimentação, descanso e treinos são pontos de apoio para o convívio familiar, da (pouca) vida social e da atividade profissional.
Então, quando vislumbrei essa tal semana em Águas, me apavorei. “Não vou conseguir treinar direito, daí não dormirei bem (além disso, tenho dificuldade em dormir em cama que não seja minha – tal qual a Princesa e a Ervilha), como conseqüência não vou ser produtiva, ficarei ansiosa, vou acabar comendo tranqueira e assim vai por Águas abaixo o treinamento de meses! Fora o mau humor, é claro!” Mesmo assim, levei os equipamentos necessários pro caso de conseguir treinar.
E consegui. Tive de mudar os horários e adaptar a planilha, mas treinei. Não segui a minha cuidadosa alimentação — que inclui arroz integral vermelho e linhaça dourada entre outras frescuras — mas também nem cheguei perto da mesa de sobremesas melequentas. (Confesso que não resisti às batatas fritas crocantes.)
Não participei do “bailão” (6 homens para 423 mulheres) da última noite, nem das conversas regadas a álcool até duas da matina, mas assisti ao show de jazz e à contação de histórias, também consegui um tempo para uma conversinha aqui, outra ali, bebericando um chá e, cumprindo assim, uma parte do papel profissional solicitado em situações de trabalho como essa.
Sobrevivi aos cinco dias bem melhor do que imaginava. O convívio com uma multidão de pessoas (mulheres, bem falantes) quase todo o tempo foi cansativo mas tornou as sessões de treino ainda mais especiais. Foram momentos-oásis.
Do ponto de vista profissional, deu tudo certo, o encontro foi um sucesso. E pessoalmente, pude aprender uma lição. A vida regrada já mora dentro de mim. Não depende tanto de onde estou ou do que tenha de fazer. É bom ser espartana, mas melhor ainda é seguir os princípios que norteiam esta vida e ter jogo de cintura pra se adequar às situações, tirando o melho proveito possível delas. Caso contrário, a gente vai ficando insuportável. Não pode nem tirar férias! Bem...um pouquinho insuportável, a gente até fica. Mas só um pouquinho.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Águas de Lindóia

Sigo para Águas de Lindóia por infindáveis cinco dias. Vou a trabalho, um encontro com cerca de quatrocentAs educadorAs. Levo a magrela, o rolo, óculos e todo o equipamento. Quem vê minha mala pensa que vou passar um mês fora.
Há exatos 33 dias da prova de Penha não posso ficar tanto tempo sem treinar. Nem quero. Preciso desse contrapeso na minha vida: das 8h30 em diante sou "cabeção", Ler e Escrever, Bolsa-Alfabetização, senhora Diretora de Projetos Especiais; das 5h às 8h atleta, concentração nos RPMs, BPMs e KMs. Das 8 às 8h30 é o periodo da transição.

sábado, 25 de julho de 2009

Às minhas amigas triatletas

Uma das melhores coisas que o triathlon me trouxe foram as amigas. Não somos muitas as mulheres nos treinos e nas competições. Cerca de 20-25%. Talvez por isso, nosso jeito de competir umas com as outras seja mais companheiro e amistoso. Consideramos-nos vencedoras pelo simples fato de participar de uma prova ou de estar num treino às 5h da manhã, no frio, em que mesmo o quórum masculino é reduzido. No pódio, festejamos e nos cumprimentamos com autêntica alegria. Os triatletas comentam perto de nós que conseguiram “o alvará de soltura da patroa” para o pedal de domingo. Nós precisamos negociar com nossos maridos ou namorados, deixara refeição engatilhada, lidar com a culpa de não estar em casa na hora em que os filhos acordam, encontrar disposição pra aquele almoço com os sogros (ou com os próprios pais) .
Despertamos olhares de admiração dos nossos colegas homens. Eles, que competem a sério, morrem de medo de serem passados para trás por alguma de nós. E às vezes o são. Sabemos dosar. Não temos aqueles montes de testosterona explosiva que parece fazer com que alguns homens passem todo o tempo exibindo sua força. Temos progesterona, que nos torna mansas e persistentes.
Duas coisas, basicamente, fazem as amizades femininas nesse esporte tornarem-se tão especiais. A primeira é compartilhar experiências intensas como as provas e suas respectivas preparações. Vivemos o medo, o esforço, o cansaço, a superação do desafio, a alegria e podemos falar do que sentimos umas com as outras. A segunda, é a oportunidade de uma convivência mais próxima, seja nos fins-de-semana de treino, seja numa viagem para uma competição, que também nos tornam mais íntimas. O vínculo com essas amigas tornou-se especial em um curto espaço de tempo.
Esse seleto grupo de amizades femininas triatletas é composto por pessoas de faixa etária variada (mas sou a mais velha de todas), formações e ocupações, idem. É uma coleção de preciosidades. Farei pequenas homenagens a elas – sem hierarquia.
Gra. Nossa Demi Moore. Mais bonita, aliás. A primeira conversa que tivemos foi num trotinho no Ibirapuera. Aquela menina me conta que já tem filhos de 17 e 18 anos e está casada com o mesmo marido há 20 anos. Além disso, havia acabado de fazer um iron. Comecei a admirá-la na mesma hora. Uma vida tão diferente da minha. Um jeito de ser contido, discreto, quase silencioso e, ainda assim, uma presença marcante. Quem não sabe quem é a Gra? Presença infalível nos treinos, detonadora de planilhas, 100% de aplicação. CDF ou “caxias”.
E, de pedalada em pedalada, de café em café, de torpedo em torpedo, fomos ficando cada vez mais amigas. Devo a ela vários macetes que aprendi. Em 2008 foi minha grande parceira de treinos. Companheira que não deu um furo. Combinado com ela era sacramentado. Não tinha que esperar confirmação. Em 2009 estava se preparando para o Iron, começou a ter problemas de saúde e teve de mudar seus planos. Fiquei preocupada, achei que ela iria entrar numa depressão daquelas. Mas não. Ficou triste e encarou a tristeza – sem tentar passar por cima, mas tampouco sem se entregar a ela; adaptou-se, mudou seus planos, se tratou. Cresceu. Uma verdadeira guerreira escondida naqueles ares de gueixa.
Cris. É um sol, luminosa e radiante, também de uma beleza resplandecente. Com ela, não tem tempo ruim. Ela é professora de yoga, tem todo um lado espiritual e meditativo que, à primeira vista, parece não combinar nada com uma modalidade como o triathlon. Mas combina. Não é das mais aplicadas, bissexta nos pedais das madrugadas, aos sábados aparece treino sim, treino talvez... Mas nas provas, ela cresce e aparece. E sua companhia nos café da padoca, anima a mesa!
Nossa conexão se estabeleceu instantaneamente. Fomos juntas pra Santos fazer um troféu Brasil, depois encaramos o Desafio da Serra em Campos do Jordão, no início de 2008 fizemos o Internacional e, no final do ano, fomos as duas famílias (dois casais com sete meninos) para Paúba faríamos a Fuga das Ilhas. Nesta ocasião, Robert, marido dela, ficou com todos os meninos enquanto ela, meu marido e eu nadávamos.
Em todas essas vezes nossa sincronia foi perfeita. Os horários, as refeições, as arrumações... Todo o ritmo e a rotina de antes e depois da prova fluem com tranqüila naturalidade.
Dani. Conheço poucas mulheres bem-humoradas como ela. Mas não é um humor qualquer – é sofisticado, sagaz e rápido. Ainda por cima, é bonita também. De uma beleza matreira e moleca. Profissional em plena ascensão, implacável com os homens. Mas ficava sempre atrás no pelotão. Nem na roda ela conseguia! Nesses dois anos de convívio tivemos conversas seriíssimas em cima da bike, trotando no Ibira, correndo na USP. Ela estava começando a cair na armadilha da mulher auto-suficiente. Aí apareceu o Celso. E neutralizou qualquer fuga que ela pudesse pensar em fazer. Deu a ela uma bike decente e a ensinou a pedalar.
Ela continua profissional competente, continua simpática e sorridente, mas agora seu olhar está mais doce.
Não posso contar com ela nos treinos. Nisso ela não é mesmo ponta firme. Em compensação, quando ela aparece, sua companhia é por inteiro. Num dos piores momentos que passei este ano, as tiradas da Dani (junto às do Cachorro Louco) me fizeram rir. Rir de mim mesma, da situação em que estava e ficar mais leve. Ela sabia e foi o jeito de cuidar de mim. Um jeito ótimo e original, como ela.


Nilma. Empatia imediata. Foi assim. Trocamos duas palavras antes do início de um Troféu Brasil na USP. Ambas iríamos fazer a distância olímpica e éramos pouquíssimas mulheres naquele dia frio de agosto. Passei por ela no pedal e disse “E aí, Botucatu!” Não lembrava seu nome , só sua cidade. Em Penha, nos encontramos durante o pedal. Aí sim, o nome estava escrito no número de peito e pude chamá-la. Pedalamos lado a lado por um tempo, conversamos sobre treinos e sobre a possibilidade de ir para o mundial em Clearwater, Florida. Ambas nos classificamos.
Começamos a nos falar por e-mail, depois por telefone. Primeiro, pra trocar informações sobre a viagem, depois para falar das expectativas e da ansiedade. Combinamos de nos falar em Clearwater e, logo no primeiro dia, encontramo-nos por acaso na loja em que eu montava minha bike!
A partir dali, passamos muito tempo juntos: Neto (namorado dela), ela e eu. Foram companhias importantíssimas. Leves, divertidos, alegres. Chegamos quase juntas no final da prova e estávamos exultantes. Jantamos, tomamos café, passeamos e, o mais significativo – fizemos juntas compra de equipamentos – o que é muito importante, pois trocamos impressões, opinamos uma sobre as aquisições da outra e tornarmos um momento que pode ser aborrecido, em diversão.
Ela fez o Iron este ano e é uma das pessoas que muito me influenciou na decisão de me inscrever. É lindíssima. Leitora deste blog, uma das que mais me anima e incentiva a continuar. Nossa amizade este ano está à distância. Mas sempre que nos falamos, ficamos 30, 40 minutos ao telefone. Parece que somos amigas há anos!

Mari. Um dia meu marido chegou de uma corrida e disse “Conheci uma amiga sua muuuuito, mas muuuuito simpática! Nossa, que pessoa legal!”. Era da Mari que ele falava. E ele não é uma pessoa que costuma se empolgar com as demais e muito menos manifestar esta empolgação. Não era exagero. A Mari é assim. Encantadora. Seus olhos são dois vaga-lumes, daqueles verdes, que brilham muito na escuridão. Mas no caso dela, brilham em plena luz do dia e têm o poder de ofuscar qualquer resquício de mau-humor ou baixo-astral.
Logo que nos conhecemos, ela contou que havia feito o Iron há muitos anos. Eu me espantei: “Como? Muitos anos? Quantos anos você tem?”. Não quis me contar a idade (ela guarda seus mistérios) mas confessou que era uma das caçulas na competição.
E é assim, uma desbravadora. Não tem medo de abrir caminhos. Veio do interior para São Paulo e ganhou a cidade grande. Aliás, o contrário: a cidade grande é que ganhou com a vinda da Mari.
Foi pro Rio de Janeiro fazer um estágio: ela a bike, a cara e a coragem. Logo já estava treinando com uma turma. Mas não faça besteiras se estiver num pelotão com ela. Vira bicho e bronqueia mesmo!
Ela se formou, passou na OAB e formatura será dentro de alguns dias. Estou muito honrada em ser convidada para a festa, ver minha amiga brilhar mais uma vez.
Thelma, Carla, Kiki, Tarsila, Patê, Paulinha, Viveka, Julinha, Lidiane. São outras valentes e queridas amigas do esporte. Quero homenagear todas vocês!




sexta-feira, 24 de julho de 2009

Caravelas ao mar

Em janeiro tirei uma semana de férias e fui com as crianças para um hotel em Angra dos Reis. Escolhi um lugar em que eles pudessem se divertir e eu também. Onde eu não tivesse preocupações as refeições de modo que os momentos junto a eles fossem de puro desfrute.
A diversão deles é futebol, amigos e água. A minha diversão é treinar, treinar e treinar. Por isso, levei todos os meus equipamentos. Para a natação: maiô, sunquíni, óculos, touca e roupa de borracha. Para o pedal: bike, rolo e sapatilhas. Para a corrida: tênis, boné, i-pod e roupas adequadas.
Chegamos no domingo à tarde e pude ver como o mar, em frente ao hotel era calmo e estava com uma temperatura super agradável.
Decidi que manteria uma parte dos meus treinos no horário que costumo, ou seja, bem cedinho. Assim, quando eles acordassem, eu estaria voltando da minha primeira sessão de treinos e iríamos todos tomar café da manhã juntos.
Na segunda, um lindo dia amanhecendo, vesti o maiô, peguei touca e óculos e rumei para a praia. Cheguei a pensar em usar a roupa de borracha, mas a temperatura da água estava convidativa. A roupa seria um estorvo.
A praia era pequena, particular do hotel. Sai nadando da frente do nosso apartamento. Na ponta oposta ficava o píer. Mas a distancia não devia chegar a 300 metros. Fui até lá. Não havia uma alma na praia. O sol aparecia no horizonte. As embarcações, enormes, estavam a quilômetros de distância.
Nadei até a ponta oposta, no píer e comecei a voltar. Quando estava chegando na frente do lugar de onde havia começado decidi continuar em frente, passar por um ponta de pedras e ir até uma outra ponta, de frente a uma praia deserta. Não queria ficar nadando como se estivesse em uma piscina: indo e vindo num trecho pequeno e repetitivo. Afinal, eu estava no mar!
Lá fui eu. De repente, senti uma picada nas minhas costas. Foi rápido, mas deu pra sentir. Não vi nada.
Mais adiante, já chegando na outra ponta, senti de novo, mas, dessa vez, mais forte. Algo enroscou no meu braço e queimou. Então eu vi. Era uma caravela – um destes animais gelatinosos, transparentes e até bonitos, que vagueiam pelo mar e queimam. Elas se parecem com um cogumelo, mas em vez de uma haste, tem vários tentáculos que são cheios de uma espécie de ferrão com uma substância venenosa.
Então senti meu outro braço sendo queimado. E o meu rosto. E senti por dentro do decote, queimando meu peito. Olhei em volta. Estava cercada.
E estava longe do hotel. E não havia ninguém por perto. Ninguém. Pensei: preciso sair daqui. Rápido. E tentar me queimar o mínimo possível. Fui nadando e tentando me desviar. Mas era difícil, elas estavam em todos os lados, e também embaixo. A toxina estava fazendo efeito e ardia muito doía. De repente me lembrei de ter viso que a substância inoculada por esses ferrões pode causar alterações no sistema nervoso. Parada respiratória. Ou seja: não adiantava eu nadar para a praia mais próxima que era deserta, apenas para sair do mar. Eu precisava de medicação. E rápido.
Meu coração estava acelerado, minha respiração, curta. Eu olhava pro hotel, pro quarto onde estavam meus meninos e dizia para mim mesma: não posso morrer. Tenho quatro filhos. Eles estão ali, dormindo sem saber de nada. É aniversário do Martim, eu não posso morrer no dia do aniversário do Martim!
Consegui chegar à praia do hotel. Fui imediatamente a busca de socorro. Estava deformada. Toda vermelha, ardendo. Nem conseguia chorar. Só gemer. Para a minha sorte, o hotel contava com uma enfermaria com médico. E ele estava chegando exatamente naquela hora. Eu tremia e mal conseguia me explicar. Ao me ver e saber do que acontera, imediatamente aplicou um anti-histamínico intramuscular. Aí comecei a chorar. De medo. De alívio. De susto. Sei lá. Em cinco minutos o remédio fez efeito. A vermelhidão passou. O médico disse apenas uma vez: você poderia ter morrido. Teve sorte. Por outro lado, também comentou que nunca vira nada parecido desde que estava ali.
Fui para o quarto, tomar um banho e chamar os meninos pro café. Já estava mais calma.
Fiquei imprestável por três dias. Uma diarréia daquelas. Apetite zero. Disposição nenhuma. Febre. Tontura. Não conseguia parar em pé.
Naquela noite, não deu nem pra cantar parabéns pro Martim. Eu precisava deitar. Felizmente, os monitores fizeram a festa pra ele e depois levaram até o quarto.
Consegui aproveitar os outros dias. Minha disposição e apetite voltaram. Mas ficou uma lição pra não esquecer: NUNCA nade sem que alguém saiba que você está no mar e consiga ver ou ouvir você, caso precise de socorro. Eu poderia não estar aqui pra escrever esta história.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Meu primeiro short - Parte 2

Antes de dormir eu disse aos meninos que se eles preferissem ficar no hotel, brincando na piscina em vez de assistir à minha prova, eu entenderia. Mas que iria ficar muito contente em tê-los por perto.
Acordei ainda era noite. Saí pé ante pé do quarto, deixando meus dois companheiros dormindo um sono solto.
No café da manhã conheci Bertha uma argentina campineira, já experiente em triathlon, com quem conversei um pouco. Não tinha fome alguma mas sabia que precisava comer. Banana, pãozinho com requeijão e queijo branco, um pedaço de bolo, suco de laranja.
Chegando à área de transição, aquele clima de festa meio sonolento. O dia estava lindo. As pessoas, concentradas, encaixavam as suas bicicletas no cavalete, organizavam seus pertences ao lado, vestiam roupas de borracha, passavam protetor solar. Fiquei um tempo assistindo. Era a primeira vez que eu entrava numa transição de triathlon. Vi que várias mulheres tinham colocado as sapatilhas já encaixadas no pedal. Achei o máximo – um indicador da superioridade delas sobre mim. Tentei algumas vezes fazer a operação de vestir a sapatilha pedalando e demorei uns 5 kms até conseguir. Conclusão; na prova eu não ia arriscar. Melhor sair como uma pata choca, batendo o taquinho no chão, mas encaixar a sapatilha parada do que me arriscar a fazer isso em movimento e, de quebra, atrapalhar algum atleta.
Também notei que eu era uma das únicas sem roupa de borracha. E a única de sunquíni. A única coisa que eu queria era terminar a prova e, de preferência, não ser a última.
Uma atleta mais velha, percebendo meu ar meio perdido, veio me perguntar se era o meu primeiro triathlon. Devia estar estampado na minha cara. Nazaré, 51 anos, vários triathlons nas costas. Foi uma simpatia, me tranqüilizou, me deu dicas sobre a natação e garantiu que eu não teria problemas. Foi ótimo.
Antes de sair da área de transição, coloquei um pouquinho de vaselina na sapatilha e no tênis, conferi mil vezes se estava tudo em ordem, e escolhi a tabela de basquete em cima da bike como ponto de referência pra encontrá-la no meio das outras na hora que saísse da água.
Fui para a praia esperar a hora de largar. E aí, o melhor dos mundos! Ligia estava lá com Helena, Theo e Martim! Encontrei meu técnico, Emerson, e nervosa, pedi a benção.


Toca a buzina, é aquela correria. Não houve muito atropelo porque a largada feminina foi depois da masculina. Engoli um pouco de água, me perdi porque o sol no rosto dificultava a visão das bóias mas, um pouco no faro, um pouco na cola de outras nadadoras, consegui terminar. E não fui a última. Tempo 14m 48s – 750 mts.
Uau! É uma festa cumprir a primeira etapa! Quase tão bom como uma chegada. Ver os meninos ali, fez com que eu enchesse o peito, corresse com mais vigor. Passei pelo chefe, digo, técnico, joguei o óculos e a touca pros meninos e corri pra bike.

Achei sem problemas. Vesti as sapatilhas, a faixa com o número de peito, coloquei o capacete e fui, toc toc toc, até a saída.
Na hora de clipar a sapatilha, quase caio! O Hermann, marido da Ligia que estava lá pra fotografar, testemunhou me vacilo. Que vergonha.



O pedal foi uma delícia. Engatei um volantão (catraca maior e, portanto, mais pesada) e fui embora. Nos treinos eu tinha usado o volantão pouquíssimas vezes! Era sempre giro, giro e giro no volantinho! Me senti uma verdadeira atleta. Terminei em 40m17s os 40km. E consegui desvestir a sapatilha em movimento sem me atrapalhar!
De novo, a chegada do pedal deu uma sensação ótima, de ter cumprido a parte mais difícil. Faltava só a corrida, a parte em que tinha menos chance de errar ou ter problemas.


Boné na cara, tênis no pé e vambora! Estava cansada, mas inteira. No começo, parecia que a perna estava um pouco desencaixada mas, no segundo quilometro, já consegui imprimir um ritmo e fui passando algumas mulheres. Olhava pro relógio e não acreditava! Ia fazer um tempo bem melhor do que o previsto.
Fiz a corrida em 23m08s.
Na chegada, tinha uma curva e o Martim ficou me esperando lá. Passei, radiante, peguei-o pela mão e ele correu comigo os últimos metros, até a linha de chegada.

Foi demais. Terminei em 1h18m13s e, para o meu espanto, fui a primeira colocada na categoria e a nona no geral.
Ter o Theo, o Martim, a Ligia, o Hermann e a Helena foi ótima. Eles puderam testemuhar e compartilhar minha felicidade, um momento especial.
Fiz a maior festa no pódio. Imagino que a emoção de terminar um Iron seja esta que eu senti, mas numa intensidade muito maior. As outras atletas, mais experientes que eu, fizeram festa junto. E isso é uma das coisas de que mais gosto nas competições – embora haja classificações, troféus, categorias – a maior competição é da gente com a gente mesmo e as pessoas não torcem contra as outras, mesmo que sejam da mesma faixa.Adorei viver este momento e, cada vez que termino uma prova, essas emoções são despertadas novamente. Não são mais inéditas, mas são intensas, alegres, plenas.



domingo, 19 de julho de 2009

Meu primeiro short - Parte 1

Minha experiência era em provas de corrida – várias – e alguns biathlons (natação e corrida). A grande novidade era bike. E aí, apesar dos meus 43 anos, eu era novata — não tinha nunca pedalado aquelas magrelas, usado sapatilha ou clipe.
Eu estava treinando fazia apenas dois meses e o Emerson, meu técnico, colocou na minha planilha “short triatlon – Ubatuba”. Levei um susto. Será que ele não estava sendo precipitado? A idéia de fazer uma prova me deixou animada e apavorada ao mesmo tempo.
Para complicar a situação, estava acontecendo um surto de dengue em Ubatuba e então eu tinha mais uma preocupação (ou uma desculpa) para (não) ir. Pelo sim, pelo não, fiz minha inscrição e comecei a procurar hospedagem.
No treino de pista, na 4ª feira antes da prova, azucrinei o Emerson com um milhão de perguntas: você acha que eu vou conseguir? E se tiver dengue? Não vai estar muito calor? Não vai estar muito frio? Não tenho roupa de borracha, dá pra fazer a prova sem roupa de borracha? Não vou me atrapalhar na transição? E se eu derrubar alguém da bike? E se eu cair da bike? Não vai me dar dor de barriga? Vou conseguir beber água enquanto pedalo? E seu eu não souber onde é o retorno? E seu eu passar mal? Não vou ter cãibras? E assim por diante. A única parte que não tinha erro, era a corrida. Mesmo assim, não sabia se ia agüentar tudo.
Ele teve a paciência de Jó. Respondeu cada uma das minhas dúvidas e fez mais: foi narrando passo a passo tudo que iria acontecer desde a véspera até a hora de cruzar a linha final e ainda estimou que meu tempo seria abaixo de 1h30.
Passei os dias seguintes sonhando que a prova acontecia e que eu me atrasava e perdia a largada. Estava preocupada mesmo que algo não desse certo. Conversei sobre isso com a minha amiga Lucia Mandel e ela me disse: “Olha, divirta-se. E se der alguma coisa errado, você certamente vai ter uma ótima história pra contar!” Era mesmo. Afinal, iniciando no triathlon com 43 anos! O que mais eu queria? Certamente não era pra ganhar, nem pra provar nada pra ninguém. E, definitivamente, não era pra me angustiar.
No sábado cedo saímos de SP Theo (com 13 anos, na época), Martim (com 7) e eu. Meu marido não quis ir, então dividimos a família e fiquei com os dois mais velhos. Durante a viagem levei água e gatorade. A cada 30 minutos meu relógio tocava e eu bebia um pouco de um, um pouco do outro. Claro que isso fez com que, ao final da viagem, o xixi estivesse chegando à orelha e não chegássemos a nenhum lugar com banheiro.
Chegamos ao hotel, nos instalamos e fomos para piscina. A orientação do técnico era descansar.
Mais tarde, minha grande amiga Ligia e sua filha surfista, Helena, vieram nos encontrar para o almoço. Depois deveríamos ir buscar o kit. Eu assistiria ao congresso técnico enquanto Ligia e Helena passariam com os meninos.
Quando chegamos à praça onde estavam as tendas com os kits, Martim, que havia ganhado uma daquelas bolinhas de borracha que pulam muito alto, deixou a bolinha escapar, saiu correndo atrás dela e PAF! Não viu que o cavalete onde iriam ficar as bikes estava no seu caminho. Bateu de cara nele e caiu de costas no chão. Foi uma autêntica videocassetada. Meu coração parou. Sai correndo até ele, que estava atordoado com a pancada. Peguei-o no colo e fui atrás de uma tenda onde tivesse gelo pra colocar em seu nariz. Tive cabeça ainda pra entregar meus documentos pra Ligia e pedir que ela retirasse o kit pra mim.
Encontrei o Célio, organizador da corrida, que foi muito atencioso e arranjou gelo para meu pequeno contundido. Na hora cheguei a pensar que o acidente tinha sido sério e que eu nem conseguiria fazer a prova. Mas, felizmente, não foi nada.
Enquanto isso, minha amiga, que definitivamente não é do ramo esportivo, foi até a tenda retirar meu kit. Na hora que entreguei o comprovante a ela, ainda avisei: pegue uma camiseta tamanho P!
Pois bem, eis que a mocinha que a atende pergunta: "Short?"
E ela responde, perguntando: "Short? Short, não sei. A camiseta é P."
A mocinha olha espantada.
Ligia se explica: "Não é pra mim, é de uma amiga."
E então a moça desfaz o mal entendido: "mas sua amiga vai fazer a prova mais curta, não? O Short triathlon."
Martim de nariz roxo, camiseta P, adesivo para o capacete, número de peito... Tudo certo. Depois de jantarmos, combinei que a Ligia iria cedinho tomar café e pegar os meninos. Se desse tempo, estariam lá para a largada.
Na véspera, conferi umas 500 vezes se estava tudo certo: capacete, número de peito, pneus cheios, gel, caramanholas, gatorade, boné, tênis com elástico, vaselina para a virilha, protetor solar etc. Eu não tinha nem macaquinho de triátlon, nem roupa de borracha. Fiz a prova com um sunquíni mesmo!
Foi difícil dormir. Mas não era tensão. Era como uma criança na véspera do acampamento – ansiosa pela diversão que virá.

Theo, Helena, Ligia e Martim, na véspera.

Na pizzaria, na noite anterior, da esquerda para direita: Martim, Yan (filho da Ligia), Theo, Herman (marido da Ligia e aniversariante do dia), Ligia, eu e Helena.

sábado, 18 de julho de 2009

Becoming an Ironman: First Encounters with the Ultimate Endurance Event

Quando contei a idéia do blog pro Sergio Borejo, que treina também na MPR, me falou a respeito deste livro e ofereceu emprestado. Estou devorando.
A jornalista Kara Douglass Thom fez uma coletânea de relatos sobre o primeiro Iron de diferentes pessoas.
São histórias contadas em primeira pessoa e o modo como a jornalista fez a transcrição e a edição, nos dão a impressão de que estamos ouvindo a pessoa nos contar sua experiência sentadas à sua frente, na mesa da padoca, depois do treino.
Cada um conta um pouco de seu histórico com esporte, as razões que levaram a fazer o Iron e então descrevem sua primeira prova. Nenhum ultrapassa oito páginas e todos são interessantes.
Há histórias de pessoas que vieram a se tornar triatletas profissionais, como Joana Zeiger, a alemã que levou a melhor em Clearwater o ano passado e de gente que começou o triathlon depois dos 50 anos de idade; gente que estava mais bem preparada do que imaginava, gente que terminou aos 45 do segundo tempo e quase foi cortada e até histórias de DNFs (did not finish). Não são relatos banais e, alguns são tão comoventes que chegam quase a ser piegas. Mas não são. Há um ponto comum: para todos, terminar um Ironman é uma experiência transformadora.
Para uma candidata a estreante como eu, o livro faz a prova parecer ainda mais fascinante e assustadora.
Infelizmente, o livro não foi traduzido. Mas, se você lê em inglês, vale a pena. A Amazon.com tem um estoque de usados e sai por menos de 3 dólares.